Meu Estranho Mafioso
22 Contos de Ultear.
Notas iniciais
ESSA HISTÓRIA ACONTECEU algum tempo atrás.
O estúp... Digo, o... Ah! Que seja! O imbecil do Igneel tinha alguns negócios para resolver na França e, como sempre, arrastou-me para lá juntamente com Meredy. Não que visse problema em dar uma passada na França de vez em quando, mas o aniversário de Gray estava chegando e estava planejando animadamente, junto com Juvia, de fazer-lhe uma festa surpresa; então a última coisa que queria era viajar com aqueles dois para algum lugar. No entanto, aparentemente para o idiota rosado, isso não importava nem um pouco.
Fala sério... Ele age como se eu fosse a única secretária dele, o que não é verdade.
Quer que eu saiba de todos os seus gostos para nunca errar, seja na escolha do tipo de café ou pizza. Sinceramente, quem me dera poder conhecê-lo menos do que conheço. Eu cresci sendo secretária desse cara.
De qualquer forma, depois de ser arrastada até a França pelos rosados loucos, não tive escolha a não ser ajudar a organizar a porcaria do horário do meu chefe (lê-se “nojo” aqui).
Não entendam errado. Eu amo meu trabalho. Muito mesmo.
Voltando ao assunto... De certo modo, fiquei animada em ficar uns tempos por lá — depois de superar a depressão de não comparecer ao aniversário de Gray — uma vez que meu namorado, Navi, ali morava. Então, na animação de revê-lo, resolvi fazer um almoço incrível só para nós dois.
Só que me esqueci de um pequeno probleminha... Ou melhor, dois.
E eles atendem pelos nomes Igneel e Meredy Dragneel.
— Que cheiro bom! — Exclamou o mais velho, adentrando a cozinha da suíte onde estávamos hospedados. Aliás... o prédio inteiro pertence a ele. É certo dizer hospedados? — Ah! Ur! O que está fazendo?
— Cozinhando. — Respondi o óbvio. — E não me chame de Ur!
Postou-se ao meu lado, observando-me movimentar a colher de madeira no molho francês.
— E o que você está cozinhando? — Insistiu.
Soltei um muxoxo em sua direção.
Sendo sincera... Só estava me arriscando no molho francês. Na verdade havia preparado uma lasanha que estava no forno, mas não queria que logo ele descobrisse sobre ela, uma vez que era seu prato favorito.
Infelizmente para mim, o forno resolveu apitar nesse momento.
— Eu pego! — Ofereceu-se, correndo até o forno.
— N-não! — Gritei.
Tarde demais, ele já havia aberto o forno.
Sua expressão tornou-se de assustada — por causa de meu grito — para alegre e babona. É, ele parecia um cachorro.
— Ur, você fez lasanha! — Cantarolou. — Já disse que te amo?
— Já disse para não me chamar de Ur! — Ralhei batendo em sua cabeça com a colher.
— Lasanha! — Exclamou Meredy ao meu lado.
— Quando você chegou aqui? — Indaguei assustada.
— Estive aqui o tempo todo! — Sorriu.
… Esteve?
— Vamos comer! — Exclamou Igneel correndo com a bandeja até a mesa.
— Yay! — Gritou animadamente a pequena rosada.
— Oi? Espe... Espere! Isso é para mim e Navi!
Igneel parou no mesmo instante.
— Navi? Aquele francês todo cheio de frescuras?
— Ele não é um francês cheio de frescura! — Exclamei.
— É sim! — Concordou Meredy. — Ele é todo “não me toque”! — Fez uma careta.
— Isso é apenas com vocês. — Expliquei. — Ele é muito romântico... E gentil...
— Onde? — Perguntou a rosada.
— Fique quieta! — Puxei suas bochechas. — Não quero ser provocada por uma criança como você!
— Hum... — Murmurou o rosado, degustando um grande pedaço de lasanha.
— Ah! Minha lasanha!
— Mesmo assim, Ur... — Ignorou-me.
— Não me chame de Ur!
— Costumo não errar meu palpite a respeito das pessoas. Tem algo nesse cara que não consigo engolir...
— Você quis dizer que não tem algo que você consiga engolir, certo? — Meredy resolvera tirar o dia para me encher, pelo visto...
— É, talvez seja isso... — Acariciou a cabeça da pequena.
— Se tem algo ou não de ruim com ele, sou eu quem deve decidir, e não vocês!
— Mas... — Meredy havia pego uma colher e fincado na lasanha. — Ele não é bom o bastante para comer a lasanha da Ur.
— Sim, sim... — Concordou o mais velho. — Ele não merece comer algo tão gostoso feito pela Ur.
— Vocês estão me chamando assim para me irritar, só pode... — Afirmei.
— Vamos lá, Ur! — Animou-se de repente Igneel. — Pegue uma colher e nos ajude a devorar isso! Está uma delicia! Superou-se dessa vez!
Lhe lancei um olhar repreendedor.
— Não, obrigada. — Retirei o avental e arrumei uma mecha de meu cabelo. — Porém agradeço a vocês por estragarem todo o meu planejamento para essa noite.
— Como está estressada... É falta daquilo, por acaso? — Balbuciou brincalhão o rosado, e rapidamente corei.
— O-olhe o que está dizendo, idiota! Sua filha está nos ouvindo! — Apontei para a pequena, no entanto Meredy estava concentrada em devorar todo o resto da lasanha. — Argh! — Soltei. — Estou saindo.
Peguei minha bolsa.
— Não volte tão cedo. — Cantarolou aquele velho pervertido.
— Tudo bem! — Respondi. — Não planejo voltar hoje mesmo.
Sorriu para mim.
— É assim que se fala.
Assim que finalmente saí do hotel, corri até a loja de bebidas mais próxima e comprei uma garrafa de vinho. Queria comprar um Krug Clos d'Ambonnay, porém não podia gastar todo esse dinheiro de uma vez. Igneel teria um ataque — o que não seria tão ruim assim...
Depois disso peguei um táxi até o distrito onde Navi morava. Havia escondido dele que estava de volta à França, então estava animada.
Fazia tanto tempo desde a última vez! Será que sua barba estava por fazer? Seu cabelo haveria crescido? Será que ainda estava usando o mesmo perfume? Só de pensar em revê-lo... Fiquei tão ansiosa! E com esse pensamento, enquanto subia as escadas silenciosamente, decidi surpreendê-lo.
No entanto, eu acabei surpreendida.
Ao abrir a porta do quarto, deparei-me com uma costa. Brilhante e esguia. Não a costa de Navi, e sim a de uma mulher totalmente desconhecida.
— Na... vi? — Interrompi suas “atividades”.
A movimentação parou imediatamente e seu rosto logo revelou-se. Surpreso, confuso e assustado. Essas três palavras definiam seu semblante.
— Ultear..?! — Lembrou-se da sua situação. — Ah! Isso... Não é que parece!
— Verdade? — Arqueei uma sobrancelha. Estava estranhamente calma com a situação.
— Er... — Repensou sua resposta. — Não. Mas olha, não sabia que você estava de volta à França!
— Quer dizer que sempre faz isso quando não estou?
— N-não! — Levantou-se da cama. A garota que anteriormente estava lhe causando tanto prazer somente observava a cena. Abriu os braços em minha direção, na intenção de me abraçar. — Seja bem vinda de volta.
Desviei-me de seu caminho.
— Obrigada. — Respondi seca. — E até qualquer dia.
Virei-me, fazendo a menção de ir embora.
— E-espera, Ultear! — Berrou.
Voltei-me para ele.
— Pois não?
— Er... Nós ainda somos... Você sabe, namorados, não é? — Permaneci calada. — Certo! Pergunta errada, me desculpe! Hum... Por que não se junta a nós?
— O quê? — Questionei, estupefata.
— Esse sempre foi meu sonho, sabia? Eu, você e mais alguém assim!
Ri desdenhosamente.
— Entendo... Seu grande pervertido. Infelizmente, não vai dar. Entretanto espero que se divirtam no resto da sua... Hum... Noite. Aqui. — Entreguei-lhe o vinho. — Aproveitem e tomem isso. Se divirtam. — Cantarolei, saindo do apartamento logo em seguida e ignorando os gritos de Navi.
Até parece que iria chorar por causa disso. Não sou esse tipo de mulher.
Voltei ao hotel e fui até a sala de bebidas. Minha garganta estava seca, precisava de algo para beber.
❀
— Então ele me chamou para uma orgia! — Exclamei para Ponsho, o barman e meu melhor amigo.
— Ele foi realmente um cara de pau, Ultear! Fez muito bem em mostrar-se calma na frente dele! — Concordou o jovem de estatura mediana que trajava um uniforme negro, tinha cabelo castanho claro e bem cortado. — Embora...
— Me dê mais vinho! — Berrei.
— … Vir encher a cara aqui não tenha sido muito digno. — Concluiu.
— Tsc! Deixe-me em paz, Ponsho! Pelo menos não estou chorando. Encha mais esse copo, essa quantidade é muito pouco!
— Certo, certo... Não deveria subir e contar o que aconteceu para Igneel?
— E porque contaria isso para aquele idiota? Ele só diria “viu? Estava certo a respeito dele”; e nem ligaria para minha situação.
— Não acho que ele faria isso... — Discordou. — Além do mais, ele é líder da máfia Dragneel. Era só estalar os dedos e alguém daria uma lição em Navi.
— Há! É aí que se engana! Ele é só um maricas. — Certo, talvez eu já tivesse bebido demais.
— Sério? Ele não aparenta nem um pouco ser assim. Parece ser bem gentil e atencioso.
Encarei-lhe.
— O que foi? — Indagou incomodado.
Um sorriso bobo surgiu em meus lábios.
— Ponsho... Você é gay, não é?
— O quê?! — Berrou. Sorte que só eu estava ali aquela hora... — C-claro que não! Por exemplo, se tivesse uma namorada como você jamais a machucaria assim!
— Hum... É mesmo? Talvez eu devesse namorá-lo, então. — Brinquei. Ele perdeu a voz e suas bochechas ficaram rubras. — O que foi? — Indaguei ainda sorrindo (por efeito do álcool ).
— N-nada... — Murmurou em um fio de voz. — É-é só que... Namorar você... Seria incrível...
— Ponsho... — Ele era um fofo! — Me dê mais vinho!
Soltou um suspiro desanimado.
— Certo...
— Voltando a falar do Igneel... — Continuei. — Ele aparenta isso mesmo? — Repeti: — Ele é só um maricas...
— Quem é maricas aqui? — Indagou o meu chefe, aparecendo atrás de mim e apertando minhas bochechas.
— Ah! Boa noite, Igneel-san! — Cumprimentou o moreno.
— Boa noite, Ponsho. — Puxou a cadeira ao meu lado.
— Vai querer o mesmo de sempre?
— Por favor. — Respondeu.
— Claro, um segundo. — E desapareceu em meio às bebidas.
— Igneel idiota! — Reclamei. — Agora minhas bochechas estão doendo!
— Que ótimo. E? Por que está aqui?
— O que foi? Não posso? — Desafiei.
— Não é isso. Não foi você que disse “não planejo voltar hoje mesmo”, ou algo assim? — Fez uma falsa imitação da minha voz. — O que aconteceu com o “Navizinho”?
— Não é da sua conta! — Ralhei.
— Hoo... Deixe-me adivinhar. Ele estava com outra quando o encontrou?
Acenei com a cabeça.
— Viu? Estava certo a respeito dele. — Revirei os olhos.
Deitei minha cabeça no balcão.
— Como você sabe dessas coisas? — Indaguei.
— Apenas sei. — Soltou um sorriso enigmático. —E? O que fez com ele?
— Nada.
— Nada? — Chocou-se. — Não tacou um vaso nele ou algo assim?
— Não.
— Nadica de nada mesmo?
— Nadica de nada mesmo.
— Tsc! — Pareceu desapontado. — Que sem graça, Ur.
— Já disse para não me chamar de Ur! — Virei-me para bater nele, no entanto bebi demais e foi inevitável minha queda da cadeira.
Igneel riu.
— Veja só! Nem aguenta levantar os braços. — Ofereceu-me sua mão. — Venha. Vamos voltar para a suíte.
— Não quero. — Fiz birra.
— Pare de agir como uma criança. — Bronqueou levemente. — Essa é minha função. — Colocou meu braço em seus ombros (largos, diga-se de passagem...), e circulou minha cintura com sua mão livre.
— Aqui está o de sempre, Igneel-san. — Ponsho voltou.
— Foi mal! — Exclamou. — Vou levar essa moça aqui para casa. — Explicou.
— Oh. Tudo bem, eu entendo. Melhoras, Ultear-san!
— Obrigada. — Balbuciei.
Enquanto esperávamos o elevador, Igneel resolveu que queria conversar.
— Viu? Você deveria me ouvir mais em respeito a seus namorados. Eu entendo sobre isso.
— É claro. Sendo o maricas que é... — Provoquei.
Deu-me um murro leve na cabeça.
— Ai!
— Tenha mais respeito!
— Desculpe...
Não demorou muito até chegarmos à suíte. Igneel levou-me até meu quarto e me ajeitou sobre o colchão macio.
— Ei, Igneel?
— Hum? — Balbuciou, enquanto arrumava a coberta ao meu redor.
— Você acha que o problema sou eu? Digo... De nunca dar certo. Será que é minha culpa?
— E por que seria sua culpa? — Sentou-se próximo a minha cabeça.
— Sei lá... Nunca tenho muito tempo para meus namoros... Eles devem achar que sou uma idiota.
Afagou minha cabeça.
— Você não é idiota, Ur.
— Não me chame de Ur. — Murmurei. De certa forma sentia o sono chegando aos poucos.
— Ultear é apenas a Ultear. — Concluiu.
— O que isso quer dizer?
— Que você é uma mulher excepcional. — Sorriu para mim.
Senti minhas bochechas arderem fracamente.
— Obrigada.
— Pelo quê? — Perguntou surpreso.
— Por tudo... Por me trazer para cá e esfregar na minha cara que o Navi não presta. Acho que foi por causa dessa sua implicância com ele que não fiquei tão chocada com a traição.
— Ora, faço o que posso! — Exclamou convencido. — Não vou deixar ninguém machucar quem eu amo e ficar só por isso. Seja com você, Meredy, Aries... Até o bobão do Natsu.
Sorri lentamente. Estava realmente ficando com sono.
— Olha só! Você pode ser legal quando quer.
— Sou sempre legal! — Exclamou.
Ri.
— Não entendo porque não tem outra namorada... Ou até porque não se casou de novo.
— O que posso fazer? — Deu de ombros. — A melhor mulher do mundo já se foi, infelizmente.
— Igneel... Desculpe se lhe fiz lembrar-se dela.
Bagunçou meu cabelo.
— Até parece que isso é uma coisa ruim! Só é... Triste. Pergunto-me como as coisas seriam se ela estivesse viva agora...
— Ela com toda certeza odiaria vê-lo com esse olhar sofredor. — Observei.
Um sorriso brincou em seus lábios.
— Tem razão. — Levantou-se e me deu um beijo na testa. — Boa noite, Ur.
E retirou-se do meu quarto.
— Idiota... — Soltei para a escuridão do local. — Não me chame de Ur.
Bom... Tudo bem chamar-me assim por uma noite.
Sorri relembrando o que me dissera.
É... Ele realmente conseguia ser legal quando queria.
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