Meu Estranho Mafioso
44 Trinta e sete.
— HUM, vejamos. — Murmurou ele, pensativo. — Deveria contar desde o início?
— Seria bom. — Murmurei, deixando-o circundar minha cintura com seus braços. Ah! Sentia mais falta daquele calor tão... Natsu, do que qualquer outra coisa.
— Certo. Meu irmão e eu nascemos juntos, obviamente. Éramos gêmeos fraternos. Pense em mim ao contrário e com um rosto mais amigável.
— Ele devia ser realmente lindo então.
— Era o que dizi... Espera aí! Você está dizendo isso porque falei para imaginar o contrário de mim? — Mostrei a língua, brincalhona, fazendo-o formar um bico com seus lábios. — Há, há! Quase me pegou nessa. — Pigarreou, recobrando a atenção. — Quando tínhamos dois anos, minha mãe teve a Aries, e depois de mais dois anos, a Meredy. Sabia que sua mãe é minha madrinha?
— Sério? Ela nunca mencionou. Aliás, eu também tenho um padrinho que mora por esses lados. Nunca o conheci pessoalmente, então como os dois pareciam ser chegados....
— Provavelmente é o meu pai. — Afirmou. — Na verdade, tenho cem por cento de certeza que é ele. Ele sempre disse algo sobre ir visitar um “raio de luz”, mas Jude devora almas não deixar.
— Jude... Meu pai? Devora almas? — Lancei um olhar indagativo para ele.
— Sei o mesmo tanto quanto você deste assunto. — Deu de ombros. Lançou a visão ao céu. Agora algumas nuvens começavam, lentamente, a se dispersar. — Então, na pré-escola conhecemos Lisanna e caí por terra. Ela era a primeira garota a tentar se aproximar de nós. Aliás, era a primeira pessoa fora da máfia a conversar conosco e tal. — Soltou um sorriso debochado. — Era tão animado naquela época. Animava todos ao meu redor e tudo mais. Mas então, aos nove anos, houve — uma expressão de dor em seu rosto — a morte dele. — Sabia que se referia ao irmão. — Acho que ele era um pilar para nós. Aries era uma pestinha antes disso, contudo depois... ela virou um verdadeiro demônio. Uma vez meus pais foram chamados na escola porque ela...
— Ela? — Incentivei, quando ele parou.
— Fez algo extremamente ruim. Não, ruim não. Péssimo. Essa é a palavra certa. Depois disso meus pais chegaram à conclusão de que era melhor mandá-la para um colégio interno militar.
— Como sua mãe reagiu a tudo isso?
— Ela sempre foi muito forte e animada. Aparentemente, puxei isso dela. Entretanto, ela ficou um pouco mais desanimada disto tudo. E um dia saímos meu pai, Meredy e eu para enviar presentes adiantados para Aries, e neste dia, ela morreu.
— Natsu...
— Na verdade, o aniversário de morte dela é semana que vem. — Sorriu tristemente, dando um fungo logo em seguida.
Engoli em seco.
Semana que vem.
— Quando exatamente... — Comecei, porém desisti da minha pergunta ao fitar seu rosto. — Nada. Esqueça. Oh, Natsu, sinto tanto! — Virei-me em seus braços, circundando seu pescoço com os meus e sentindo seu perfume agridoce.
— Não, Luce... Lucy. — Tentou arrumar.
— Não me importo mais em como me chama.
— Eu que sinto muito — Lamuriou, afastando-se o suficiente para ver meu rosto.
— Pelo quê?
— Não sei! — Bufou, frustrado. — Somente acho que... penso que... — Deslizou a mão sobre meu rosto, sem soltar de minha cintura e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Sinto que o que aconteceu na pensão... foi minha culpa. Tenho certeza. Aquele cara deixou bem claro o quanto nos odeia.
Lembrei-me da expressão de ódio no rosto de Natsu naquela fatídica noite. O modo como encarava as chamas que lambiam os restos dos escombros da pensão...
— Aquele cara? — Indaguei. — Quem?
— Estamos investigando ainda, mas descobrimos o bastante para saber que tanto o incêndio da pensão quanto o desta mansão foram feitos pela mesma pessoa. Na verdade, esse é o único motivo de meu pai ainda não ter se aposentado de seu cargo. Ele quer achar quem fez aquilo com mamãe... Mesmo que não goste de vingança e coisas do gênero.
— Essa mansão já foi incendiada? — Estranhei. — Ela parece permanecer em perfeito estado...
— A original era bem menor. Lembra da mansão onde teve a festa de fundação?
— Ah, se lembro! — Exclamei, arrancando-lhe um sorriso amarelo.
— En-então, ficamos morando lá por algum tempo. Foi até agradável... até meu avô materno aparecer para importunar meu pai. Depois de várias discussões tudo se estabeleceu e a nova mansão, esta atual, ficou pronta. Voltamos para cá e aqui estamos nós. Depois disso, quando fiz dezesseis acabei por pegar o título de líder nacional e Aries voltou. — Bufou novamente. — Não que seja muito. Meu pai ainda lidera a maioria das subdivisões, praticamente todas. E meu avô ainda é conhecido como o Pai da máfia Dragneel. A maioria dos nossos homens estão na Rússia com ele. Não temos homens suficientes nem para manter a mansão segura o bastante...
— Seu avô não pensa na segurança de vocês, netos dele? — Espantei-me.
Natsu soltou uma risada sonora.
— Desculpe, Luce. — Pediu, tentando recobrar a respiração. — Ele nos deu uma escolha. Ir ou ficar. Meu avô é um mafioso igual aos dos filmes que você vê. Está envolvido no submundo, drogas e o diabo a quatro. E meu pai fez a máfia “Yamaneel” com uma visão bem contraditória à dele. O que não o deixou muito contente. Provavelmente, quando Aries completar seus dezessete anos, ela vá para lá. Ela sempre gostou muito de nosso avô... — Suspirou — E deixá-la passar tanto tempo com ele pode ter sido nosso erro...
Ele estava entrando em memórias muito mais profundas do que imaginei, pelo que pude perceber por sua expressão. É melhor mudar de assunto.
— Então... teve duas namoradas. — Comentei. — Eu, Lisanna e uma tal ruiva, pelo que lembro da Aries ter me contado.
— Que amor de irmã mais nova eu tenho. — Murmurou amargo. Ri. — Sim, ela... ainda é mais presente em minha vida do que imagina.
— Quê? — Sobre-ergui uma sobrancelha, desconfiada.
Ele sorriu satisfeito.
— Um dia a levarei ao meu trabalho e entenderá. — Fiz um bico. — Mais alguma coisa?
— Sim.
— O que será que ainda que saber? — Fez mistério.
— Como conseguiu esse olho roxo?
Suas bochechas foram tomadas por um tom rubro, mesmo que só desse para perceber de um lado — certo, jamais irei deixar de zoá-lo por isso!
— Não precisa saber disso! — Virou o rosto em outra direção.
— Ah, preciso sim. — Forcei-o a me olhar segurando seu rosto com minhas duas mãos.
Nossos olhares se chocaram. Ônix com castanho. Travando uma batalha silenciosa e incrivelmente excitante.
— Você venceu! — Exclamou. — Contudo, só conto se me der permissão para uma coisa.
— Pois não?
— Deixe-me sentir seus lábios novamente.
Sorri. Como poderia negar?
Acabei com aquela curta distância, selando minha boca na dele delicadamente. Céus, como sentira falta daquele gosto! Tão inconstante, agridoce... Tão Natsu!
Sua mão livre voltou a se posicionar em minha cintura e ele pressionou-me levemente contra o balaustre. Entreabri os lábios, deixando-o voltar a explorar minha boca. Por fim nos separamos:
— Bom — murmurei com um sorriso —, minha parte foi cumprida. Hora da sua. — Apontei para seu olho machucado.
— Preciso mesmo? — Perguntou baixinho, cheio de vergonha.
— Precisa! — Afirmei, segurando o riso. Ele parecia uma criança.
Mexeu os braços, inquieto e desconfortável.
— Foi... — Balbuciou algo rápido e não pude entender.
— Quê?
— Foi o...
— Natsu Dragneel, se não falar alto jamais irei entender! — Disse exasperada.
— Certo, certo... Deixe-me contar dessa maneira então...
[DS → Natsu Dragneel]
Avancei pela avenida cortando os enormes espaços entre os carros. Ouvia alguns “barbeiro” e xingamentos, porém ignorei tudo aquilo. Talvez, só talvez... Aquilo servisse de lição a ele.
(Maldito) Rogue Cheney.
Mesmo que eu tenha feito a burrada de quase matá-la, ainda assim, ele fora o culpado de mais de oitenta por cento do que houve depois disso. Quero dizer, poderia ter conversado com Luce quando estivesse mais calmo do choque da descoberta. Porque foi isso que senti.
Choque. Desespero.
Quando Gray contou-me, eu...
Lucy é diferente. Ela não me teme por meu cargo — já chegou a ser violenta comigo mesmo depois de saber do meu poder e tudo mais —, não se importa (tanto) com o que os outros pensam dela, e ela realmente parece gostar de mim da mesma maneira que gosto dela. De um maneira diferente, estranha e...
Especial.
Sim, Lucy é especial.
Não estou dizendo isso pelo fato de estar, mais que claramente, loucamente apaixonado por ela. Estou dizendo que estou loucamente apaixonado por causa de quem ela é. Pela Lucy escandalosa, cabeça dura, orgulhosa, boba, um pouco bipolar e... caipira.
Sorri para mim mesmo. Que observação tosca. E enganosa. Não, não estou loucamente, e sim completamente apaixonado por ela.
Pela Lucy Heartfilia que é tão complexa e, ao mesmo tempo, tão simples.
Estacionei na frente do Fairy Latte.
Sim... e estava afastado dela. Por minha culpa e, principalmente, por culpa dele.
Adentrei o local, que estava atulhado. Vamos ver... cabeça azulada.... cabeça azulada... cabeça azulada... Ah! Ali está!
— Levy! — Chamei, fazendo-a se virar para me olhar.
— Natsu! — Ela olhou em direção a uma mesa que a chamou. — Só um segundo! — Gritou para eles.
— Por que diabos isso aqui está tão cheio? — Indagou.
— As férias estão acabando, dã. — Balbuciou como se fosse óbvio. — Todo mundo está voltando para casa e se preparando para o novo bimestre escolar. — Arrumou a bandeja que segurava, cheia de copos cheios e de diversas cores. — Queria me dizer ou perguntar alguma coisa? Sabe, estou um pouco ocupada...
— Ah, sim! — Exclamei. — O tal Cheney não está aqui?
— Rogue? — Lançou-me um olhar estranho. — Hã... não, não está. — Suas bochechas coraram fracamente. — Quer deixar um recado? Ele geralmente vem aqui todo dia.
— Puxa, que cara sem nada para fazer! Não tem noção de onde ele pode estar?
Ela morde o lábio inferior.
— Você... — Começou.
— Levy-chan! Minha bebida! Be-bi-da! — Berrou o cara da mesa próxima a nós. Lançei-lhe um olhar irritado e ele arregalou os olhos. — Não precisa se apressar. — Acrescentou com a voz tremida.
— Eu... — Incentivei-a a continuar.
— Poderia deixar um recado. — Ela parecia hesitante quanto a algo.
— Levy — apoiei minha mão na mesa ao nosso lado. Um casal estava jantando ali, entretanto não ousaram dizer nada —, seria certo de minha parte pensar que você não que me dizer onde ele está?
— Cla-claro que não. — Seus braços moveram-se, trazendo a bandeja para o meio de nós dois para afastar-nos.
… Foda-se.
Derrubei a bandeja de sua mão, prensando-a contra a parede. Nossos rostos estavam tão próximos que qualquer movimento faria que nossos lábios se encontrassem.
Olho no olho, pressionei:
— Levy.
— Certo! Você venceu! — Admitiu, empurrando-me para longe. — Ele provavelmente deve estar no parque perto da igreja.
— Por que ele estaria...
— Não faço a mínima ideia. — Cortou, bufando exasperada. — Agora tenho que voltar ao trabalho.
— Certo. Ah! Levy?
— Oi? — Murmurou irritada, voltando-se para mim novamente.
Abri um sorriso luminoso.
— Obrigado.
Suas bochechas ficaram mais vermelhas ainda.
— Só vá logo. — Disse, voltando ao seu serviço.
Sorri. Em seguida, deixei meu carro ali mesmo e fui, caminhando, até aquela praça.
Lá estava ele! Sentado em um balanço, com expressão pensativa e olhar em direção ao céu.
Pigarrei, tentando chamar sua atenção. Funcionou, ele voltou a olhar para mim.
Que... Que sentimento é esse? É como se, por causa de seu olhar , meu sangue gelasse. Fala sério!
Deu para perceber que ele estava de mal humor, o que só pareceu piorar quando me focou em sua visão.
— Ah. — Murmurou, azedo. — Não é maravilhoso? Estava pensando exatamente em você agora, senhor Dragneel.
Estreitei meus olhos em sua direção.
— Temos algo a resolver, não? — Indaguei.
Ele solta a respiração ruidosamente.
— Sabe, hoje Levy me contou algo interessante... — Balbuciou, levantando-se.
— Levy?
— Sim. Algo que me deixou certamente muito irritado. — Sibilou.
— Ho... — Fiz descaso. — Então não sou o único nesse humor, hã? Que ótimo.
— Posso saber o que o deixou irritado?
Observei o parque. Aquele lugar sempre fora o favorito de Aries quando era pequena. As moitas eram bem cuidadas, os balanços limpos regularmente e o gramado que crescia rápido era sempre cortado o mais rápido possível. Mais isso não o impedia de estar alto a essa altura.
— Você. — Digo, correndo em sua direção, pronto para desferir-lhe um soco.
Surpreendi-me quando ele segurou meu punho antes de atingir-lhe o rosto com apenas uma mão.
— Então é assim que vai ser... Bem que eu precisava aliviar o estresse mesmo. — Falou, puxando meu braço.
Utilizei minha mão livre para evitar nossa aproximação, porém ele fez proveito disso e me pegou desprevenido, pegando no meu antebraço e dando-me uma rasteira que fez minhas costas irem de encontro ao chão. ¹
Tossi por causa do impacto.
Esse caipira acabou de me derrubar? Eu? Natsu Dragneel? Que nunca fui atingido por nada e nunca perdi em uma briga?!
— Sabe, Lucy estava agindo tão naturalmente — começou —, embora um pouco confusa, que nunca iria imaginar que algo assim aconteceu...
— Ao que está se referindo? — Perguntei, levantando.
— Estupro. — Senti meu sangue gelado ao ouvir isso. Por isso Levy estava tão hesitante em me contar onde ele estava...
— Não é da sua conta. — Desviei do soco que ele desferiu em minha direção abaixando-me e levantei meu punho cerrado, conseguindo acertá-lo em cheio na bochecha. Entretanto, ele pareceu não ligar para isso, derrubando-me com uma joelhada e prendendo meu braço para cima com um dos seus, segurando a gola da minha camisa polo com a mão livre. ²
Fiquei sem reação alguma. Tentei soltar-me fazendo alguns movimentos bruscos, que de nada adiantaram.
— Hum... Não?
Depois disso...
Por favor! Não vou dizer o que aconteceu depois disso! Me sinto apavorado só de lembrar!
De qual-qualquer forma... Depois de alguns golpes traumatizantes — da parte dele, logicamente —, ambos nos encontrávamos exauridos. Ele descansava novamente sentado no balanço e eu estava... no chão.
Esse foi o dia mais vergonhoso da minha vida!
— Por que não fez nada? — Indagou ele, depois de algum tempo em silêncio.
— Não queria traumatizar Luce. — Admiti. Minha respiração era ofegante. Estava acabado. — Além disso, querendo ou não, entendo Sting o bastante para não fazer nada.
— Ele a estuprou! — Berrou indignado. — Que motivos teria para fazer aquilo se não fosse um calhorda?!
— São razões pessoais dele! — Respondo no mesmo nível. — Querendo ou não, não vou sair revelando assuntos alheios!
— Você... — Sibilou. Prendeu a respiração e fechou os olhos, tentando recobrar a calma. — Certo. Mesmo que não seja de meu agrado, sei como isso vai acabar.
— O quê? — Do que ele estava falando?
— Sabe... Lucy adora algumas coisas fora do comum.
— Ela é fora do comum. — Acrescentei.
Rogue sorriu.
— Não posso negar, contudo, esse não é um de seus charmes?
Soltei um riso debochado. O moreno levantou-se e começou a caminhar para fora do parquinho.
— Onde vai? — Tentei, sem muito sucesso, me levantar.
— Para casa. — Respondeu. — Não que isso seja da sua conta. — Levantou o braço, meneando um “tchau”. — Até, Natsu Dragneel.
— Espera aí. — Comecei, mas uma forte dor atingiu meu estômago.
Era melhor deixar para lá. Por enquanto.
Caminhei, mancando, até meu porshe. Só queria ir para casa...
[Natsu Dragneel → Off]
—... E foi isso. — Concluiu.
— Você é louco? — Indaguei embasbacada.
— Quê?
— Rogue é campeão internacional de judô! É mais do que óbvio que levaria uma surra!
— Sério? — Perguntou chocado e, ao mesmo tempo, impressionado.
— É! — Bufei. — Vem — puxei sua mão —, vamos voltar lá para dentro para cuidar desse olho. — Manteve-se onde estava. — Natsu?
— Isso significa que está tudo bem?
— Como?
— Quer dizer que estou perdoado por ter sido um imbecil e tudo o mais que aconteceu desde o sequestro?
Respirei ruidosamente, sorrindo para ele logo em seguida.
— Claro que está, Natsu. Eu lhe perdoo. — Aproximei-me dele e olhei em seus olhos. — E sabe o que mais? Confio em você.
Ele abriu um sorriso tão grande e luminoso que senti-me estabanada. Seria esse sorriso um dos resquícios da vivacidade há muito perdida, que todos mencionam?
Ele puxou-me para dentro, todo alegre, dando-me um beijo caloroso e terno.
… Se sim, queria ver mais disso.
Fale com o autor