Meu Estranho Mafioso
53 Quarenta e três.
Notas iniciais
FAZIA UMA SEMANA desde que vira Natsu pela última vez.
Quando disse que ficaria atarefado, não pensei que pudesse ser tanto assim. Nem na escola ele dava as caras.
E, mesmo que tivesse me dito para ficar calma, havia notado uma diferença no tratamento à minha volta. Todos pareciam mais cautelosos com quem me rodeava, e Gajeel ficara incrivelmente mais íntimo. Aliás, foi esse comportamento dele que me fez ter certeza que algo estava acontecendo.
O que será que Natsu está escondendo?
A ideia dele e Flare ficarem sozinhos o dia inteiro naquele escritório me preocupa. Quero dizer, se ela teve coragem de beijá-lo comigo lá, vendo-os, imagina o que tentava fazer quando não tinha ninguém para atrapalhar? Argh! Só de pensar na ideia fico irritada.
Soltei um suspiro, voltando ao balcão de atendimento. Evergreen havia aceitado que voltasse a trabalhar no Fairy Latte com a condição de diminuir do meu salário desse mês a quantidade da única semana que não trabalhei, quando... Bem, aquilo aconteceu com o Sting e tal.
— Você parece cansada, Lucy — observou Lisanna, juntando-se a mim e abrindo a caixa registradora.
— Oh, bem — massageei meu pescoço. — Não tem sido uma semana fácil.
— Imagino — soltou um sorriso fraco. — Natsu tende a ficar vidrado no trabalho quando alguma ameaça aparece. Acho que isso remete a Zeref.
— Zeref? — indaguei. — Quem?
— Não me diga que Natsu ainda não lhe contou? — levou as mãos até a boca. — Além de tapado, devo adicionar lerdo na lista de adjetivos para ele.
— Zeref é algum amigo dele?
— Não — meneou a cabeça. — Então ele realmente não contou... Zeref é o nome do irmão dele. Sabe... — seu olhar era triste. — O que foi morto quando criança.
— O irmão gêmeo dele se chamava Zeref? — murmurei. Mais um fato da vida do mafioso descoberto! E um importante! — É um nome diferente.
— Você acha? — ela parecia estranhamente triste. — Mesmo assim, ele era muito agradável. O irmão sério e o bobão — balbuciou com um sorriso teimando em brincar em sua boca. — E também era incrivelmente apaixonante.
— Não me diga que... — arregalei os olhos surpresa.
— Sim — confirmou. Entrelaçou os dedos das mãos e ficou brincando com eles. — Meu primeiro amor. Era irônico, pois Natsu gostava de mim naquela época e Zeref... Bem, nunca soube de ele ter gostado de alguém. Era bem reservado sobre esse assunto. Ah, Aries deve saber de algo. Até hoje ela não vai com minha cara porque na época era uma versão da Meredy. Um pouco mais enfezada e brutal, mas mesmo assim, tinha uma queda para relações incestuosas.
— Aries?! — exclamei chocada. Espera um pouco... Quando estávamos planejando os preparativos para a festa do Baile de Fundação, a rosada não ficara ríspida quando mencionei arrumar meu cabelo com Lisanna? Pensei que era pelo mesmo motivo de Igneel não a querer lá, e não por algo assim. — É um pouco surpreendente — afirmei.
— É — concordou. — Mesmo assim passamos um bom tempo juntas quando crianças — sorriu. — Ela consegue ser genial sem fazer muitos esforços, não é estranho que...
— Lucy — interrompeu Evergreen, caminhando em nossa direção. — Estamos sem café e o chá está acabando também. Se importaria de preparar um pouco?
— Ah, sem problemas! — respondi. Virei-me para Lisanna: — Desculpe interromper a conversa...
— Tudo bem. Tenho que ajeitar esses recibos mesmo — apontou para o amontoado de papéis em uma das divisórias da caixa registradora.
Caminhei até a enorme e super funcional cozinha, pegando o pote com grãos frescos e moídos de café e o medidor. Cafeteiras foram a melhor invenção para pessoas que, assim como eu, são péssimas com forno e fogão. Aliás, eletrodomésticos em geral.
— Mesmo assim, é surpreendente Aries poder ter sido outra versão da Meredy quando menor... — murmurei para mim mesma enquanto depositava os grãos e ligava a máquina. — Natsu provavelmente iria enrolar até me contar... Ah! — toquei-me de algo. — Esse tempo todo fui enrolada por Natsu quando Lisanna poderia ter me contado tudo o que queria...
Isso é meio desapontador. Se a ideia tivesse perpassado por minha cabeça em qualquer momento, tenho certeza que não haveria toda essa enrolação.
Zeref... Como seria sua aparência? Será que era um segundo Natsu?
... Acho que não. Gray havia dito que eram gêmeos fraternos, se não me engano.
— Se despejar suas mágoas na cafeteira, o café sairá muito amargo — comentou alguém atrás de mim.
Congelei. Aquela voz... Não poderia ser...
Lentamente me virei e, quando confirmei ser quem estava imaginando, prensei-me contra a mesa.
— O que... Como...
— Está bem nervosa — reparou. — Acalme-se Lucy — seu semblante era triste. — Só vim deixar isto aqui — mostrou-me uma chave. — Poderia devolvê-la para Evergreen-san por mim? — deu um passo em minha direção.
— Não se aproxime! — gritei. Ele retesou-se.
— Lucy...
— Não ouse dizer meu nome! — soltei fortemente, mais rude do que pretendia.
— Não vim aqui para lhe fazer mal algum — depositou a chave sobre uma das bancadas e virou-me as costas. — De qualquer forma, soube que as coisas ficaram sérias com o Dragneel. Tsc, tsc. Deveria ter se afastado quando teve chance. Você acabou de ser sugada para o olho do furacão — afirmou.
— Como assim? — por incrível que pareça, consegui relaxar na presença dele. — O que está tentando insinuar?
— Lucy? Está tudo bem? — veio a voz de Gajeel através do corredor.
— Até qualquer hora, Lucy — despediu-se, sumindo no mesmo instante em que Gajeel chegou a cozinha.
— Ouvi você gritar — disse ele. — Está tudo bem?
— Ah... — murmurei meio desnorteada. — Sim! Eu apenas deixei o pote de café cair no meu pé... — inventei essa desculpa besta.
— Hum... — fez, desconfiado.
— É sério! — empurrei-o para fora da cozinha. — Você tem que atender alguns clientes, não? Ah! Esqueci completamente de fazer o chá! — exclamei surpresa.
Isso pareceu o acalmar e voltou ao trabalho.
“Você acabou de ser sugada para o olho do furacão”... O que ele quis dizer com isso?
Peguei a chave que deixou, girando-a em minha mão. O certo a se fazer quando nos revíssemos não seria se desculpar? E em vez disso, ele soltou esse enorme enigma para cima de mim!
O que está tentando me dizer?
Apertei a chave fortemente.
— Sting... — balbuciei seu nome. — Por que sua expressão parecia tão triste?
Balancei a cabeça, decidindo não pensar naquilo. Qualquer coisa relacionada a ele não era de meu interesse. Além disso, não deveria me importar com alguém que fez tamanha atrocidade comigo no passado.
Guardando a chave para devolvê-la para Evergreen, fui preparar o chá.
✩✩✩
— Quando alguém lhe faz algo ruim, a primeira coisa que deveria fazer quando se revessem não seria pedir desculpa? — indaguei, fazendo Levy levantar os olhos de seu prato.
— Que pergunta inusitada é essa? — perguntou, levando o copo com coca até a boca e tomando um longo gole.
— É só que... — abaixei meu olhar para meu pedaço de pizza, cogitando se deveria contar ou não para ela. — Só digamos que no passado alguém fez uma coisa muito ruim para você e, quando vocês finalmente se reencontram ao invés de pedir desculpa, a pessoa apenas lança uma frase misteriosa para você.
— Certo — ela pausou o filme que assistíamos. — Do que está falando exatamente?
— É só hipoteticamente!
— Hipoteticamente minha bunda... — murmurou. — Você sempre vem com essa quando algo lhe incomoda. Quem te deixou com esses pensamentos?
— Disse que era hipoteticamente — soltei.
— Nem vem! Deixe-me ver... Não pode ser o Natsu por vários motivos. Nem Rogue. Nem Gray. Nem Gajeel...
— Ah! Está certo! Não foi nenhum deles! — afirmei.
— Na verdade, não poderia mesmo ser um deles. Então o único que lhe fez mal desde que veio para cá foi... — seus olhos arregalaram com algum pensamento. — Não seria... Stong, seria?
— Sting — corrigi. Remexi-me um pouco, incomodada. — É, foi ele.
— Lucy! — exclamou, a feição indicando sua raiva. — Quando aquele cretino falou com você?
— Hoje, no Fairy Latte.
— Deveria ter chamado alguém! — bronqueou. — Aquele calhorda merece uma boa surra! O que ele disse?
— Que havia sido tragada para o olho do furacão — revelei com um suspiro. — Não faço ideia do que deveria significar.
— Odeio pensar assim, porém ele pode ter razão.
— O quê? — encarei-a.
— Pense bem: o Stong já teve algo a ver com a máfia Dragneel, certo?
— Teve? Acho que Erza já havia mencionado algo assim¹ — tentei me lembrar do momento certo, mas parece que já faz tanto tempo... — E é Sting.
— Tanto faz o nome dele! — exclamou frustrada. — De qualquer forma, deve saber o que está rolando para só aparecer agora.
— Como assim?
— Segundo você, ele fez aquela atrocidade na única vez que Natsu não pode buscá-la. Confere?
— Confere — concordei.
— E agora ele volta a aparecer exatamente quando?
— Quando Natsu não pode estar comigo! — afirmei. Como não tinha percebido aquilo? — No entanto já tive outras brigas com Natsu antes...
— É. Na mansão Dragneel — enfatizou. — Onde estava Igneel, Aries e mais uma penca de mafiosos altamente treinados! Como o bobalhão do Gajeel — especificou. — Fala sério, nem eu chegaria ali perto. Aquela mansão parece fácil de entrar, mas com certeza é difícil sair.
— É irônico dizer isso depois de eu ter sido sequestrada lá.
— No jardim de lá. Não dentro da mansão.
—... Você é um pequeno gênio — elogiei. — Entretanto, o que deveria fazer agora? Preciso saber mais sobre toda essa situação. Sinto que estão me deixando na cega de muitos fatos.
— É bem provável. Gajeel me disse que as coisas andam meio complicadas ultimamente.
— Gajeel? Ele anda lhe contando bastante coisa, hein? — cerrei os olhos. — Por acaso vocês dois...
— Nem pense nisso! — cortou-me tão rápido que mal pude concluir meus pensamentos. — Gajeel é bem fraco quando se trata de bebidas. Dei dois bombons de licor para ele e ficou bêbado!
— Que fica bêbado com bombons de licor? — não podia ser sério...
— Exatamente!
... Pelo visto Natsu não era o único mafioso estranho por aqui.
— Porque deu bombons para ele? — balbuciei de repente, maliciosa.
— Aquele palerma anda me protegendo de vários infortúnios desde que cheguei aqui — esclareceu. — E você?
— Eu?
— Já agradeceu Natsu alguma vez? Pode parecer que não, porém a forma que ele lhe protege é realmente densa. Quando estiver com ele da próxima vez, tente observar como ele age.
Calei-me diante disso. Natsu anda me protegendo esse tempo todo? Não acho que seja possível, ele nunca agiu diferente do normal desde que nos conhecemos. Menos, é claro, quando começou a ficar mais fofo e descontraído com minha presença.
Se já agradeci Natsu alguma vez? É claro que já! Naquela vez em que... Que...
... Céus, ela tem razão. Nunca agradeci Natsu por nada! Nunca fiz nada que mostrasse o quanto estava grata. Nem quando ele me tirou das mãos repugnantes de Sting, nem quando apareceu no último segundo para salvar-me de Erigor — essa vale? Ele quase me matou! Não, espera. A intenção que conta.
Aliás, acho que nem lhe dei um presente de aniversário.
— Deus, como sou cruel — soltei. — Nunca lhe dei nada em forma de agradecimento. Nem mesmo lhe dei um presente de aniversário!
— Eh? Mentira! — exclamou ela. — Nada?
— Nada. Preciso recompensá-lo de alguma forma.
— Que tal algo que ele goste? Ou que queira?
— Algo que ele queira? Eu não faço ideia do que... — fechei minha boca assim que Happy subiu em meu colo, cheirando meu pedaço de pizza. — Happy, não sabe de nada que Natsu possa querer ganhar de mim?
— Fora seu sorriso? — opinou.
— Ele lhe pediu para falar isso? — fechei a cara. — Que aproveitador.
— Não, não pediu. Ele disse isso antes de me entregar para você em seu aniversário.
— Quê? — o rosado fez isso mesmo?
— Quando me colocou naquela cabana ele ficou todo impaciente. Ficava dizendo: “será que ela vai gostar?” isso, “será que abrirá um enorme sorriso” aquilo — sondou-me com os olhos negros. — E no fim você acabou se assustando comigo.
Uau! Se culpa matasse agora...
Algo em minha mente pareceu piscar.
— Já sei! — levantei-me em um rompante, derrubando o bichano azulado do meu colo para o de Levy.
— O que vai fazer? — indagou a azulada assim que alcancei a porta da sala e peguei meu celular.
— Dar a Natsu um presente muito especial. E que ele quer faz algum tempo — expliquei enquanto digitava um número específico no aparelho. — Ah! Vou precisar da sua ajuda nisto também.
Ela apenas piscou os olhos, confusa. A pessoa do outro lado atendeu.
— Alô, Gajeel. Lucy aqui. Tenho um favor a lhe pedir.
✩✩✩
— Ele vai enfartar quando ver isso — repetiu Levy, lançando-me um olhar avaliador por cima do banco ao lado do motorista.
— Diz como se fosse algo ruim — comentou Gajeel, concentrado na estrada que se estendia à frente de seu carro (adivinha?) negro.
— Estou meio nervosa — confessei, apertando ainda mais a barra da saia que trajava. — E se não der certo?
— Que exagero — balbuciou Gajeel. — Do jeito que é, ele com certeza vai cair nessa.
— Fala como se estivéssemos arrumando uma armadilha — criticou a azulada. — De qualquer forma, Lucy — agora estacionávamos na frente da mansão —, vai dar tudo certo. Relaxe.
— Okay. Tomem conta do Happy.
— Ele não é tão diferente do Lily — murmurou o moreno. — Vai ser fácil.
Abri a porta e saltei do carro.
— Então estou contando com vocês.
— Boa sorte! — desejou Levy enquanto Gajeel ligava o carro novamente.
— Obrigada — acenei para ela.
Quando tive certeza que já haviam partido, toquei a campainha. Virgo me atendeu e pareceu bem surpresa a me ver. Dirigiu-me até um corredor desconhecido por mim e bateu em uma porta de carvalho dupla. Lá de dentro, a voz de Natsu soou:
— Entre.
Respirei fundo.
Relaxe Lucy. Você precisa relaxar; era o que aconselhava para mim mesma.
Abri a porta lentamente. Natsu estava sentado em uma escrivaninha de carvalho que ficava no centro de um cômodo enorme. No lado esquerdo havia uma lareira e dois sofás bege claro de aparência confortável em cima de um longo e redondo tapete felpudo. No direito havia um tipo de adega com várias garrafas de vinho e na parede havia um enorme quadro com a imagem de cinco pessoas sorrindo alegremente.
Pigarrei, atraindo a atenção do mafioso de fios rosáceos a minha frente.
— Posso ter algum tempo de sua atenção? — pedi, fazendo-o levantar a cabeça em minha direção imediatamente.
— Lucy! — exclamou. — O que faz aqui?
— Estava com saudade — afirmei envergonhada.
Um sorriso carinhoso se formou em seus lábios.
— Estou quase terminando com esses relatórios aqui. Fique à vontade.
— Okay, eu espero.
Comecei a caminhar pela sala, observando melhor os móveis e a decoração. Cheguei mais perto do quadro, notando se tratar da família Dragneel bem ali. Aquela mulher de cabelo negro grande e olhos azuis tão expressivos era Honoka. Era difícil não se lembrar dela depois de tê-la visto naquele quadro no quarto de Natsu. Ela estava abraçada ao pescoço de Igneel que — poderia ser isso possível? — estava ainda mais bonito com aqueles óculos. Ele era míope?
Próximos a eles estavam Aries com o cabelo rosa longo, segurando um enorme urso de pelúcia branco; Meredy encarando os pais com um dedo na boca, Natsu com um sorriso enorme e passando o braço por um garoto que...
U. A. U.
Seria esse o irmão gêmeo? Se sim, eles realmente não se pareciam.
Enquanto o sorriso que Natsu sustentava era alegre e empolgado, o dele era gentil e de certa forma triste...
Franzi o cenho. Por que ele estaria triste?
Observei-o melhor. A roupa dele era composta de uma camisa preta e branca e calça jeans negra. Ele parecia com a mãe, os fios do cabelo eram negros como breu e os olhos também, embora não saiba de quem poderia os ter puxado. Embora também não conheça a linhagem dos Dragneel a fundo. E — céus! — ele era lindo!
Algo no pescoço dele me chamou a atenção.
Aquele não era o colar que Natsu me empurrara quando tentei pegar? Então pertencia a ele...
— Está encarando tanto esse quadro que vai acabar fazendo um buraco nele — balbuciou Natsu, envolvendo minha cintura com suas mãos. Quando ele chegara tão perto?
Acomodei-me melhor em seu abraço cálido.
— É uma pintura esplêndida — elogiei. — Esse garoto de preto... Seria Zeref?
Senti seu corpo retesar diante da pergunta. Merda, havia me esquecido completamente do motivo de ter ido ali!
— Como sabe o nome dele? — indagou em um misto de surpresa e dor.
— Lisanna me contou hoje mais cedo — contei. — Desculpe, não queria... A pergunta saiu sem querer...
Ele respirou fundo.
— Tudo bem. Só vamos... Mudar de assunto, está bem?
— Certo... — o quão doloroso era esse assunto para Natsu? Virei-me sem me soltar de seus braços. — Na verdade, vim aqui com um propósito a mais que apenas matar saudades — confessei mudando de assunto.
— É mesmo? — piscou os olhos para mim, curioso. — E o que seria?
— Hum... — murmurei, soltando-me e puxando-o até o outro lado da sala, onde estavam os sofás. Empurrei-o em um. — Andei conversando com Levy mais cedo, e ela gentilmente esfregou em minha cara que ainda não havia lhe dado nenhum presente ou agradecido adequadamente por nada que fez por mim até hoje.
— Levy fez? — indagou surpreso.
— Sim, sim — confirmei. — Então resolvi lhe dar algo.
— O quê? — perguntou olhando para mim de maneira desconfiada, como se escondesse seu presente.
Respirei fundo enquanto abria o zíper do sobretudo que vesti assim que desci do carro. Natsu engasgou com a própria saliva e minhas bochechas arderam. Levy conseguiu arranjar aquela roupa de couro de Erza, o que me faz perguntar o porquê ela as têm. A saia era tão curta que poderia ser quase considerada uma calcinha. O sutiã não cobria quase nada do que deveria e deixava boa parte da minha barriga a mostra. As botas de couro subiam até meu calcanhar, porém as meias três quartos vinham até metade da coxa.
— Você parecia querer tanto isso naquele dia que pensei que pudesse ser um bom “presente” — soltei um riso envergonhado. Ele permaneceu em silêncio. — Natsu? — levantei a cabeça para encará-lo e percebi que o rosado continuava de boca aberta. Ele nem sequer piscava. — Natsu? Tudo bem?
[DS → Natsu Dragneel]
Aqui jaz Natsu Yamaguchi Dragneel; foi o que perpassou por minha cabeça assim que a vi deixar aquele sobretudo deslizar por seu corpo e cair no chão com um baque inaudível.
Merda. Merda. Merda. Merda. Merda!
Que raio de roupa era aquela? Só de ver aquele couro destacar ainda mais as áreas desejosas de seu corpo minha cabeça nublou. Sem falar do “amigão” lá embaixo.
— Você parecia querer tanto isso naquele dia que pensei que pudesse ser um bom presente — ela disse, soltando um lindo sorriso envergonhado cabisbaixa.
Que dia? O que Happy estragou tudo?
— Natsu?
Ah... Aquela meia estava atraindo minha atenção. O detalhe rendado na ponta me fazia pensar em algumas coisas meio...
— Natsu? Tudo bem? — voltou a indagar. Só então me dei conta que tinha esquecido totalmente que o tempo continuava passando.
Pisquei os olhos fortemente e logo me dei conta que ela encarava-me com o rosto bem próximo ao meu.
— É... Claro que está — respondi. Contra minha vontade meus olhos desceram para o decote daquele... Hã... Sutiã, se assim poderia ser chamado. Engoli em seco. — Você me pegou de surpresa com... Isso.
Ela arqueou uma sobrancelha ofendida.
— Isso? — soltou um riso debochado. — Ótimo. Sabia que deveria ter pensado em outra coisa — pegou o sobretudo. — Desculpe atrapalhar o seu trabalho — sua voz indicava vontade de chorar. — Eu vou... Apenas chamar um táxi e...
— Espere — segurei seu braço antes que pudesse fazer outro movimento. — Como assim? — ela não disse nada, o rosto virado em outra direção de forma que não pudesse ver sua expressão. — Lucy? — nada. — Lucy! — estava começando a me irritar e...
Lágrimas. Ela estava tentando lutar contra lágrimas sem que eu pudesse ver.
— Ei! Por que está chorando? — indaguei desesperado.
— Não finja que não sabe! — bronqueou. — Eu tive — fungou — que juntar tanta coragem para ser capaz de vestir isso e vir até aqui e — fungou novamente, a primeira lágrima finalmente rolando por seu rosto —, mesmo assim você não ligou!
... Será que a vergonha atrapalhou na qualidade dela de avaliar a reação das pessoas?
— O que está dizendo? Eu adorei! — exclamei.
— Mentiroso — agora as lágrimas já corriam livremente por seu rosto. O segurei entre minhas mãos.
— Claro que não — beijei-a delicadamente. — Está certa de que quer fazer isso?
Fungou novamente, afirmando com a cabeça em seguida.
— Quero.
Sorri, voltando a tomar seus lábios para mim. Enlaçou seus braços ao redor de meu pescoço, enquanto minhas mãos percorriam aquele couro por toda sua extensão ao redor dos seios, sentindo a pele macia de sua barriga e voltando a tocar o couro da parte mais sensível de seu corpo.
Ela tremeu um pouco com o contado da minha mão em suas coxas, porém ignorei aquilo tocando a — ah! — renda da meia. Deslizei minha língua por seu pescoço enquanto ela abria os botões a minha camisa.
Caímos no sofá por conta de alguns passos que dei para trás.
— Espera um pouco — pedi entre arfadas. Fui até a porta e a tranquei. — Dessa vez ninguém pode nos impedir.
Ela sorriu enquanto me puxava pela blusa aberta e chupava meu pescoço sensualmente.
Porra! Quando ela aprendeu a fazer isso? Ainda estávamos no começo e eu já estava duro, aí ela ainda inventa de fazer isso e...
A loira inverteu nossas posições nos jogando no tapete felpudo e prendendo meu corpo com suas pernas. Mandei um olhar surpreso em sua direção.
— Quando aprendeu a fazer isso? — indaguei.
— Andei pedindo uns conselhos para a Erza.
... Estava explicado.
Ela terminou de arrancar minha blusa e se reposicionou sentando-se adivinhe onde? Na região pélvica.
Senti um fluxo de calor tomar meu corpo. Estava em chamas!
Depositei minhas mãos em sua cintura, guiando-a em um movimento calmo — e enlouquecedor, admito — em cima do meu membro.
— Lucy — gemi seu nome. — Não é tão legal quando faz isso...
— Está dizendo isso só porque é o primeiro a ficar excitado dessa vez? — sorriu, deslizando a mão pelo meu tronco e arranhando meu abdômen.
Beijou-me novamente, desta vez dando-me liberdade para explorar os fechos daquela roupa livremente. Apertei sua nádega e, para se vingar, ela mordeu o lóbulo de minha orelha.
Lucy Heartfilia, que evolução!; Pensei com um sorriso.
Apertei seu seio esquerdo, fazendo-a amolecer um pouco devido ao toque e podendo, finalmente, inverter as posições.
— Sua vez — murmurei, trilhando através de beijos o longo caminho de seu pescoço até a base daquela meia. Mordi a renda, puxando aquele tecido desnecessário até a bota e arranquei as duas — ou quatro, como quiserem —, jogando-as no outro lado da sala.
A “saia” de couro também foi arrancada, assim como o sutiã.
Parei para observá-la melhor.
Deus, essa pessoa tão esplêndida que me encarava com um sorriso era mesmo minha namorada? Minha?
— Não é justo ser a primeira a ficar sem nada — reclamou brincalhona.
— Ah, é justo sim — chupei perto de um dos peitos. — Mas vou ser bonzinho dessa vez — livrei-me do resto de minhas roupas.
Entrelaçou suas pernas ao redor de minha cintura e senti sua intimidade roçar na minha, deixando-me ainda mais excitado.
— Deveríamos colocar uma proteção — soltei em um odioso momento de autoconsciência.
— Eu já tomei uma daquelas pílulas — afirmou. — Agora esqueça isso — puxou minha cabeça diretamente para seu peito.
Acariciei um dos mamilos enquanto lambia o outro, chupando-os hora com força e hora devagar, apreciando os gemidos que a loira soltava ao mesmo tempo em que arranhava minhas costas.
Mordiscou meu pescoço, apertando mais o aperto na região mais baixa e na hora soube o que queria. Virei-a de costas para mim, penetrando-a lentamente enquanto sentia seu corpo estremecer pelo contato mais íntimo.
Afastei-me um pouco, pegando impulso suficiente para uma estocada forte e precisa e repeti o movimento de novo, de novo e de novo, tendo a ajuda da loira que mexia o corpo de forma totalmente sincronizada com meus movimentos.
Senti aquela onda tomar conta de meu corpo, direcionando-se em apenas um lugar e minha ereção saiu, ao mesmo tempo em que a dela também veio, fazendo-nos gozar juntos.
Ah... Meu pai gosta desse tapete...
Esperei meu corpo ter força o suficiente para poder sair de dentro dela e cair.
[Natsu Dragneel → Off]
O rosado caiu ao meu lado em um baque surdo.
As cerdas daquele tapete eram deliciosas para se sentir diretamente na pele, tão macias mesmo em minha pele suada.
Natsu puxou-me para um abraço.
— Esse foi o melhor presente que ganhei — murmurou beijando-me.
— Melhor que o porsche? — balbuciei assim que nos separamos.
Ele sorriu.
— É o segundo melhor presente que ganhei.
— Ei! — dei-lhe uma cotovelada de brincadeira.
Ficamos um tempo em silêncio, observando o teto.
— Não devolva essa roupa para Erza de jeito nenhum — disse ele de repente.
— Por quê? — indaguei o encarando.
— Por que mais seria? É claro que vou querer que use de novo.
— Seu pervertido — acusei sorrindo.
— Só que dessa vez no meu quarto — afirmou com convicção. — É que... — sorriu.
— O quê?
— Tinha esquecido que uma das câmeras da Aries está instalada nesse escritório — apontou para uma lente quase imperceptível no meio da parede, cujo ângulo dava diretamente para onde estávamos.
— Mentira! — levantei-me em um rompante, tentando cobrir meu corpo como primeiro tecido que achei no caminho. Infelizmente foi a saia-calcinha.
— Não fique assim, Lucy. Tenho certeza que ela aproveitou o nosso... Hã... Show.
— Natsu! — bronqueei. — Você tem noção da idade...
Fui interrompida pelo telefone em cima da escrivaninha. Natsu o deixou tocar, indo direto para a secretária eletrônica.
— Natsu-san, é o Visitar — a voz soou através do aparelho. — Concluímos a investigação que pediu. Ela está aqui, em Magnolia. Não temos noção de quando chegou, mas aparentemente não fez nenhum movimento suspeito até agora. E... Hã... Essa é uma notícia não confirmada, porém há boatos de que — a respiração no telefone ficou mais pesada — seu avô está por aqui também.
— Merda! — gritou o rosado, levantando-se rapidamente. Pegou o telefone, evitando deixar-me ouvir mais informações fora isso. — Estou indo para o escritório neste instante — desligou sem esperar resposta. — Lucy, vista-se agora e peça para Virgo lhe preparar um quarto. Não saia dessa mansão nas próximas vinte e quatro horas, entendido?
— Sim... — murmurei confusa. — Mas porque seu avô...
— Não faça perguntas — ordenou. — Só... Fique aqui e fique bem, okay? Pedirei para Gajeel trazer Levy também — destrancou a porta e saiu, deixando-me sozinha.
Franzi o cenho confusa. Por que esse desespero e pressa todos?
Qual é o perigo que o Avô Dragneel realmente representa?
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