Meu Estranho Mafioso
55 Quarenta e quatro.
Notas iniciais
— EI LUCY — chamou Aries na mesa do café da manhã no dia seguinte —, quer que lhe dê um chicote?
— Chicote? — murmurei. — Para quê?
— Para combinar com sua "roupa" de couro — explodiu em gargalhadas.
— Rá, rá, muito engraçado Aries — afirmei, porém internamente estava morrendo de vergonha.
Sentei-me a sua frente na mesa de café da manhã. Só estávamos nós duas ali, com Virgo passando de vez em quando para indagar se queríamos algo a mais em nosso café.
— Isso é tão... estranho — balbuciei.
— O quê? — perguntou, levantando seu olhar de seus waffles.
— A mansão — apontei para o cômodo. — Parece tão... vazio. Mesmo tendo muitas pessoas aqui no momento.
— Oh, bem — deu outra mordida na massa. — A mansão é bem silenciosa sem meu pai e Ultear aqui, devo admitir. E sem Meredy gritando “onii-sama” pelos cantos também.
Encarei-a.
— Parece mais gentil ao falar de seu pai agora — observei.
— Bem... Acabamos nos entendendo em seu aniversário — jurava tê-la visto corar. Seu rosto mudou de expressão rapidamente. — Acha que deveríamos chamar aquele seu ex irritante para cá também?
— Rogue? — arqueei uma sobrancelha. — Por quê?
— Seja lá do que Natsu quer protegê-la, não acha que pode ir atrás dele também?
— Talvez... Espera! Você não sabe do que Natsu quer me proteger? — Aries? Aries não sabia? Que raio está acontecendo aqui?
— Não faço a mínima ideia — confessou. — Na verdade, provavelmente é ela, porém não entendo como afetaria...
— Ela? — cortei. — Outra ela? Não me diga que planejam me deixar no escuro com mais isso?!
Aries piscou os olhos confusa.
— Você fez Natsu lhe contar tudo o que deveria para confiar nele, certo?
— Sim — respondi.
— E ele não te contou sobre... Ah — soltou um suspiro, massageando a têmpora como se houvesse entendido tudo. — Esqueça. Tem algo que ele não lhe contou. E não vou ser eu que irei falar... — sua expressão mudou para algo doloroso, mas sumiu tão rápido que não tive certeza se havia mesmo mudado.
Olhei o cômodo novamente. A mesa grande aonde tomávamos café parecia tão simplória somente com meu prato e o de Aries. Não havia notado pois quando me mudei para cá por causa do incêndio da pensão ele já estava, entretanto Igneel realmente animava o ambiente. Podia imaginá-lo agora, fazendo um estardalhaço por conta de qualquer bobagem ou enchendo a paciência de Natsu dizendo coisas pervertidas a meu respeito e levando uma bronca de Ultear, enquanto Meredy tagarelava animadamente sobre algum mangá. Esses três com certeza vão fazer falta. É uma pena terem que ter viajado para alguma das subdivisões da máfia em outro país.
... Isso meio que me faz perceber que as férias realmente acabaram.
Observei meu waffle tristemente beliscado. Aquela situação estava me deixando um pouco ansiosa em relação a tudo.
— Aries... — voltei a chamar.
— Hum? — murmurou com a boca cheia da massa macia que eram os waffles.
— Como é seu avô? — ousei perguntar.
— Legal e divertido, ora. Você conhece o Makarov, mesmo que seja pouco...
— Hã, não. Não estou falando desse avô. Estou me referindo a seu avô materno.
Um brilho estranho perpassou por seus olhos.
— Vovô Dragneel? — deixou a comida de lado, focando seu olhar incisivo completamente em mim. — Por que quer saber dele?
— É só que... Sempre que ele vem à tona em uma conversa, Natsu fica meio... retraído.
— Oh, por isso — revirou os olhos. — Ele é bastante legal. É meio que um avô coruja. Embora possa ser um pouco assustador para pessoas que não o conhecem, no fundo ele é bem caloroso. Natsu e meu pai não percebem como ele é fervoroso, só isso. É só a personalidade dele. Ele muito... orgulhoso.
— Mesmo? — isso vai completamente contra a imagem que tinha dele... — Então, se seu avô por acaso estivesse por aqui, ele não significa perigo, certo?
— Claro que não! — sorriu. — Um minuto. Vovô está aqui? — sua expressão ficou séria.
— Hum... Pelo que ouvi, são só boatos — afirmei. — Ah, mas tem alguns capangas dele por aqui, se permiti o uso da palavra.
— Homens do vovô? — seus ombros ficaram tensos. — Quem?
— Um tal Canção de Ninar, ou algo assim...
— Lullaby? — seu pele ficou esverdeada. — Logo ele? Espera — se recuperou em uma rapidez admirável. — Como sabe disso?
— O conheci quando fui ao escritório do Natsu e...
— Você foi lá? — indagou tão alto que me assustou.
— Fui... Por quê? É errado ele ter me levado? Max foi esfaqueado e...
— Max foi esfaqueado? — sua surpresa só aumentava. Levantou-se abruptamente. — Desculpe, Lucy. Tenho que... confirmar algumas coisas — sumiu pela porta como se fosse um foguete.
Pisquei os olhos, meio atordoada.
... O Avô Dragneel é alguém legal? Então se ele não é o perigo real aqui, deveria ser essa tal ela... Ela novamente!
Argh! Parece até que estive andando em círculos esse tempo todo, como se estivesse em um... furacão...
“Você acabou de ser sugada para o olho do furacão”; não foi isso que Sting disse?
Oh, merda. Acho que ele sabia do que estava falando.
✩✩✩
Virei outra página do livro que estava lendo. A biblioteca da mansão tinha bastante diversidade de gêneros, mas mesmo assim me sentia entediada.
Bufei, desistindo de ler aquele livro.
— Caramba, tente não destruir o livro, por mais entediante que ele possa ser.
— Gray! — chamei, observando um belo sorriso tomar-lhe a face. — O que faz aqui?
— Eu moro aqui.
— Não foi o que quis dizer — revirei os olhos. — Quero dizer, não deveria estar no hospital, com Juvia?
— Deveria não é? — deu de ombros. — No entanto agora tenho uma nova função na máfia. Ser o segurança.
— Segurança? — indaguei. — De quê?
— De você — tocou minha testa com um dedo. — Boatos que Lullaby conheceu a Luna ou algo assim...
— Lara — corrigi.
— Isso. Boatos de que a Lara é uma grande amiga da Aries andam circulando pelo escritório. Aquele tapado do Natsu não serve nem para inventar uma mentira descente que lhe livrasse dessa situação. — Ele parecia realmente nervoso. O sorriso voltou a surgir. — De qualquer forma, não acho que seja um problema ser o seu segurança.
— Gray... — senti meu coração estranhamente aquecido com aquelas palavras. — Por que Natsu não vai me proteger? — questionei de repente, franzindo o cenho.
— O quê? — arqueou uma sobrancelha.
— Não se ofenda! É que... Levy me disse que Natsu esteve me protegendo esse tempo todo e só eu não percebi, então por que agora ele não pode?
— Lucy, querendo ou não, ele tem outras tarefas a cumprir — tocou meu ombro confortavelmente. — Ele já deixou muita coisa de lado para ficar com você nas férias.
O peso da culpa caiu sobre mim.
— Desculpe...
— Não é sua culpa — consolou. — Então, o que está planejando fazer?
— Eh?
— Não creio que planeje continuar lendo — olhou por cima do meu ombro, na direção do livro que fechara com força há pouco.
— Bom... Não sei. Estou bem entediada — admiti. — Tem algo em mente?
Ele apenas abriu um luminoso sorriso. Oh-oh! Aí tem.
✩✩✩
— Tinha um lugar assim na mansão? — indaguei embasbacada, observando o enorme galpão que se estendia por trás de uma das portas da mansão. Em um canto havia um tipo de bancada que tenho certeza de já ter visto em filmes de ação — se não me engano, é onde praticam os tiros... —, em outro havia uma espécie de saco de pancadas vermelho vivo que estava bem acabado. Havia uma espécie de chão acolchoado ao lado onde, acredito eu, seja onde eles treinam autodefesa.
— Você morou aqui por um mês e meio, quase dois. Como não sabia desse lugar?
— Veja bem... Não é como se tivesse parado e pensado: “Nossa! Tenho que conhecer toda essa mansão!”. Até porque jurava que iria sair rápido.
— Hum, sei... — balbuciou, abrindo um cadeado que prendia uma corrente em uma porta de ferro enorme. — E quando chegou o momento de ir embora não queria. Irônico.
— Acabei indo, não foi? Não vejo porque relembrar isso.
— Gostaria de saber mais detalhes — disse. — Será uma boa história a se contar para meu filho. — Um sorriso inconscientemente brotou em seus lábios.
— Ou filha — acrescentei.
— Ou filha — concordou.
Ele finalmente conseguiu abrir a porta, revelando um monte de armas que, em minha visão, eram assustadoras! Reconheci uma de cara. Era negra e lisa, e lembro-me de tê-la visto na mão de Natsu na noite em que descobri o que ele era. Foi bem chocante, admito. Porém acho que ninguém pensou o que poderia estar sentindo por baixo da minha fala cheia de raiva e ironia para cima de Natsu. Estava bem temerosa, no entanto depois daquele acidente... Aprendi a esconder bem o que sentia.
— Por que está me mostrando isso? — perguntei.
— Para que mais? É claro que lhe ensinarei noções básicas de autodefesa.
—... O quê? Por quê?
— Para coisas desagradáveis não acontecerem com você mais, ora essa! — explicou levemente exasperado. — Quer uma avaliação? Tudo o que aconteceu até agora de ruim com você foi porque não soube se defender.
— Claro que não! — ele acha que não lutei contra aquelas coisas?
— É mesmo? Pois bem — murmurou, juntando as mãos —, se tivesse alguma noção de autodefesa, poderia ter se livrado de Erigor assim — estalou os dedos. — E poderia ter fugido ou atrasado Sting de alguma maneira antes de... bem, você sabe.
Franzi o cenho irritada. Certo, poderia me livrar disso, mas e daí? Nada garante que teria mesmo me salvado.
— Não faça essa cara. Se algo do gênero acontecer mais para frente, não acha que será bom pelo menos lutar um pouco? Ou quer mesmo ser a donzela a ser protegida? — como que para afirmar seu ponto de visão, soltou um sorriso debochado.
— Quando se coloca desse ponto de vista, soa tão desagradável... Vou lhe avisar algo antes de começarmos, então — soltei. — Rogue já tentou me ensinar algo do gênero antes, e acabamos descobrindo que sou péssima para esse tipo de coisa.
— É, o garoto do Kung Fu pode até ter tido vontade de lhe ensinar algumas coisas...
— Judô — corrigi.
— Tanto faz. Isso não significa que ele é um péssimo professor? Sei que você deve ter um talento latente para isso.
— Certo — meneei a cabeça em um aceno, deixando uma risada escapar sem querer. Lembro-me claramente de Rogue dizendo que era melhor eu não tentar aprender coisas do gênero pelo bem da saúde de qualquer ser humano. Oh, bem... Talvez seja só com o Judô... — Vamos tentar.
— É assim que se fala! — exclamou animado.
Depois...
— Você só pode estar brincando! — soltou horrorizado depois de duas horas tentando me treinar.
— Eu disse que era péssima! — afirmei pesarosa.
Havíamos começado com uma pistola prateada cujo nome tinha algo a ver com águia. Gray disse que gostaria de ver como era minha pontaria e me deu um protetor de ouvido. Eu tentei acertar o alvo, mas... Veja bem, a arma praticamente pulou da minha mão quando puxei o gatilho! Que culpa tenho se quase atirei na cabeça dele?
Depois de se recuperar do susto ele preferiu tentar algo menos mortal, como defesa corporal. Caí nos três primeiros segundos depois que começamos. Em outra (frustrada) tentativa, tropecei em meus próprios pés e caí em cima dele, fazendo-o bater a cabeça na quina de uma cadeira. Gray ficou desmaiado durante quarenta minutos.
Ainda esperançoso de que poderia fazer isso — não sei como —, decidiu tentar o saco de areia. Acertei um murro com força e ele nem se mexeu. Gray riu tanto que decidi chutar com força. Foi super efetivo: acertou o moreno em cheio e juro que ele até voou um pouco.
— Que força nas pernas — elogiou entre tosses. — Com um chute desses, você poderia ser jogadora de futebol!
— Não subestime meu Lucy Kick — soltei orgulhosa.
— Você até deu nome para ele?! — surpreendeu-se.
— De qualquer forma — mudei de assunto —, acho que isso mostra que o “garoto do kung fu” estava certo no fim das contas.
Gray olhou ao redor.
— Você só pode estar brincando! — repetiu. — Sendo tão ruim assim, você vai precisar é de proteção pesada.
— Não precisa me avacalhar também — repliquei, ofendida. — Sei que não sou boa em autodefesa. Suas palavras só me deixam entristecida.
— Vamos lá, não é para tanto também — falou. — Muitas coisas podiam ter sido evitadas por nós. Por exemplo: eu já havia me tocado da presença de Erigor na mansão antes dele lhe sequestrar.
— Eh?
— Desculpe não ter sido mais rápido para pegá-lo — desviou o olhar do meu. — Toda vez que ia atrás ele conseguia me despistar. Deveria ter contado para Natsu ou Igneel.
— Desde quan...
— Quando lhe contei que o Loki era gay — especificou. — Lembra-se? Estávamos caminhando juntos pelo corredor, porém voltei todo o caminho que havíamos feito?
— É, mas você voltou por causa da Juvia!
— Isso também — confirmou. — Ah! Estou cansado — deitou no chão. — Tem alguma coisa que queira fazer agora?
— Gostaria de tomar um sorvete — afirmei. — Parece que faz eras que não experimento um.
— Certo, vamos cuidar disso então — levantou-se, caminhando comigo até a porta e a trancando. — Tomar um sorvete com minha irmãzinha. Que divertido! — bagunçou meu cabelo.
— Com certeza, onii-chan! — dei-lhe uma cotovelada animada nas costelas.
Mesmo que Natsu não pudesse estar por perto por tanto tempo, ter Gray como companhia seria muito divertido.
É... Foi uma bela escolha de guarda-costas.
Fale com o autor