Meu Estranho Mafioso

52 Quarenta e dois.


LANCEI OUTRO OLHAR amedrontado em direção de Natsu. Estávamos na estrada fazia algum tempo e não havia nem sinal de construção alguma que pudesse servir de escritório para mafiosos — embora fosse óbvio que não seria algo fácil de achar.

Ao lado do carro, apenas árvores e arbustos serviam de paisagem. Saímos de uma região movimentada há bastante tempo.

Queria perguntar para Natsu se faltava muito, mas seu olhar revelava que o melhor a se fazer era ficar calada.

Ajeitei-me melhor no banco, cogitando até mesmo tirar um cochilo. Como um dia que teve como desenvolver tão maravilhoso meu primeiro encontro com Natsu terminara assim? Uma pessoa que eu mal conhecia fora ferida e ainda o deixamos inconsciente na frente do condomínio. Qualquer pessoa que passasse por ali veria o corpo dele!

— Natsu — chamei, finalmente juntando coragem para fazer a pergunta: — Por que o deixamos para trás?

— Quem? — perguntou algum tempo depois.

— O tal Max! — exclamei chocada. Parecia tão preocupado, pensei que fosse com ele. — Deveríamos ter chamado uma ambulância! Ou tê-lo levado ao hospital! E se ele estiver — engoli em seco antes de soltar a possibilidade — morto?

— Está se preocupando à toa. Max não foi atingido com a força necessária para ser morto, caso contrário não teria nem chegado perto do carro naquela hora.

— Isso...! — voltei a exclamar. Ele parecia tão indiferente a isso agora que chegava a ser assustador. — Mesmo assim, deveríamos...

— Lucy — cortou-me, em momento algum sem tirar os olhos da estrada. — Já liguei para o Gajeel. Ele dará um jeito nisso, não se preocupe mais que o necessário.

Encarei-o.

— Ce-certo — concordei relutante.

— Estamos chegando, se segure — avisou.

— Eh? — no mesmo momento foquei meu olhar à frente do carro. — Espera um pouco... — murmurei alarmada ao ver uma enorme encosta aparecer mais a frente. O rosado pisou fundo, nos jogando para fora da estrada e em direção ao mar. Fechei meus olhos com força, crendo que aquele seria nosso fim.

— Por que está tão assustada? — indagou o rosado como se não fosse nada.

Lentamente atrevi abrir os olhos, e acabei encarando um enorme saguão com alguns carros que tenho certeza já ter visto na garagem da mansão Dragneel.

— Onde nós estamos? Ou melhor, como chegamos aqui? — perguntei embasbacada. — Agora mesmo você acabou de jogar o carro no meio do mar e...

— É segredo, você não precisa saber — fez mistério, soltando seu cinto de segurança e abrindo a porta.

— Como assim? — perguntei. Se não estivesse tão chocada com certeza já teria apelado para a violência a essa altura — mesmo que não seja violenta com Natsu há muito tempo.

— Há coisas que realmente não precisa saber, Lucy. Agora me siga calada, okay? Ninguém que vai ver no caminho está aqui para brincadeiras.

Fuzilei-o com os olhos enquanto obedeci o que havia pedido. Fui obrigada a ir ali com ele porque alguém morreu! Já não bastava ter agido como se não fosse nada, ainda insinuava que estava brincando?

Enquanto seguíamos por alguns corredores muito bem decorados, com paredes aveludadas cor vinho e meia parede com madeira pintada de azul claro, observava o movimento a nosso redor. Pessoas muito bem vestidas passavam por ali, umas de terno, outras mais casuais. Algumas carregavam bolsas e outras — como notei assustada — armas de não sei quantos calibres.

— Por aqui — guiou-me Natsu, puxando-me pela cintura e segurando-me ao lado dele. — Escute bem — sussurrou em meu ouvido, fazendo um calafrio me percorrer a coluna. — Não se separe de mim em momento algum até eu dizer que é seguro. Se você se perder aqui, é fim de jogo. Não são só membros da máfia que eu e meu pai comandamos que andam por aqui. Os de meu avô também. E é com eles que deve se preocupar.

Assenti enquanto engolia em seco. A aura daquele lugar era assustadora. Não me espantava Natsu parecer tão cansado quando ia me buscar no Fairy Latte depois de passar o dia todo aqui...

— Oh! Se não é Natsu-kun! — balbuciou um homem de aparência velha caminhando em nossa direção. Seu cabelo era longo e possuía uma barba de tamanho mediano, a pele era de um tom moreno.

Senti o aperto de Natsu em minha cintura ficar mais forte. Então esse deveria ser um dos homens de seu avô...

— Que surpresa vê-lo aqui, Lullaby — comentou Natsu. — Está em missão oficial? — até mesmo eu que estava por fora da conversa podia sentir que havia algo por baixo daquela pergunta.

— Pode-se dizer que sim e não ao mesmo tempo — afirmou o albino. — E essa é? — tocou-se de minha presença.

— Oh! Meu...

— Está é Lara, amiga de Aries — cortou-me o rosado.

... Quê? Quem é Lara?

— Amiga da Musa?! — ele pareceu genuinamente surpreso. — Não sabia que obtinha uma amiga de tamanhos encantos — puxou minha mão e a beijou cautelosamente. Ugh! Algo nesse beijo dele me fez sentir náusea. — Meu nome é Lullaby e é um enorme prazer conhecer alguém tão próxima de Aries-sama. A Musa fica tanto tempo em casa que pensávamos que não teria outro companheiro próximo além de Loki-kun. Aliás, gostaria de vê-lo qualquer hora dessas — novamente se dirigia a Natsu. — Não saberia informar-me por onde ele se encontra?

— Infelizmente, igual às outras, não serei de muita ajuda dessa vez — afirmou. — Loki é como uma barata. Corre em direções em que não podemos adivinhar.

Que exemplo nojento! Loki-kun era sim muito agitado e não permanecia muito tempo presente, porém compará-lo a uma barata...

— É uma pena. No entanto deveria avisá-lo — soltou, virando-se para nos dar uma última encarada — que até mesmo as baratas são pegas em algum momento. E já sabe o que fazemos com elas.

— O que ele quis dizer com isso? — indaguei quando me certifiquei que não poderia ouvir. — Aquilo soou com uma ameaça assustadora.

— Aqui não. No meu escritório — disse Natsu. O olhar sério voltara à sua face.

A relação da família Dragneel parece mais complicada do que imaginei.

Chegamos a uma porta de carvalho muito bem detalhada e adentramos para outro cômodo. Era claro, com paredes creme e móveis que pareciam mais confortáveis do que tudo o que vi no caminho. Natsu dirigiu-me até o sofá branco de couro e pediu para aguardar um pouco, sumindo por outra porta que passara despercebida por mim anteriormente.

Respirei fundo, tentando me recobrar de tudo que havia acontecido desde que Natsu me “sequestrara” para nosso encontro.

Será que Max está bem? Sei que Natsu disse que não era sério o suficiente para ele morrer, no entanto... Se não me engano, Max andava bastante com o rosado quando nos conhecemos...

Soltei um longo suspiro.

— Vai ficar tudo bem, não é...? — murmurei para mim mesma.

— Natsu? Chegou em boa hora. Não sabe quem acabou de sair... — soltou uma garota ruiva, saindo de uma espécie de porta que mesclava com a parede. Arregalei os olhos ao ver sua roupa deveras curta. Um short que pegava na metade das coxas e uma regata que deixava seu umbigo à mostra eram tudo o que a afastava da nudez total. Prendia seu longo cabelo vermelho, que tinha um tom mais vivo que os de Erza, em um coque alto. — Oh, quem é você? — indagou, sondando-me com os olhos que combinavam com o cabelo.

— Eh? — exclamei com um sobressalto. Natsu não me disse que era seguro... — La... Lara. Meu nome é Lara — afirmei com um sorriso amarelo de vergonha. Odiava mentir desta forma para pessoas que mal conhecia...

— Hum... — seus olhos ainda me avaliavam. — E por que está aqui, Lara-san? — perguntou enquanto caminhava até a escrivaninha ao lado da porta por onde Natsu sumiu.

— Hã... — E agora? Que desculpa poderia inventar? — E-eu...

— Ah! Pensei ter ouvido sua voz! — interrompeu o rosado, colocando a cabeça para fora e observando a ruiva. — Pode me dizer...

— Natsu! — a garota pulou em cima dele, derrubando-o no chão e metendo-lhe um beijo na boca.

Eh... Quem é essa mesmo?

— Espera um pouco aí! — ele a afastou bruscamente. — Não tenho tempo para isso. Max foi esfaqueado!

— O quê? — sua expressão ficou séria. — Quando?

— Hoje! Deu um enorme susto em mim e Lucy...

— Ah, Lucy — revirou os olhos. — Quando vai trazê-la aqui? Não é muito legal só ouvir sobre uma pessoa. E uma que roubou meu namorado ainda por cima.

— Já havíamos terminado quando... Espera. O que quer dizer com quando a trouxer? — seus olhos correram até mim.

— Ora, ainda com essa ideia de não a trazer aqui? Natsu, você é um mafioso. Não digo que ela tem que saber tudo sobre seu mundo, mas deveria apenas conhecer um pouco do seu local de trabalho. Se não o faz, não acho que seja tão sério o lance com ela.

— Certo, agora está realmente exagerando — levantou-se. — De qualquer forma, deixe-me apresentá-las... — apontou em minha direção. — Esta é...

— Ah, já nos conhecemos — afirmou ela com um gesto de mão. — Ou melhor, eu sei o nome dela. Desculpe, foi rude de minha parte não me apresentar — curvou-se em um gestou de arrependimento. — Meu nome é Flare Chrona, a secretária pessoal do bobalhão Dragneel aqui.

— Ei! — rosnou o rosado.

— É um prazer, Lara — ignorou-o, em seguida agarrando seu braço de maneira possessiva. — Aliás, somos ex-namorados! — piscou em minha direção.

Ah, como queria desfazer esse mal-entendido agora e mandá-la largar o braço dele imediatamente.

— Lara? — Natsu balbuciou. Seus olhos piscaram com o entendimento. — Oh! Foi isso que aconteceu! Flare, Lara não...

— Na verdade... — aquela ruiva é realmente eufórica. Sua mente já estava em outro lugar àquela altura. — Não queria revelar agora, mas esses casos andam acontecendo há algum tempo.

— O quê? — sibilou o mafioso. — E porque só me diz isso agora?

— Esteve muito ocupado nas férias com “Lucy para cá, Lucy para lá” para simplesmente parar e me escutar — levantou os braços em um gesto exasperado. — Seu pai mandou Max investigar quem estava por trás disso mais a fundo, e pelo visto ele conseguiu...

— Só não conseguiu me avisar antes que acontecesse algo com ele — soltou um bufo frustrado. — Gajeel deve estar com ele agora. Vai telefonar assim que saírem boas notícias.

— Ou más — completou a garota.

— Vamos esperar que não seja o caso — puxou-me pela mão. — Vou levá-la para casa. Tome conta das coisas por aqui até eu voltar.

E lá fomos nós por todo aquele tortuoso e movimentado caminho entre mafiosos bons/maus. Alguns nos pararam e dava para ver que a diferença de tratamento entre os que serviam o “Avô Dragneel” — decidi chamá-lo assim — e os que serviam a máfia “Yamaneel”, como Natsu havia dito anteriormente.

Entramos no Porshe cansados. Minha curiosidade de como sairíamos dali era muita. Não sabia como tínhamos entrado, porém poderia saber como sair, e isso era simplesmente maravilhoso.

Fui pega de surpresa quando o carro começou a levitar até o teto de pedra, que se abriu mostrando outra garagem também cheia. Cruzamos entre um interminável corredor de carros e até chegarmos a uma parede totalmente lisa que, assim como o teto anterior, também se abriu. E então, voilá, estávamos na estrada novamente.

— Vocês são espiões por acaso? — indaguei assim que voltamos a alcançar a avenida.

— Claro que não — ele finalmente voltou a sorrir.

— Então... — comecei após algum tempo. — Flare, hein? Ela parece guardar certo ressentimento contra a Lucy.

— Desculpe por isso. Ela geralmente age como adulta, mas depois que a deixei de lado nas férias creio que se sentiu solitária e acabou insistindo que a culpa era sua.

— Minha não, da Lucy — acrescentei brincalhona. — De qualquer maneira, ela é bem energética. Por acaso ela é a “ex que ainda é muito presente em sua vida”?

— É — confirmou com um sorriso. — É sim. Porém eu prefiro mil vezes a Lucy que ela. Mantenha em segredo, Lara — entrou na brincadeira.

— Levarei isso para o túmulo — fingi desenhar um “x” em meu peito. — Em troca, posso lhe revelar algo?

— Vá em frente.

— A Lucy também gosta muito de você — sussurrei como se fosse algo que ninguém poderia saber.

Ele abriu um enorme sorriso.

— Eu também.

— De qualquer maneira, aquele Lullaby — mudei de assunto —, me deu certa agonia ver a maneira que ele falava. Principalmente da Aries, a chamando de “Musa” a todo instante... E aquilo que falaram do Loki não foi nada gentil! — bronqueei.

O sorriso sumiu de seu rosto.

— Aries vai ter que se prender em casa com mais frequência de novo, agora que aquele cara está aqui.

— Eh?

Meneou a cabeça em um gesto negativo.

— Nada... Apenas uma medida de prevenção — apertou o volante com mais força. — Preciso localizar Loki também — estacionou o carro na frente do meu condomínio. Que rápido! — Desculpe, Lucy. Parece que ficarei um pouco mais atarefado nos próximos dias — recostou-se no banco, observando-me melhor. — Poderia, por favor, ser mais cuidadosa nos próximos dias? Inclusive quando voltar a trabalhar no Fairy Latte? Acabei lhe apresentando da maneira errada para aquele cara — dava para sentir a aversão dele em relação a Lullaby. — Não acho que virá atrás de você agora, porém... Todo cuidado é pouco.

— O que está tentando insinuar? — indaguei assustada. — Aquele cara pode vir atrás de mim?

— Não! — apressou-se em consertar. — Só estou dizendo que ele é tão imprevisível quanto Loki. Ele não virá atrás de você até Loki dar as caras, então não se preocupe — bagunçou o cabelo. — Preciso avaliar isso melhor com Flare. De qualquer forma, não saía para lugares desconhecidos. De casa para a escola, da escola para o trabalho, do trabalho para casa. Entendeu? — acenei com a cabeça. — Desculpe. Talvez lhe levar lá não tenha sido uma boa ideia.

— Tudo bem. Depois do susto que Max nos deu, não tinha como avaliar como tudo ficaria assim.

— Max! — exclamou alto, assustando-me. — Sabia que estava esquecendo algo importante! Tenho que ver como ele está, Lucy. Se importaria de... — acenou com a cabeça em direção à calçada.

— Oh! Tudo bem. Envie-me uma mensagem contando como ele se encontra — pedi enquanto soltava o cinto de segurança. Saltei do carro, correndo até o outro lado e o observando ligar a ignição.

As coisas para ele estão se tornando complicadas...

Bati levemente no vidro antes que ele pudesse partir. Seus olhos ônix encontraram-se com os meus.

Desenhei um N em minha mão e depois um coração, depositando minha mão em seguida em meu peito e sorrindo para ele.

Soltou um suspiro que veio junto a um sorriso. Fez a mesma coisa que eu, dessa vez com um L.

E em seguida partiu, deixando-me só na rua vazia.

Respirei fundo.

Lullaby... Que tipo de perigo ele deveria representar? Servindo o Avô Dragneel, muito, provavelmente.

Ah... Para onde foram meus dias de paz?

Notas finais
Aí está! Gente, estou mudando e planejando tanta coisa para esse arco que é de tirar o fôlego. Vou demorar um pouco para postar os próximos, espero que entendam. Não tenho uma caminho planejado para os próximos... De qualquer forma, espero que tenham gostado e quero agradecer aos que mandaram sugestões de músicas! A maioria serve para o spin-off de MEM que tenho planejado... • Obrigada aos que favoritaram! See ya!