Meu Estranho Mafioso
9 Nove.
— SABE, TAMBÉM PREFERIA arrancar minhas tripas a viajar com você, mas não há nada que possamos fazer. — Murmurou Natsu irritado ao meu lado. Estava sentada ao lado da janela, o olhar vagando entre as árvores, os braços cruzados e de bico, pensando o porquê de ser tão azarada a esse ponto. — Também estava animado para essa viagem. É um dos poucos dias de paz que tenho e passar eles com você não vai ser tão agradável como queria... Porém não tenho escolha. Então poderia parar de fazer essa cara?
Lhe lancei um olhar irritada. Por fim, suspirei.
Ele tinha razão. De novo.
Não estávamos viajando juntos porque queríamos! Era apenas outra travessura do destino.
Outra terrível travessura do destino!
Suspirei lhe lançando um olhar de canto. Ele havia se recostado em sua poltrona e fechado os olhos. Trajava uma camisa branca fina com um casaco bege que parecia não esquentar nada por cima, a calça era da mesma cor que o casaco. Seus fios rosáceos brincavam em sua testa, seu peito descia e subia calmamente devido a respiração. Sabia que ele não estava dormindo, então respondi:
— Você está certo. Não há muito que possamos fazer...
Encolhi-me em meu banco, olhando para as árvores que corriam do lado de fora. Não tenho certeza, mas juro ter sentido seus olhos avaliarem-me.
✩✩✩
— Então chegamos! — Exclamou Makarov satisfeito por sair do ônibus.
— Wah! É lindo! — Murmurei maravilhada. À minha frente estendia-se uma enorme montanha com árvores de todos os lados. A maioria deixava as pétalas das flores cerejeiras caírem, o doce aroma enchendo o ar. Sim! Eram as sakuras! Mais lindas do que nunca!
— Precisa ficar tão feliz? — Indagou Natsu. — São só cerejeiras.
Virei-me para ele, sorrindo.
— É claro que sim! Essa é a primeira vez que as vejo!
— Existem sakuras em todo o país. — Afirmou ele. — Nunca viu isso? — Estranhou.
— Não.
— Que tipo de infância você teve...?
— Ah, bem... — Sei que é errado contar algo pessoal a um mafioso, mas... Acho que confio um pouco nele... — Sabe, quando eu era bem pequena, minha mãe adoeceu e logo após faleceu. Meu pai então, mesmo que ainda fosse amável, o que ainda é, se dedicou demais ao trabalho... — Um sorriso maroto brincava em meus lábios. — Então nunca saímos para fazer um piquenique... Até que em um ano ele se animou...
— E como você não viu as cerejeiras?
— Bom... Infelizmente adoeci nesse ano... — Expliquei. — Também não via nenhuma quando ia para a escola, pois estudava em casa. — Uma leve brisa brincou com meu cabelo. — Então já estou feliz só de vê-las.
Voltei a sorrir para ele, que riu.
— Você é mesmo estranha. — Afirmou.
— Não me chame assim. — Disse fazendo bico. Nada iria estragar minha felicidade.
— Certo! Todos por aqui! — Chamou Cana acenando com a mão para que a seguíssemos. Andei animadamente até lá, e pela segunda vez no dia, senti como se Natsu estivesse sondando-me. — Bem, a partir daqui teremos uma caminhada de trinta minutos e então chegaremos até os chalés. Em cada chalé cabem dois pares. Chegando lá diremos com quem cada par se juntará, certo?
— Okay! — Exclamou o resto da turma.
Começamos a caminhar. Estava tão animada! As pétalas rodopiando a minha volta eram tão lindas!
— Então... Você perdeu sua mãe cedo por causa de uma doença... — Puxou assunto Natsu ao meu lado.
— Sim... Se me lembro bem, você também, certo?
— É.
— Como ela morreu? — Eu sei, pergunta cretina. Principalmente no que deveria ser um dia animado.
— É o que se ganha como esposa da máfia. — Comentou ele com um sorriso estranho. — Ela estava preparada. Nós também.
— Sinto muito. — Murmurei.
— Não. Já sabíamos que ela seria alvo algum dia... A morte da sua mãe deve ter sido muito mais dolorosa.
— Foi, porém... Passou. Ela não gostaria de me ver triste pelo resto de minha vida... É por isso que sorrio. O motivo que me faz sorrir é ela.
— Não acha que está na hora se superar? — Indagou-me.
— O que quer dizer?
— Uma hora ou outra, terá que superar.
— Eu superei! — Afirmei.
— Não se continua tão apegada a ela depois de tantos anos.
Observei-o, a raiva começando a me invadir. Abri a boca para responder.
— Chegamos! — Ressoou a voz de Cana, interrompendo qualquer conversa alheia.
Olhei em minha volta. O lugar era lindo! Os chalés eram tão pequenos, todos feito de um carvalho claro, o teto totalmente coberto pelas pétalas. No chão haviam pedras trilhando um caminho até um chalé maior que devia ser o refeitório. Também dava em uma estradinha de terra que deveria levar ao local onde poderíamos fazer a fogueira! Aquilo era simplesmente maravilhoso!
— Muito bem, agora iremos anunciar os grupos de cada chalé! — Começou Mira. — Alzack e Bisca com Gray e Juvia no chalé um. — Fiquei surpresa ao ouvir esses nomes, então curvei-me para a frente, ficando atenta ao grupo que movia-se até um chalé onde havia uma plaquinha pendurada ao lado da porta de madeira que continha o número um pintado com tinta branca. Eram eles mesmos! Os escandalosos do esquadrão da família Dragneel!
Olhei em busca do albino, mas não o encontrei de modo algum entre as pessoas ali presentes. Natsu cutucou-me, atraindo minha atenção.
— O que foi? — Indagou.
— Ah! Nada... — Respondi. — Gray e Juvia estudam na Fairy Tail também?!
— Sim. Ainda não estava óbvio? Você é lenta para essas coisas... — Comentou.
Ignorei a onda de irritação que me invadiu e perguntei:
— Mas e o albin... Lyon? — Arrumei.
— Ah... Lyon não estuda na Fairy Tail. Ele estuda em uma escola do outro lado do país... A Lamia Scale.
— Lamia Scale?! — Exclamei surpresa. Lamia Scale era uma das poucas escolas reconhecidas pelo país!
— Ah... Já ouviu falar dela? É mais atualizada do que imaginei
— Você... — Comecei com raiva.
— ... E por fim Lucy e Natsu, juntamente comigo e Erza, dividirão o chalé quinze. — Anunciou a albina, nos interrompendo. Olhei-a surpresa.
— Eu lhe ajudo, Lucy. — Disse Erza, magicamente aparecendo ao meu lado e pegando uma de minhas malas.
— Eh?! E-Erza... Não precisa...
— Natsu é que não irá carregar a sua, nem por gentileza, então...
— Er... — Uma dúvida assolava minha mente. — Erza. — Chamei, após algum tempo. — Por que não veio com seu namorado?
Ela corou fortemente, ficando praticamente da cor de seu cabelo.
— N-namorado? Eu n-não tenho namorado! — Afirmou.
— Eh? Não? Então com quem foi se encontrar tantas vezes? Jurava que...
— Lu-Lucy... — Chamou-me, e então lançou-me um olhar assustador. Seu olhar era tão assustador que até parei, estremecendo. — Não faça perguntas indevidas.
— S-sim. — Murmurei. Ao meu lado, Natsu segurou o riso, fazendo-me lhe lançar um olhar nervoso, demonstrando que havia percebido.
Entramos na pequena cabana, onde havia dois beliches, alguns vasos de flor espalhados e duas portas, uma para a varanda onde havia uma rede branca, e outra para o banheiro, composto de uma pia, um vaso, uma banheira... Todos brancos. O piso dali era antiderrapante e havia também um chuveiro. Mesmo parecendo pequeno por fora, era incrivelmente grande por dentro.
— Certo. Natsu e Lucy dormirão naquele beliche. — Ordenou Erza, apontando para sua direita. — Mira e eu nessa, alguma objeção?
— De jeito nenhum. — Afirmou Mira, sorrindo.
Olhei para Natsu de canto, pela sua cara não se importava nem um pouco. Aliás... Seu olhar era vago.
— Arrumem-se e então vão ao refeitório, aonde almoçaremos e então teremos as atividades extracurriculares. — Avisou a ruiva saindo com Mira e deixando-nos a sós.
— Aliás, Natsu... — Chamei atenção, tirando minha roupa de ginastica, composta por uma legging rosa claro e uma camisa baby doll branca. — Quem era seu par hoje?
— Como? — Perguntou da sala. Trocava-me no banheiro.
— Quem era seu par hoje? — Gritei.
— Como? — Indagou novamente. Como já havia terminado de me vestir, abri a porta nervosa e comecei a gritar novamente:
— Quem era... — Parei, surpresa.
Ele estava encostado na porta, uma camisa branca igual a minha e uma calça moletom azul marinho. Um sorriso maroto brincava em seus lábios e em seus olhos haviam um brilho... brincalhão (?).
— Quer que eu acabe com minhas cordas vocais?
— Isso não seria ruim, pelo menos teria um minuto de silêncio.
Lhe lancei um olhar nervoso.
— Poderia responder minha pergunta?
— Poderia repeti-la? — Indagou, abaixando-se ao ponto de deixar a orelha na altura da minha boca.
— Pois não... — Disse baixo. Respirei e então berrei: — QUEM ERA SEU PAR HOJE?
Sorri satisfeita ao vê-lo dar alguns passos para trás, esfregando a orelha.
— Está louca? Quer me deixar surdo?
— Você que começou. — Afirmei ultrapassando-o e colocando a mão na maçaneta.
Ele colocou sua mão sobre a minha, impedindo a minha ação.
— Natsu? — Ele apoiou sua cabeça em meu ombro, seus fios rosáceos fazendo cócegas em meu rosto. Chamei-o novamente. — Natsu? Tudo bem?
Ele separou-se de mim e encarou-me com uma expressão estranha...
— Lucy... — Disse. — Já foi obrigada a fazer algo que não queria?
— O quê?
Ele suspirou fortemente e murmurou, enquanto passava por mim, um “esqueça”. Abriu a porta e antes de seguir em frente, parou.
— Lisanna. — Disse.
— O quê? — Indaguei desentendida.
— Meu par hoje... Era a Lisanna.
Fiquei parada ali, próxima à porta. Lisanna estudava na Fairy Tail...? Isso era novidade para mim...
✩✩✩
— Certo. Espero que todos tenham se alimentado bem! — Ecoou a voz de Makarov pelas pessoas enfileiradas a minha volta. — Passaremos o resto do dia com o jogo das matérias! Vocês deverão encontrar, no território da montanha, diversas perguntas, e há nelas três alternativas de respostas, vocês usarão os marca textos que estão sendo distribuídos por Cana, Erza e Mirajane, para marcar a alternativa que pensam ser a correta. Os que obtiverem a maior pontuação receberão prêmios especiais! Vocês têm até às sete horas para procurar, após isso, todos irão se recolher e acenderemos a fogueira! Todos entenderam?
— SIM! — Gritou o grupo, comigo no meio deles.
— Boa sorte... Agora podem ir!
— Vamos logo, Lucy! — Natsu agarrou minha mão no segundo que recebi minha caneta de Mira e saiu correndo montanha acima.
— Natsu! — Chamei, tentando acompanhar seu ritmo. — Acalme-se!
Ele então percebeu que estava indo rápido demais e parou, deixando-me descansar sentada em um tronco de árvore caída.
— Cara... Você não é nem um pouco atlética. — Reclamou.
— Não diga isso! — Exclamei nervosa. — Você não me deu tempo nem de pensar! E os papéis que poderíamos ter pegado no caminho? Parou para pensar neles?
— Aqui estão. — Entregou-me um bolo de papéis rosa claro com o símbolo da escola.
— Eh? — Observei-os com atenção. Eram os verdadeiros! — Quando pegou isso? Você roubou?
— Claro que não, eles estavam todos no caminho, apenas os apanhei enquanto corria...
— Você... É assustador!
— Eh? De jeito nenhum! Apenas... Amo competir!
— Hum... Embora você não pareça ter muitos adversários... — Observei.
— Isso é porque eu acabo com todos eles. — Sorriu.
— Não acho que isso seja algo para se orgulhar... Se for no sentido que estou pensando.
— De qualquer forma... Vamos fazer o seguinte! — Exclamou virando-se para mim. — Irei recolher todos que der, e você os responde. O que acha?
— O quê? Você não vai me ajudar? São muitos!
— Pensei que fosse inteligente...
Ele... Acabou de me elogiar?
— Embora essa talvez seja sua única característica positiva. — Concluiu.
Ele acabou de me chamar de inútil?!
— Certo. — Disse nervosa. — Vou resolver todos esses papéis e calar sua boca!
Ele riu.
— Parece que você também é competitiva! — Exclamou. — Então vamos lá, Luce!
— É Lucy! LUCY!
Passamos o resto do dia concentrados em explorar a montanha. A cada cinquenta papéis que Natsu achava (sim, cinquenta. Existiam no mínimo mil espalhados ali), parávamos para que eu respondesse todos. Após algum tempo, não encontramos mais nenhum e a noite já caia, então voltamos para o acampamento.
— Bem vindos de volta! — Exclamou Mira ao nos avistar. — São os últimos a chegar. Conseguiram muitos papéis?
Entreguei a ela a sacolinha onde estavam todos os que encontramos.
— Isso é incrível! — Elogiou Erza, aparecendo ao lado da albina. — Vocês provavelmente acharam a maioria! O primeiro lugar com certeza será de vocês!
Sorri cansada.
— Vão tomar um banho e depois vão até a fogueira. O jantar será lá. — Orientou Mira.
— Sim, sim! — Estava feliz em poder descansar. Natsu e eu fomos até o chalé quinze. — Quer ir primeiro? — Indaguei assim que entramos, apontando para o banheiro.
— Não. Pode ir.
— Eu demoro. — Avisei.
— Não tem problema. Eu espero.
Olhei para o rosto dele. Devia estar tão cansado quanto eu. Por incrível que pareça, não brigamos o dia inteiro.
— Tudo bem então.
Entrei no banheiro e me despi. A água que deixei enchendo a banheira enquanto retirava minhas roupas estava morna e no ponto perfeito, quase quente.
Fiquei um bom tempo ali, relaxando meus músculos. Ao sair da banheira, enrolei-me na toalha e saí do banheiro, indo até minha mala pegar uma roupa. Natsu estava na varanda, deitado na rede, balançando de um lado para outro, seu olhar perdido no céu estrelado.
— Natsu. — Chamei. — Pode ir agora.
Ele pareceu não me ouvir. Fui até ele.
— Natsu. — Balancei seu ombro.
— Ah! Já saiu?! Que demora. — Reclamou quando voltou a si.
— Pensei que você tinha dito que não se importava. — Observei.
— Ah, certo. Tanto faz.
Entrou no banheiro e se trancou lá. Garoto estranho.
Peguei um vestido azul claro que tinha algumas flores brancas espalhadas em seu comprimento (eram pintadas, lógico). Coloquei uma meia calça preta e uma bota sem salto, que ia até pouco acima do meu tornozelo. Escolhi um sobretudo bege, da mesma cor que as botas, para me proteger do vento, e não do frio, uma vez que estaria perto da fogueira.
Saí do chalé. Não ficaria esperando o estranho mafioso sair do banho, pois estava faminta.
Por falar nele, a atitude dele anda muito estranha ultimamente...
Não que não fosse normalmente. Entretanto, estava mais estranho que o normal.
Andei pela trilha até o lugar que provavelmente era o mais iluminado do acampamento. Já haviam ateado fogo na lenha e este cantava alto. As pessoas riam e dançavam em volta da fogueira, algumas conversavam sentadas em volta, nos troncos que rodeavam a clareira. Makarov e Cana faziam barulho enquanto bebiam alegremente, mesmo sendo os responsáveis por todos...
Natsu chegou pouco tempo depois e sentou-se ao meu lado.
— Onde conseguiu isso? — Indagou, apontando para o espetinho que devorava com vontade.
— Bem ali. — Apontei para o bufê que estava a poucos metros da nós.
Ele foi até lá e encheu um prato de comida, sentou ao meu lado novamente e devorou tudo.
— Você não é nem um pouco educado!
— Fique quieta! Estou com fome!
— Eu também estava e isso não é motivo suficiente para sujar tudo a minha volta.
Ele me olhou irritado.
— Claro que estava! Sentei aqui e tudo que vi foram farelos voando!
— Não minta! — Berrei irritada. Nesse momento, todos nos encaravam.
— Quem está mentindo? Não tenho culpa se você é uma garota rude!
— Rude? Você me chamou de rude?
— Chamei sim!
Dei-lhe um tapa na cara e saí dali, pisando duro. Esse idiota!
Olhei para os caminhos que podia seguir... Não era bom voltar para o chalé, lá ele iria me encher.
Então entrei na floresta, emaranhando-me nela. Andei até não me aguentar mais.
Parei para respirar e percebi que subira sem me dar conta de onde estava indo. Tudo bem, era só descer que logo, logo me encontrariam. Só preciso descansar.
Sentei-me em um banquinho branco que havia ali e parei, ouvindo os sons da floresta naquela hora. Mais cedo estava tão concentrada na tarefa que nem pude perceber, mas aquilo realmente era lindo.
Ouvi barulho de algo se rompendo e tudo que pude ver fui eu caindo dentro de um buraco um tanto profundo.
Minha última visão foi o céu estrelado.
Após isso, desmaiei.
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