Meu Estranho Mafioso
10 Dez.
...y.
…cy.
…ucy!
… Lucy!
ABRI MEUS OLHOS lentamente. Alguém me chamava. Fechei-os quase que imediatamente. Uma forte luz, provavelmente de uma lanterna, estava apontada para meu rosto. Virei-o para o lado em uma tentativa frustrada de ver quem era.
— Lucy! — Gritou uma voz muito familiar. Ouvi um suspiro pesado e a forte luz focou-se em outro canto. Olhei para cima e lá estava ele, encostado na ponta do buraco. Natsu. — Cara... — Murmurou ele com um suspiro exasperado. — O quanto pensa em deixar as pessoas preocupadas?
— Estava preocupado comigo? — Indaguei curiosa.
— Quem não estaria depois da cena que fez na fogueira?
— Por favor, não me lembre disso... — Disse, sentando-me e apoiando minha mão na testa.
— Tudo bem, eu lhe desculpo.
— Eu não pedi desculpa. — Afirmei. — Pedi para não me lembrar da cena.
— Que seja. Como chegou aí embaixo? — Perguntou apoiando-se na encosta.
— Se me lembro bem... Estava sentada em um banco e a madeira rompeu sob meu peso.
— Hoo... — Murmurou ironicamente. Sabia que ele estava me chamando de gorda até não poder mais em seus pensamentos. Olhou em volta, à procura de algo. — Ah! Estou vendo o banco quebrado! Consegue se levantar?
— Claro que consigo! — Exclamei orgulhosamente. Preferia me arrastar a montanha inteira, mas ele não iria me carregar de novo!
Apoiei-me em meus calcanhares e levantei-me, só para em seguida ir de encontro ao chão novamente.
Acima de mim, Natsu suspirou novamente.
— Você realmente dá trabalho. — Murmurou, caindo ao meu lado delicadamente. Ele meteu suas mãos em minhas coxas e me apoiou em suas costas.
— O-o-o-o q-que pensa que está fazendo? — Indaguei. Minhas bochechas ardiam fortemente devido ao contato de suas mãos quentes nas minhas pernas.
— Segure essa lanterna. — Ordenou, e o obedeci. — E fique quieta.
— Como assim? Solte-me!
— Quer ficar nesse buraco o resto de sua vida? — Indagou irritado.
— Claro que não! Entretanto... Consigo subir muito bem sozinha!
— Deixe de ser orgulhosa! Mal consegue manter-se em pé!
— Claro que consigo! É só um pouco de tontura pela queda!
— Lucy... Você esteve desaparecida por quase um dia inteiro.
— Eh?
Ele... Estava brincando... Certo?
— Isso mesmo que ouviu. Você esteve apagada esse tempo todo, enchendo todos de preocupação.
— Mas... Parecem que foram horas...
— É claro que sim, pois não foi você que ficou procurando desesperadamente essa montanha inteira!
— Ainda está de noite... Está mentindo só para me assustar?
— Idiota! Quem faria isso em uma situação dessas? Se segure, vamos subir. — Avisou.
Ele largou minhas pernas e fincou suas mãos na terra macia, escalando o buraco.
— Tudo bem? — Indaguei assim que saímos do escuro lugar.
— Hee... Está preocupada comigo?
— C-claro seu idiota! Afinal, você escalou aquilo tudo comigo nas costas...
— Sim. Foi um grande esforço... Você não é tão leve quanto aparenta.
Como é?
— Você está me chamando de gorda?
— Não foi você mesma que disse: “não coloque palavras em minha boca”?
Calei-me.
— Hey... Natsu... — Chamei após algum tempo. Descíamos o morro em um movimento bem lento, aliás. As estrelas despediam-se de nós e uma luz bem clara começava a aparecer no horizonte.
— Sim?
— Fiquei mesmo esse tanto de tempo apagada?
— Sim. Todos no acampamento ficaram preocupados... Mira e Erza queriam desesperadamente lhe procurar, porém tinham que acalmar os outros alunos... No fim Makarov me pediu para procurá-la.
— Makarov? E você veio assim, de boa?
— Não posso negar que estava preocupado. — Afirmou. Queria saber que expressão ele fazia, mas seu cabelo atrapalhava minha visão.
— É mesmo... Você disse algo assim mais cedo... Sobre todos ficarem preocupados...
... E me procurar desesperadamente; completei mentalmente.
— Você é mesmo uma grande idiota, sabia?
— Q-quê?
— Também é muito orgulhosa. — Ignorou-me.
— O que está fazendo? — Perguntei nervosa.
— Definindo seu perfil.
Caminhamos em silêncio por algum tempo.
— Hey, Natsu... — Chamei.
— Hm?
— Você anda agindo meio estranho ultimamente.
— Sério?
— Sim.
— E isso não é bom para você? Digo, não estou lhe irritando tanto, certo?
— B-bem... É... No entanto não parece natural!
— Então prefere que lhe irrite?
— Claro que não!
— Você é um tipo de tsundere?
— Há?! — Exclamei. — Você...
Não pude terminar minha fala, pois Natsu escorregou em uma poça e ambos rolamos sem parar montanha abaixo. Caímos em um lago raso.
Levantei-me, cuspindo água e nervosa. Procurei Natsu, que emergiu logo depois com um pequeno peixe laranja pulando em sua cabeça.
— Não olha por onde anda? — O céu já estava claro o bastante para podermos enxergar tudo a nossa volta.
— Me desculpe! — Exclamou tão revoltado quanto eu. — Não tenho culpa se saí procurando uma esquisita a noite inteira, fora a tarde de ontem; e quando a encontrei tive que carregá-la a maior parte do caminho! Sabia que não vi a poça porque estava tentando me equilibrar com você se mexendo igual a uma louca tendo ataque nas minhas costas?
— E-eu não estava me mexendo tanto assim! — Afirmei. Tentei levantar-me, mas caí em cima dele, fazendo sua cabeça submergir. — Ah! Desculpe-me!
Puxei-o para cima. Ele tossia e respirava com dificuldade, batendo no tórax.
— Você quer mesmo me matar?
Congelei sob o olhar que me lançou. Pela primeira vez... Natsu pareceu um mafioso.
— E-eu... Não... — Disse, trêmula.
Ele pareceu perceber um pouco do meu medo e relaxou.
— Me desculpe. — Pediu. — É que ando passando por muita pressão ultimamente... — Bagunçou os cabelos e então se levantou. — Vamos, suba em minhas costas novamente. Temos que chegar ao acampamento logo.
— S-sim.
Temerosa, entrelacei minha mão na que ele estendia-me. Apoiei-me em suas costas e deitei minha cabeça em seu ombro molhado, sentindo as gotas que caiam de seu cabelo ricochetearem em meu rosto.
— Sabe Lucy... — Começou ele, após algum tempo.
— O que foi?
— Eu sou lindo, admito.
— Ha?
— Eu sei que posso ser irresistível aos seus olhos, assim como o de outras milhares de garotas... — Continuou convencido.
— Eh? O que está querendo dizer?
— Mesmo assim... — Ignorou-me. — Não precisa ficar tão excitada.
O quê? Sobre o que ele estava falando?
— O quer dizer?
— Não é óbvio? Pelo visto no futuro você não vai ter que se preocupar em como amamentar seus filhos. — Riu.
Senti como se uma pedra caísse em minha cabeça ao entender sobre o que ele estava se referindo. Senti minhas bochechas queimarem.
— O-o-o-o-o-o que está insinuando, seu pervertido? — Afastei-me com certa brutalidade dele, quase fazendo-nos cair novamente.
— Hey! Fique quieta! — Bronqueou-me.
— Me desça agora mesmo! — Ordenei.
— E posso saber como irá chegar até o acampamento? — Perguntou, irônico. — Se arrastando?
— Tanto faz! Só não vou mais com você!
Ele suspirou, ainda rindo e desceu-me, somente para em seguida pegar-me novamente. Ele mantinha uma de suas mãos em minhas costas e outra em minhas pernas, segurando-me como uma princesa.
— Cara... Você realmente é orgulhosa.
— Cale a boca, idiota tarado. — Murmurei, apoiando minha cabeça em seus ombros novamente, dessa vez com meus braços enlaçados em seu pescoço.
O resto do caminho foi bem tranquilo, em um silêncio até que mortal e, quando chegamos, tive coragem de perguntar algo que estava me perturbando:
— Natsu... Quem ganhou a atividade das matérias?
— Ah, isso... Gray e Juvia.
— Sério? Pensei que tivéssemos pegado a maioria...
— E pegamos. Você incrivelmente acertou todas as respostas. Como esperado, você pelo menos é inteligente, embora não faça uso dessa qualidade.
— E não ganhamos? — Indaguei, ignorando a onda de irritação que me perpassava.
— Não. — A voz dele demonstrava nervosismo.
— Por quê? Estava ansiosa para o prêmio... — Fora anunciado que o prêmio do primeiro lugar seria a viagem até uma ilha.
— Porque você fez um escândalo na fogueira e sumiu por um dia inteiro. — Explicou.
— Ah! Mas por que está nervoso? Você é um mafioso! Com toda certeza tem uma ilha para onde ir.
— Eu tenho, porém... Não gosto de ficar voltando lá.
— Por quê? Digo...
— Não é da sua conta. — Cortou-me. — Você deveria parar de se intrometer nos assuntos dos outros.
— Não me meto nos assuntos de ninguém!
— Chegamos. — Avisou.
— Lucy! — Mirajane e Erza corriam em minha direção desesperadas. Natsu ajudou-me a ficar de pé e quando elas nos alcançaram, passou-me para elas e saiu andando.
— Oe, Natsu! — Chamou Erza. — Aonde vai? Precisa nos explicar a situação da Lucy!
— Estou fedendo a terra e suor, vou tomar banho. Além disso... — Virou-se e, com os braços cruzados atrás da cabeça, me encarou. — Ela pode responder muito bem por si só.
E continuou sua caminhada.
— Você está bem, Lucy? — Indagou Mirajane, a preocupação totalmente exposta em seu olhar e sua voz.
— Sim... — Respondi.
— Sobre seu pé... — Começou Erza, mas terminei por ela:
— Eu o torci.
— Onde esteve esse tempo todo?
— Estive desmaiada. Caí em um buraco na noite da fogueira...
— Meu Deus! Isso explica que sua aparência!
— Onde você e Natsu se molharam? — A ruiva perguntou.
— Caímos em um rio no caminho para cá.
— Oh...
— Precisa tomar um banho o mais rápido possível!
— Eh? Mas o Natsu...
— Ele não ficaria gripado tão fácil assim nem se quisesse. Você sim. Agora vamos!
Erza arrastou-me até o chalé quinze e escancarou a porta, indo até a porta do banheiro. Parou ali, hesitante, e soltou minha mão.
— Espere aqui.
Olhei-a, ansiosa para saber o que faria. Abriu a porta do banheiro e entrou lá, gritando:
— Certo... Para fora! Lucy vai tomar banho!
E seguiu-se o seguinte diálogo:
— O-o-o quê? Ainda estou no meio do meu banho!
— Quem liga? Nunca ouviu a expressão “primeiro as damas”?
— Para isso ela teria que ser delicada e gentil como uma!
O barulho de algo sendo atingido com força ecoou pelo lugar.
— Fora! — Barulho de água. — Agora!
Segundos depois, Natsu apareceu na minha frente apenas de toalha. Minhas bochechas arderam fortemente. Encaramo-nos por algum tempo, ambos corados, até que Erza apareceu apoiada no batente da porta.
— Lucy, pode vir.
— A-ah... Okay. Com licença. — Pedi, e Natsu se afastou deixando-me passar.
Erza havia trocado a água da banheira, pelo que deu para perceber. Mira ficou responsável de avisar Makarov, assim, a ruiva deveria ajudar-me no banheiro, para o momento em que fosse levantar.
— Pode entrar. — Ordenou, assim que trajava apenas uma toalha.
Afundei na banheira, sentindo meus músculos relaxarem.
— Isso é tão bom! — Afirmei alegre.
Erza riu enquanto pegava o frasco de shampoo. Derrubou o líquido um pouco espesso em suas mãos e derramou sobre minha cabeça, massageando ali calmamente.
— Eu mesma posso fazer isso! — Brandi.
— Não. Deixe que eu faço! — Pediu. — É nostálgico! Faz bastante tempo desde a última vez que cuidei de alguém assim.
Olhei-a de relance.
— Cuidava de alguém assim?
— Sim. Pode não parecer, mas Natsu, Gray, Aries e eu éramos muito chegados quando pequenos.
— Sério? Isso é meio difícil de imaginar... — Afirmei com meus olhos fechados.
Ela riu.
— Sim, sim! Éramos tão próximos que costumava tomar banho com Natsu e Gray!
— Que tipo de relação vocês tinham...? — Balbuciei chocada.
— Uma bem complicada. — Continuou. — Sabe... Natsu nem sempre agiu assim. Ele era uma criança bem fofa.
— Natsu? — Perguntei incrédula. Ela derrubou um balde da água morna em minha cabeça.
— Yep. Ele era uma dessas crianças que fingiam ser fortes, mas que choravam quando pensavam que estavam sozinhas. Ele começou a se fortalecer depois que o... — Interrompeu-se.
— Hum? O...? — Incentivei a continuar.
— Na-nada! De qualquer forma, ele era muito fofo!
Alguns minutos se passaram.
— Ei, Erza... A Lisanna estuda na Fairy Tail?
— Eh?! Lisanna?! Ela estava afastada por um tempo... Entretanto, se me lembro bem, talvez volte a estudar no próximo bimestre... Por quê?
— Ah! Nada! É só que Natsu disse que ela que iria ser o par dele nessa viagem... — Abracei meus joelhos, sentindo as ondas causadas pelo meu movimento brincarem com minha pele.
— Por que ele precisaria de um par? É a única pessoa de quem Makarov não exige um parceiro, fora o fato de que Lisanna não pode participar das atividades até o início do próximo bimestre.
— Eh? Sério?
— Sim...
— Então ele mentiu? Por que ele mentiria?
Ela lançou-me um olhar um tanto estranho e murmurou algo.
— O quê?
— Nada! — Apressou a dizer. — Também não entendo o porque dele fazer isso...
Olhei-a incomodada. O que ela murmurou?
Terminamos meu banho e ela ajudou-me a me vestir. Após isso fez os devidos primeiros socorros em meu tornozelo e foi tomar seu próprio banho.
Levantei-me da cama que estava apoiada, indo em direção à porta. Iríamos embora em breve e estava faminta. Saí, desejando realmente que tivesse algo que pudesse beliscar, quando trombei no rosado dos meus pesadelos.
— Ah! Deveria olhar por onde anda! — Reclamou, equilibrando um prato lotado de petiscos que trazia em sua mão. — Oh! É você.
— Onde pegou isso? — Indaguei, mal conseguindo segurar minha baba. Estava realmente faminta!
— Esses são os últimos que sobraram... Por quê?
— Os últimos? — Assustei-me.
— É.
Engoli em seco. Não teria outra escolha...
— Natsu... — Chamei-o carinhosamente, fazendo-o engasgar. — Ei... Poderia me dar um pouco?
— O quê? — Disse ele, entre as tosses. Observou bem minha expressão e segurou o riso. — Está com tanta fome assim?
Assenti, envergonhada.
Seu movimento pegou-me de surpresa. Ele afagou minha cabeça, para logo em seguida virar o rosto para o outro lado, escondendo sua expressão, e oferecer-me o prato todo.
— Pode pegar. — Disse.
— Eh? Tudo?
— É... Não estou com tanta fome assim.
Lancei lhe um olhar alegre.
—Waah! Obrigada, Natsu!
Ele encarou-me por algum tempo e por fim disse:
— Não é nada.
Quase deixei o prato escapar de minhas mãos.
Ele sorrira.
Natsu sorrira!
Pela primeira vez, Natsu sorriu para mim!
… Espere um pouco...
Por que estou tão feliz?
Digo... É só um sorriso. Nada demais.
Nada demais, porém... Por que sinto meu coração bater tão rápido?
✩✩✩
O resto da noite fora bem cansativo. Tivemos que arrumar as malas, pois partiríamos na manhã seguinte. É lógico que não contei a ninguém sobre o desconforto no meu peito. Natsu e eu voltamos a brigar, como esperado.
Eu acho que... Só um pouco... Posso estar...
Começando a confiar nele.
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