Meu Estranho Mafioso
11 Onze.
— SAÚDE. — Disse quando Natsu espirrou pela enésima vez. Estávamos no ônibus, indo em direção ao monte Hakobe. Desta vez o deixei ir ao lado da janela, uma vez que parecia estar passando mal.
— Obrigado. — Agradeceu com a voz embargada.
— Você está bem mesmo? — Indaguei.
— Claro. Só estou resfriado por causa da nossa queda no rio.
— Entendo... Aqui. — Ofereci a ele uma caixa de lenços.
— Obrigado de novo.
Lhe lancei um olhar de pena que foi respondido com um de irritação.
— Ah cara! Que saco! — Exclamou ele. Sua voz abafada irritava-me, e muito, mas tentei não demonstrar. Virou-se para o lado, deixando seu rosto bem escondido pelos fios rosáceos. — Vou dormir! — Avisou. — Peço que me acorde quando chegarmos lá.
— Okay. — Murmurei.
Estava entediada. Havia deixado todos os livros que estava lendo em casa, pronta para aproveitar essa viagem, então não possuía algo para fazer. As pessoas nos bancos a minha volta dormiam, envolvidas por cobertas e afins. O próprio Natsu encontrava-se assim.
Passei minhas mãos rapidamente pelos meus braços em uma tentativa falha de me aquecer. É claro, estava agasalhada com uma grossa blusa de lã, porém essa, infelizmente, não aquecia o suficiente.
Desisti do esforço inútil, pensado no que fazer a seguir. Com um suspiro desanimado levantei-me e fui até o fundo do automóvel, cogitando preparar um chocolate quente, ou um chocotino. Sim, um chocotino. Makarov havia mandado instalarem uma máquina de bebidas no ônibus, algo que Cana adorou. Agora mesmo estava jogada em seu banco, o rosto tomado por um tom avermelhado sorrindo bobamente, praticamente desmaiada. Volto a repetir minha observação: ela é uma das principais responsáveis por nós.
Coloquei um copo descartável na máquina e apertei os botões necessários, encostando-me ao lado dela enquanto ouvia o som de suas engrenagens se movendo. Ali era estranhamente aquecido.
— Não está tendo uma boa viagem? — Indagou-me uma voz. Ao abrir os olhos que havia fechado posteriormente, percebi que era Gray, o tarado escandaloso.
— Bem... Mais ou menos. Não está com frio? — Ele trajava uma camisa branca fina.
— De jeito nenhum. — Recostou-se ao meu lado. — Fui criado em um lugar assim, logo não tenho frio nem medo de lugares gelados.
— Hum... Isso deve ser bom. — Murmurei. — Estou congelando.
Um bipe avisou-me que meu chocotino havia ficado pronto. Dirigi-me até lá e peguei o copo que estava quente. Tampei-o e furei o pequeno círculo da tampa, vendo a mesma ficar embaçada.
Dei um longo gole, deixando o líquido quente aquecer-me internamente.
— Hey. — Chamou Gray, que agora preparava a bebida dele. — Se quiser posso lhe emprestar uma de minhas blusas...
— Eh? Não precisa! Tenho um cobertor para dividir com Natsu e o aquecedor é bem em cima de mim. Você deveria se agasalhar mais. Sério.
Ele riu.
— Talvez né?
Despedimo-nos e voltei até meu banco. Olhei para a janela na esperança de ver algo do lado de fora em vão, pois o vidro estava esbranquiçado. Natsu parecia sentir muito frio, então o acordei.
— O que foi? — Indagou lançando-me um olhar de canto.
— Aqui. — Ofereci o objeto em minhas mãos.
— O que é isso?
— Chocotino. Você parece estar com bastante frio, então pode beber.
Ele olhou do canudinho até meu rosto com uma expressão esquisita.
— O que foi? — Indaguei.
— N-nada. — Notei suas bochechas tomarem um tom rubro. — Por que vai me dar isso?
— Porque você parece estar com bastante frio — repeti. — Pense nisso como um pagamento por ter me dado toda aquela comida ontem.
Encarou-me novamente.
— Obrigado... — Agradeceu meio relutante. Olhei-o confusa. Qual era o problema?
No fim, acabou caindo no sono logo após ter tomado o resto. Ajeitei a coberta em seu corpo, notando o quanto ele ficava fofo dormindo.
— Ele parece estar tendo bons sonhos. — Murmurei sorrindo.
Sem perceber, caí no sono também.
✩✩✩
— Hey! — Chamou-me alguém. — HEY!
Acordei com o grito que recebi bem em meu ouvido. Era o Natsu.
— Por que fez isso? — Indaguei nervosa.
Ela lançou-me um olhar irritado.
— Pensei ter dito para você me acordar quando chegássemos ao Monte Hakobe, e não o contrário!
— Eh?
Olhei em volta. O ônibus estava vazio. Limpei a janela embaçada e do lado de fora vi milhares de flocos de neve dançando gentilmente entre a branquidão que se estendia logo à frente.
— Ah! — Exclamei animada. — Olhe Natsu! Está nevando! Que lindo!
— O que você é? Uma criança? — Perguntou em tom reprovador. Ignorei-o.
— Tenho que ver isso de perto! — Exclamei, desgrudando da janela e jogando a coberta para o lado.
— E-espere!
Ignorei Natsu novamente e saí, me arrependendo imediatamente. Corri escadas à cima, abraçando meu próprio corpo.
— Eu disse para esperar — murmurou ele, exasperado. — Você tem que colocar roupas mais grossas do que essas.
— Obrigada pelo aviso. — Disse ríspida. — Infelizmente, essas são as roupas mais quentes que possuo.
— Está brincando, certo?
Neguei com a cabeça.
Ele suspirou.
— Não tem jeito então. — Tirou o casaco que usava e o jogou em mim. — Vista isso — ordenou.
Olhei surpresa para ele, vendo-o remexer sua mala em busca de algo.
— Ainda não vestiu? — Indagou nervoso, olhando em minha direção.
— Ah! Me desculpe! — Vesti o casaco rapidamente. — O-obrigada.
— Não foi nada. — Respondeu. Senti algo cair sobre minha cabeça. — U-use isso também. — Disse ele, meio relutante.
Ele havia jogado em mim o cachecol branco com listras que aparentavam escamas que usava.
— Vai me deixar usar isso? — Indaguei totalmente surpresa.
— Sim... — Suas bochechas novamente foram tomadas por um tom rubro.
Agarrei o cachecol. Era tão... Quente e cheiroso... Senti como se pudesse ficar o dia todo inspirando aquele cheiro.
— Lucy, está aí? — Indagou Erza, tirando-me de meus devaneios.
— S-sim!
— É melhor descermos. — Disse Natsu, passando à minha frente com outra blusa, de gola alta.
— É mesmo.
Erza estava esperando-me do lado de fora e, ao me ver, exclamou surpresa e chocada:
— Natsu lhe emprestou esse cachecol?
— Sim, por quê?
— É só que... Esse cachecol é um presente da mãe dele... É algo muito precioso para ele.
— Eh? Sério?
— Sim. Você...
— Eu?
— N-nada. Esqueça. Vamos logo! Teremos os próximos dias para esquiar!
— Jura?! Nunca esquiei antes! Parece tão divertido!
— E é. — Confirmou a ruiva.
Andamos algum tempo em silêncio até quando, enfim, Erza arranjou um assunto.
— Então Lucy... O que planeja para essas férias?
— É mesmo... As férias estão chegando! Tinha me esquecido!
— Não planejou nada?
— Na verdade sim... — Respondi envergonhada.
— O quê?
— Planejo arranjar um trabalho para ajudar com as despesas do meu apartamento.
— Hum... Interessante. E é... Só?
— Como assim?
— Só isso? Ficará livre a maior parte do tempo!
— Isso é verdade, mas vou utilizá-lo para ler e fazer os deveres.
— Entendo. Vamos falar de outra coisa...
Chegamos a uma enorme pousada. A madeira clara destacava-se em meio à imensidão branca. Entramos no local, que era estranhamente aquecido, o bastante para as pessoas andarem de regata. Erza, Natsu e eu pegamos autorização para esquiar, pois a maioria do pessoal estava lá e saímos em seguida.
Senti minhas bochechas esquentarem assim que o vento gélido as tocou.
— Então, você sabe esquiar? — Indagou Natsu, com um sorriso irônico que há muito não via.
— C-claro... Que não. — Murmurei envergonhada.
— Ora, não fique assim! — Exclamou passando seu braço por volta de meu pescoço. — Eu lhe ensino!
— E-eh? Você?
— Que grosseria! Pois saiba que eu sou um excelente esquiador!
— Você? Não me faça rir!
— Como é? — Indagou em tom ameaçador.
—Ué? Ficou irritadinho? Se for um esquiador tão bom assim, por que não demonstra? O seu palco está logo à frente!
— Pois irei lhe mostrar! — Respondeu orgulhoso.
Pegou seu equipamento e se ajeitou. Desceu um trecho da montanha tão rápido que meus olhos mal conseguiram acompanhar.
Subiu até onde estava com um sorriso orgulhoso e perguntou:
— E então?
Droga! Odeio admitir, mas ele era bom.
— Não foi tão bom assim. — Balbuciei com um bico.
— Como é? — Indagou brincalhão. — Pois você vai ver.
Ele começou a correr atrás de mim, que fugia dele entre as pessoas que ali estavam. Infelizmente minhas botas escorregaram e saí rolando monte abaixo, ouvindo a risada estridente de Natsu.
— Você está bem? — Indagou assim que me alcançou.
— Melhor impossível. — Respondi sarcástica. Ajudou-me a levantar, me deixando se apoiar nele. Balancei minha cabeça, jogando toda a neve que ali estava para longe — e em seu rosto.
— Obrigado — disse. — Gelo é minha sobremesa preferida.
— Que bom.
— Certo! — Exclamou animado. — Pronta para suas aulas particulares?
Suspirei dramaticamente, fingindo que aquilo era a pior coisa do mundo.
— Claro. — Sorri.
Subimos até um trecho que não havia ninguém. Natsu ensinou-me a colocar o equipamento e logo iniciamos a aula prática.
— Certo... Você tem que segurar bem, entendeu? — Ordenou, referindo-se às fixações.
— S-sim.
— Segure firme! — Avisou, começando a me largar. — E... Já!
Soltou meus ombros que segurava anteriormente e deslizei pelo chão branco, sentindo o vento de encontro ao meu rosto.
— Isso é incrível! — Exclamei, amando a sensação nova. Observei uma árvore aparecer em minha faixa de visão. — Natsu! — Chamei. — Como paro isso?
— O quê? — Perguntou, ao longe.
— C-como para isso? — Berrei.
Novamente ele não me ouviu.
— COMO PARO?
Tarde demais.
Árvore 1 × 0 Lucy
Natsu correu até mim a toda velocidade, ajudando-me a se levantar em meio à neve que caiu da árvore.
— Você está bem? — Indagou, segurando o riso.
— O que você acha? — Rosnei. Ele não aguentou mais e começou a rir. — Não ria!
— Você é incrível, sabia? Aposto que a árvore teria se partido ao meio, se não houvesse tentado desviar.
— O que está insinuando?
— Que você é cabeça dura.
Lancei lhe um olhar irritado.
— Ora vamos, Lucy! Tente ser positiva!
— Como alguém pode ser positivo com uma situação dessas?
— Querendo ou não, foi engraçado. — Afirmou. — Consegue ficar de pé?
Tentei, mas quase caí em seguida. Tive sorte de Natsu estar lá para me pegar, caso contrário estaria com o rosto totalmente entregue a neve acumulada.
— Vou ter que te carregar de novo? — Indagou, já fazendo o que disse.
— E-eu não pedi para fazer isso! — Reclamei. — Além do mais, se o está fazendo, é simplesmente porque quer, seu...
Ele puxou o cachecol para cima do meu rosto, calando-me.
— Fique quietinha, Heartfilia. — Sussurrou.
Relutante, o obedeci.
Chegamos à instalação novamente e o rosado sentou-me em um banco enquanto pegava as chaves para nosso aposento. Apoiei-me em seu braço forte, mancando em direção a ele.
Ao entrar, percebi que Mira e Erza estavam na cozinha, e um forte cheiro de chocolate invadia o quarto.
— Chegamos. — Murmurou Natsu.
— Ah! Que bom que chegaram, querem... Meu Deus! Lucy, o que houve? — Indagou Mira, olhando-me preocupada.
— Ela quase partiu uma árvore em duas. — Zoou o rosado, após me deixar nos braços de Mira.
— Lucy... Você e a natureza não se entendem bem, não é? — Riu Mirajane.
— Acho que não é isso. — Observou Natsu, assim que voltou da cozinha com uma caneca. — Ela simplesmente é um imã para problemas.
— Que grosseria! — Exclamei. — Pois saiba você que tudo isso começou depois que lhe conheci!
— Querendo por a culpa em outra pessoa? Que coisa feia! — Bronqueou, brincalhão.
— Seu...!
— Lucy, fique quieta! Sua testa está sangrando! — Observou Mira, voltando com um estojo de emergência nas mãos.
Ela fez um rápido curativo e me mandou para o banho. Quando saí, era tarde o suficiente para ter que colocar o pijama.
Erza, Mira e eu decidimos passar o resto da noite conversando, enquanto o senhor super mafioso (ironia) decidiu não se meter nos “assuntos de garotas”, como o próprio chamou.
A certo ponto da conversa resolvi aproveitar-me do clima de confissão e indaguei:
— Então, hum... Erza... Com quem se encontrou tanto na primeira semana que cheguei à Magnolia?
Ela corou quase que imediatamente.
— C-com ninguém em especial.
— Hum... Então por que está tão desconfortável?
— P-por nada...
— He... — Murmurou Mira, fazendo-se presente. — Continuam nesse rola não rola, Erza?
— N-não... Vocês estão enganadas.
— Quem, Mira? — perguntei, tomada pela curiosidade.
— Jellal Fernandes! — Exclamou ela, fazendo Erza corar mais ainda só com a menção ao nome. — Ele é um estudante prodígio, mas pouco visto. Ele e Erza são amigos de infância e desde pequenos tem esse “caso”.
— Mi-Mira...
— Ele é bem bonito, Lucy. Ficaria impressionada se o visse.
— Hee... — murmurei. Bem, para alguém como Erza, só poderia ser alguém perfeito.
— C-cala a boca, Mira! — Rugiu a ruiva. — E você? Como andam as coisas com Laxus?
— I-isso...
— EEEEEEEEH? Mira e Laxus... Espera! Esse Laxus não seria...
— Sim. — Confirmou Erza. — Nosso querido, ou nem tanto, professor.
— Erza...!
— Isso não é crime? — Indagou Natsu, por baixo dos edredons de sua cama.
— Não quero que um mafioso me dê lição de moral! — Respondeu a albina.
— E você, Lucy? — Perguntou Erza. — Não tem ninguém que tenha despertado seu interesse?
— Hum... — Parei para pensar. Sting? Ele era um fofo, mas acho que não... Gray? Estaria louca se o fizesse, pois Juvia me partiria em duas. Elfman? Nem pensar! Loki? Bem... Não consigo entendê-lo. Fora o fato que ele aparece e desaparece do nada. Quem mais? Por alguns instantes, deixei meus olhos vagarem até onde Natsu se encontrava. Não... Não é mesmo? Parece impossível. — Não, ninguém.
— Eh? Sério?
— Sim!
— Por falar nisso... Você já teve algum namorado, Lucy? — Indagou Mira.
Senti como se houvesse se formado certa tensão no ar. Estava incrivelmente consciente de que Natsu havia se mexido sob o edredom quando Mira lançou a pergunta. Deixei minha mente vagar até as memórias de algum tempo atrás e respondi:
— Na verdade, sim.
— Eh? — Exclamaram as duas.
— Houve alguém louco o bastante para isso? — Natsu havia desistido completamente de tentar pegar no sono. Lancei lhe um olhar zangado.
— Não diga isso!
— E como ele era Lucy? — Indagou a ruiva, chamando minha atenção.
— Ele era muito gentil. — Não pude evitar de deixar um sorriso doce sair por meus lábios. — Era carinhoso e bondoso, sempre cuidou de mim... Era alguém... Como posso dizer...Especial.
— Incrível! — Exclamou Erza.
— E por que terminaram? — Perguntou Mirajane.
— Porque ficaria difícil manter o relacionamento a essa distância. — Expliquei.
— Só por causa disso?
— Exato.
— Hoo... — Murmurou Natsu, voltando a se cobrir. — Realmente existe louco para tudo.
— Não diga isso! — Repeti nervosa.
— E você ainda pensa nele?
— Bem... De vez em quando sinto falta dele. De seus abraços e de sua voz... Era reconfortante.
— Quer conforto? Abrace um travesseiro. — Ironizou Natsu, com a voz abafada.
— Você é mesmo...!
— É melhor irmos dormir! — Exclamou Mira, indo até o interruptor. Com um último olhar nervoso, fui até minha cama e me cobri.
Qual era a do Natsu? Ele não consegue ler o clima? Ou sempre tem que deixá-lo desagradável?
Ele é mesmo um idiota.
Lentamente, acompanhando os flocos de neve que caiam calmamente, adormeci.
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