Meu Estranho Mafioso
23 Vinte e um.
LEVY RIU.
— Natsu-kun, está com um pouco de creme bem aqui. — Apontou um ponto qualquer no próprio rosto e revirei meus olhos. Estávamos todos sentados em uma mesinha de uma das enormes varandas da mansão Dragneel. Aries havia se juntado a nós e mandado Virgo preparar um chá, mesmo que seja de noite...
— Ah! Obrigado. — Agradeceu em toda sua educação, tentando tirar o pouco do creme de seu bolinho que ficara grudado em sua bochecha.
Ele infelizmente não conseguiu achar o local e Levy riu novamente.
— Eu tiro para você. — Ofereceu-se inclinando sobre mim, que estava no meio dos dois. — Lu-chan, você se importa?
— Nem um pouco. — Respondi azeda.
Ela e Natsu lançaram-me olhares surpresos.
— C-certo. — Estendeu-se um pouco mais, limpando o dito cujo.
— Obrigado.
— Não foi nada. — Sorriu para ele, que retribuiu o gesto.
— Por quanto tempo vai ficar em cima de mim, Levy-chan? — Interrompi.
— Ah! Foi mal! — Ajeitou-se novamente na cadeira. — Então, Lu-chan... Pode começar a me explicar a situação?
Tomei mais um gole do meu chá.
— Claro... — Suspirei. — Tudo começou quando me mudei para Magnolia, Levy-chan.
— Certo. — Meneou a cabeça em um aceno, mostrando que prestava atenção em minha explicação.
— Bem, no meu primeiro dia de aula, esbarrei nesse estúpido ao meu lado... — Apontei para Natsu. — E depois disso ele começou a me torrar a paciência todo dia, basicamente. — Dei outro gole em minha xícara.
— Quem é estúpido? — Enervou-se o rosado.
— Incrivelmente, depois de ser alvo de um assassino... — Continuei, ignorando-o. — Descobri que esse ser aqui é líder da máfia do país!
Encarou-me chocada.
— Ah! Meu Deus! — Gritou, e logo me abraçou.
— Levy-chan?
— Lu-chan, você não se machucou? — Indagou desesperada.
— Eh?
— Ser alvo de um assassino... Que coisa terrível! O que direi ao seu pai?
— É com isso que ficou surpresa? Não precisa dizer nada. Estou viva, não estou?
— Mas... Lu-chan!
— Levy-chan, já disse que está tudo bem. E o que acha que meu pai faria se ficasse sabendo a respeito disso?
Afastou-se hesitante, ficando cabisbaixa.
— Ele... Provavelmente lhe levaria embora.
— Exato. — Confirmei, mas não pude deixar de notar Natsu e Aries surpresos. — É exatamente o que ele faria.
— Mesmo assim, Lu-chan! Deixá-lo ficar sem saber de algo tão importante...
— Está tudo bem. — Afirmei calma. — Afinal, tenho esse idiota aqui para me proteger.
Encarou-me fixamente, enquanto Natsu ficada cada vez mais surpreso e Aries deixava escapar um sorriso.
Certo... Acho que isso foi uma prova a Natsu que eu confiava nele. Mas do jeito que ele é...
Espero que tenha captado, Natsu.
Eu confio em você.
Finalmente, diga-se de passagem.
Pigarreei.
— Continuando... — Disse. — Depois de superar o choque da descoberta tentei me afastar um pouco de Natsu, porém isso pareceu meio impossível... De qualquer forma, o destino decidiu em nos colocar no caminho um do outro. Foi assim quando me atrasei para a escola, quando tivemos uma excursão escolar às montanhas Sakura e ao monte Hakobe... E então, o aniversário de Natsu se aproximou...
— E por causa da situação tive que lhe pedir algo bem... excêntrico. — Intrometeu-se o rosado.
— Exato. — Concordei bebericando mais um pouco de chá. — E esse pedido, cara Levy-chan... Foi que eu fingisse ser sua namorada.
— Entendo... — Murmurou a azulada. — Porém realmente pensei que vocês estavam namorando, Lu-chan.
— Não brinque com isso, Levy-chan. — Debochei. — Quem iria querer namorar o Natsu?
— Oe! — Berrou o dito cujo. — Luce! Você está sendo rude! Caso lhe interesse, há milhões de garotas que adorariam sair comigo. — Inflou o peito em um gesto convencido.
— E eu acho que elas adorariam ir ao médico também.
Encaramo-nos com raiva.
— Hum... — Balbuciou Levy, como se tivesse entendido algo. Lançou um olhar sugestivo na direção de Aries, que acenou positivamente. — Então é isso...
— Sim... — Afirmei meio confusa. O que foi esse gesto entre as duas?
— Bem, se esse é o caso não tem problema nenhum. — Levantou-se.
— Levy-chan?
— Não se preocupe, Lu-chan. Não direi nada ao seu pai. — Sorriu.
— Levy-chan! — Exclamei admirada. Essa era a minha melhor amiga!
— Também... — Continuou.
— Também? — Repetiram Aries e Natsu.
— Não direi nada a... Você sabe... ele.
Arregalei meus olhos.
Nem ele? Levy-chan parecia muito disposta a guardar segredo...
— E então? Onde vou ficar?
— Ah... Espere um pouco, Levy-chan! — Chamei. — V-você não está nem um pouco surpresa com o fato de... Vejamos... O Natsu ser um mafioso? O líder, ainda por cima!
— Calma, amorzinho. — Disse Natsu, apoiando seu braço em meus ombros. — Não precisa se gabar tanto de mim.
Dei-lhe um cotovelada no estômago.
— O que espera que eu faça, Lu-chan? — Indagou. — Não vou sair correndo gritando desesperadamente. Você sabe que não sou assim.
— É verdade... — Lembrei.
— Além disso, já sabia sobre Natsu Dragneel.
— O quê? — Choquei-me. — C-c-como você...?
— Por isso — remexeu um pouco em sua bolsa em busca de algo. Por fim mostrou-me uma revista. Na capa havia uma imagem de Natsu. Ele trajava um terno negro e jogava a parte superior pelo ombro, olhando ligeiramente para um canto qualquer. Devo admitir que ele estava... bonito.
Não, minto. Ele estava excepcionalmente lindo.
Folheei as páginas até achar a matéria com esse ser.
— Cinquenta maneiras de se conquistar Natsu Dragneel?! — Exclamei ao ver o título da matéria.
— Wah! Ainda existe um exemplar dessa revista? — Surpreendeu-se Aries. — Pensei que tinham sido dizimadas assim que chegaram às bancas.
— Sério? — Indaguei descrente.
— Eu disse que existiam milhões de garotas que se descabelam por mim. — Afirmou Natsu.
— Tem louco para tudo...
— Está bem animadinha para me avacalhar hoje, não está?
— Mas estou surpresa de você não saber dessa revista, Lu-chan. — Observou Levy. — É da época em que você chegou à Magnolia.
— Sério? Pensando bem... Acho que ignorei totalmente as revistas desde que cheguei aqui...
— Você acha? — O rosado elevou uma sobrancelha.
— Isso é estranho. Você adorava estar por dentro do que acontecia. — Lembrou-me a azulada. — Com o que gastou seu aluguel nas primeiras semanas que esteve aqui?
Senti minhas bochechas arderem.
— Na-nada de mais... — Gaguejei.
— Lu-chaaan... — Chamou-me em tom inquisitivo.
— Ga-gastei com... melon pan, e outras coisas... — Admiti envergonhada.
— Sério, Lu-chan! Aí está a velha viciada em melon pan!
— Ela sempre teve esse hábito? — Perguntou Natsu.
— Sim! Desde que éramos crianças.
— Mas é uma delícia!
— Sem “mas”, Lu-chan! — Ralhou.
— Como posso dizer isso... Ela... parece uma mãe, Luce.
— É. — Concordei com o rosado, enquanto Levy começava um longo discurso a respeito das minhas manias e vícios.
✩✩✩
— Ah... Isso foi cansativo... — Exclamei para mim mesma, enquanto caminhava pelo corredor silencioso.
No final, Levy teve um quarto reservado só para ela e Gajeel ficou responsável de mostrá-la o caminho.
Espreguicei-me preguiçosamente.
— E então? — Ouvi uma voz vindo pelo corredor do meu quarto. Pelo visto, era Gajeel quem falava algo.
— E então o quê? — Essa voz... Aries?!
— Não se faça de desentendida. Sabe muito bem o que estou falando. — Pude notar um tom de sarcasmo em sua voz. — O que ela está planejando?
— Ora! — Aries ficou surpresa. Sem perceber direito, encostei-me na parede e fiquei ouvindo sua conversa. — Ainda se lembra dela? Pensei que todos haviam esquecido de sua presença.
— Não brinque com isso, Aries. — Gajeel soltou um sorriso debochado. — Como poderíamos esquecê-la, quando ela é...
— Entendi, Gajeel — interrompeu. Ela? Quem era “ela”? Natsu também havia falado algo a respeito dela... — Mas por que acha que ela está aprontando algo?
— E não está? Impossível.
— E mesmo se estivesse... — Ignorou-o. — Por que isso lhe interessaria?
— Porque o apartamento da loirinha foi invadido e algumas semanas depois incendiado.
— Poderia ser... você está interessado nela? — Aries aparentemente se animou.
Senti um arrepio percorrer-me.
Gajeel... interessado em mim? Impossível! Impensável!
— Não brinque com isso! — Exclamou, de repente irritado. — Pode parecer, porém não quero que a “namorada” daquele tapado se machuque!
Gajeel...
— Hum... — Murmurou a rosada. — No final, não interessa o que ela planeja. — Afirmou, jogando uma mecha de seu cabelo. — Sabemos que quando ela quer algo, consegue.
Ouvi passos em direção contrária a onde me encontrava.
— Então vai ser assim? — Balbuciou Gajeel, talvez para si mesmo. E em seguida a seguiu.
Apoiei meu rosto em meu indicador.
Afinal... quem era ela?
Suspirei, desistindo de pensar nisso no momento. Fui até meu quarto e entrei no local.
Soltei outro suspiro desanimado.
O que estavam escondendo de mim?
Resolvi olhar o céu, que há muito não via. Fui até a sacada e me surpreendi. O céu estava incrivelmente belo e me trouxe a lembrança dos fogos de artifícios do festival, que me trouxeram a lembrança... do beijo que Natsu me deu.
Senti minhas bochechas arderem levemente só com a lembrança.
— O que está fazendo? — Indagou Natsu, assustando-me.
— Ah! — Quase gritei. — Desde quando está aí?
— Cheguei agora. — Encostou-se na sacada da outra varanda. Abaixo de nós as árvores mexiam-se levemente com o movimento do vento.
— O que está fazendo aí?
— Não posso ficar na varanda do meu quarto?
— S-s-s-s-seu quarto? — Indaguei embasbacada.
— Vai me dizer que esteve esse tempo todo dormindo no quarto ao lado do meu e não percebeu?
— É-é....
Suspirou.
— Claro. É a estranha da Lucy, afinal. — Virou-se de costas e observou o céu. — É uma noite linda.
— Realmente... — Observei-lhe. Seu cabelos parecia mais macio que o normal, e — talvez por causa do céu — parecia de certo modo brilhar, assim como seus olhos, atraindo-me. — É realmente... lindo. — Disse sem pensar direito.
Sorriu.
— Me faz lembrar daquela noite...
— Daquela noite? — Perguntei confusa.
— É. — Voltou a me olhar. — Você sabe, do meu aniver... — Corou. — Esqueça!
Ah...
Não pude evitar de corar fortemente também.
Ele estava falando do nosso quase primeiro beijo.
Aquele que Meredy interrompeu.
— Er... — Comecei, depois de um tempo em silêncio. — Natsu...
— O-oi?
— Hã... Como estão indo as investigações?
Arqueou uma sobrancelha.
— Investigação?
— De quem invadiu meu apartamento!
— Ah! Essa investigação.
— Vai me dizer que nem começou a procurar pelo culpado?
— Não. Começamos sim, mas...
— Mas?
— Isso não importa agora.
— Como assim “isso não importa agora”? É claro que importa!
— Sério? Achei que encontrar a pessoa que incendiou a pensão fosse mais importante. Sabia que pode haver vítimas? Pessoas que estavam em seus apartamentos na hora que tudo começou?
— Ah! É... mesmo. Me desculpe.
Suspirou fortemente.
— Tudo bem. Já que estamos falando de assuntos desagradáveis, como está... hã... você sabe. Está se medicando direito? Depois daquilo que rolou com o Sting.
Sorri tristemente.
Fora eu que começara com assuntos desagradáveis, certo?
— Estou... embora minha cartilha de pílulas esteja acabando.
— Que bom. — Afirmou.
O silêncio brotou novamente.
— Natsu? — Chamei novamente.
— Pois não?
— Quem é ela?
Um sorriso brotou em seus lábios.
— Não tem nenhum palpite?
— Nenhum. — Confirmei.
Riu.
— O que é tão engraçado? — Indaguei, já enervando-me.
— Nada. Vai descobrir no momento certo, Luce.
— E quando vai ser o momento certo?
— Não sei. Apenas espere. As sementes só estão brotando agora, Luce.
—... O que isso quer dizer?
— Tente descobrir sozinha.
Bufei e ele riu.
— Poderia pelo menos me dar uma dica.
— A paciência é a mãe de tudo, Luce. Com o passar do tempo, as árvores crescem. As árvores são como a “sabedoria” das pessoas. Você deve saber cuidar dela, pois o excesso de informações só a danificaria. Por isso, tudo vêm ao seu tempo.
Lancei-lhe um olhar ainda mais confuso.
Sorriu.
— Boa noite, Luce. — Pegou algo do vaso de flores ao seu lado e jogou para mim.
Uma... rosa.
Levantei a cabeça para agradecê-lo, entretanto já havia entrado em seu quarto.
— Que idiota. — Murmurei, sentindo minhas bochechas arderem fracamente. — Árvores... O que foi isso? Mas... — Cheirei a rosa. Tinha um pouco de seu perfume cítrico. — Acho que ele está certo. Tudo vem ao seu tempo. Esperarei, Natsu. — Não tinha certeza se ele podia me ouvir. Provavelmente não.
No entanto, mesmo que estivesse certo, uma hora a paciência se esgota. Até quando planeja que espere para me contar a verdade?
Suspirei.
Esperar...
Eu o faria... Entretanto, não para sempre.
Dirigi-me para minha cama assim que fiz as higienes básicas. Coloquei a rosa em um frasco vazio que achei. E naquela noite — talvez por causa da rosa — sonhei com Natsu.
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