Meu Estranho Mafioso

65 Cinquenta e três.


[...]

— A Ojou não pode ir atrás dele, porém imagino que ela não será capaz de se controlar uma vez que o ver.

— O que quer dizer com isso? — perguntei.

Ele arqueou uma sobrancelha e lembrei-me da desculpa de Sting. Tarde demais.

— Quer que conte para você? — ele se aproximou e senti um calafrio percorrer-me. Aqueles olhos... Já havia me encontrado com eles antes. Tentei afastar-me dele indo mais para o centro da cama. — O que foi, Heartfilia? Não quer saber a verdade? — Ele subiu na cama e segurou meu tornozelo. — Então terá que pagar um preço para isso...

Tentei desvencilhar-me, entretanto ele era mais forte do que eu.

Natsu, por favor.... Apresse-se.

O QUE ACABEI de pensar? “Natsu, por favor, apresse-se?”

— Ficou silenciosa do nada... — Rufus estranhou. — Você talvez tenha se tocado que lutar é inútil? — sorriu. — Ou então foram as lembranças de quando Sting fez o mesmo com você? — ignorei a pontada que aquelas palavras causaram em meu coração. Foquei o olhar no meu colo, observando Rufus aproximar-se cada vez mais. Ri. — Hum?! Você quer isso, Heartfilia? É deveras interessante!

— Sabe o que é, Rufus? — perguntei, olhando-o diretamente nos olhos, o que o fez afastar-se um pouco surpreso. — É que sou tão patética, dependendo de Natsu ou qualquer outro para me salvar. No entanto... não mais.

— O quê? — indagou, arqueando uma sobrancelha. Aproveitei-me dessa distração e estendi minha perna, acertando diretamente seu estômago. — Sua...! — rosnou, estendendo a mão e tentando me alcançar.

Rolei na cama e caí no chão, correndo até a pequena cômoda encostada na parede. Antes que tivesse a chance de concluir meu plano, Rufus enlaçou meu corpo de modo que não pudesse mexer no braços. Pude sentir suas respiração quente e ofegante em minha orelha. Sorri. Acho que agora entendia aquelas explicações. Finquei meu calcanhar em seu pé com toda a força que me era permitida, fazendo-o me soltar e dar alguns passos para trás. Aproveitei-me dessa chance e acertei um chute em sua região íntima.

O Lohr caiu de joelhos, gemendo de dor.

— Isso não vai ficar assim, Heartfilia — rosnou entredentes. — Acha que vai conseguir me derrubar com apenas um simples chute?

Ignorei-o momentaneamente, pegando o vaso de flores em cima da cômoda e quebrando-o em sua cabeça, o que levou-o à inconsciência.

— Não é questão de achar, Rufus — disse, mesmo sabendo que não ouvia. — É questão de saber. Afinal, se tem uma coisa que tenho confiança, é no meu Lucy Kick.

Ele não se mexia e podia perceber alguns fios loiros sendo tingidos de vermelho. Não me preocupei com a possibilidade de matá-lo. Era o assassino de Gray! Mesmo se minha consciência pesasse pelo resto de minha vida, Rufus havia recebido um pouco do que merecia.

Olhei ao redor do quarto. Precisava de alguma coisa para me defender assim que saísse por aquelas portas. Não poderia contar apenas com o pouco de defesa física que Gray e Sting ensinaram-me.

Meu olhar recaiu sobre a arma presa ao cinto de Rufus. Não deveria... Mas precisava.

Temerosa, abaixe-me e tentei soltar o revólver do cinto. Tive um pouco de dificuldade, porém consegui soltá-la. Foi nesse momento que a porta do quarto abriu com um estrondo, fazendo-me largar a arma.

Virei-me assustada, temendo quem poderia ter entrado. Um enorme e aliviado sorriso tomou minha face. Ele estava aqui.

— Natsu! — exclamei feliz, correndo até ele. Lisanna e Loki entraram logo depois. Estranhei o fato de Lisanna estar ali, entretanto isso era algo a se ignorar naquele momento.

— Lucy, fico feliz por ver que está bem! Ou quase isso — a albina disse após checar as condições de meu corpo. Pude notar Natsu olhar em minha direção, e seu rosto pareceu escurecer de repente. Natsu...?

— Olha, sei que é um momento legal e tudo mais — Loki fez-se presente —, mas será que poderia me explicar o que aconteceu aqui?

Olhei para onde ele apontava. Rufus parecia ter voltado à consciência, pois choramingava de dor alto o bastante para o ouvirmos.

— Ah, isso! — senti minhas bochechas arderem um pouco. Estava empolgava em dizer para Natsu o quanto evoluí em meu pensamento sobre ser namorada de um mafioso. — É só que... — comecei, entretanto fui impedida por Sting, que entrou no quarto quase arrebentando a porta.

— LUCY! — berrou, quase estourando meus tímpanos. Seu rosto estava desesperado, porém sua expressão alterou-se ao ver Natsu e os outros. — Que alívio, eles chegaram a tempo...

— O quê? — Natsu indagou. Tentei observar seu movimento corporal, afinal essa era a primeira vez que o Dragneel via o Eucliffe depois daquele acontecimento. Pelo menos, eu achava que era.

“Mesmo que trabalhe para a Sabertooth, ainda estou sob o nome Dragneel, sabia?”; as palavras de Sting voltaram a minha mente.

— Não pense que as coisas ficarão assim, Heartfilia... — Rufus voltou a repetir, atraindo minha atenção. Antes que pudesse registar direito, ele já havia disparado a arma. Vi o momento como se fosse em câmera lenta. Sting e Natsu viraram-se para mim, entretanto o loiro chegou mais rápido e atirou-se no chão enquanto me abraçava. Ouvi-o gemer de dor e notei o furo em sua calça. Uma enorme mancha escura estava aparecendo ali.

Ele levara um tiro para me proteger...

— Droga! — ouvi Loki praguejar, sacando sua arma e apontando para o Lohr. — Vão! Ficarei aqui e darei um jeito nele.

Lisanna posicionou-se ao lado dele e, confiante, afirmou:

— Eu também.

Encarei-a, preocupada. A albina parecia deslocada ali — além de parecer desconfortável em estar naquele quarto.

— Tem certeza? — perguntei.

— Tenho alguns assuntos para tratar aqui — respondeu-me com um sorriso triste que raramente havia visto em seu rosto.

Abri minha boca para tentar convencê-la o contrário, no entanto Natsu agarrou meu braço e puxou-me bruscamente em direção à saída. Sting ainda me abraçava, soltanto murmúrios por conta do tiro na coxa. Não poderia deixá-lo ali. Ele ia me ajudar a fugir... Não pensei duas vezes antes de prender meu braço ao dele e arrastá-lo junto.

Natsu ajudou-me a apoiá-lo e corremos o mais rápido que nos era permitido, cruzando — sob instruções de Sting — os corredores que levavam a caminhos por mim desconhecidos. Acabamos entrando em um corredor que me pareceu familiar, e minha expressão anuviou-se ao perceber que fora ali que vi Gray pela última vez. Um enorme nó formou-se em minha garganta, grande o bastante para atrapalhar minha respiração. Tentei respirar fundo e ganhar coragem para contar para Natsu, porém era difícil fazer isso enquanto corria e carregava alguém. Mesmo assim, tentei:

— Natsu... — comecei, notando minha voz falhar somente na tentativa de dizer seu nome. — Eu... Gray... Ele...

— Não preciso saber disso agora — interrompeu-me, a voz parecendo uma lasca de gelo, tão fria e cruel como estava. Arregalei os olhos por causa disso. Em seguida os cerrei, tristemente sabendo que, por mais que Gray houvesse sido importante para mim, era alguém ainda mais significativo para Natsu.

Sting observava-me, as sobrancelhas envergando-se em algo que não soube interpretar. Pena. Tristeza. Tanto faz.

— Vire à esquerda e chegaremos ao hall de entrada — instruiu o loiro, como que para mudar o assunto. O obedecemos e chegámos em uma espaçosa sala, aonde claramente dava para se ver ser o hall aonde os convidados eram recebidos. Do outro lado, haviam portas duplas que rapidamente entendi serem a nossa saída dali, mas havia algo estranho. Não havia ninguém para impedir nossa saída.

— Não gosto disso. É suspeito demais não ter ninguém — balbuciei, minhas palavras chegando a ecoar pelo local vazio.

Pude notar Natsu inclinar-se um pouco para frente e dobrei minha atenção. Ele havia percebido algo. Logo entendi o quê. Podia ser baixo, porém dava para se ouvir passos vindo em nossa direção. Um tremor atravessou meu corpo ao ver Minerva atravessar um dos arcos e posicionar-se em frente das portas que nos dariam liberdade.

— Dragneel — chamou, e notei que Natsu a observava com os lábios tremendo, como se achasse algo estranhamente engraçado. Quis perguntar qual o problema, mas Minerva continuou o que havia começado a dizer: — Finalmente chegou esse momento, não? Temos coisas para resolver.

— Não pensei que a veria tão cedo, Minerva. — Natsu murmurou, soltando o braço de Sting e fazendo o peso do loiro cair todo sobre mim. Forcei minha perna, caso contrário o Eucliffe e eu estaríamos estatelados no chão.

A morena deu de ombros, nem ao menos dando um passo para longe da porta.

— Penso que já tive que esconder-me tempo o suficiente, não? Sabe, realmente fiquei surpresa quando soube de seu novo interesse romântico — o olhar dela recaiu sobre mim e Sting. — Acho interessante o fato de ela estar agarrada com alguém que a estuprou no passado e você nem ligar para isso. Aliás, Sting... — pude sentir o corpo de Sting retesar-se ao ouvir seu nome. — Que grande decepção, pegá-lo me traindo assim... Tsc, tsc. Pensei que ligava mais para seu irmão.

— Eu...! — Sting exclamou, calando-se em seguida.

— Não é como se pudesse dizer essas coisas de consciência limpa — o rosado voltou a falar. — Mesmo que queira arrebentar Sting apenas de vê-lo perto de Lucy, reconheço que esse estúpido fez mais do que o necessário para encontrar seu irmão.

— Você entende como ele se sente, não é? — sorriu cínica. — Afinal, também perdeu seu irmão. Mas, ao contário de Sting, você poderia ter impedido. Por que não impediu, Natsu? Por quê?

Do que eles estavam falando? Minerva sabia algo a respeito de Zeref? Pela expressão de Natsu ao ouvir aquelas palavras, com toda certeza.

— Sabe mexer em assuntos que não devia e nem lhe dizem ao respeito — respondeu ele, e jurei ter ouvido um tom de choro e dor em sua voz.

— Como? Não me diz respeito? — ela soltou um riso desacreditado, seu rosto transformando-se em pura fúria. — É claro que me diz respeito! Se não fosse por você... Ele... Ele... Se não fosse por você, Zeref ainda estaria vivo!

O que ela queria dizer com isso? Natsu...

Quando olhei para seu rosto, fiquei surpresa ao constatar o olhar dolorido que ele demonstrava.

— Ojou, você sabe que isso... — Sting tentou intervir.

— CALADO, TRAÍDOR! — gritou ela, apontando uma arma em nossa direção e disparando. Natsu empurrou o loiro para o lado, automaticamente empurrando-me também e virou sua Desert Eagle — era esse o nome daquela arma? Fazia tanto tempo desde que Gray me ensinara... — para a morena.

— Tire Lucy daqui, Sting! — Natsu rosnou, mal olhando em nossa direção. — As coisas vão ficar complicadas, leve-a daqui!

— Não vou deixar você para trás! — exclamei.

— Cena comovente — balbuciou Minerva. — Pena que não tenho mais paciência para você, Heartfilia. — Mirou em mim; entretanto abaixou-se, pois Natsu havia atirado nela. Ela olhou para trás, vendo o estrago feito na porta e Eucliffe aproveitou esse momento para puxar meu braço e arrastar-me para longe dali.

— O que está fazendo, Sting? Não podemos deixar Natsu lá! — de onde tirava tanta força para me arrastar com a perna dele sangrando daquele jeito?

— E como acha que pode ajudar? — ele perdeu a paciência e apertou meus ombros, forte o suficiente para machucar.

— Ai! — reclamei.

— Pensei que tinha percebido sua condição, por isso a ajudei. Lucy, você não tem como ajudá-lo, e Natsu sabe se cuidar nesse tipo de situação.

Ele piscou os olhos, como se tentasse me focar e cambaleou até chocar-se contra a parede.

— Sting! — corri até ele. — O que foi?

— Preciso tirar... você daqui... — balbuciou com a voz ofegante. Só então percebi que ele estava pior do que imaginara. — Droga... Minha adrenalina está caindo rápido demais...

Forçou-se a levantar e voltou a puxar minha mão, seu toque tão leve dessa vez que, se desse um mízero puxão, soltaria-me facilmente.

— Por aqui — indicou-me uma direção e adrentamos uma enorme cozinha. Corremos por um corredor estreito lotado de panelas e utensílios de cozinha até encontrarmos uma porta de madeira. O loiro praticamente arrebentou-a, nos levando a um enorme e verdejante jardim.

— Você está bem? — questionei, mais preocupada com a condição dele do que com minha fuga. Ele suava muito e seus olhos estavam tão cerrados que quase fechavam.

— Se atravessar esse bosque — murmurou com a voz entrecortada — sairá na avenida. — instruiu. — Peça uma carona para o primeiro carro que passar.

— Está me zoando? Não posso deixar você nesse estado! — ele não aguentou mais o próprio peso e caiu no chão. — Ei! Aguente firme! Tenho que... que... — quais eram as medidas de primeiros socorros mesmo? — Estancar o sangramento! Isso!

Eucliffe afastou minhas mãos delicadamente.

— Por favor, Lucy... Vá! Vou ficar bem...

— Quer mesmo que acredite nisso?! — exclamei, ouvindo o pânico em minha voz.

Ele sorriu fracamente.

— Não deveria se preocupar comigo... Só estou recebendo o que merecia pelo o que fiz com você e Lisanna...

— Isso quem decide somos Lisanna e eu! — respondi, abraçando seu corpo e notando com um choque que estava frio.

— Você realmente é bondosa... — fincou seus olhos azuis nos meus. — Lucy, eu queria dizer...

Um barulho nos assustou e nos vimos cercados por outros capangas de Minerva.

— Droga! — aproximei-me mais de Sting, querendo protegê-lo.

— Lucy, vá!

— Não! — neguei.

Um assobio alto soou atrás de mim, fazendo-me arrepiar. Do outro lado do jardim, um rosnado reverberou até meus ouvidos.

Os capangas de Minerva afastaram-se, assombrados. Uma figura correu em nossa direção e suspirei aliviada ao conseguir distingui-la e perceber que era apenas Lector. O cão ruivo posicionou-se em nossa frente protetoramente.

— Vou ficar bem... — a voz de Sting parecia cada vez mais fraca. — Então, por favor...

— Tudo bem — acenei com a cabeça. Levantei-me, lançando uma última olhada para a cena de Sting e Lector rodeados.

Com lágrimas nos olhos, virei as costas, adentrando o bosque que me livraria dali.

[DS → Loki]

— Você melhorou suas habilidades, Loki! — elogiou Rufus, tentando desferir um golpe com a espada em mim. Brandi a minha, desviando o golpe dele com destreza e tentando acertá-lo. O loiro saltou para trás, ficando longe do alcance de minha lâmina.

E pensar que Minerva mantinha espadas penduradas na parede do corredor... Adentramos novamente o quarto em que Lucy fora mantida cativa.

— Age como se sempre tivéssemos sido amigos — reclamei. A intimidade com que Rufus conversava me irritava.

— Um amigo de Gray é meu amigo, afinal de contas.

— Conta outra — bufei. — Conhecendo Minerva como conheço, sei muito bem que mandou-o assassinar Gray.

— Não está enganado — confirmou, observando minha posição. Um descuido e um de nós já era. — A Ojou realmente é tão previsível assim?

— Quando se cresce sendo amigo dela, não é tão difícil assim — senti um amargo em minha boca. Minerva e eu nunca fomos amigos, para ser honesto. Ela era noiva de Zeref, por isso sempre estava em Magnolia quando éramos mais novos. Na verdade, costumávamos brigar bastante, pois ela tinha uma implicância descomunal com Lisanna — naquela época, todo mundo achava que a Strauss gostava de Zeref, embora tivesse uma queda mesmo era por Natsu.

Seu ódio pela albina era tanto que até chegou a prendê-la no quarto de brinquedos, o mesmo em que prendeu Lucy. Demoramos horas para encontrá-la, e Lisanna teve que fazer terapia por anos por conta disto...

Realmente, a vida de quem rodeia Natsu não é fácil...

— Vejo uma abertura! — Rufus berrou, correndo em minha direção e retirando-me de meu devaneio. Com um movimento abrupto, desviei dele, entretanto não rápido o bastante. A ponta da lâmina rasgou um trecho da minha bochecha.

Girei meu braço com toda a força que me era permitida, acertando o braço com que segurava o objeto. Lohr largou-a e soltou um grito de dor, e aproveitei-me dessa chance para mirar em seu pescoço. A cabeça de Rufus rolou até o pé da cama.

— Eu vejo várias — murmurei, percebendo que havia sujado minha camisa com o sangue dele. Que porcaria, isso daria um trabalho danado para sair...

Virei-me assustado ao ouvir palmas soarem atrás de mim. Arregalei meus olhos ao ver aquela pessoa. O que ele fazia ali?

— Não pensava que seria capaz de fazer isso. Parabéns, Loki — elogiou, encostando-se no batente da porta. — No fim você não é uma completa decepção.

— O que faz aqui? — questionei. Sua presença em um mesmo ambiente que eu era terrível.

— Minerva me fez o pequeno favor de se disponibilizar a me dizer sua localização, caso soubesse.

— Entendo. Então você a ameaçou, não é?

Deu de ombros, soltando um riso rouco.

— Sinceramente, pensei que seria mais difícil achá-lo. Você não sossega em um canto por muito tempo. A Musa não se sente solitária dessa fora?

— Ainda a chama dessa forma? — cerrei os olhos, observando-o de forma irritada.

— Oh, esses olhos... Tão irritantes quanto os de sua mãe — comentou. — Fui visitar o túmulo dela recentemente, sabia?

O quê? Ele teve essa ousadia?

— Realmente tem essa cara-de-pau, Lullaby? — sibilei.

Algo que poderia ser comparado com um riso saiu de sua boca.

— Lullaby? Vamos lá, Loki... Me chame de “papai”, igual fazia antigamente.

Rosnei para ele, já perdendo a paciência. Alguém como Lullaby... jamais deveria ser considerado como um pai.

[Loki → Off]

Bosque? Eles deviam chamar esse jardim da Minerva de floresta! Fazia uns dez ou vinte minutos que estava andando por entre as árvores, e até agora nem sinal de estrada ou fim desse matagal.

— Poxa! Quanto mais vou ter que andar?! — exclamei, irritada. Minha voz ecoou. Droga... Alguém poderia ter ouvido!

Pensei em Sting. Sentia-me culpada por tê-lo deixado apenas com Lector... E Natsu estava luando sozinho com Minerva...

Quando menos esperava, o som sagrado atingiu meus ouvidos: uma buzina.

Buzinas são de carros, e se tem carro, tem estrada! Corri na direção daquele som, e acabei saindo em uma estrada lisa de cimento, aonde vários carros passavam. Do outro lado, um penhasco que ligava ao mar podia ser visto.

… Onde estou?

Poderia arriscar dizer que próxima ao escritório de Natsu, no entanto acho que Minerva, sabendo o quanto aparentou, não teria uma mansão próxima ao inimigo.

… Deveria arriscar? Não era seguro ficar andando sozinha em um lugar como esse e, além de não ter garantia que o escritório da Máfia Dragneel é por essa região, não sei como ter acesso ao interior. Não iria me tacar no mar esperando ir parar lá dentro. Além disso, nada me garante que lá estarei segura. Homens do Avô Dragneel andam aos montes por lá.

Deveria ter pego o celular de Flare quando tive a chance. Se bem que, isso poderia me trazer alguns problemas... E ela ficava se agarrando no Natsu, então por que raios iria precisar do telefone de alguém que dá em cima de meu namorado? Fora que não tinha meu celular comigo.

Suspirei audivelmente. Sting mandou-me pegar carona com o primeiro carro que passasse, mas...

Não, não. Você não deve hesitar. Se ficar mais tempo aqui, os capangas de Minerva lhe alcançarão; pensei.

… Certo. Vamos fazer isso.

Estendi o braço para um carro vermelho que vinha, porém o motorista ignorou-me completamente e passou direto, quase levando meu braço junto.

— Barbeiro! — reclamei. — Ah!

Outro carro se aproximava. Esse era preto e tinha as janelas completamente negras. Precisava sair dali logo, então dessa vez botei todo meu corpo na frente. O automóvel parou a centímetros da minha barriga.

Sorri vitoriosa, correndo até a janela do carona. Ela abaixou, dando-me a visão de um homem de terno preto que estranhamente usava óculos escuros. Dei um passo para trás. Isso é suspeito...

— Olá... — cumprimentei hesitante. — O senhor poderia me dar uma carona até Magnolia? Algumas coisas aconteceram e acabei vindo parar aqui...

Ele subiu a janela em seguida, sem dizer uma palavra.

O que foi isso? Que rude!

A porta de trás foi aberta e um cara de cabelo preto e branco saiu de lá, caminhando até mim.

— Seria uma honra lhe dar carona, senhorita — disse ele, retirando os óculos escuros e puxando minha mão para um beijo. O que havia com esse cara? Cosplay de Cruela do 101 Dálmatas?

Não dava. Eles eram sinistros demais para pegar uma carona.

— Quer saber? Acho melhor ir andando mesmo... — tentei puxar minha mão, porém ele não a largou.

— Ora, não complique as coisas para nós, senhorita Heartfilia.

Arregalhei os olhos.

— Como sabe meu nome? — indaguei.

— Oops! Acho que falei demais.

— O qu... — ele aproveitou-se do meu estado de surpresa e puxou meu braço, virando-o e atingindo com a mão uma parte atrás do meu pescoço. — Quem é... — comecei a perguntar, porém a inconsciência atingiu-me.

✩ ✩ ✩

Meus parabéns, Lucy Heartfilia! Você deve ser a única pessoa do mundo que consegue a proeza de ser sequestrada enquanto foge de um sequestro.

Como pude ser tão mentecapta?

Voltei meu olhar para o Cruela ao meu lado. Ele não parecia ser um dos capangas de Minerva. Sua atitude era muito diferente de Rufus ou qualquer um dos outros que vi em minha estadia lá. Estava sentado ao meu lado com os olhos fechados, braços e pernas cruzadas enquanto cantarolava uma música calmamente. Nem se dera ao trabalho de me amarrar, o que implica que tem plena confiança em suas habilidades e a certeza absoluta de que não eu conseguiria fugir com ele por perto.

O motorista, que não havia dito uma palavra desde que acordara, continuava focado em dirigir. Podia ser impressão, entretanto podia jurar que seus olhos observavam cada movimento que fazia — o que podia ser verdade, uma vez que continuava com aqueles malditos óculos escuros.

Desviei meu olhar para a janela, surpreendendo-me ao perceber que agora cruzávamos as ruas de Magnolia. Olhei sobre meu ombro para o Cruela. Ele ainda mantinha seus olhos cerrados. Meu olhar fincou na maçaneta. Se fosse rápida, poderia...

— As portas estão trancadas — informou o jovem ao meu lado. Como ele...? Nem ao menos abriu os olhos! Ele deixou um sorriso tomar seu lábios e meu coração falhou uma batida. Aquele sorriso era estranhamente familiar... — Nessa situação, é claro que tentaria pular de um carro em movimento — abriu os olhos e encarou-me, percorrendo meu corpo rapidamente. — Suas roupas estão uns trapos, se permite-me dizer.

Permaneci calada. Aquele homem dava-me sensações esquisitas. Sinto como se o conhecesse de alguma forma, porém qual... Realmente não faço ideia.

Observei a janela e, com um choque, percebi uma construção por mim conhecida aproximar-se.

— Le antique?! — exclamei, grudando minhas mãos no vidro da janela.

— Heh... Então conhece esse lugar — comentou o Cruela. — Nada mal. Isso já é um ponto a mais para se contar.

— O quê? — perguntei, tocando-me logo em seguida que ele estava falando com o motorista.

O carro parou e o Branco e Preto estendeu-me a mão gentilmente. Encarei-a, seguindo com o olhar para o rosto dele.

— Podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil — sorriu de canto para mim. Percebi que ele extremamente bonito. Não era à toa que meu coração estava batendo daquela forma. Deixei-lhe tomar minha mão e guiar-me para fora do carro. — Boa garota — elogiou, afagando minha mão com o polegar. Senti minhas bochechas arderem.

Qual o problema com esse cara? Ele age de maneira tão gentil que nem parece um criminoso!

Adentramos a enorme mansão e foi como se voltasse para a época do baile de fundação da Fairy Tail. Mesmo que não estivesse com as decorações de festa, o local ainda parecia incrivelmente espalhafatoso.

— Lulu — o Cruela chamou uma jovem empregada de cabelo curto e escuro que varria o chão. Ela aproximou-se encantanda, e podia entender muito bem o motivo.

— Pois não, jovem mestre?

— Já pedi para não me chamar assim — ele sorriu gentilmente para ele e quase fiquei cega. — Poderia por favor arranjar uma roupa apropriada para a senhorita Heartfilia? E se possível, providenciar um banho?

— Ora, com prazer! — a jovem puxou-me gentilmente pelo braço e levou-me para longe dele.

— Obrigado! — agradeceu, dando-nos as costas.

Depois disso tive os trinta minutos mais divinos de toda a minha vida. Parecia que tinham me levado para o melhor spa do mundo! Deram-me um banho, lavaram e cuidaram de meu cabelo, escovando e deixando-os mais sedosos do que nunca. Hidrataram minha pele e me deram um vestido de mangas longas gracioso.

— Vocês tratam muito bem os desconhecidos — comentei com Lulu, enquanto ela prendia meus cabelo com um grampo em formato de flor.

— Temos um longo treinamento para isso — respondeu. Ela era realmente simpática, mas não podia deixar de vê-la como alguém suspeita. Afinal, tinha sido sequestrada de novo! — O jovem mestre também pediu para que fizesse isso, e é bem raro ele trazer alguém.

— Eh? — estranhei.

— Já disse para não me chamar assim — o mesmo apareceu na porta, recostando-se nessa e olhando para nós. — Oh... — murmurou, avaliando-me. — Você realmente deixa seus charmes transparecerem quando não está um farrapo.

… Deveria interpretar isso como um elogio?

— Obrigada, acho — ele sorriu. — Posso saber a razão pela qual me sequestrou e agora está me tratando como se fosse algum tesouro?

— Não me entenda errado, signorita — caminhou até nós e dispensou Lulu com a mão, oferecendo-me o braço que, mesmo com hesitação, aceitei. — Não é meu estilo ser indelicado. A senhorita, no entanto, pareceu estar assustada demais quando chamei-a pelo sobrenome.

— O que quer comigo? — indaguei, cortando toda aquela baboseira. Indelicado ou não, isso ainda era um crime!

— Eu? Sendo honesto, nada. No entanto, meu chefe deseja encontrá-la.

— Seu chefe? — cerrei os olhos, desconfiada. Ele apenas inclinou a cabeça para uma enorme porta de mármore. Bateu nela duas vezes e liberou meu braço. Inclinou-se, sorrindo novamente para mim.

— Divirta-se.

Ouvi um “entre” atravessar a madeira e, em um susto, acabei obdecendo. Meus ouvidos foram enchidos por alguma faixa de música clássica que entoava pelo cômodo. As paredes foram transformadas em prateleira e lotadas de livros. No centro havia um sofá, uma mesa de centro e três poltronas. Em uma das poltronas haviam um homem de cabelo liso e negro, de tamanho mediano, lendo um livro enquanto deliciava-se de uma xícara de chá. Ele levantou os olhos para mim e foi como olhar para o céu azul. Seus olhos me pareceram familiares. Já os havia visto em algum lugar antes...

— Hum.. Olá — cumprimentei, tocando-me que ele ainda me encarava.

O senhor deixou o livro de lado e virou-se para mim, pedindo para que me sentasse em uma das poltronas. Obedeci-o sem pestanejar. Ele tinha um tom autoritário em sua voz que tornava qualquer rebeldia impossível.

— Devo começar perguntando como andam as coisas, creio? — indagou retoricamente.

— Creio que as apresentações sejam primeiro — só porque era retórico não significava que não podia opinar.

Ele soltou algo que era um misto de bufo e riso.

— De minha parte, claro — concordou. — Já que sei absolutamente tudo sobre você, Lucy Heartfilia. — Remexi-me um pouco, desconfortável pela maneira que meu nome soou em sua voz. Ele tomou mais um gole de seu chá antes de soltar: — Sou o avô de Natsu. Meu nome é Acnologia.

Notas finais
Então Lullaby é pai de Loki, hein? Alguém imaginou que essa fosse a ligação entre eles? E Minerva era noiva do meu mari-- do Zeref... O Avô Dragneel finalmente se revelou e não é ninguém mais que Acnologia?! Ai esta chocada! Quem é o Cruela? Quero saber mais dele... ~♥ O feedback que vocês do Nyah estão dando para MEM está me deixando desanimada, sabiam? *suspira* Se acharem algum erro neste capítulo, peço que me avisem, por favor. Estava meio avoada quando revisei, alguns devem ter passado despercebidos. [CURIOSIDADE - PERSONAGENS] Além de Gray, também tinha o planejamento de matar Erza. Ela morreria envenenada e antes do AD aparecer, porém assim como várias outras coisas da fic, mudei de ideia (tive pena do Jellal). Até o próximo~ Ele aparenta ser o maior da fic, ou um dos, então pode demorar um pouco. Xoxo~