Meu Estranho Mafioso
69 Cinquenta e sete.
Notas iniciais
QUANDO ERA PEQUENA tinha medo de muitas coisas. Tinha medo das aulas de natação da Aquário, das broncas que meus pais me dariam se aprontasse, medo de um boi que não ia com minha cara de maneira alguma. Depois que fui sequestrada, desenvolvi fobia de estranhos até conhecer Rogue. E, depois que mamãe se foi desse mundo, desenvolvi um medo muito grande de perder papai também. O interessante é que nada disso parecia ser mais assustador do que atravessar aquela porta.
Senti um nó formar-se em minha garganta e tratei de enguli-lo. Não era hora de chorar. Precisava ser forte e aguentar seja lá o que viesse. Natsu apertou minha mão, dando-me apoio.
— Está tudo bem, Lucy — disse, olhando em meus olhos. — Talvez percamos uma amizade, ou estragaremos a felicidade dela, mas vamos enfrentar isso juntos, okay?
Acenei com a cabeça.
Respirei fundo, recobrando a coragem e meneei a cabeça para ele, indicando que poderíamos prosseguir. Ele bateu duas vezes na porta antes de abri-la.
— Oh, Lucy! — exclamou ela, abrindo um dos maiores sorrisos que já a vi dar. — Você está segura! Que bom... — murmurou aliviada. Olhou para a porta semi-aberta atrás de mim, esperando por algo que nunca viria. — Só vieram os dois?
— Hum... — parecia estranho começar uma conversa como se nada houvesse acontecido. — Olá, Juvia. Faz um bom tempo desde que nos vimos.
— Sim, só viemos nós dois — Natsu respondeu, e olhei chocada para ele. Que falta de tato!
— Gray está machucado? — indagou preocupada.
O assunto veio à tona muito antes do que havia imaginado.
— Creio que não tanto... — consegui balbuciar, morrendo de vontade de me jogar em seus pés e implorar perdão.
— Poxa, o que Gray está fazendo? — formou um bico e cruzou os braços. — Ele perdeu o primeiro ultrassom do bebê! Mesmo depois de prometer que voltaria a tempo!
O ambiente parecia tão sufocante para mim.
— Aconteceram uns imprevistos, Juvia — Natsu tentou acalmá-la. Também tentou me fazer relaxar apertando novamente minha mão. — Ele não perderia o ultrassom por querer. Sabe disso.
Ela sorriu levemente.
— É verdade — concordou. Olhou para a janela. — Oh! Está nevando! — exclamou, atraindo tanto a minha atenção quanto a de Natsu para os vidros grandes. Os flocos alvos dançavam pelo ar, anunciando a chegada do inverno. — Você sabia, Lucy? Gray odeia essa estação.
— É mesmo? — questionei, levemente interessada. — Por quê?
— A mãe dele morreu em um dia de inverno — explicou. — Creio que a Ultear-san também não goste. Mas... Eu gosto — sorriu tristemente. — Foi quando tivemos nosso primeiro beijo. Estranho, não?
— Não acho que seja — respondi gentilmente.
— Juvia... — Natsu balbuciou. — Você sabe?
A azulada deu de ombros.
— Gray não perderia o ultrassom a não ser que estivesse morto — quando ela virou o rosto completamente em nossa direção pude ver lágrimas adornando seus olhos. — É esse o caso, não?
Senti meu corpo todo tremer.
— É... É minha culpa, Juvia — murmurei entre soluços, deixando o sentimento de tristeza e pesar tomar conta de mim. — Me... Me desculpe.
— Não é sua culpa, Lucy. Fui eu quem o mandou para lá sem auxílio nenhum. A culpa é toda minha, Juvia. Perdoe-me. — Natsu ajoelhou-se ao meu lado.
— Vocês dois não precisam dizer isso — ela fungou. — Se formos ver assim, a culpa não seria de quem o forçou a ir para lá? Ou seja, eu?
— Eh?
— Gray queria ficar e ver o ultrassom... — murmurou, limpando o rosto. — Entretanto o convenci ir até Natsu. Para buscá-la, Lucy — conseguiu forçar um sorriso para mim. — Você é como se fosse da família afinal... A irmã mais nova de Gray...
— Não está com raiva de mim? — meu corpo ainda tremia, e não era por causa do frio.
— Mesmo se quisesse estar... Não seria sua culpa. Não foi você que o matou, foi? — neguei. — Viu? Além disso, o sentimento seria ruim para o bebê — alisou a barriga.
— Não parece justo todo mundo me perdoar — murmurei.
— Há algum tempo, Gray e eu teríamos terminado de vez por conta de meu ciúmes — balbuciou. — Mas você jogou na minha cara o quão insegura estava sendo e, graças a isso, pudemos nos entender de vez. Prefiro pensar que o perdi pelas mãos de alguém do que por uma bobagem minha.
— Se fosse por uma bobagem ele ainda estaria vivo. — Natsu fez-se presente.
— Não. Ele iria até lá de qualquer jeito — replicou a azulada. — E então morreria sem que nenhum de nós soubesse o quanto amávamos um ao outro — voltou a olhar para a janela. — Estou muito cansada. Será que poderiam se retirar? Pretendo dormir um pouco agora.
Apesar da educação, sabia que Juvia estava nos expulsando dali para não a vermos chorar pela notícia. Meu coração pesou ainda mais.
— Claro — respondi, puxando a mão de Natsu para dar a ela privacidade.
O rosado fechou a porta silenciosamente, a última coisa em minha visão sendo Juvia encarando a janela.
— Vamos para onde agora? — questionei, olhando para meu namorado.
— Temos outra pessoa para visitar aqui ainda — respondeu, puxando-me pelo corredor. Demorei um pouco para entender o que ele disse, mas a ficha caiu como uma pedra em minha cabeça.
— Ele vai receber alta logo?
— Sim. — Natsu sorriu para mim. — Na verdade, era para aquele cara ter levado alta faz algum tempo, entretanto creio que ele esteja gostando de receber cuidados da “enfermeira Levy”.
Ri.
— Levy é ótima com essas coisas, sabia? Quando éramos mais novas e me machucava, ela sempre curava minhas feridas. Mas a irmã mais nova dela é ainda melhor com isso.
— Levy tem uma irmã? — indagou, curioso.
— Sim. O nome dela é Wendy. Sendo honesta, fico um pouco preocupada já que meu pai está aqui...
— Por quê? — sua expressão era confusa.
— Os pais da Levy são como... hum... — como explicaria isso sem ser rude? — Bom, os dois se amam excessivamente. É como se fosse lua-de-mel todo dia — ri um pouco, lembrando de algumas situações constrangedoras de quando ia dormir na casa da azulada. — Então, há alguns anos, os dois resolveram sair em viagem ao redor do mundo e experimentar várias culturas. Desde então, meu pai tomou conta de Levy e Wendy por eles.
— Oh, é por isso que ele alugou um apartamento com três quartos! — Natsu lembrou-se do que contei para ele.
— Exatamente!
— Então Levy também não ficará na mansão... — balbuciou. — Vai ser estranho ficar sem vocês duas por lá.
— Vai ser como se fóssemos normais — comentei.
— Como?
— Gente normal que namora não mora sob o mesmo teto. A não ser que sejam casados — acrescentei.
— O normal é chato — o rosado soltou um bufo de insatisfação, arrancando-me um riso. — Mas já que é assim, deveríamos nos casar?
— Muito engraçado — revirei os olhos. O Dragneel parou, encarando-me profundamente. — Natsu?
— Não estou brincando, Lucy — respondeu seriamente.
— O quê? — indaguei, embasbacada.
— Você sabe... Eu...
— Lu-chan? — Levy interrompeu, vindo em nossa direção no corredor. — Sabia que era sua voz! Vieram visitar Juvia?
— Ah... — murmurei. Olhei para Natsu, entretanto ele evitava olhar para mim. — Sim. E Gajeel também.
— Sério? — arregalou os olhos. — Ele está recebendo alta agora mesmo.
— Oh, é mesmo?
Levy encarou-me, como se quisesse dizer algo. Não demorou muito:
— Lu-chan... É verdade que o tio Jude está aqui?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Ninguém te disse?
— Ouvi alguns comentários aqui e ali, porém não recebi nenhuma mensagem sua, então...
— Ah, Levy! Desculpe! — abracei-a. — Estou tão acostumada com alguém lhe contando tudo que nem me passou pela cabeça...
— Tudo bem, Lu-chan! — a azulada retribuiu meu abraço. — Contando que não aconteça de novo... Mais importante: o que ele disse sobre estar namorando Natsu? A bronca foi muito grande? — olhou por cima de meu ombro, visualizando Natsu.
— Acredite ou não, ele não me deu bronca.
— Não?! — surpreendeu-se. — Então ele deve estar descontando em alguém. Aposto que as coisas não devem estar sendo fáceis para Rogue.
Calada, pensei no que ela havia dito. O moreno havia me protegido, e não o via há um bom tempo... Será que Levy estava correta ao assumir aquilo? Se sim, pobre Rogue!
— Hum... Sei que não deveria perguntar... — ela começou. — Mas aconteceu alguma coisa entre vocês? — apontou de Natsu para mim.
— Não — o rosado respondeu antes que eu pudesse terminar de abrir a boca. — Apenas cogitei uma ideia boba.
Irritei-me ao ouvir aquilo. Como assim ideia boba? Ele me pedia em casamento, dizia que estava sério e em seguida age como se houvesse me dito para jantarmos pizza comigo de dieta?
— Oh, realmente! — exclamei alto, assustando a McGarden e atraindo a atenção do Dragneel. — Uma ideia incrivelmente estúpida.
— Espera! O que quer dizer com estúpida?! — enervou-se.
— Sinto muito. Não devia ter perguntado...
— Deveria sim! — repliquei. — Deixou algumas coisas bem claras aqui.
— É a primeira vez que revejo vocês e estão discutindo como os boatos de quando se conheceram. — Gajeel comentou, aproximando-se do nosso trio. Seu cabelo estva preso em um rabo de cavalo e haviam faixas nos dois braços.
— Gajeel! — exclamamos Natsu e eu, felizes.
— Fico feliz em ver que está bem! — disse.
— Eu que deveria dizer isso — o moreno soltou um bufo. — Não consegui te proteger quando aquilo aconteceu...
— Seu instinto foi proteger sua namorada. Por qual motivo deveria se desculpar?
Encarou-me em silêncio.
— Cara, você está horrível — comentou Natsu. — Como vai dar uma dança direito para Levy no baile se nem pode mexer os braços direitos.
— Ora seu...! — o moreno rosnou. — Posso não usar os braços, mas o resto do meu corpo ainda funciona muito bem. Principalmente minha boca.
— Não o culpe se Gajeel lhe morder. — Levy concordou, arrancando uma gargalhada minha.
— Baixinha, você sabe que não foi isso que eu... — o Redfox tentou consertar, entretanto a azulada lhe deu as costas.
Natsu tocou meu ombro e, quando olhei para ele, soltou:
— Agora sim podemos ir — sorriu.
✩ ✩ ✩
— Hum... — murmurei, enquanto andava por um dos corredores da Fairy Tail. Fiquei responsável por recolher os trabalhos finais de física para o professor Laxus, então assim que o horário de sair chegou e o sinal tocou, corri até a sala dos professores. Agora voltava com um envelope que parecia pesar toda a minha vida em minhas mãos. — Não esperava por isso...
— Lucy! — Natsu chamou-me do meio do corredor. Ele estava encostado na parede e segurava duas bolsas. Estendeu-me a minha. — Você demorou! — reparou no envelope em minhas mãos. — O que é isso?
— Ah... — balbuciei sem jeito, pegando minha bolsa e enviando o objeto dentro de um dos bolsos. — Sora soube que meu pai está na cidade e achou melhor que entregasse alguns envelopes para ele...
— Hum... — deu de ombros. — Aquela mulher realmente é dedicada ao trabalho...
— Deve ser porque está mais calma agora — comentei.
— Hm?
— Ela disse que Max acordou... — encarei-o. — Você não sabia?
— Não é como se meu pai estivesse me contando as coisas que andam acontecendo lá no escritório... — seu olhar fincou-se em uma janela, que dava visão do prédio aonde ficava a piscina da escola. — Mas é bom que Max esteja se recuperando — sorriu para mim. — Tudo o que sei é que Loki e Sting também estão melhores.
— Isso é ótimo! — exclamei, olhando para ele. Meu olhar fixou-se em seu cachecol. Natsu havia o colocado de modo que nenhuma partezinha da cicatriz causada por Minerva aparecesse. — Ei, Natsu... — chamei.
— O quê?
— Você já tomou uma decisão?
— A respeito? — mostrou-se confuso.
— Você sabe... — dei de ombros, desviando meu olhar. — Daqui a duas semanas nos formamos. Já está pensando no que vai fazer depois?
— Ah, isso — revirou os olhos. — Escolhi deixar a decisão para o último momento. Agora só quero aproveitar o momento... E você? O que vai fazer se não conseguir aquela recomendação?
— Acho que vou deixar para decidir de última hora também — sorri.
— Tem algo que pode decidir agora...
— Como?
Circundou meus ombros com seus braços, aquecendo-me com sua temperatura corporal. Na frente de meus olhos, dois ingressos azuis apareceram.
— Gostaria de ir ao baile de formatura comigo, senhorita Heartfilia?
— Foi atrás disso você mesmo? — indaguei, chocada, enquanto saia de seu abraço e avaliava os objetos.
— Ei, o que há com essa surpresa? — ofendeu-se.
— É só que... Toda as outras vezes que fomos em eventos acabava acontecendo coisas perigosas, ou estranhas...
— Sério? Considero que só aconteceram coisas boas... — contradisse.
— Boas? Virei alvo da Meredy, meu apartamento foi incendiado... — comecei a numerar.
— Percebi que estava começando a gostar de você, tivemos nosso primeiro beijo... — replicou. — Até mesmo fizemos sexo pela primeira vez logo depois de um evento grande!
— Espe...! — exclamei, olhando em volta e me certificando que ninguém havia ouvido. Por sorte só havíamos nós dois ali. Corei igual um pimentão. — Não se diz esse tipo de coisa em voz alta! — bronqueei.
— Por que não? — sorriu maliciosamente. — É uma boa lembrança! Tanto que — aproximou seu rosto do meu — deveríamos repeti-la...
Finquei meus olhos com os seus, respirei fundo e, com todas as forças que me eram permitidas, meti-lhe um belo de um tapa na cara. Dei-lhe as costas, saindo pisando duro e fazendo-o se perguntar o que raios havia acontecido.
✩ ✩ ✩
De maneira alguma!; exclamei em pensamento ao ver o vestido que Levy havia indicado para mim.
— Hum... Levy... — comecei, sem saber ao certo como negar sua escolha. — Creio que esse decote é muito...
— Esse tipo de roupa só fica bonito em gente despeitada como você, Levy — cortou-me meu ex-namorado, que continuava parado e mexendo no celular, enquanto nós duas vasculhávamos entre os cabides em busca de um vestido legal para a formatura.
— Rogue?! — estranhei. O moreno não costumava a agir daquela maneira...
— O quê? — Levy chocou-se. — Não é só porque você está namorando uma garota com um corpo bem desenvolvido que pode sair por aí tirando sarro de mim! — ralhou. — Seu pedófilo!
— Pedófilo?! Deveria dizer isso para aquele armário que chama de namorado! Tem que ter sérios problemas mentais para namorar alguém com um corpo de uma criança!
— Antes namorar alguém com um corpo de uma criança do que namorar uma!
— Está se contradizendo, senhorita McGarden! — Rogue sorriu vitorioso.
Observei aquela pequena discussão completamente embasbacada. Está certo que, desde que me envolvi com Natsu, passei menos tempo do que devia com Rogue e Levy. Mas... Tempo bastante para a relações dos dois evoluir para esse nível? As únicas brigas que já vi antes era para saber quem ia sentar ao meu lado quando íamos em algum brinquedo do pequeno parque de diversões que havia em Lupinus.
Avaliei bem o rosto de Levy, quem há muito já havia se apaixonado pelo Cheney, demonstrar o quão frustrada estava e ri. Parece que perdi alguns momentos preciosos entre os dois. Em seguida, olhei para Rogue e choquei-me ao ver seu sorriso. As últimas vezes que estivemos juntos foram em situações um pouco tensas, então parecia fazer muito tempo desde que nos comunicamos realmente. Entretanto, estava com a sensação de ter visto seu sorriso recentemente...
— Lucy? — ouvi alguém chamar atrás de mim e dei de cara com outra pessoa que não via há muito tempo ao me virar.
— Erza!
Sorriu.
— Sabia que era você. Pensei ter ouvido as vozes de Levy e Rogue também. Olá para vocês dois — cumprimentou.
— Apareceu em boa hora, Erza! — Levy exclamou, dando as costas para Rogue. Pegou o vestido negro que estava me sugerindo e colocou na frente do próprio corpo. — O que acha?
— Maravilhoso! — opinou. — Esse tipo de vestido fica lindo em gente da sua estatura.
Levy encarou-a aborrecida enquanto Rogue gargalhava.
— Veio escolher um traje para a formatura também? — questionei.
— Céus, não! — soltou uma curta risada. — Não irei a formatura.
— O quê? — supreendi-me. — Por quê?
— Pois já me formei — alegou. — Além disso... — seu olhar viajou até Rogue e Levy, que haviam voltado a discutir.
— Além disso... — incentivei quando ela não terminou a frase.
— Tem um tempo livre depois daqui? Conheço uma doceria ótima aonde poderíamos conversar tranquilamente.
— Claro... — estranhei o fato dela pedir isso, mas não neguei.
Depois de muita discussão — por parte de Levy e Rogue — e provas de roupas, finalmente saímos. O Cheney prometeu levar a azulada para casa em segurança, então Erza me levou até um simpática doceria chamada Flaver. Ela pediu um especial do cardápio que era feito com mangas enquanto eu escolhi um milkshake de morango.
— Hum... — murmurei, sem saber direito como começar o assunto. Decidi ser direta: — Por que me trouxe até aqui?
— Para comer, ora — brincou, remexendo o anunciador que nos avisaria quando nosso pedido estivesse pronto. Sorriu. — Não é como se aqueles dois não pudessem saber, porém prefiro que pouca gente saiba.
— Huh? — balbuciei, confusa.
— Antes de mais nada, peço desculpa por não ter sido de grande ajuda com o lance da Minerva. Queria muito ir e acertar as contas com aquela... — olhou bem para meu rosto e decidiu não terminar a frase. — Mas todo mundo achou que era melhor não me envolver, já que ainda estava superando a morte de Mystogun.
— Estou de acordo com eles. Além disso, não sei o que seria de mim agora se tivesse que carregar a morte de dois amigos — arrastei minhas unhas pelo couro da minha bolsa.
— Ninguém lhe culpa pelo o que aconteceu com Gray, Lucy.
— Ninguém exceto eu, Erza — repliquei. — Não importa o que digam, eu estava lá. Estava lá e não pude fazer nada para ajudar!
— Bem, se for assim, culpo-me pela morte de Mystogun...
— O quê?
— Convenci Jellal a ir para casa e descansar um pouco, no entanto deixei o caminho livre para Lullaby fazer o que quisesse...
— Mas você só queria que Jellal pudesse relaxar, isso não...
— E Gray só queria trazê-la para cá. De qualquer forma — resolveu mudar de assunto —, queria pedir para você tomar conta de Natsu durante os próximos dias. Sei que decisões difícieis estão se aproximando para os dois, entretanto não estarei aqui para ajudar.
— Como?
— Vou embora — contou. — Jellal decidiu se afastar de tudo isso e perguntou-me se queria ir junto. Conversei muito com os Dragneel e decidi que ir seria a melhor escolha para mim.
— Vai embora? — não podia acreditar no que ela estava me contando.
— Foi o que acabei de dizer — respondeu.
Permaneci calada por um tempo, absorvendo aquela informação.
— Quem mais sabe, fora eu?
— Igneel, Natsu e Mira. Todos pensamos que seria a melhor escolha para mim. Mira irá se casar dentro de pouco tempo também, então...
— Mira irá casar? — realmente estava por fora de tudo!
— Pois é... — riu. — Pegou todo mundo de surpresa.
Observei o tampo da mesa.
— Entendo... Espero que vocês dois sejam muito felizes, Erza — torci.
— Obrigada, Lucy — a ruiva apertou minha mão em um gesto de agradecimento.
Logo em seguida, um garçom chegou com nossos pedidos.
✩ ✩ ✩
— Como estudante exemplo, Levy McGarden! — anunciou Makarov, chamando minha melhor amiga ao palco para pegar seu diploma. O barulho dos aplausos ergueu-se, tomando o ginásio da Fairy Tail completamente.
— Ela teve as melhores notas — comentou Milliana comigo. — Não é de se espantar que ela tenha esse título.
— Realmente... — concordei.
— O que me surpreende é o fato de você não estar sob esse título também, Lucy — Kagura murmurou, sentada do lado direito de Milliana. — Suas notas finais também foram absurdamente boas.
— Não tem muito que possa fazer a respeito disso — dei de ombros. — Minhas faltas não são nada exemplares.
— O peso de namorar um mafioso... — balbuciou Milliana, assombrada.
— Por falar nisso... — comecei, olhando ao redor do local lotado. — Não tem muita gente aqui?
— Soube que alguns dos subordinados de Natsu resolveram vir assistir a formatura do “chefe” — respondeu Gajeel, que sentava atrás de mim, bufando. — Esse bando de puxa-saco só pareceu lembrar dele para valer agora.
— “Alguns”? Parece que foram todos! — exclamei.
— Lucy Heartfilia! — Makarov chamou-me.
Levantei e respirei fundo, caminhando em um ritmo rápido até as escadas. Subindo pude ver meu pai brigando com Igneel — desconfio que seja por causa disso que ele não tenha me dado uma bronca —, e Natsu, que sorria abertamente para mim. Também haviam alguns “capangas” amontoados em um canto mais ao fundo da platéia.
Sorri para o senhor de baixa estatura ao chegar no palanque. Ele me sussurrou um “parabéns”, em seguida contando alguns dos meus feitos — como por exemplo a alta pontuação que tive na viagem às montanhas Sakura —, e indicando-me com a mão para que me juntasse aos outros formandos.
Depois de muitos nomes e muitas salas, finalmente pudemos ir até nossas famílias.
— Estou um pouco decepcionado por esse ano você não ter conseguido o título de “aluna exemplo” junto com a Levy — foi a primeira coisa que papai disse assim que nos reunimos. — Mas também estou muito feliz de poder vê-la se formar, Lucy — afagou minha cabeça carinhosamente. — Sua mãe surtaria se estivesse aqui...
— Ela daria mesmo um surto, certo? — abracei-o carinhosamente. — Obrigada, papai.
— Não sei exatamente pelo que está me agradecendo, porém... Não há de quê.
Ri.
— Poderia dar um abraço e um parabéns para a moça mais bonita presente aqui? — Natsu perguntou atrás de nós.
— Só daqui? — Jude ergueu uma sobrancelha.
— Isso vai dos olhos de quem vê, senhor Heartfilia — o rosado riu, coçando a cabeça.
— Hum... — meu pai murmurou, não satisfeito com a resposta.
Natsu virou-se para me dar um abraço, mas um vulto foi mais rápido e agarrou-me com tanta força que cheguei até a perder o fôlego.
— Parabéns por se formar, Lu-pyon! — berrou Igneel em meus ouvidos, mais animado que qualquer um ali. — Estou tão — fungou — orgulhoso de você!
— Ei! Essas palavras deviam ser para mim! — meu namorado reclamou.
— Bem, você não se formou com as melhores notas, Natsu — Igneel respondeu friamente. — Estou aliviado para por ter conseguido se formar, na verdade.
— O que há com essa diferença de tratamento? — questionou o mais novo, irritado.
— Minha nossa, que reunião mais bem humorada! — senti meu sangue congelar ao ouvir aquela voz e aquelas palmas atrás de mim. — Sinto-me mal por interromper tal momento.
Nos poucos segundos que usei para piscar os olhos Natsu e Igneel entraram na minha frente, como uma barreira protetora. Papai se posicionou ao meu lado, seu rosto o mais assustador que poderia imaginar.
— O que quer aqui, Acnologia? — Igneel perguntou rispidamente.
— Um avô não pode querer ver seu neto se formar? — indagou. — Além disso, não estou aqui sozinho.
— O quê?
— Natsu! Céus, como você cresceu! — exclamou Sarah, saindo de trás de nós e agarrando meu namorado. Encheu-o de beijos, apertando o rosado até o rosto dele ficar vermelho.
— Vovó?! — estranhou ele.
— Tinha que vê-lo se formar! — explicou ela, sem nos dar chance de ao menos pensar em uma pergunta. — Foi tão fácil convencer Acnologia que fiquei chocada! Olhe só para você, Natsu! Um garoto tão robusto — deu um tapa na bunda dele. — Lucy é tão sortuda!
— Vovó, pare! Isso é tão vergonhoso! — Natsu tentou se afastar dela, olhando em volta com medo de algum subordinado ter visto a cena.
— Realmente puxou a aparência de seu pai! — ignorou-o. — Se fosse uns anos mais nova...
— Se fosse algumas décadas mais nova, Sarah — replicou Acnologia.
— Ora, Acnologia, fique quieto! — sibilou ela. — Ninguém te quer aqui, será que não percebeu?
— Você que me trouxe junto! — reclamou, soltando em seguida um suspiro exasperado. Por cerca de dois segundos, tive pena de Acnologia por ter que suportar essa família. Só por dois segundos. Ou menos. — E quis vir para poder apertar a mão da senhorita Heartfilia. — estendeu-me sua palma. — Meus cumprimentos pela sua formatura.
Encarei aquela mão desconfiada.
— Desculpe, não gosto de estar em contato com porcaria — respondi sem pensar direito. Acnologia conseguia fazer o meu lado mais rude vir à tona, da mesma forma como Natsu fazia quando nos conhecemos. E notar essa familiaridade não me deixou satisfeita.
— Mas esteve abraçando Igneel agora há pouco! — surpreendeu-se.
— Faz quanto tempo que alguém não lhe soca? — o Yamaguchi perguntou. — Adoraria lembrá-lo de como é a sensação, Acnologia.
O senhor gargalhou sonoramente.
— Realmente foi bom ter vindo. Estava ficando entediado naquela mansão — soltou um suspiro satisfeito. Deu-nos as costas. — De qualquer forma, queria apenas lembrá-los que em breve nos encontraremos — olhou por cima dos ombros. — Estou ansioso pela decisão de vocês. Até mais. Vamos, Sarah!
— O que eu sou? Seu cachorro? — brigou ela, dando outro abraço em Natsu como despedida e voltando a beijá-lo várias vezes. — Nos vemos logo, logo, meu anjo.
— Tudo bem! Chega, vovó!
— Você está bem? — perguntei para ele, evitando rir de seu rosto totalmente mrcado pelo batom vermelho de Sarah.
Ao meu lado, papai acertou um soco na cabeça de Igneel.
— Ouch! Por que isso, Jude?
— Sua função não deveria ser impedir que esses encontros acontecessem? Como pode ser tão inútil, Igneel?
— E como acha que eu ia saber que ele apareceria? Acha que tenho bola de cristal?
Encarei a discussão dos dois sentindo um pouco de tédio e surpresa.
— O que foi? — Natsu perguntou, entrelaçando seus dedos aos meus.
— Parece que todo mundo está brigando ultimamente.
— Era só a pressão por causa da formatura — respondeu. — Os ânimos estarão bem melhores mais à noite. Enfim... Vamos? — puxou-me em direção à saída.
— Para onde?
— Temos um baile para qual nos aprontar, ora essa!
Arregalei os olhos ao ouvi-lo dizer aquilo. Dirigi meu olhar para o diploma em minha mão. Era verdade... Havia me formado. Faz quase um ano desde que vim para Magnolia...
Sorri. Depois de tantas coisas complicadas que aconteceram, podia finalmente relaxar.
E era exatamente o que eu iria fazer. A noite toda.
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