Meu Estranho Mafioso
70 Cinquenta e oito.
Notas iniciais
SEMPRE ME SURPREENDIA ao ver a capacidade da Fairy Tail de organizar um evento. E a rapidez com que o faziam era ainda mais chocante. Há poucas horas estava me formando ali e, agora, o lugar estava todo decorado elegantemente. Mesas com tecidos brancos sobre elas estavam organizadas em todo o local, com exceção do centro, aonde um grande e espaçoso círculo podia ser visto. A luz estava baixa, atraindo a atenção inteiramente para os castiçais com a forma do símbolo da escola em cima das mesas.
— Uau, eles capricharam com a decoração — Levy elogiou, ao meu lado.
A azulada trajava um vestido preto curto, que terminava acima dos seus joelhos. O caimento nos ombros dela faziam com que parecesse uma boneca, e o cabelo estava lindamente trabalhado graças a Câncer — após muita dedicação por minha parte e de Levy, papai deixou-nos ir até a mansão Dragneel para nos aprontarmos.
Gajeel, à sua esquerda, trajando um terno mais escuro que a noite, concordou.
— Geralmente não venho nos eventos da escola, mas admito que a decoração me pegou de surpresa.
— Você não presta atenção nas decorações — Natsu, que estava de braços dados comigo, replicou. — Quando vai em um evento, você procura um lugar livre e senta, só levantando na hora de ir embora!
— Por que fica reparando em mim? Você é gay? Tem uma queda por mim, por acaso? — moreno perguntou meio irritado.
— Ora, seu... — o rosado enervou-se.
— Certo, meninos. Sem briga — ordenei. — Hoje devemos nos divertir, e não discutir!
— Diga isso para esse tapado — Gajeel apontou para o Natsu com a cabeça.
— Chega, Gajeel! — exclamou Levy. — Lu-chan está certa. Nada de desentendimentos e violência hoje!
Pensava que Gajeel iria murmurar um “tsc” ou algo do gênero, entretanto fui pega de surpresa com sua palavras:
— Desculpe.
— Ela pôs uma coleira no Gajeel! — Natsu praticamente berrou, atraindo algumas atenções para nós.
— Eu que devia colocar uma em você! — ralhei, puxando-o para longe do casal de amigos envergonhada.
— Ouch! Ouch! Isso dói, Lucy! — reclamou o Dragneel.
— Olhe em volta, Natsu — pedi, sendo prontamente obedecida. — O que vê?
— Pessoas — respondeu obviamente.
— Certo — meneei a cabeça, concordando. — E o que elas estão fazendo?
— Várias coisas? — a replica veio em forma de pergunta por causa da dúvida que estava estampada em seu rosto.
— … Também — admiti. — Mas a principal coisa que eles estão fazendo aqui é se divertir. Será que poderíamos fazer o mesmo? Temos somente um tempo limitado para ficarmos assim... — implorei.
Avaliou meu rosto, seu rosto ficando impassível. Sem saber o que estava pensando, ficava difícil saber o próximo movimento de Natsu.
— Sinto muito — beijou-me calidamente. — É só que ando tão parado e... normal — riu —, que sinto um pouco de saudade de ter uma boa briga.
— Tudo bem — desculpei. Ajeitei a saia do meu vestido azul escuro liso, que possuía alguns detalhes que pareciam estrelas e sorri para ele. — O que deveríamos fazer primeiro?
— Dançar — respondeu prontamente, puxando-me para o círculo no centro do local.
— Natsu, não tem música! E ninguém está dançando ainda! — exclamei.
— Quem liga? — deu de ombros, puxando meu corpo para mais perto do seu. Começamos a nos mover lentamente, e ninguém parecia ligar de estarmos ali.
Suspirei, desistindo de tentar contradizê-lo.
— Você não tem jeito mesmo — soltei um muxoxo, encostando a cabeça em seu ombro e sentindo sua respiração em minha orelha.
Ficamos assim por um tempo e, parecendo serem incentivados por nossa dança, outros casais se juntaram conosco. Não demorou até Lyra, surpreendendo todos com sua presença, subir ao palco e começar a cantar uma música calma, romântica e ao mesmo tempo triste sobre um casal que se amava, mas se viam separados pelas circunstâncias.
— Sabe, Lucy... — o rosado começou, apertando-me como se fosse sumir. — Queria que o tempo passasse mais devagar. Por que meus últimos dias em paz com você estão passando tão rápido?
— Dizem — abracei-o, escondendo meu rosto na curva de seu pescoço — que quando está fazendo algo que gosta, o tempo passa voando.
— Então está explicado... Ficar com você é tão bom, que mal posso perceber como o tempo se esvai — beijou o topo da minha cabeça.
— Nossos estudos acabaram, então teremos muito tempo para ficarmos juntos — observei seu rosto.
Ele levou uma das mãos até meu busto e deslizou um dedo pelo colar que Sora havia me dado.
— Pergunto se isso é verdade... — balbuciou.
— Como? — indaguei, confusa.
— Sei que conseguiu a recomendação, Lucy — encarou meus olhos. — Era aquele envelope, não?
— Como você... Ah, Levy! — procurei a azulada com os olhos, nervosa. — Aquela pequena fofoqueira!
— Ela quis me contar também, entretanto Sora foi mais rápida — o Dragneel sorriu. — Já pensou em sua resposta?
Desviei o olhar.
— Não — decidi não especificar o significado da minha resposta.
Ouvi-o suspirar.
— Não importa a decisão que tomar, Lucy. Não ficarei chateado. Só... queria que soubesse disso.
— Mentiroso! — acusei, beliscando sua bochecha. — Vai ficar chateado sim!
Ele riu.
— É o que veremos.
Uma música animada começou a tocar. Trocamos olhares e nos soltamos, aproveitando toda a nossa juventude naquela pista.
[DS → Lisanna Strauss]
— Pegaram tudo o que precisam mesmo? — questionou Aries pela enésima vez.
— Sim, Aries, pegamos tudo — respondeu Sting, revirando os olhos. — O que você é? Nossa mãe?
A rosada meteu-lhe um tapa na cabeça.
— Só estou preocupada com vocês — rebateu.
O loiro encarou-a irritado e desviei o olhar dos dois.
— Não precisa ir — balbuciei para Loki, que estava arrumando as coisas no carro ao meu lado. Observei suas costas largas. — Aquele cara se foi, Loki.
— É — ele passou o braço na testa e veio recostar-se em uma das portas azuis do automóvel. — Mas não acho que Acnologia vai me deixar em paz depois de matar alguém da máfia dele. Mesmo que tenha sido alguém que ele não gostava.
— Quem deu um fim em Lullaby foi a Mira-nee — respondi. — Acnologia não faria nada, pois mamãe é crucial para ele.
— Você sabe como machucar o orgulho dos outros — um sorriso de canto tomou seus lábios enquanto ele virava a cabeça para outra direção.
— Ah, qual é, Loki! — exclamei exasperada. — Entendo como isso tudo deve parecer para você, porém eu... Se continuar indo assim, eu realmente vou... — abaixei a cabeça, encarando o chão frustrada. Era tão difícil! Haviam tantas palavras que queria poder dizer, até mesmo gritar... No entanto toda vez que Loki aparecia em minha frente em carne e osso, elas simplesmente embaralhavam-se em minha mente e ficavam desconexas. Odiava isso de verdade!
— Sabe, Lisanna... — o ruivo murmurou, fechando os olhos para sentir o vento tocar sua face. — Uma hora irei me aquietar.
— Quando? — questionei, ouvindo em minha própria voz um toque de mágoa.
— Assim que Natsu decidir o que irá fazer. Prometo, Lisanna — puxou meu rosto para cima, fazendo-me olhar em suas íris verde musgo. — Quando voltar, será definitivo.
Tentei achar em seu rosto qualquer pista de que aquilo era mentira, porém a sinceridade saía pelos poros de seu rosto.
— Por que está prometendo para mim? — desviei o olhar envergonhada. — Não deveria ser para Aries?
Ele riu, sua gargalhada soando estranhamente como música para meus ouvidos.
— Sabe muito bem o porquê — em um movimento rápido demais para que eu pudesse impedir, ele abaixou-se um pouco e tomou uma de minhas bochechas com um beijo macio e quente.
Meu corpo todo tremeu diante daquele gesto, fazendo com que tivesse que empurrá-lo para que não me sentisse ainda mais envergonhada.
— Vo-você... — gaguejei, sabendo que minha reação era completamente patética.
— Está tudo pronto? — Sting aproximou-se de nós, apontando com o polegar para o carro azul.
— Está sim — Loki abriu um sorriso que pareceu até irreal de tão feliz que era.
— Fiquem bem — Aries desejou, abraçando o ruivo fortemente. — Mantenham sempre contato, por favor! Se vocês deixarem de me ligar juro que mando matarem vocês!
— Ficarei bem enquanto esse cara não der em cima de mim — o Eucliffe apontou para Loki.
— Não prometo nada — replicou. — Afinal, você é tão avantajado... — o ruivo mordeu o lábio ao avaliar o corpo de Sting.
— Pare com isso! É esquisito! — o loiro abraçou o próprio corpo, como se aquilo o protegesse.
Aries e eu rimos.
— Vocês não vão... — a rosada murmurou, meio sem jeito. — Não vão se despedir de Lucy?
— Ela tem outras coisas para se preocupar atualmente do que com o fato de eu ir embora — Loki deu de ombros.
— Não acho que tenho o direito de chegar perto dela... — Sting sorriu tristemente.
— Oh, Sting... Tenho certeza que Lucy não guarda rancor de você — falei. — Eu não guardo, e uma das maiores qualidades dela é o fato de ser bondosa.
— Mesmo que não guarde... Não creio que tenho o direito. O que fiz com vocês duas é algo que não deve ser perdoado. E com toda certeza pagarei os crimes que cometi assim que encontrar Ryos.
— Certo, mas... E Rogue? — Aries perguntou. — Aquele encontro de vocês foi desastroso.
— Sinto muito por isso — Sting estava com uma expressão triste. — Ele realmente lembra Ryos, por isso eu... De qualquer forma, peça desculpa por mim.
A Dragneel suspirou.
— Tudo sobra para a namorada, hein?
— É melhor irmos, Stingizinho — Loki chamou, abrindo a porta do motorista e se ajeitando no automóvel.
— Não me chame desse jeito! — Sting sibilou, sentando no banco do carona.
— Eh... — Loki fez um som de desapontamento. — Mas até mesmo vou te ajudar a procurar seu irmão...
— Ack! — exclamou o loiro. — Mesmo assim...
— Tomem cuidado — alertei, vendo-os colocar o cinto.
— E mantenham-nos informadas — Aries remendou.
— Certo, certo... — os dois balbuciaram.
E lá foram os dois, o carro azul sendo engolido pela paisagem verdejante ao redor da Mansão Dragneel.
— Ou os dois conseguirão encontrar Ryos, ou irão matar um ao outro nessa estranha missão... — murmurei.
— Quem sabe? Eles poderão voltar namorando — Aries respondeu.
Encaramos uma a outra e caímos na gargalhada.
— Nunca pensei que teríamos um momento assim — comentei, assim que consegui me acalmar.
— Como?
— É só que — sorri, olhando para o chão — nunca chegamos realmente a conversar por conta de muitas coisas.
— É... — concordou. — Peço desculpa por isso. Não fui muito agradável com você, certo?
— Está tudo bem! — abanei uma das mãos, fazendo um gesto de que não fora nada demais. — Realmente merecia ser tratada...
— Não, não merecia — cortou minha fala. — Fui tola. Uma criança. E suportou minhas atitudes mimadas por muito tempo. Se estiver tudo bem... Podemos recomeçar? Como amigas?
Encarei-a embasbacada ao ver sua mão estendida em minha direção.
— Está falando sério?
— Estou — riu.
Abri um enorme sorriso, lembrando-me de quando Zeref dissera que seria ótimo se Aries não me odiasse tanto, porque aí poderia ir mais vezes na Mansão Dragneel.
— Será um enorme prazer!
[Lisanna Strauss → Off]
— Foi um ótimo filme — Levy elogiou, secando um copo enquanto Gajeel continuava lavando a louça que sujamos.
Estávamos no compacto apartamento de Gajeel. O lugar tinha um decoração bem escura, com móveis negros e cinza, o branco raramente destacando-se no local — a cara do Redfox mesmo.
Levy e eu havíamos combinado de termos um encontro duplo e, após sugestões horrendas de atividades pelos dois mafiosos, decidimos acabar assistindo um filme.
— O enredo foi uma porcaria — critiquei. — Mas deu para dar boas risadas.
— Uau, senhorita negatividade! — Natsu exclamou, sentado na cadeira ao meu lado.
— Em menos de dez minutos de filme já sabia como iria terminar — expliquei. — De qualquer forma, fiquei surpresa por você e Gajeel preferirem ver um romance.
— Acho que minha vida já é movimentada demais — o rosado deu de ombros.
— Então só devíamos ter visto o de terror — insisti, mexendo nas capas dos DVDs que havíamos alugado.
— NÃO! — Gajeel rosnou, assustando-me.
Levy segurou o riso.
— Quer saber de uma coisa interessante, Lu-chan? — deitou-se no balcão, ficando mais próxima de mim. — O Gajeel morre de medo dessas coisas.
— O quê? — surpreendi-me, olhando para o moreno que parecia querer sumir da face da terra.
— Nã-não é bem assim — tentou defender-se. — É só que... Essas coisas sobrenaturais são meio...
Foi interrompido pelo barulho de um celular.
— Oh, é o meu! — Levy correu até a sala e voltou com o celular em mãos. — Ah! Lu-chan, parece que o Romeo finalmente chamou a Wendy para sair!
— Mentira! — exclamei, animada.
— É sério! — corri até seu lado, vendo uma fofa foto dos dois em um piquenique. A mensagem tinha mais coisa. — “Michelle-san resolveu fazer um lanche mais cedo para comemorar.” — a azulada leu. — “Fiquei sem jeito, porque apesar do gesto ser muito gentil, o bolo era de ameixa, assim como o chá. Parecia um pesadelo”.
Desatamos a rir.
— Qual a graça? — Natsu, que estava apenas nos assistindo, perguntou.
— Wendy tem aversão a ameixa — a McGarden explicou.
— Oh! — exclamou o Dragneel, deixando um sorriso tomar-lhe os lábios. — Deve ter sido horrível para sua irmã!
— Irmã, hein? — Gajeel murmurou, secando a mão no pano de prato ao terminar de lavar a louça. — Parece ser divertido ter alguém assim.
— Tem várias opções — Natsu disse. — Pode ser divertido, preocupante ou um grande inferno.
— E como classifica suas irmãs? — o moreno indagou.
— Como demônios divertidos — respondeu.
Gajeel franziu o cenho enquanto Natsu ria.
— Por falar em irmãos preocupantes, o que aconteceu com o Ston... Sting? — Levy perguntou.
— Ah, ele foi embora — Natsu tomou a palavra.
Permaneci calada, sem saber ao certo como fazer parte do assunto.
— Soube que ele confundiu o Rogue com o irmão dele — Gajeel balbuciou.
— Sério? — Levy surpreendeu-se. — Mas os pais do Rogue morreram há muito tempo, e ele nunca teve um irmão.
— É, o Rogue deve ter dito isso quando conseguiu se acalmar — Gajeel riu. — Dizem que Aries teve que intervir, pois aquele cara queria dar uma surra em Sting pelo o que ele fez à loirinha.
Suas palavras tornaram-se apenas murmúrios sem sentido para mim.
Irmão? Sting confundiu Rogue com seu irmão? Se esse for mesmo o caso, significa que o Cheney parece com ele...
Senti-me tonta com o choque da revelação.
O sorriso que Rogue dera na loja de roupas... O motivo por ele parecer tão recente em minha mente... Eu sabia o porquê. Era o sorriso daquele cara! O sorriso do Cruela! E, se lembro-me bem, Igneel dissera que o Cruela não sabia o próprio nome.
Poderia ser isso? Cruela poderia ser o irmão de Sting? Aquele por quem o loiro cometera tantas atrocidades?
— Lucy? — Natsu chamou, tirando-me de meus devaneios.
— Oi? — balbuciei, chocada com o que acabara de processar.
— Eu disse que é melhor irmos andando — ele enrolou o cachecol em volta do pescoço.
— Hum? — estranhei. — Pensei que íamos voltar no carro de Gajeel.
— É que quero ter uns momentos a sós com você — ele desviou o olhar.
Corei um pouco com suas palavras, pegando minha blusa e luvas e indo atrás dele.
— Até mais! — despedi-me dos dois amigos.
Estava nevando do lado de fora do conjunto de apartamentos aonde Gajeel morava. A camada ainda estava pouca, pois haviam limpado a rua assim que Natsu e eu chegamos junto com Levy, mas mesmo assim nossos passos faziam barulho em contato com o chão alvo e gelado.
— Amanhã é o dia, não? — Natsu disse de repente, quebrando o silêncio da rua deserta.
— É... — murmurei, olhando para o céu cinzento.
Natsu tirou um controle do bolso e apertou um botão, destravando o carro estacionado de Gajeel.
— Você furtou as chaves dele?! — choquei-me.
— Pedi emprestado para lhe levar de volta — seus olhos ônix fixaram-se em mim. — Pedi na sua frente, não lembra?
— Desculpe, fiquei meio aérea por alguns minutos.
— É por causa do encontro de amanhã? — questionou, abrindo a porta para que me acomodasse no veículo negro.
Esperei ele dar a volta e sentar no banco do motorista.
— Hum... É — menti. Não poderia contar para Natsu sobre minha teoria sobra Sting ser irmão do Cruela quando não possuía provas disso.
— Já se decidiu?
— Sinceramente? Quero ficar — respondi, observando a rua passar em uma velocidade mais lenta que o normal por causa da neve na estrada.
— … É mesmo? — o tom de voz dele pareceu distante.
— O quê? — virei-me para vê-lo. — Acha que estou fazendo a escolha errada?
— Não é isso — replicou. — É só que é uma escolha arriscada.
Arqueei uma sobrancelha.
— Então acha que é uma escolha errada — afirmei.
— Já disse que não é isso — o carro fez uma curva. — Olha, não é o momento certo para discutirmos isso. Vamos ficar calmos, okay? Escolhemos deixar para decidir isso amanhã.
Suspirei, olhando novamente para a janela. Podia ver o meu prédio se aproximar.
— Levy vai fazer faculdade aqui — contei, deixando um sorriso escapar. — Aposto que o Gajeel deve estar feliz.
Natsu parou o carro na portaria.
— As coisas parecem tão mais fáceis para ele.
Encarei-o carinhosamente.
— Natsu... Eu te amo.
Ele virou a cabeça em minha direção, sua expressão em um misto de surpresa e vergonha.
— Por que isso de repente?
— Só achei que deveria dizer.
Ele riu.
— Esquisita.
Armei um biquinho.
— Nesses momentos você deveria dizer “também te amo”, poxa — reclamei.
— Sim, sim... — murmurou, soltando o cinto. Aproximou o rosto do meu, nossas respirações se misturando. — Senhorita Heartfilia... Também te amo.
Seus lábios tocaram os meus, iniciando um beijo ardente como o fogo se alastrando em uma floresta. Senti o cinto de segurança deslizar entre nossos corpos, libertando-me. Enlacei o pescoço dele com os braços enquanto suas mãos percorriam meu corpo da melhor maneira que podiam naquele espaço tão compacto.
O Dragneel liberou meus lábios, seguindo com uma trilha de beijos até meu pescoço.
— Hum... — balbuciei, sentindo o prazer de ter sua boca grudada em meu corpo percorrer-me. — Natsu... — gemi. — Espe... Espere! — empurrei-o, fazendo com que batesse a cabeça no teto e as costas na porta do lado do motorista.
— AI! — exclamou, massageando a cabeça. — Fiz algo errado?
— Não! — abanei as mãos em um gesto negativo. — Não é isso!
— Então não queria — concluiu, fazendo uma face magoada. — Desculpe te tocar.
— Não é isso! — repeti. — Eu queria que fizesse isso!
— Então porque me afastou? — ele parecia estranhamente irritado com a situação.
— … Não posso dizer — senti-me envergonhada.
— Dessa maneira ficarei pensando que realmente não queria — cruzou os braços. — Desembucha logo!
Desviei meu olhar, tentando focá-lo em qualquer coisa do lado de fora do automóvel.
— É que... estou naqueles dias.
— Que dias? — indagou confuso.
— Estou menstruada, Natsu! — simplifiquei, vendo-o fazer uma careta de nojo.
— Tudo bem, aceito isso como desculpa — balançou a cabeça, como se estivesse tentando se livrar da imagem que sua mente imaginou.
Ri, abrindo a porta e dando um beijo em sua bochecha.
— Nos vemos amanhã.
Observei o carro negro sumir no cenário e entrei, começando a me preparar mentalmente.
✩ ✩ ✩
Virgo depositou uma xícara de chá em minha frente na mesa. Estava na antiga Mansão Dragneel, esperando Natsu ser direcionado até o mesmo cômodo que eu. Papai, Igneel e acnologia concordaram em nos deixar discutir isso a sós, entretanto o trio começara a brigar de forma tão assustadora que Virgo (que viera por ordens de Igneel por não confiar — com razão — nas coisas que Acnologia mandava colocar no chá) decidira por todos que era melhor que Natsu e eu conversássemos em um cômodo separado.
— Obrigada, Virgo — agradeci, ouvindo seu “não há de que, Hime” e vendo-a se retirar.
Natsu atravessou a porta assim que a governanta sumiu.
— Oi! — cumprimentou com a respiração ofegante. Ele parecia ter corrido muito. — Sinto muito, passar pela sala foi complicado — apontou para Igneel e Acnologia, que podiam ser vistos da porta aberta. Natsu a fechou.
— Tudo bem — sorri, observando-o se sentar e tomar um gole do copo de água que Virgo havia deixado ali.
— Então... — respirou profundamente, recobrando-se. — É o grande dia.
— Pois é... — murmurei, apertando a xícara em minhas mãos.
— O que decidiu? Vai ficar? Ou partir? — foi direto.
— O que você decidiu? Vai ficar ou ir?
O silêncio tomou conta do ambiente, nós dois sem sabermos o que dizer.
— Sendo honesta — comecei —, pensei nisso a noite toda. E cheguei à conclusão de que a escolha que fizer aqui será definitiva.
Ele prestava atenção em cada palavra que dizia. Senti meus olhos lacrimarem.
— Acho que isso deveria servir para mim também — concordou. — Para qual lado seu coração está pendendo?
— Para o seu — funguei. — Mas toda vez que imagino o que vai acontecer se ficar, revejo a morte do Gray. Diversas vezes, porém com Aries, Mira, Levy... — as lágrimas rolaram pelo meu rosto. — Não sei se vou aguentar isso...
— Quando paro para pensar no futuro se escolher ficar com você, também vejo coisas como essa. Também perdi pessoas importantes, Lucy. Gray era como um irmão para mim. Foi como perder Zeref pela segunda vez.
Olhei em seus olhos.
— Então é isso? Já sabemos a resposta um do outro? — questionei, vendo-o acenar concordando.
— Creio que sim — segurou uma de minhas mãos.
Consegui sorrir.
— Não deixamos para decidir no último momento — ri um pouco, limpando meu rosto com a mão livre.
— Sabe, Lucy... — ele sorriu. — Você é cabeça dura, orgulhosa e geralmente faz as coisas sem pensar nas consequências. Estava preocupado com a decisão que iria tomar — riu. — Para uma caipira, você é muito esquisita!
— O quê? — ofendi-me um pouco. — E você é muito estranho para um mafioso! Faz drama por um galo inexistente, é tapado... — rebati. — Mas — apertei sua mão com força — fico feliz em poder dizer que foi meu. Meu estranho mafioso.
— Não sou tão estranho assim! — rebateu, ligeralmente irritado. No entanto sorriu em seguida, devolvendo meu aperto. — Obrigado por me dar momentos tão bons e bonitos, Lucy. Obrigado por ter dado a possibilidade de te amar como não amei ninguém antes. Obrigado por existir. Obrigado por esbarrar em mim naquele dia.
— Agradeça Aries por isso.
— É por isso que tomei essa decisão. Quero que Aries viva com Rogue o que vivi com você, só que sem a parte complicada.
— Pode me prometer uma coisa? — pedi.
— Depende — belisquei-o. — Ouch! Tudo bem!
— Não deixe que o ódio lhe corrompa, Natsu. Não deixe que Acnologia te mude.
Seu olhar carinhoso recaiu sobre mim.
— Só se prometer ser feliz onde quer que esteja.
Sorri.
— Então estamos entendidos.
Natsu levantou, automaticamente levando-me junto por conta da mão dada. Puxou para um abraço caloroso e que, apesar de cheio de amor, também passava um sentimento de tristeza — abraços podia passar essa sensação?
— Vem. — Puxou-me em direção à porta. — Vamos dizer para eles o que decidimos.
Com um choque, percebi que era a última vez que estaria vendo as costas de Natsu, que estaria sentindo sua presença. Porque a decisão que tomei era definitiva. E ir embora significava não voltar para Magnolia de jeito nenhum. Não manter contato com os Dragneel e simplesmente seguir em frente com minha.
Entretanto, estava feliz com o que havia escolhido. Era o melhor para nós dois. E, mesmo que por um tempo demasiadamente curto em comparação ao resto de minha vida, tive orgulho em afirmar:
“Sou Lucy Heartfilia e namoro um mafioso”.
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