Notas iniciais
Sim, vocês não estão vendo errado. É um novo capítulo de MEM uma semana depois do último! É meu presente de Natal pra vocês. ♥ Mentira, não é não. Ultimamente (desde domingo) ando com um bom humor bem suspeito — porém bom — que me permitiu escrever 80% desse capítulo só no domingo! ♦ Obrigada a PattyPanddy pela tocante vigésima quarta recomendação. ♥ Eu não definiria esse capítulo como... hã... bom, e tampouco engraçado... Bem, irão descobrir a seguir. Aproveitem. ♥

NATSU VIROU-SE PARA mim, segurando meus ombros gentilmente.

— É melhor você ficar aqui — soltou.

— De maneira alguma — contradisse. — Se eu vim até aqui — apontei para o corredor do hospital, tão silencioso que nossas vozes quase ecoavam —, não há motivo para ficar plantada nesse corredor. Quero saber o que houve também!

— Vocês dois, parem de enrolar! — bronqueou Igneel, pela primeira vez sério. — Algo sério aconteceu lá em cima!

O elevador abriu sua porta e nós três entramos, acompanhados de Loki, no cubículo cinza e espelhado.

— O que acham que aconteceu? — perguntei, temendo a resposta.

— Algo muito ruim — afirmou Loki.

— O que foi, afinal? — indagou Natsu. — Você apenas disse que havia uma emergência e não citou mais nada...

O ruivo adotou um olhar tristonho.

— Vai saber quando chegarmos lá — soltou junto a um suspiro.

Não demorou até o elevador voltar a abrir as portas e sairmos em um longo corredor que estava com um certo nível de barulho. Hesitei antes de dar um passo para dentro dele. Conhecia aquele lugar, conhecia aquele corredor, e não estava gostando nem um pouco daquilo.

— Lucy? — chamou Natsu, estranhando minha hesitação.

— É o corredor do quarto do Mystogun — afirmei, convicta. Um arrepio percorreu meu corpo.

— Mesmo? — observou-me surpreso. — Como sabe isso?

— É o momento certo para falar disso? — indaguei.

— O que estão fazendo? — chamou Loki. — Venham logo!

Calamo-nos e o seguimos. A cada passo mais alto as vozes iam ficando, mais desesperadas e mais familiares. Senti um enorme nó se formar em minha garganta. Uma delas gritava.

— Natsu... — murmurei, segurando sua mão mais fortemente.

— Tudo bem — apertou a minha de volta, tentando me reconfortar.

Não estava nada bem!, meu pensamento gritou. De uma hora para outra tudo estava muito turbulento! Muito!

Chegamos na porta e meu corpo travou com a visão. Meu coração falhou uma batida.

Jellal estava agarrado ao corpo do irmão com lágrimas torrenciais escorrendo pelo rosto e Erza estava agarrada ao braço deste, tentando desesperadamente afastá-lo.

— Mystogun! — gritava o azulado com a voz mais desesperada que já ouvira em toda a minha vida. — Não! Mystogun!

— Jellal, se afaste por favor! — implorava a ruiva, contendo as próprias lágrimas. — O médico precisa descobrir a causa!

— A causa? — replicou irritado, o ódio transparecendo no olhar e sendo direcionado para Erza. — Não está óbvio? — apontou para os aparelhos, todos desligados.

— Mas apenas desligaram porque ele...

— Saia.

— O quê?

— Saia, Erza! Saiam todos! Isso aqui não é um show para entreter a todos! — sibilou. — Saiam!

Ninguém parecia ter força ou vontade de contradizê-lo, então silenciosamente todos saíram. Igneel parecia ter algo bem sério para conversar com o médico, pois tanto ele quanto Loki seguiram silenciosamente o doutor.

— Erza, acalme-se — disse Natsu, entregando para ela um copo de água pego no bebedor próximo. Ela estava tão chocada e tremia tanto que nem o banco de espera do corredor parecia ser um apoio confortável.

— Como poderei me acalmar, Natsu? É a primeira vez que vejo Jellal tão... — parecia não encontrar palavra certa para definir — Dessa forma. E eu estava aqui o tempo todo e não pude ajudá-lo em nada!

— Mas o que aconteceu afinal? — indagou. Optei por ficar calada e não dizer ao rosado o quanto aquilo era indelicado, pois também queria saber o que aconteceu e porque sabia que Erza o conhecia bem o suficiente, até mais do que eu, para saber que “delicadeza” não está na lista de qualidades do Natsu.

— Não sabemos — sua voz falhava. —Aparentemente houve um problema em uma das máquinas.

— Problema?

— Não sabemos a causa.

Voltei meu olhar para a porta do quarto de Mystogun. Lembrava claramente de quando Jellal me contou toda sua história, contou no quanto acreditava que seu irmão uma hora iria acordar, no quão forte ele estava sendo aguentando essa situação por anos, em meio à tristeza e ao medo.

Inconscientemente caminhei até lá, abrindo a porta devagar e encarando a cena que quebraria o coração de qualquer um. Jellal chorando sobre o corpo falecido de Mystogun.

Respirei fundo antes de chamá-lo:

— Jellal... — murmurei.

— Disse que era para todos saírem daqui — soltou esfalecido.

— Eu sei — afirmei, sentindo o sentimento de perda atingir-me também. Fui até ele, apertando seu ombro levemente e demonstrando minhas condolências. — Hum... — o que poderia dizer? Meu estado mental não era melhor que o dele. Ambos tínhamos acabado de perder alguém importante para nós. — Sei que não é um grande consolo, porém quando quiser conversar, ou desabafar, sobre o quanto isso é doloroso e arrasador... — suspirei. — Saiba que estarei sempre disponível.

Ele apertou minha mão sobre o ombro dele e virou-se para me olhar. Ele entendia, eu sabia, que também estava machucada pela perda de alguém naquele momento. Podíamos ver nos olhos um do outro.

— Obrigado, Lucy.

Forcei um sorriso para ele.

— Não perca sua positividade e vivacidade, Jellal — pedi.

Um riso seco escapou de sua boca.

— Na hora certa elas voltarão... Sei disso, uma vez que estou acostumado a perder pessoas importantes.

Abracei-o, tentando enviar toda a força e coragem possíveis naquele momento, surpreendendo-o.

— Não faça isso — implorou. — Você também precisa dessas forças.

Então voltamos a segurar nossas mãos, consolando-nos silenciosamente e o máximo possível.

✩✩✩



Expirei fortemente o ar, em seguida levando o celular até minha orelha direita. Um sentimento de paz dominou-me, e o de medo e culpa também. Finalmente estava fazendo aquilo.

Ligando para meu pai.

— Alô? — indagou uma voz feminina do outro lado da linha.

Observei o aparelho. Havia ligado para o número correto? Então lembrei que Rogue havia me dito que papai planejava casar-se novamente, o que trouxe um pouco de raiva desnecessária.

Sabia que tinha que apoiá-lo em prol de sua felicidade, mas... precisava deixá-la até mesmo atender seu telefone? O quão íntimos esses dois são?

Percebi que a mulher do outro lado da linha estava prestes a desligar.

— Alô! Hum... Esse é o telefone de Jude Heartfilia?

— Sim — afirmou com a voz gentil. — Quem é?

Não mudei meu número... Como será que meu nome estava no celular de meu pai?

— Meu nome é Lucy. Sou a filha dele...

— Ah! — exclamou com uma voz alegre. — Então é você! Desculpe, seu pai recentemente mudou de celular e ainda não salvou todos os números! Eu... hum... — ela parecia desconcertada. — Meu nome é Michelle Lobster. Seu pai está no banho e pediu que atendesse... Ah! Ele acabou de sair! Vou passar para ele. Hum... Foi um prazer.

Não respondi.

— Lucy? — veio a voz de meu pai. — Você realmente não se importa comigo, não é? — repreendeu. — Sabe o quão preocupado fiquei? Você não dava nenhum sinal de existência!

— Desculpe — soltei culpada. — Rogue disse que tinha que lhe ligar com mais frequência, no entanto andaram acontecendo tantas — minha voz embargou — coisas ultimamente que não tive muito tempo para pensar nisso.

— Está chorando? Se for o caso, pare nesse instante! — Uau! Realmente devia tê-lo preocupado. Geralmente ele era bem carinhoso. — Uma Heartfilia não chora!

— Sim — concordei, fungando e engolindo o choro. — Quem é Michelle?

— Oh! — pelo tom dava para perceber que ele sorriu. — Queria lhe contar isso pessoalmente, porém agora que perguntou não tenho escolha... Lucy, estou planejando me casar novamente, e Michelle é minha noiva.

Que novidade, pensei amargamente, evitando proferir meu pensamento.

— Espera... Contar pessoalmente? Planejava vir até Magnolia para me contar isso?

— Sim.

Que bom que perguntei.

— E, claro, irei para aí para as arrumações da formatura — acrescentou.

O quê?

— Arrumações da formatura? — indaguei.

— Estava tão concentrada nos estudos que nem ao menos percebeu como o ano passou rápido?

— Hã... Exatamente — forcei uma risada.

— Terei que desligar agora — avisou. — Nos vemos em breve.

— É... — balbuciei, ouvindo-o desligar do outro lado.

Então, meu pai estava vindo para Magnolia em breve. Legal! Não devo me deixar preocupar por causa disso... Nem pelo fato de que ele possa conhecer Natsu. Não devo...

Merda.

✩✩✩



O silêncio reinava na sala, às vezes sendo cortado apenas por uma tosse ou fungos. Mystogun parecia angelical dentro daquele caixão de mogno. Haviam vários Copos-de-leite espalhados pelo salão e o... defunto também segurava um ramo. Erza destacava-se em um canto, olhando apreensiva para Jellal, como se esse fosse ter um ataque a qualquer minuto.

O azulado subiu ao lado do padre e pegou o microfone oferecido a ele. Respirou fundo antes de começar a agradecer a presença de todos ali e chamar Kagura, que subiu imperiosa, bela e com a feição completamente depressiva no rosto.

— Obrigada — agradeceu Jellal, recebendo o microfone e posicionando-se perto do caixão, — Devem estar se perguntando por qual motivo estou aqui neste instante, não? — sorriu tristemente. — Não é novidade para alguns aqui que, quando criança, meus pais e os de Jellal combinaram um casamento entre nossas famílias. O que eu realmente queria dizer — sua voz tornou-se chorosa e as lágrimas finalmente tomaram seu rosto — é que, mesmo tendo sido prometida de Jellal, quem amei mesmo de alma e coração foi Mystogun. E esperei, assim como ele — meneou a cabeça em direção a Jellal —, que este acordasse um dia desse sono profundo ao qual fora amaldiçoado. No entanto, isso não é mais possível. Portanto, queria apenas deixar claro que... Amei Mystogan Fernandez, como jamais amarei outro homem. Amei a pessoa maravilhosa que ele demonstrou ser e que deixou, infelizmente, esse mundo. Eu...

Ela não conseguiu terminar, debulhando-se em lágrimas. Meu coração doía vendo aquela situação. Kagura sempre passou uma imagem forte — apesar de ser bem envergonhada — e decidida, vê-la em um estado tão frágil era simplesmente aterrorizante.

Jellal pegou o microfone, aconselhando Kagura a se sentar.

— Obrigado a todos pela honra de comparecerem aqui para se despedir de meu irmão. Como muitos do que estão aqui conheceram Myst, não é preciso afirmar nada mais do que não saibam. Ele era alguém calado, mas pretensioso. Sempre soube o que queria, a quem queria ajudar e amava todos ao seu redor. Se uma coisa boa pôde ter vindo daquele acidente — ele engoliu em seco —, foi a maneira como preservou sua personalidade em nossas mentes e almas. Alguém puro e incapaz de pensar em fazer o mal a ninguém. Hoje o corpo dele se vai, mas ao mesmo tempo, a alma dele se liberta. Apenas — Jellal fungou — obrigado.

Depois disso, os parentes começaram a se despedir de Mystogun, caminhando até o caixão que em breve seria selado e dizendo seus desejos para a alma dele.

Fui até Erza, que antes ficara ocupada em acalmar os avós de Jellal enquanto ele fazia o discurso de despedida.

— Oi — saldei.

— Oi — forçou um sorriso.

— Faz algum tempo desde que nos vimos dessa maneira — comentei.

— É... — concordou, sentando-se em um banco da igreja. Recostei-me ao lado dela. — Um tempo bem longo.

— Como — hesitei — se sente? Com isso tudo?

Seus olhos castanhos me avaliaram. Um sorriso quase imperceptível tomou seus lábios.

— É a primeira pessoa a me perguntar isso... — confessou. — Parece que ninguém se importa com o que eu possa estar sentindo em relação à morte dele.

— E como está se sentindo? — perguntei.

Respirou fundo.

— Em um misto de Jellal e Kagura. Conhecia Mystogun há tanto tempo quanto Jellal, e o amava tanto quanto Kagura. E, no fim, estou sofrendo o mesmo tanto que os dois.

— Erza... — balbuciei.

— Soube que as coisas não andam fáceis para você também...

Isso lembrou-me que as coisas tampouco estavam perfeitas para mim.

— Todos estamos sofrendo de alguma maneira, não?

— É a mais pura verdade — concordou, levantando-se. — Venha, vou lhe apresentar aos avós do Jellal. Eles vão gostar de você.

Sorri para ela.

— Claro.

✩✩✩



— Outubro, hein? — murmurei para mim mesma, sentindo o vento frio que entrava pela sacada do meu quarto. — Já estamos mesmo no final do ano...

— E no melhor ano de todos! — exclamou alguém na porta.

— Igneel!

— Toc, toc, posso entrar? — perguntou brincalhão, já adentrando no meu quarto.

— Ora, mas é claro que sim! A casa é sua, afinal.

Sentou-se ao meu lado na cama, observando o que estava fazendo.

— O que são todas essas coisas?

— Presentes que ganhei de pessoas muito especiais durante minha vida — expliquei.

— Essa presilha é muito bonita — elogiou, pegando a mesma presilha de cabelo que Rogue havia feito para mim. Sorri com a lembrança.

— É mesmo, não é? — indaguei retoricamente.

— Oh! Isso! — apontou para o colar que Sora havia me dado.

— Reconhece esse colar? — perguntei surpresa.

— Como não? Sua mãe usava o tempo todo! — estava começando a ficar envergonhada, pois Igneel tinha se acomodado tanto na cama que quase estava deitado em mim.

— Nunca me contou como conheceu minha mãe — afirmei.

Ele riu, apoiando a cabeça em meu ombro e me fazendo corar.

— Quando era pequeno, haviam muitos garotos invejosos que tinham raiva de mim por causa de meus olhos dourados, então...

— Dourados? Mas seus olhos são rosados, Igneel! — ri. — Assim como seu cabelo!

— Ei! — esbravejou. — Eles era azulados quando eu era bebê, depois lentamente foram mudando para o rosa, sabia? Nem minha mãe sabe explicar o porquê! — continuei rindo, o que resultou em um sorriso incrivelmente charmoso e nunca visto da parte dele. — Droga, pare de rir, Layla.

O riso travou em minha goela e olhei em um misto de susto e surpresa para ele, que tocou-se do que havia dito. Bagunçou o próprio cabelo e desencostou-se do meu ombro.

— Igneel...

— Er, você sabe... — balbuciou, sem jeito. — Você realmente lembra sua mãe. Até no jeito de agir. Desculpe, Lucy. Não foi legal de minha parte o que acabei de dizer.

— Não — neguei com a cabeça. — Eu gostei. Para mim, ser confundida com minha mãe é uma honra — senti meus olhos lacrimejarem. — Continue me contando como a conheceu, por favor!

— Lucy... — sorriu. — Tudo bem — voltou à sua liberdade anterior e deitou-se em meu colo. — Por causa desses garotos, sinto dizer que sofria um pouco de bullying. Então, um dia sua mãe foi ao consultório da minha mãe e viu a cena. Ela foi incrível! Acabou com os meninos em meros segundos. Depois disso a notícia de que namorávamos se espalhou pela escola e pronto.

— Quê? Vocês começaram a namorar só porque minha mãe deu uma surra em uns pequenos delinquentes? — indaguei descrente.

— Basicamente. Sabe — ele brincava com a presilha enquanto falava —, não era o garoto mais sociável da escola. Vivia tocado dentro da biblioteca, estudando culturas diferentes. Decorava o nome dos imperadores chineses, porém não decorava o nome dos meus colegas de classe. Só conversei com Layla durante vários anos de minha vida.

— Isso não é algo para se orgulhar... — afirmei.

— Gah! Não me lance esse olhar de pena! — repreendeu. — De qualquer forma, no ensino médio conheci Honoka e a partir daí fiquei um pouco mais sociável. Foi na faculdade, quando me livrei dos óculos e me senti mais livre para explorar meus gostos que as coisas realmente mudaram. Na verdade, parando para avaliar agora, desenvolvi uma coragem admirável, levando em consideração tudo o que passei para ficar com Honoka.

— Como terminou com minha mãe para namorar com Honoka? — ousei perguntar.

Ele bufou.

— Foi sua mãe que terminou comigo.

— Eh?! — exclamei incrédula.

— Em algum momento percebemos que o sentíamos não era mais paixão, e sim amizade. Então ela achou seu pai — deu de ombros —, que não gostava de mim nem um pouco, e eu fiquei sozinho.

— Sozinho? Você ficou com Honoka, certo?

— Não. Fiquei só. Completamente. Honoka teve vários “namorados” antes de mim. Também tive minha época namoradeira, mas...

— Entendo.

— Depois que Honoka e eu nos resolvemos, sua mãe e Jude já estavam para se casar. A última vez que vi Layla foi no seu aniversário de dois anos — explicou. — Fiquei bem chocado quando soube da morte dela.

Entristeci um pouco, porém de alguma forma sentia que poderia falar daquilo com Igneel.

— Algo que me frustrou e até hoje me deixa meio indignada é o fato de nunca terem descoberto o que a matou. Ela apenas caiu doente depois que tentaram me sequestrar durante minha infância e... só. Os médicos foram inúteis. No final ficamos somente eu, meu pai, e dois corações destruídos por essa tragédia.

Ele levantou-se, encarando meu rosto

— Ainda dói?

Notei que meu olhos estavam a ponto de transbordar.

— Muito. Mas, sabe, não posso falar sobre isso com ninguém. Porque meu pai vai se casar, e ninguém se importa mais. Todos seguiram em frente.

— E eles insistem que você faça o mesmo, não é?

Observei-o bem. Ele parecia entender o que queria dizer.

— Igneel...

— Leve seu tempo, Lucy. Não se apresse. O coração é algo muito delicado. Se o encher demais, ele pode acabar deixando de funcionar bem.

O rosado estendeu os braços e abraçou-me, dando todo o conforto que senti que precisava por anos.

— Obrigada! Muito obrigada!

— A propósito, Lucy...

— Sim? — perguntei, separando-me dele.

— Tem tantos presente aqui... Mas não vejo nada que o Natsu pudesse lhe dar. Não me diga que ele foi estúpido o bastante para não lhe dar algo nem de presente de aniversário.

— Oh! Ele me deu algo sim!

— O quê?

Apontei para um montinho felpudo azul no canto do quarto — o adormecido Happy.

— Uma bola peluda azul? —Igneel foi até lá e cutucou Happy, arrancando um riso meu. — Ele realmente é um tapa...

— Que barulho todo é esse? — indagou o gato, acordando.

O grito que Igneel soltou foi deveras feminino, o que fez-me gargalhar.

— O que é isso? — apontou para o animal.

— É o Happy. A propósito, isso é um gato.

— Azul?

— Sim — nunca vi o rosto de Igneel tão vermelho. Geralmente, era ele quem deixava as pessoas dessa maneira, e não o contrário.

— Espera um pouco! Wait a minute, please! — recuperou o fôlego. — Está me dizendo que Natsu lhe deu um gato azul e que ainda por cima fala?

— Estou! — concordei com a cabeça para parecer ainda mais convicta.

— Posso... mostrá-lo para Meredy? — seus olhos quase brilhavam, o que me assustou um pouco.

— Cla-claro...

— O quê? — desacreditou o dito cujo, que antes apenas nos observava. Igneel pegou e saiu correndo porta afora. — Espe...! Lucy, me salve!

Observei meu quarto. Bom, era melhor arrumar aquelas coisas e ir dormir.

Estava terminando a faxina quando ouvi baterem na porta.

— O que foi, Igneel? Veio devolver o Happy? — abri a porta. — Ah!

— Oi... Creio que esteja ocupada agora, então volto outra hora... — murmurou cabisbaixa após ver o estado de meu quarto.

— Não! Eu já estava terminando, pode entrar.

— Obrigada, Lu-chan.

Levy dirigiu-se até minha cama e sentou-se lá, observando-me completamente calada. Quando terminei, finalmente pude dirigir minha atenção para ela.

— E então? — sorri. — O que foi?

— Gostaria de falar com você... sobre Yukino.

O sorriso esmaeceu de meu rosto. Engoli em seco.

— Não é algo de que queira falar — respondi.

— Também não quero, porém precisamos — seus olhos demonstravam sua determinação.

— Por quê? — irritei-me. Levy e eu quase nunca brigamos na vida.

— Por que é algo que diz respeito a nós duas! Para mim e para você, Yukino era alguém gentil e tímida.

— Ela não foi nada disso quando tentou me matar!

— Exatamente! Quais motivos ela teria para isso? Aries a matou sem consideração alguma! Ela não tinha o direito de tirar a vida de Yukino! Conheço a Yukino há mais tempo que as duas e juro que ela não seria capaz de fazer nada disso! — ambas gritávamos.

— Se não fosse eu lá, naquela piscina, teria pensado a mesma coisa... — um sorriso de escárnio se formou em minha boca pela primeira vez na vida. — O quanto nós duas sabemos, Levy? Passei minha vida inteira ao lado das duas e, na primeira chance, Yukino tentou me eletrocutar em uma piscina! Não estou dizendo que Aries estava certa em matá-la, pois não estava, no entanto também é errado supor que Yukino era completamente inocente!

— Ela... Tentou lhe matar eletrocutada? — os olhos de Levy eram duas esferas castanhas e surpresas. Suas mãos tampavam a boca. — Ela realmente tentou lhe matar? Não era mentira de Gray e os outros?

Encarei-a surpresa.

— Levy... O quanto você sabe? — franzi o cenho.

— Absolutamente nada! — meneou a cabeça em um gesto frustrado. — Tudo o que sei é que Aries matou Yukino por supostamente tentar lhe matar.

Permaneci calada, observando a figura diminuta de Levy. Seus ombros estavam tensos e ela se esforçava para limpar os resquícios das lágrimas que soltara enquanto brigávamos.

Silenciosamente sentei ao seu lado, pensando no que dizer a seguir.

— Sabe... — comecei, hesitante. — Entendo o quão frustrante é essa situação para você. Era assim que me sentia quando Natsu não me contava nada. Então... Vou lhe contar tudo. — ela olhou para mim e devolvi o gesto. — Sim, Yukino — minha voz travou por um instante, o qual aproveitei para respirar e me recompor — tentou me matar. E também é certo que Aries a assassinou.

— Não entendo quais motivos Yukino poderia ter para tentar fazer isto — seus olhos tristonhos procuraram pelos meus.

— Aparentemente — desviei o olhar — porque namorei Rogue.

— O quê? Isso é ridículo!

— Eu sei — fechei os olhos. — Também não quis acreditar quando ela disse... E quando quis ajudá-la por causa do... — meu peito doeu com o quão claras estavam essas memórias. — Bom, quando tentei salvar a vida dela, ela apenas disse que tinha escárnio de mim.

Esperei pela resposta que não veio. Levy estava tentando digerir tudo aquilo, eu sabia. O silêncio começou a pesar algum tempo depois.

— Lu-chan... — chamou, a voz agora calma e triste.

— Sim?

— Só quero que saiba que... — suspirou. — É tão difícil! Olha, quero que saiba que eu jamais, jamais — repetiu para enfatizar —, tentaria fazer algo assim.

— Eu sei! — pisquei os olhos confusa. — Você não é esse tipo de pessoa, Levy!

— É, mas... — remexeu-se, desconfortável. — Estava me perguntando se pensava que pudesse tentar algo... Quero dizer, Yukino e eu a conhecemos quase ao mesmo tempo! Então... — torceu as mãos nervosa.

— Levy — separei suas mãos e as segurei. — Embora Yukino tenha feito aquilo e me surpreendido, sei que nunca fará algo assim. É verdade que a diferença no tempo de amizade é bem escassa, porém é mais significativa do que está imaginando. Você não é apenas minha melhor amiga. É minha irmã. E minha confidente. Sei que, não importa o que aconteça, posso confiar em você. Aliás, você deve ser a única pessoa no mundo que não mentiu ou omitiu nada de mim!

— Lu-chan... — balbuciou emocionada.

— Mudando de assunto — soltei suas mãos e ajeitei-me na cama mais confortavelmente —, é de se admirar como foram gentis em lhe dar a informação. Quero dizer... Comigo as coisas aconteceram de um jeito mais rude... Bom, acho que precisava ser assim para aguentar namorar Natsu. Ele é o futuro líder, afinal — ri, virando meu olhar para ela e percebendo que estava com uma expressão suspeita no rosto. — O que foi?

— Hum... — murmurou sem jeito. — Não é que quisesse esconder ou algo assim. Somente não encontrava momento certo de contar e...

— O quê? Você também estava escondendo algo de mim? — sou rodeada de traíras mentirosas!

— Não é algo tão sério quanto o que os outros escondiam! — suas bochechas coraram. — É algo que me diz respeito.

— Está namorando alguém ou algo assim? — indaguei reciprocamente, uma vez que não acreditasse que fosse algo que não me dissesse respeito. Notei seu silêncio e então a ficha caiu: — Eh? Está mesmo namorando alguém?!

Suas bochechas arderam ainda mais.

— Sim — confirmou envergonhada.

— Quem? — agarrei seus ombros, animada. — Há quanto tempo?

— Logo fará dois meses... É o Gajeel.

— O quê? — berrei, incrédula. Pouco me importava se Natsu estava tentando dormir no quarto ao lado. — Como... Quando... O quê? — não conseguia formular uma frase para demonstrar meu espanto.

Ela riu.

— Pois é! Aconteceu no Fairy Latte. Um dia estava sendo importunada por alguns clientes, rolaram umas coisas e acabamos tendo nosso primeiro beijo. Depois disso as coisas lentamente mudaram para nós dois.

— Isso é... Um tempo atrás você me disse que não havia nada entre os dois!

— Eu menti — assumiu sorrindo.

— Por quê?

— Apenas... Não sentia que era o momento certo — admitiu. — Desculpe. Entretanto o que disse é verdade. Gajeel fica bêbado muito facilmente.

Sorri para ela.

— Que bom para você, Levy! — abracei-a, sendo completamente correspondida.

— Obrigada!

✩✩✩



— Obrigada pelo trabalho duro! — agradeceu Evergreen, terminando de entregar nossos salários em nossas mãos. — Vocês trabalharam muito bem, mesmo estando com o psicológico pesado pelos últimos acontecimentos... — elogiou. — Aproveitem o dia de amanhã para descansar.

— Ah! — suspirei ruidosamente, chamando a atenção de todos. — Uma folga logo quando o segundo andar fica pronto...

Alguns dos funcionários riram.

— É verdade! — concordou Levy. — Estamos todos muito animados para trabalhar com o segundo andar.

— É mesmo? — indagou Ever, ajeitando os óculos. — Já que é assim, mudo seus turnos para amanhã e...

— Era mentira! Nos desculpe! — pedimos Levy e eu, juntas, arrancando ainda mais risos. Inclusive da própria Evergreen.

— Então até depois de amanhã. Agora saiam, tenho que trancar tudo.

Os murmúrios subiram e o grupo se dispersou.

— E então? — perguntei para Levy. — Folga — levantei uma mão. Levantei a outra, com o envelope cheio de dinheiro: — Salário — mexi-as. — O que vai fazer?

— Oh... Gajeel e eu decidimos ir a um encontro — respondeu, apontando para o moreno que vinha em nossa direção e parecia poder ouvir nossa conversa.

— Encontro? Que bom! Queria poder sair em um também... — balbuciei desejosa.

— Por que não pede ao imbecil? — perguntou Gajeel, apoiando o braço na cabeça de Levy.

Suspirei.

— Ele vai estar ocupado amanhã.

— Há quanto tempo vocês namoram mesmo? Seis meses? Mais? E quantos encontros tiveram até agora?

— Um... — admiti cabisbaixa.

— Um?! Isso é um absurdo! — bronqueou a azulada. Gajeel me encarava com pena. — Deveria pedir para ele ficar mais tempo com você!

— Mas...! — calei-me, deixando o dois se adiantarem três passos enquanto andávamos na rua. Notei Ever e Elfman se encontrando do outro lado da calçada, porém ignorei.

“Mas não é como se pudesse pedir isso”; era o que queria dizer. Natsu ajudava a manter a paz nessa cidade e tinha muita coisa para lidar. Ele não era como Gajeel, um espírito livre que poderia ir e vir entre as missões.

Suspirei, desistindo daquela discussão que seria inútil. Foi exatamente nesse momento que senti meus pés deixarem o chão e meu corpo voar para frente. Gajeel e Levy se tornaram um borrão e senti um forte impacto ao bater contra algo.

— Ai... O que foi isso? — murmurei, entreabrindo os olhos. Estava um pouco tonta, porém pude enxergar muito bem aqueles poucos flashes que minha mente me possibilitou distinguir.

Levy estava ao redor de Gajeel, murmurando algo sobre seu braço. Elfman, mais longe, sacudia o corpo inerte de Evergreen. E ainda mais longe, em chamas, estava o completamente destruído Fairy Latte.

Minha visão embaçou. Olhei para a minha mão, que antes havia colocado na cabeça. Estava vermelha. Sangue. Senti meu estômago embrulhar.

Perdi a força no braço que usava de apoio e cai de no chão, a última coisa que vi sendo dois pares de botas marrons e algo amarelo se aproximando. Fios de cabelo.

Cabelo loiro.

— Que bela visão — murmurou alguém. — Terei certeza de lembrar disso.

E então a inconsciência tomou conta.



『I Can't Decide』

Notas finais
I Can't Decide - Último encerramento de MEM /feels/ http://www.4shared.com/mp3/hlFmIsxAce/08_I_Cant_Decide.htm R.I.P Mystogun/Evergreen/Gajeel (?) Três (?) de uma vez? ME TRANSFORMEI EM UMA ASSASSINA!! S.O.S!!! Brincadeiras à parte, realmente dois morreram... Esse capítulo foi cheio de sentimentos, não? De perda e de dor. Até nosso charmoso Igneel, que sofria bullying dos meninos recalcados do fundamental, demonstrou um pouco da dor dele... Se uma coisa boa saiu desse capítulo, ao menos, foi o fortalecimento da amizade da Lucy com a Levy (principalmente), o Jellal e a Erza. Acho que agora o que o Max falou faz sentido, hein? Judito está indo pra Magnolia em breve, hein? As coisas só tendem a piorar a partir daqui... Well, não soltem os cintos ainda pois esse avião acabou de decolar. Se eu não chegar a postar outro capítulo adiantado, desejo boas festas à todos! Beijos de luz, até o próximo/ ano que vem~!