Meu Estranho Mafioso
62 Cinquenta e um.
Notas iniciais
ABRI MEUS OLHOS, mal enxergando o teto de tão escuro que o cômodo estava. Levantei, tentando me lembrar do que aconteceu e sentir meus ombros pesarem por algum motivo. Um nó grande se formou em minha garganta.
— Ever... Gajeel... — murmurei, sentindo meus cílios pinicarem e as lágrimas formarem-se. Tentei limpar meu rosto com as mãos, porém o fluxo era tão grande que apenas desisti daquilo.
Respirei fundo, tateando o chão a minha volta. Onde estava afinal? Lembro-me vagamente de ver sangue em minha mão, e depois...
Engoli em seco. Cabelo loiro.
Sting? Não... A voz não batia...
Minha linha de raciocínio foi interrompida pela iluminação súbita do local. Pisquei meus olhos algumas vezes, tentando acostumar com a claridade do local.
— Ora, veja só... Finalmente acordou — anunciou um homem que aparentava estar entrando na casa dos quarenta. O cabelo era castanho e estava amarrado em um rabo de cavalo. No rosto, um longo bigode e olhos castanhos.
— Quem é você? — indaguei amedrontada, tentando afastar-me o máximo que podia. Senti algo impedir meus movimentos bruscos e finalmente me dei conta do que estava pesando em meus ombros. Um metal grosso e em forma arredondada fora posto em meu pescoço.
Ele botaram uma coleira em mim!
— Não há porque ter medo, srta. Heartfilia — afirmou, aproximando-se. — Não irei lhe fazer nada... no momento — o sorriso que demonstrou deu-me todas as certezas do mundo que era isso que ele desejava. Ofereceu sua mão para mim, disposto a ajudar-me a sair da cama arredondada aonde me encontrava. — Deixe-me ajudá-la, sim?
— Não, obrigada — respondi inconscientemente, afastando meu corpo de suas mãos.
Geralmente tentaria lidar educadamente com o sequestrador — igual fiz com Erigor. No entanto esse cara tinha algo estranho. Meu sistema de segurança estava apitando para tomar cuidado com ele.
— Tsc, tsc — balbuciou reprovador. — Tomaria cuidado com essa atitude. Pode ter consequências nada agradáveis para você — voltou a sorrir, demostrando que a ideia lhe agradava.
Engoli em seco, tentando pensar no que deveria saber.
Estava em um lugar totalmente desconhecido, em um quarto que parecia uma réplica exata do de Aries — com exceção dos ursos de pelúcia —, sem janelas, com uma coleira no pescoço e com um cara que parecia querer fazer algo ruim comigo.
— Ficou tão silenciosa... — riu, e senti calafrios percorrerem minha espinha. — Escute aqui, garotinha... — puxou meu queixo brutalmente, fazendo-me encará-lo. — Não pense que apenas por ser namorada daquele babaca isso lhe faz alguém importante.
— Me faz alguém importante o bastante para ser sequestrada por alguém como você — não pude evitar meu tom de nojo ao citá-lo, o que rendeu sua ira e um belo soco em meu rosto. Senti meu rosto arder fortemente no local atingido.
— Disse para tomar cuidado com essa atitude — sibilou massageando levemente o punho, o tom divertido havia desaparecido completamente de sua voz. Puxou meu cabelo com força, forçando meu pescoço contra a coleira e soltei um murmúrio de dor. — Você só está viva ainda porque eles querem isso. Assim que tiver cumprido seu papel, Lucy Heartfilia... Será apenas uma peça a mais no jogo — soltou-me finalmente e puxei o máximo de ar que pude com a boca, tentando recobrar minha respiração. — E quando esse momento chegar, terei prazer em me livrar de você.
— Já chega, José — balbuciou outra voz, fazendo-se presente.
Na porta de carvalho escuro encontrava-se um homem de estatura mediana. Calçava botas marrons, uma calça um pouco mais clara, uma camisa branca de mangas bufantes com um colete vinho. Na cabeça um chapéu da mesma cor do colete, e abaixo dele um longo e brilhante cabelo.
Cabelo loiro.
Senti uma onda de arrepios perpassar por meu corpo ao me tocar que era ele.
Fora ele que agredira Max, explodira o Fairy Latte e me trouxera até aqui.
— Pensei que ela havia requisitado sua presença, Rufus. — José finalmente deu as costas para mim.
— E requisitou — afirmou o loiro. — Agora o que realmente quer é conhecer a namorada de Natsu — soltou um sorriso, fincando seus olhos em mim. — A bela namorada de Natsu...
José bufou.
— Sempre tudo na hora que ela quer.
— Não é como se tivesse coragem para ir contra as vontades dela, não é mesmo? — provocou.
— Não me atice, Rufus, ou eu.... — irritou-se o moreno.
— Certo, certo... — fez pouco caso, meneando a mão como se estivesse espantando um mosquito. — Preciso levar a garota.
— Tsc! — exclamou José. — Entendi — virou-se, voltando a socar meu rosto e fazendo meu corpo cair na cama.
— Que deselegante — murmurou Rufus, aproximando-se.
— Vá para o inferno! — berrou José, botando um saco em minha cabeça e acabando com minha visão. Senti meus pulsos serem amarrados juntos por algum tipo de tecido. Um lenço, talvez. — Suma daqui antes que te arrebente!
— Isso parece impossível para você. — Rufus riu.
Ouvi José xingar antes de sentir um tranco na região do pescoço e ser forçada a caminhar na direção aonde lembro de ter visto a porta. Senti o chão lustroso sob meus pés descalços e tropecei algumas vezes antes de ter total controle de meus movimentos sem a ajuda da visão.
Senti o impacto do meu ombro contra o batente da porta. Havia chegado no limite do que conhecia.
— Opa! Cuidado aí! — alertou Rufus, tarde demais.
Com outro solavanco, voltou a puxar-me para frente. E então entrei em território desconhecido.
[DS → Erza Scarlet]
— Não é seguro, Erza — afirmava Mira, tentando me convencer do contrário.
— Realmente não é — concordei. — Para Lucy. Não a incomoda saber que ela pode estar amedrontada lá?
— É claro que incomoda! — exclamou exasperada, voltando os olhos azuis que neste momento pareciam estar enfrentando uma tempestade para mim. — Todos estamos preocupados com ela, mas precisamos de um plano. Entrar lá de qualquer forma pode provocar consequências impensáveis.
— Mira... — bufei, virando-me pronta para contradizê-la.
— Não é como a situação com Erigor, Erza! — cortou qualquer linha de pensamento que pudesse estar tendo. Arrancou minha catana das minhas mãos. — Você sabe disso, eu sei e Natsu também. Um passo errado e tudo que Igneel e Honoka construíram, tudo e todos que amamos... Tudo será completamente destruído.
Respirei fundo, digerindo aquelas palavras.
— Você está certa — admiti com um suspiro. — Desculpe, Mira. É que... Pensar que Lucy está em perigo logo depois de perder Mystogun é tão...
Ela aproximou-se e envolveu-me com seus braços em um abraço terno e maternal, que me lembrou quando éramos menores e ela dava uma de irmã mais velha para mim.
— Tudo bem, Erza. Você está psicologicamente cansada. Todos nós entendemos. É por isso que acho que deve ficar fora disso, entende?
— Mas a Lucy...! — tentei.
— Vamos buscá-la — interrompeu-me. — Enquanto der, vou ajudar o máximo possível.
— Mira... — murmurei, abraçando-a em seguida. — Obrigada.
[Erza Scarlet → Off]
— Chegamos — cantarolou Rufus, empurrando-me para frente. Tropecei em meus próprios pés e caí de lado no chão. — Oops! Desculpe.
— É ela? — indagou uma voz feminina.
— Sim — confirmou a voz de Rufus.
— Então porque ainda não tirou o capuz? — questionou exasperada.
— Iria fazer isso agora mesmo — afirmou o loiro com a voz tremida.
— Não seja tão bruta com ele, Ojou — proferiu uma terceira voz, fazendo-se presente. Senti meu sangue congelar.
Aquela voz... Eu a conhecia. E muito bem.
Meu corpo começou a tremer somente por conta das lembranças. Um enorme nó se formou em minha garganta.
Tiraram o capuz de minha cabeça e finalmente recobrei a visibilidade. Na minha frente, em uma cadeira vinho aparentemente muito confortável, encontrava-se uma mulher que jamais havia visto — o que já havia percebido pela voz. Seu cabelo era negro e muito liso, com duas franjas paralelas adornando-o de cada lado. Trajava um vestido azul com um corte que deixava suas pernas torneadas à vista e seu rosto, bem maquiado, era composto de olhos castanhos e lábios de tamanho medianos que curvavam-se em um sorriso.
Ignorei-a completamente.
Ao seu lado, usando um terno marrom encontrava-se ele. Aquele que, em meus pesadelos, sempre marcava presença.
Sting.
— Então você é Lucy Heartfilia, a tão comentada namorada de Natsu... — começou a mulher, chamando minha atenção. Sua voz saiu em um tom estranho ao pronunciar o nome do rosado. — Soube que ficou famosa por sua ousadia para com ele — permaneci calada, os olhos rolando dela para Sting. — Por que ela não diz nada? Por acaso é muda? — soltou um riso. — Isso não faz o estilo do Dragneel.
Rufus afastou-se de mim quase imperceptivelmente, caminhando até o canto do cômodo.
Também ignorei a presença dele.
Meu olhos estavam atentos a todo e qualquer movimento de Sting.
— Ojou, posso afirmar que ela está longe de ser muda. É bem barulhenta, na verdade — deixou um sorriso escapar pelos lábios, porém assim que percebera o corrido tratou de voltar para a expressão séria anterior.
— Mesmo? — a morena voltou o olhar para mim. — Hum... — murmurou com caráter avaliador. Levantou-se, vindo até mim. — Nada demais no rosto... — pegou uma mecha de meu cabelo. — Cabelo sem graça... — riu, perdida em sua própria piada pessoal. — Céus! Teria sido melhor ele ter ficado com a sem-sal da Lisanna! — voltou para sua cadeira. — Oh, é verdade! Você destruiu a confiança entre eles, não é mesmo, Sting? — levantou uma xícara que até então havia permanecido na mesa à frente e o loiro a encheu com um líquido acastanhado e fumegante.
— De fato, Ojou — concordou, lançando um olhar rápido em minha direção. Nossos olhares se fincaram por incontáveis segundos antes dele desviar a visão, desconfortável.
— É decepcionante — murmurou a morena. — No final ele acabou escolhendo uma caipira.
Irritei-me ao ouvir aquilo. Era o estopim para ativar minha raiva. Sempre fora.
Odiava quando tentavam me diminuir. Ou qualquer um dos meus amigos que vieram de Lupinus. Não foi surpresa nenhuma quando meu fator “ousadia” ativou-se e de minha boca saiu tal resposta:
— Sim, de fato sou uma caipira. E é exatamente por isso que sei reconhecer uma vaca assim que a avisto.
Sting arregalou os olhos com minha resposta, porém ele não era mais meu foco.
A tal “Ojou” abriu e fechou a boca algumas vezes, desacreditando no que havia dito. Seu rosto ficou vermelho devido à raiva e ela precipitou-se, acertando um tapa em minha cara com toda a força que possuía.
— Como você ousa, sua vadiazinha? — indagou com raiva.
— Minerva, por favor... — tentou Sting. — Acalme-se.
— Cale-se! — rosnou. — Vá chamar José — sibilou entredentes para Rufus, lançando-me um olhar cheio de ódio. Senti meu corpo estremecer com a citação do nome de José. — Agora.
— Entendido, Ojou! — exclamou o loiro, correndo até a porta e sumindo após atravessá-la.
Minerva voltou sua atenção para mim. Pegou meu cabelo e pude sentir alguns fios se soltarem.
— Você demonstrou não ser muda, mas considerando sua ousadia, deveria ser.
Acertou um chute em meu estômago, tão forte que me fez golfar um pouco.
Tossi.
— Ojou, acho que deveríamos... — tentou novamente Sting.
— Quieto, Sting! Aqui — foi até uma cômoda e tirou de lá algo, jogando-o em seguida para o loiro. — Quero que grave tudo e envie para o Natsu.
— Mas Ojou...
— Está indo contra minhas ordens? — voltou a sibilar, ainda mais assustadora.
— De maneira alguma — respondeu Sting, calando-se.
— Ouvi dizer que precisa de minha ajuda para alguma coisa, senhorita — afirmou José, chegando na sala com um enorme sorriso no rosto. Lançou um rápido olhar para mim. — Deixe-me adivinhar... A ousadia dela?
— Quero que arranque a língua dela fora — ordenou Minerva.
— Oh, com prazer! — tirou um canivete do bolso. — Quer de forma artística ou...
— Apenas arranque fora, José. Quero que nunca mais seja capaz de dizer uma palavra!
— Como quiser — sorriu sadicamente, olhando diretamente para mim. Levantou-me bruscamente, brandindo o canivete perigosamente em minha direção. — Abra! — rosnou, referindo-se à minha boca. — Ousada até o final, não? — murmurou, apertando minhas bochechas dolorosamente e forçando minha boca a abrir. Puxou minha língua, ignorando minha movimentação relutante.
Senti o ferro frio tocar a ponta da minha língua, seguido pelo gosto de sangue em minha boca. Tentei gritar, porém a voz não saiu. Estava travada de medo.
Minha visão embaçou, denunciando as lágrimas.
— Espere, José — interrompeu Sting, fazendo o moreno para o ato ainda no começo.
— Pensei ter lhe mandado ficar quieto, Sting — comentou Minerva, que antes apenas assistia prazerosamente a cena já em sua cadeira.
— Ojou, não acha que é uma péssima decisão? — indagou o loiro. — Não seria melhor ouvi-la gritar?
Arregalei os olhos.
O que aquela mente doentia estava pensando?
Parecia que o sangue havia parado de correr em minhas veias.
— Hum... — murmurou Minerva, pensativa. — Realmente. José, pare com isso.
— Tsc! — exclamou irritado. — Obrigado por acabar com minha diversão, Sting.
— Ora, apenas pedi para não cortar a língua dela fora — explicou a morena, lançando um olhar divertido.
— Então eu posso... — supôs com um sorriso formando-se no rosto.
Minerva riu, como se estivesse vendo um filho animar-se ao saber que poderia ir dormir na casa de um amigo ou algo do gênero.
O quê? Ele pode o quê?
— Sim — liberou ela. — Torture-a.
Sem nem esperar mais José virou-se, metendo um soco em meu rosto, que ainda ardia por conta do tapa de Minerva. Voltei a encontrar o chão, dessa vez com minha face.
Ele aproveitou-se disso e chutou meu estômago com força, o que me fez arfar.
Puxou minha cabeça e voltou a descê-la em direção ao chão, e o impacto foi tão forte que me fez ficar tonta. Tentei chutá-lo, porém pisou em minha perna sem dó e um som nada agradável saiu de lá. Era a mesma perna do meu pé recém-recuperado... Gritei, inconscientemente fazendo a vontade deles, que apenas riam.
E Sting permanecia calado, filmando silenciosamente.
José voltou a brandir o canivete e essa foi a última coisa que vi antes de apagar.
[DS → Mirajane Strauss]
— Vou matá-los — decidiu Natsu, assim que terminou de assistir o conteúdo do pendrive que fora entregue na frente da mansão. — Eu realmente vou!
— Acalme-se — aconselhei. — Reagir por raiva não ajudará em nada.
— Me ajudará a matá-los — sibilou.
— Quando ocorreu o sequestro do Erigor, você fez a mesma coisa — lembrei. — E a situação acabou com Lucy tendo medo de você.
Ele parou para digerir minhas palavras.
— Mesmo assim... Precisamos tirá-la de lá, Mira — gemeu, lançando-me um olhar suplicante.
— E vamos — afirmei, aproximando-me da mesa dele. — Olha, sabem que não vamos tentar nada agora. Afinal, eles tem a proteção dele momentaneamente. Se mandarmos um grupo pequeno... Ou talvez apenas uma pessoa... — cogitei. — É possível que obtenhamos sucesso em buscá-la e manter a ordem.
— Então eu vou — assumiu, decidido.
— Natsu... Acabei de dizer que você não pode — expliquei exasperada, pondo a mão na testa.
— Ora, se não eu, então quem?
— Eu — murmurou a voz de Gray atrás de nós.
Ele estava encostado no batente com os braços cruzados, trajando um sobretudo negro e uma expressão séria no rosto.
— Quando chegou? — indagou Natsu.
— Faz pouco tempo — respondeu, aproximando-se. — Tempo o bastante para entender o que aconteceu.
— Tem certeza, Gray? Juvia ainda está no hospital... — disse.
— Tudo bem, Mira. Ela mesma me enxotou de lá — riu. — Também está preocupada com Lucy tanto quanto vocês e eu.
— É uma operação arriscada — avisei, arrancando um bufo dele.
— Como se todas as outras que tive até agora não tivessem sido — revirou os olhos. — Escutem, vou ir até lá, buscar Lucy e a trazer em segurança. Vou ser o mais rápido possível. Se até amanhã não estivermos aqui, suspeitem.
— É simples — concordou Natsu. — E é o melhor que temos até agora. Mira? — pediu minha opinião.
— Bem... Se é o Gray, pode dar certo — assimilei. — Mas se você for pego...
Ele voltou a bufar.
— Não vou.
Suspirei.
— Tudo bem.
O moreno sorriu e virou as costas para nós, disposto a partir.
— Ei, Gray! — chamou Natsu, detendo.
— O que foi?
— Aproveite e dê umas porradas em alguns capangas por mim. Eles bem que merecem — sorriu.
— Também acho — eles tocaram os punhos cerrados em um gesto de amizade.
— Vá salvar minha garota.
— É claro que eu iria ajudar minha irmã — riu o moreno, e partiu logo em seguida.
— Agora é a espera frustrante... — balbuciou o rosado.
— Só podemos confiar em Gray — falei —, e que os dois voltarão bem.
[Mirajane Strauss → Off]
Acordei com uma batida na porta. Meu corpo todo doía e nem conseguia me levantar da cama.
— Boa noite — disse Sting, entrando no quarto mesmo sem minha permissão. Ele carregava uma maleta branca nas mãos e, assim que alcançou a cama, depositou-a na beirada.
Encarei-o com ódio e tentei afastar-me dele o máximo que minhas feridas permitiam. Tinha vontade de esquecer todas as etiquetas e xingá-lo, porém minha língua estava inchada devido ao corte que José aplicara mais cedo.
— Vamos lá, Lucy — tentou, olhando em meus olhos. — Sei que quer arrancar minha cabeça fora, mas estou aqui em missão de paz — elevou a palma da mão em sinal de juramento. Virou-se para a maleta branca e a abriu, demonstrando que ali dentro haviam apenas esparadrapos, gazes, pomadas... Enfim, era apenas um kit de primeiros socorros. — Deixe-me cuidar das suas feridas.
Olhei desconfiada para ele. A ideia de suas mãos voltarem a tocar meu corpo era simplesmente desagradável.
Ele tocou gentilmente meu tornozelo inchado, começando a desinfetar o corte que José fizera ali. Com um choque, puxei meu pé e senti todo o meu corpo reagir de maneira dolorosa.
— Lucy — Sting voltou a fincar seus olhos nos meus —, se não me deixar tratar desses ferimentos, não vai voltar em boas condições para Natsu.
Observei-o de volta.
O que ele estava dizendo? Voltar para Natsu... O que isso deveria significar?
Ele riu, dispersando meus pensamentos.
— Como sempre, você é fácil de se ler — voltou a tratar meu tornozelo. — Não precisa se preocupar tanto, Lucy. Minerva não vai mandar te matarem. Ela não tem poder para isso — começou a tratar de outra ferida na perna. — Além disso, ele precisa de você viva por enquanto. Ah, você não gosta que façam mistério — voltou a rir. — Desculpe — olhou para mim com olhos divertidos. — Vamos cuidar desses braços agora...
Passamos algum tempo em silêncio. Observava atenta os movimentos de Sting, que estava concentrado tratando as feridas. A maneira que tocava meu corpo parecia tão cuidadosa e gentil... Parecia ser impossível de fazer aquelas ações que fizera no passado...
Como as aparências enganam...
Ele terminou de enfaixar meu braço direito com um suspiro exasperado.
— Olha, sei que para você posso parecer uma das piores pessoas que conheceu desde que chegou à Magnolia, mas... não sou, Lucy — declarou, olhando profundamente em meus olhos, como se quisesse atingir minha alma. — Também sei que parece patético e insano dizer isso depois do que fiz. Entretanto tive minhas razões... — bagunçou o próprio cabelo. — Veja bem, tem um motivo para Natsu não ter me matado mesmo depois de ter sido o escarro da humanidade, está bem? Não é apenas por entender minha situação e ter pena de mim. Aqui, beba isso — deu me uma pílula branca na boca e depositou um copo d'água gentilmente em meus lábios. — Não é veneno. Vai aliviar o inchaço da sua língua. De qualquer forma... Tem um motivo por trás do que fiz...
E qual seria o motivo de tal ação?; queria perguntar.
— É... — meneou as mãos, procurando formular a frase certa. — É meu irmão. Pronto, falei.
Irmão?
Sting suspirou, deixando seu corpo cair sentado na cama. Com os ombros baixos, começou a contar:
— Uns... sete ou nove anos atrás, nem lembro mais... — deixou um sorriso triste tomar-lhe a face. — Meu irmão mais novo, Ryos, desapareceu. Minha família, os moradores próximos... tampouco a polícia. Ninguém conseguiu encontrá-lo. Minha família perdeu a esperança de voltar a vê-lo, porém eu sabia, sempre soube, que ele estava vivo. Mesmo que todos perdessem a esperança, eu continuaria procurando. Foi então — lançou um olhar em minha direção — que encontrei a Máfia Dragneel. Eu estava desesperado, então... — riu com escárnio. — Acabei me juntando a ela.
— Diz como se fosse algo ruim — consegui balbuciar.
— É uma máfia, Lucy. Eles podem se autointitular como uma “máfia boa” e ter apoio da polícia, porém ainda matam e torturam pessoas. Tem noção de quantas pessoas Natsu matou desde sua chegada? — senti um arrepio perpassar minha coluna. — O quanto sabe sobre a máfia Dragneel, falando sério?
Nada; tive vontade de falar. Absolutamente nada.
Essa não era a verdade? Natsu havia dito ele mesmo que eu não fazia ideia de tudo o que acontecia pelas minhas costas.
— Não quero que desconfie do seu maravilhoso namorado — revirou os olhos. — Quero que fique consciente que por trás da fachada boa, tem uma má também. Como as duas faces de uma moeda.
Permaneci calada, perdida em meus pensamentos.
— Bem, acabei fazendo amizade com os Dragneels, e talvez esse tenha sido meu erro — confessou. — Pois logo depois descobri que a Sabertooth estava mantendo meu irmão cativo. Entrei em pânico e acabei fazendo um trato com Minerva, e foi assim que virei um “espião duplo”. Minerva quer machucar Natsu de todas as formas possíveis. Realmente o odeia. Minha parte nessa história toda é complicada demais para explicar. Mesmo que tenha sido o principal culpado por algumas coisas horríveis que aconteceram no passado, Natsu se sente impelido a me perdoar, já que o mantenho informado de todos os passos da Sabertooth.
— O... Espera um pouco! — minha boca doeu com o movimento, mas continuei: — Isso significa que você, na verdade, ainda é um membro da máfia Dragneel?
— O quê? Natsu nunca chegou a lhe contar esse pequeno detalhe? Uau, ele realmente não quer vê-la envolvida com as complicações da família dele — lançou-me um olhar de pena. — Mesmo que trabalhe para a Sabertooth, ainda estou sob o nome Dragneel, sabia? — era muita informação para eu conseguir processar... — Lucy, nunca quis lhe machucar realmente. Entenda... Não importa o quanto goste de você, meu irmão é mais importante. Farei qualquer coisa para conseguir a liberdade dele, mesmo que minha alma tenha que ir para o inferno.
Apenas o encarei em silêncio por alguns minutos.
— Não sei... se devo confiar em você — admiti.
— Eu não confiaria — sorriu. — No entanto, quero que saiba que vai conseguir sair daqui viva — levantou-se, pegou a maleta branca e caminhou em direção à porta. — O que me preocupa é o que vai acontecer depois disso — respirou com força. — Bem, Rufus virá ver porque estou demorando, então tenho que ir — sorriu novamente, dessa vez claramente feliz. — Foi bom poder conversar com você de novo, Lucy. Não precisar me responder, aliás. Descanse essa língua atrevida.
E dito isso, saiu do quarto.
Sei que não devo escutar uma palavra do que Sting me diz, ainda mais por somente a presença dele me fazer temer até respirar, no entanto... Ele me avisou que estava no meio do furacão, que depois do que aconteceu entre nós dois eu deveria ter me afastado...
Isso me faz pensar... Se Lisanna não tivesse se afastado de Natsu quando aquilo aconteceu com ela... Hoje seria ela quem estaria nessa situação? Ou algo pior teria acontecido?
Balancei a cabeça, jogando aqueles pensamentos para longe. Não era bom levar Sting a sério, mesmo que muita das coisas que ele dissesse fizessem sentido.
Ignorando as dores musculares, enfiei-me embaixo do cobertor e rapidamente adormeci.
✩✩✩
Acordei no meio da noite devido um barulho do lado de fora do quarto. Ouvi a maçaneta ser girada, e senti o apavoramento correr em minha veia. Seria Sting, vindo terminar o serviço? Ou José, com mais vontade de me torturar?
As luzes foram acesas e tive que fechar meus olhos conta da claridade.
— Céus, isso foi fácil demais. Estou impressionado como Minerva ainda continua em um cargo alto com essa falta de cuidado.
Essa voz...!
— Gray! — exclamei, feliz em vê-lo.
— Shhh! — murmurou ele, pedindo meu silêncio ao colocar o indicador na frente da boca.
Acenei positivamente com a cabeça, observando-o se aproximar da cama.
— Por que está aqui? — sussurrei, enquanto saia lentamente debaixo da coberta.
— Para te buscar, ora.
— Não é isso! Eu sei que alguém viria me buscar — afirmei. — Mas por que você?
— Obrigado por parecer tão decepcionada — ele franziu o cenho vendo os curativos pelo meu corpo. — O que fizeram com você?
— Quis dizer que era para estar no hospital, com Juvia — expliquei, tentando ignorar a pergunta.
— Ah, voltarei para lá logo, logo. Agora venha aqui — virou as costas para mim — e suba.
— O quê? — indaguei, sentindo minhas bochechas arderem. — Eu não...
— Vamos lá... — Gray revirou os olhos, vindo até mim e enfiando suas mãos entre minhas coxas, alçando-me em suas costas. — Não temos tempo para isso agora.
Ignorando meus murmúrios, invadimos o corredor silencioso. Estava tão escuro que me perguntava como Gray conseguira encontrar o quarto aonde estava presa...
Com uma perspicácia admirável, ele começou a nos conduzir pelos corredores, tomando cuidado para não fazer barulho algum.
— Gray... Não sei como encarar essa situação toda... — confessei em um sussurro.
— O quê?
Senti meus cílios pinicarem.
— Não consigo acreditar em tudo o que aconteceu — já era, estava chorando e fazendo mais barulho do que deveria. — Ainda não superei a... morte — minha voz falhou ao dizer tal palavra —de Yukino e Mystogun, e então... Gajeel e Ever...
Ele me desceu de suas costas, deixando-me escorregar pela parede em direção ao chão, aonde me rendi totalmente ao choro.
— Ei, Lucy... — ele tinha as sobrancelhas franzidas, mostrando que também era doloroso para ele pensar naquelas coisas... Ou então era apenas pena pela minha situação. Não sabia ao certo. — Não pense nisso, okay? — agachou-se para poder me encarar na luz perolada da lua que invadia por uma das janelas. — Sei que é doloroso e que vai deixar uma marca em seu coração, porém ficar se lembrando disso só a fará afundar.
— Gray... — balbuciei, sentindo seus dedos frios em minha pele. Ele estava limpando minhas lágrimas...
— Além disso, Gajeel está bem. Só conseguiu algumas cicatrizes no braço dele. Vê? A situação não é tão ruim — sorriu, animando-me.
Funguei, observando seu rosto confiante. Sempre que estava para baixo, o Fullbuster me levantava...
Sorri, envolvendo-o em um caloroso abraço.
— Lucy? — estranhou.
— Obrigada... — murmurei, apertando-o ainda mais. — Obrigada...
Ouvi-o suspirar, envolvendo minhas costas com seus braços.
— De nada. Agora — olhou profundamente em meus olhos — vamos para casa.
— Sim — respondi, tomada por um pouco da coragem dele.
— Cena comovente, realmente — veio a voz de Rufus ao nosso lado, pegando-nos de surpresa. — Porém não posso permitir que a leve de volta, Fullbuster.
Gray levantou, colocando-se como um escudo entre mim e Rufus.
— Ora, Rufus — balbuciou com familiaridade. — Você se recuperou rápido da surra que acabei de lhe aplicar.
O loiro riu.
— Não se gabe tanto... Fui pego de surpresa.
— Essa é a mesma desculpa que dava quando estávamos no orfanato e apanhava dos valentões — disse o moreno, ajudando-me a levantar.
… Orfanato? Então esses dois já se conhecem?
— Não me provoque com coisas do passado, Fullbuster — sibilou.
— Ou então o que, Lohr? — continuou Gray. — Sabe que não quer lutar comigo.
— Sabe que não vou deixar levá-la, não sabe? Tive alguns probleminhas ao tentar pegá-la anteriormente.
— Como por exemplo Yukino?
Encarei as costas de Gray. O que Yukino tinha a ver?
Rufus abriu um sorriso sacana.
— Então você sabe...
— Você deixa pistas demais — o moreno deu de ombros. — Qual é, Rufus. Deixe-me levá-la. Sabe que vai terminar mal se brigarmos.
— E você sabe que se fizer isso vai terminar mal para mim.
Os dois encararam-se, os olhares chocando-se tensamente. Era como ver uma tempestade se aproximando...
Em um movimento rápido demais para poder compreender, Gray empurrou-me em direção ao chão, o que forçou minhas feridas e me fez grunhir de dor. Ele abaixou a cabeça um segundo depois, desviando de um soco de Rufus. Aproveitando-se da proximidade do loiro, ele cerrou o punho e acertou o plexo solar em cheio, fazendo o Lohr cuspir um pouco de saliva. Gray aproveitou-se da tentativa do loiro de se recuperar para aplicar-lhe uma rasteira, o que fez o mafioso estatelar-se no chão com um som nada legal.
Uma luz acendeu no corredor ao lado.
— Oops! — exclamou Gray, puxando-me pela mão do braço bom e obrigando-me a correr. — Acabei chamando mais atenção do que pretendia.
Seguiu-se então uma corrida alucinante pelos corredores. Meu corpo arrepiou-se ao conseguir discernir que uma das vozes que nos perseguiam era a de José.
— Gray! — chamei amedrontada, observando-o mover a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse procurando uma rota de fuga.
— Está tudo bem — disse, não conseguindo me convencer muito. — Aqui — puxou-me para um corredor meio escurecido e silencioso. — Fique calada, por favor — abraçou-me, o que me fez corar. Lembrei de quando o conheci e como o achei bonito. Parando para pensar nisso, muita coisa aconteceu desde aquele tempo... E pensar que desenvolveríamos uma amizade que mais parecia uma fofa relação entre irmãos...
Notei uma movimentação estranha em meio à escuridão.
— Gray — chamei, puxando a manga de sua camisa.
— Shh! — balbuciou. — Eles vão nos encontrar se não ficar quieta.
— Mas Gray...! — antes que pudesse o alertar, algo atingiu sua cabeça, fazendo ele me soltar e cair no chão. — Gray! — gritei.
— Sinceramente... São todos uns inúteis — murmurou Minerva, revelando-se ao caminhar para uma área mais iluminada. — Tudo o que peço é que fiquem de olho em uma qualquer, e fazem toda essa bagunça quando quero dormir.
— Minerva... — Gray tentava se levantar, mas parecia que o golpe havia o deixado tonto.
— Faz algum tempo, Fullbuster — ela sorriu. — Tsc, tsc. Não devia ter ficado com sua namorada? As coisas que vocês me forçam a fazer..
Minerva pisou na perna de Gray, fazendo-o soltar um grito de dor, responsável por sermos descobertos logo em seguida. Rufus e José chegaram logo em seguida, e o moreno apressou-se em me afastar da cena.
— Não! — berrei, debatendo-me nos braços de José. Eu devia ajudar Gray de alguma maneira...! José tapou minha boca, ao mesmo tempo forçando meu queixo de uma forma que pudesse ver Minerva batendo em Gray. Tentei morder sua mão e deu certo, fazendo-o me segurar mais violentamente. — Me solte! Agora! — ordenei, porém ele voltou a forçar meu queixo.
Gray tentou se levantar, mas tudo o que conseguiu foi ficar de joelhos.
— Da próxima vez que for fazer alguma coisa, Rufus — bronqueou Minerva, tirando uma arma de trás de um vaso de plantas e pressionando contra o peito do loiro —, faça direito. Estou cansada de me decepcionar com você.
— Desculpe, Ojou — pediu o Lohr.
— Mate-o — ordenou ela, virando as costas para nós. — Não gosto que atrapalhem meu sono.
Vendo a situação, voltei a me debater. Tudo parecia passar em câmera lenta. José impedindo todos os meus movimentos, Rufus posicionando a arma na testa de Gray... Meus gritos ecoavam, entretanto eu parecia a única que podia ouvi-los.
— Sinto muito, cara — murmurou o loiro, puxando o gatilho.
As lágrimas rolavam pelo meu rosto enquanto via, naquele momento de lentidão, a bala atravessar a cabeça de Gray, deixando uma fina linha de sangue escorrendo pela testa dele. O corpo de Gray foi ao chão completamente inerte.
Morto.
E tudo que pude fazer foi gritar seu nome:
— GRAAAAY!
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