SENTI COMO SE o sangue houvesse parado de correr por minhas veias por alguns segundos.

Natsu é um mafioso? E além disso, não um mafioso qualquer... Mas logo o líder da máfia de Fiore?

Aquele Natsu que estive em pé de guerra desde o primeiro dia em que nos conhecemos? O mesmo que derramou uma garrafa inteira de Krug Clos d'Ambonnay em meu cabelo?

… Se bem que isso explica o fato dele sair esbanjando todo aquele dinheiro daquela forma... Digo, ser o líder da máfia do país... a essa altura os produtores de champanhe enviariam o Krug Closde graça para a família Dragneel!

— Consegue se levantar? — indagou-me Erza, tirando-me de meus devaneios.

— Ah... sim — disse apoiando-me em meus calcanhares.

Senti uma dor repentina e antes de perceber estava no chão novamente.

— Lucy! — chamou a ruiva. — Você está bem? Não consegue se levantar? — apertou um de meus calcanhares. Gritei baixinho por causa da dor aguda que senti. — Acho que você torceu o pé... Está ficando inchado.

Natsu apareceu nessa hora.

— Como foi? — perguntou Erza.

Ele balançou a cabeça negativamente e olhou em minha direção.

— O que aconteceu com você?

Abri a boca para responder, porém Erza foi mais rápida.

— Ela torceu o tornozelo.

Olhou para mim, a ironia estampada no rosto.

— Sério? Não sabe nem cair direito?

Olhei-o irritada. Mafioso ou seja lá o que fosse, não ia deixar ele me tratar assim! De jeito nenhum!

— Opa! — exclamou segurando o riso. — Me olhar assim pode ser perigoso.

Estava pronta para começar a gritar com ele, entretanto Erza interveio novamente.

— Ele fugiu?

A expressão de Natsu mudou rapidamente.

— Sim.

— Entendo... Também percebeu, não é?

Ele suspirou. Percebi que havia sido totalmente esquecida ali no chão.

— É. Isso vai ser um saco, porém não tenho outra opção, não é mesmo?

Erza acenou e ele, então, virou-se para mim. Puxou meus braços e escorou-me em sua costa.

— O que está fazendo? — perguntei. Senti minhas bochechas queimarem.

— Não algo que eu goste — deixou claro. — Mas pelo visto, serei obrigado a te suportar por tempo indeterminado em minha casa.

O quê?

— O quê? — indaguei meu pensamento.

— Isso mesmo que você ouviu. Ou por acaso agora, além de caipira, é surda também?

Apliquei-lhe um tapa forte na nuca.

— Ai!

— Já disse para não usar essa palavra!

— Garota, você está começando a me deixar estressado... — sibilou com raiva. Ignorei. Ele podia se um mafioso poderoso, mas continuava sendo o mesmo imbecil.

— Já chega vocês dois! — bronqueou-nos Erza. — Natsu, leve-a logo até a limusine.

— Como assim? — questionei confusa. — Minha casa fica logo ali!

— O quão lerda você é? — perguntou Natsu, irritado. — Não percebeu que eles estavam mirando em você?

Congelei. Realmente... A bala teria me acertado, caso não fosse a Erza...

— Po... Por que fariam isso? — gaguejei, deixando um pouco do choque transparecer em minha voz.

— Estava andando com Natsu — explicou Erza. — Só isso já é motivo suficiente para entrar na lista de alvos.

Olhei para a cabeleira de Natsu. Quer dizer que...!

Soquei fortemente sua nuca.

— Ei! — berrou, totalmente nervoso.

— Resumindo... Isso é culpa sua! — acusei.

— Oh! Desculpe-me se minha irmã me obrigou a te deixar em casa.

Estava prestes a me derrubar de suas costas para lhe encarar quando Erza esmurrou-o.

— Parem com isso agora! — ordenou. Ela emanava uma aura maligna que colocaria medo até em um demônio.

— S-sim — murmuramos Natsu e eu juntos.

— Leve-a logo, Natsu!

— O-okay.

— E-espere! E o meu apartamento? Como fica?

— Sem problemas — disse a ruiva. — Daremos um jeito de levar suas coisas até a mansão.

— Ma-mas... Meu pai está pagando meu aluguel, e isso seria só gasto de dinheiro...

— Tudo bem — riu. — Confie em nós, Lucy.

Observei-a, seguindo meu olhar para o rosado que não disse mais nada. Apoiei minhas mãos em sua cabeça, recostando meu queixo ali.

— Okay — concordei. Minhas bochechas continuavam quentes.

Natsu caminhava calmamente, o rio fazendo barulho ao nosso lado. Demorava tanto assim para chegar até a limusine?

— Ei... — puxei assunto. — Está tudo bem mesmo eu ir para a mansão? Digo, não quero ocupar espaço desnecessariamente e...

Senti-o rir.

— Lucy... A mansão tem mais de cento e cinquenta quartos. Acredite, tem espaço suficiente.

— Oh... — murmurei.

— Como pensei, você é estranha — disse.

— Como eu já disse incontáveis vezes, o que isso significa?

— Nada — a voz dele dizia que estava segurando o riso. — Nada mesmo.

Olhei para seus fios rosáceos, nervosa. Depois suspirei. Não adiantaria nada continuar brava com ele, afinal, a partir desse dia compartilharíamos o mesmo teto.

— Vamos tentar nos dar bem, Natsu.

Isso pareceu o surpreender.

— Como assim?

— Afinal, teremos que ver o rosto um do outro todo dia a partir de hoje.

Senti seus ombros tremerem um pouco. Será que ele estava com frio?

— Quem sabe... — respondeu a voz vaga.

Iria perguntar a ele o porquê do tom vago, entretanto acabei soltando um bocejo. Fora um longo dia e, sem perceber, acabei caindo no sono sobre os ombros quentes de Natsu Dragneel.

✩✩✩



Acordei lentamente com a luz do sol batendo em meus olhos. Encontrava-me em um quarto totalmente branco, em uma cama grande e bem espaçosa, com dossel e um lençol de seda roxo. Empurrei o tecido fino para o meio de minhas pernas e levante-me, olhando para a porta branca que devia levar ao corredor.

Andei lentamente até lá, abrindo-a. E então dei de cara com Natsu.

— Bom dia — murmurei sonolenta.

Ele me avaliou dos pés a cabeça e disse:

— Não tem vergonha de andar por aí assim?

Olhei para a roupa que trajava. Estava usando uma camisola branca fina de alças, e uma das alças havia escorregado pelo meu braço. Como eu fui parar naquela roupa, não fazia a mínima ideia.

— KYAAAAA! — comecei a gritar, mas Natsu tampou minha boca com sua mão, sussurrando nervoso:

— Cale a boca! Quer acordar a mansão inteira a essa hora da manhã? — mordi sua mão. — Ai! Será que não tem como ser menos bruta?

— Não com você, idiota! Não sabe ser gentil?

—Hee... Não era você que ontem mesmo disse: “obrigada por me ajudar a sair da limusine e me emprestar seu blazer; foi muito gentil de sua parte”? — fez uma péssima imitação de minha voz.

— Agora grava tudo o que digo? Além disso, isso é ser educada!

Ele encarou-me.

— Tsk. Você não é nada fofa.

— Como se eu quisesse ser fofa para alguém como você!

Encaramo-nos, a raiva estampada no rosto um do outro.

— Tsk. Não acredito que terei que conviver com você a partir de agora! — exclamou indignado.

— Não precisa se preocupar quanto a isso! — exclamei, irritada.

Isso o pegou de surpresa.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que voltarei para meu apartamento. Hoje mesmo se possível.

— Você não pode! — disse sério. — Será que se esqueceu de que você agora é alvo de um assassino? É perigoso!

Não aguentei mais, minha raiva estava começando a borbulhar... Então ela veio à tona em uma explosão.

— Sério? — ele se assustou com o grito que dei. — Acontece, Sr. Dragneel, que eu não tenho nenhuma relação com você e nem quero ter!

— Ótimo! Eu também não quero ter nenhum tipo de relação com você, mas ainda é perigoso!

— Ah! É? E por acaso ficar aqui seria seguro?

— O que quer dizer?

— É uma mansão de mafiosos!

Arqueou uma sobrancelha.

— Pensei que você havia dito que confiava em nós.

— Eu estava em choque! Fala sério, tentaram atirar em mim!

— E o motivo de não confiar em nós é...?

— Fala sério! Você é mesmo um idiota!

— O quê? — ficou irritado.

— Estou... O quê? Três dias nessa cidade? E nesses três dias, conheci uma pessoa irritante, que mais tarde descobri ser líder da máfia, e ainda por cima agora sou alvo de um assassino, e esse garoto que não me dou bem, carrega uma arma com ele.

— Você disse alvo de um assassino?

— Sim!

— Acho que está enganada.

— Como?

— Você não é alvo de um assassino, mas sim de muitos.

Natsu era tão tapado que focava na frase errada.

— Minha nossa, isso é ainda melhor! — disse irônica e apontei meu indicador para seu rosto. — Escute aqui, Sr. Dragneel, não sei que tipos de brincadeiras planeja fazer, mas vou deixar uma coisa bem clara: fique longe de mim!

Voltei para dentro do quarto e bati a porta em sua cara.

Ele é um grande idiota!

Escorreguei até o chão e senti lágrimas começarem a brotar em meus olhos.

Isso é tudo tão ridículo! Deveria ter escutado meu pai...

Não! Talvez não devesse nem ter saído do meu lar, onde tinha Levy e os outros...

Errado, errado! Está tudo errado!

O meu pior erro aqui... foi ter conhecido Natsu Dragneel.