Estou escrevendo esse capítulo uma semana após o Show de Talentos.

Devo começar dizendo que muita coisa mudou em minha cabeça desde então.

A melhor forma de me explicar, porém, é retornando aos eventos daquele dia no qual eu pretendia fazer Kentaro passar toda a vergonha que ele me fez passar em meses em um único e compacto discurso.

O dia era uma sexta feira, 15 de novembro.

O Show de Talentos, assim como a Feira de Aniversário e o baile de Halloween era um evento muito popular na escola, por esse motivo centenas de pessoas se aglomeraram nas cadeiras no pátio da escola. Ali se encontravam alunos, parentes e amigos esperando pelo início da festividade com a mesma sede de entretenimento que os romanos aguardando uma luta de gladiadores.

De frente para as cadeiras se encontrava um palco que havia sido construído só para este evento, do lado direito havia uma sessão especial de lugares reservados para a liderança da escola, que incluía a diretora, os professores e o grêmio estudantil, que por sua vez se sentavam na primeira fileira dessa sessão.

No lado oposto também havia uma área reservada onde os membros da banda marcial comandados por Alan haviam sido organizados em uma orquestra.

Essa orquestra iniciou o evento enquanto a diretora, os professores e o grêmio se sentavam em seus respectivos lugares. Eu era a penúltima pessoa a se sentar à frente apenas de Kentaro, em meu rosto havia um sorriso largo e um tanto perverso sabendo o destino terrível que aguardava Kentaro. Pois eu havia passado todos os dias da produção do evento escondendo minuciosamente armadilhas que nesse momento estavam prestes a entrarem em ação.

No exato momento no qual Kentaro se inclinava para sentar a orquestra terminou sua exibição e ao se sentar Kentaro soltou um pum tão alto que alguns membros da orquestra se perguntaram se alguém com uma trompa tinha perdido o tempo. A plateia começou a rir achando que era uma brincadeira.

O pum continuou soando, eu me virei para o lado evitando olhar para Kentaro, me segurando com todas as forças para não rir da cara dele que estava vermelha como um balão.

— Não sou eu! — disse ele olhando indignado para mim. — É a cadeira, existe algo errado...

Ele tentou se ajeitar e o barulho enfim cessou abruptamente, mas não do jeito que ele esperava. A cadeira se desmanchou fazendo ele se estatelar no chão de uma forma cômica, como se fosse um dos Três Patetas, a plateia riu novamente, mas os professores que sabiam que aquilo não fazia parte do cronograma colocaram a mão sobre a boca chocados.

Eu o ajudei a se levantar. Enquanto limpava seu terno das farpas Kentaro disse sem graça:

— Bem, eu já ia me levantar mesmo.

E assim ele se dirigiu para o palanque onde pretendia fazer seu discurso. O discurso de abertura do Show de Talentos era semelhante aos memoráveis discursos que as pessoas faziam em formaturas e quando bem feitos eram relembrados por muito tempo. O público que já estava com o humor aguçado estava ansioso por algo marcante.

Kentaro colocou as mãos ao lado do palanque e observou a plateia, ele parecia nervoso, o que não me surpreendia porque androides assassinos de reputação não costumam querer chamar a atenção para si.

Respirando fundo ele pegou no microfone e ao fazê-lo soltou um grito parecido com o do Michael Jackson.

Ele balançou as mãos surpreso por ter tomado um choque e encarou o microfone como se estivesse prestes a destruí-lo com lasers de seus olhos. Então ele tentou reiniciar seu discurso sem tocar no microfone, mas o microfone estava alto demais por isso ele teve que se erguer nas pontas dos pés para falar.

Mal ele começou a falar e o microfone soltou um ruído altíssimo de microfonia que fez com que todos parassem por um tempo de rir para tampar os ouvidos. Quando a microfonia passou, ele tentou prosseguir, mas o microfone não estava mais funcionando, nesse ponto a plateia voltou a rir e Kentaro olhou para os lados desesperado, tentando escapar da situação ele decidiu largar tudo e partir, mas seus sapatos de couro ficaram presos no assoalho, ele caiu de costas e seus pés continuaram presos no chão.

A plateia estava agora rindo abertamente como se fosse uma série da Disney.

Kentaro tirou os sapatos, que ficaram lá, colados no chão e novamente tentou sumir de vista, enquanto fugia sua calça ficou presa junto com os sapatos e ele caiu para o lado do palanque só de cueca. Nesse ponto a plateia já não se aguentava mais de tanto rir. Até mesmo eu fiquei corada e virei o rosto enquanto Kentaro desaparecia de vista com sua cueca com estampas do R2D2.

A diretora pegou um microfone sem fio e disse:

— Estamos com problemas técnicos, por favor, aguardem um pouco...

Nesse ponto as cortinas se fecharam cobrindo o palco.

Os professores e meus colegas do grêmio conversavam chocados enquanto tentavam resolver a situação e do outro lado da cortina eu conseguia ouvir a satisfação do público que comemorou com uma chuva de aplausos.

Pude até mesmo ouvir um rapaz falando para o outro:

— Não me convenceu, tudo combinado.

Para não levantar nenhuma suspeita eu decidi que aquele era um bom momento para ir no banheiro. Devo admitir que meu plano havia funcionado um pouco melhor do que o esperado, principalmente na parte da calça, uma vozinha dentro de mim dizia que eu havia ido longe demais.

Quando sai do banheiro percebi que a ordem havia sido reestabelecida e o Show de Talentos havia começado oficialmente, estava preparada para voltar para o meu lugar quando fui puxada para o lado pelo braço por uma Anna tão furiosa que ela realmente parecia uma She-Devil.

— Como você ousa fazer isso com Kentaro? — disse a She-Devil rangendo os dentes. — Depois de tudo o que ele sofreu esse ano você faz isso com ele?

Nesse momento eu estufei o peito e disse:

— Saia da minha frente!

Mas a Anna me pegou pelos ombros e me chocou na parede, algo em seus olhos me fez arregalar os meus, no olhar dela não havia raiva, havia algo quase indescritível como uma decepção profunda.

— Como você pôde Funko? — disse ela balançando a cabeça. — Fazer ele correr de cueca humilhado na frente da escola inteira.

— Eu não tive nada a ver com isso. — disse sem precisar mentir.

— Eu avisei para ele que você não prestava, eu disse no dia do Halloween quando ele me deu um fora que você não é capaz de amar nada além de si mesma.

— O que?

— Você só ama a si mesma!

— Não essa parte — disse estupefata. — Você tomou um fora dele?

— Não se faça de desentendida, com toda certeza ele já te contou isso, eu fiquei sabendo que vocês dois assistiram ao filme juntos logo depois que eu parti — nesse momento ela olhou para o chão se esforçando para não se relembrar da cena. — Ele foi gentil... E disse que só tinha olhos para você... Porque ele te ama.

— Kentaro não me ama. — disse tão surpresa quanto o Kentaro de cueca. — Ele me odeia.

— Você ficou maluca? Será que todo esse espaço vazio dentro dessa sua cabeçorra fez você perder o pouco juízo que tinha?

— Ele tirou tudo de mim! — disse frustrada. — E me fez passar vergonha durante o semestre inteiro! Isso não é amor.

— Sua boboca — disse a She-Devil balançando a cabeça incrédula. — Ele está tentando chamar sua atenção desde o momento que sentou ao seu lado. Quase todos os dias ele me inferniza dizendo o quanto ele tem se esforçado para estar sempre na sua companhia em todos os momentos possíveis.

Eu fiquei em silêncio, será que eu havia entrado em um universo paralelo onde Kentaro era humano e me amava? Eu coloquei as mãos nas têmporas me sentindo meio zonza.

Quebrando o silêncio a She-Devil apontou um dedo ameaçadoramente a milímetros do meu rosto, quase furando meu olho.

— Você vai atrás dele — ela disse com os dentes cerrados. — E você vai não só pedir desculpas, vai pedir perdão para ele por tudo o que causou na vida dele. E eu juro que se não fizer isso eu vou passar o resto da minha vida fazendo da sua um inferno, dia após dia, mês após mês, ano após ano! Tudo porque você não entende o privilégio que é ser amada, privilégio que eu jamais desperdiçaria.

— Tudo bem. — disse, e nem mesmo uma voadora no estomago poderia ter provocado a expressão que tomou o rosto da She-Devil.

A verdade é que eu não estava prestando muita atenção no que ela tinha falado, minha cabeça estava recapitulando todos os eventos com Kentaro, e eu percebi que o que ela havia dito era verdade, Kentaro gostava de mim! E ao pensar nisso meu corpo se aqueceu como se eu tivesse tomado uma porção de chocolate excessivamente quente e logo em seguida meu corpo gelou com as memórias de como eu o tratei durante todo o semestre.

— Vou fazer como você me disse, Anna. — disse pondo a mão no ombro dela de forma consoladora.

Ela olhou para mim surpresa, antes de partir eu me virei e disse:

— Obrigada, havia me esquecido que você tem a capacidade de ser uma boa amiga.

Ela ia retrucar, mas ao contemplar meus olhos ela simplesmente concordou com a cabeça e desviou o rosto.

E então eu sai correndo, a procura de Kentaro. A procura do androide que me amava.