A tarefa de encontrar Kentaro, havia no final das contas, sido muito mais fácil do que o esperado.

O primeiro lugar que eu decidi procurar por ele era o banco atrás da cabana onde a gente havia se sentado no dia que ele estava com dor de cabeça. E ao dar a volta pela cabana lá se encontrava Kentaro amuado e distraído observando o horizonte, quase completamente envolto pela escuridão.

Eu me sentei ao lado dele sem dizer nada, reconhecendo que essa seria a parte difícil da missão.

Logo de cara, notei que ele havia trocado de roupa e agora estava com uma bermuda e na parte de cima estava vestindo a minha jaqueta do grêmio, o que era um tanto irônico porque para vir procurá-lo no frio da noite eu havia me vestido com a dele. Nas mãos dele Kentaro mexia com o chaveiro do gato preto, o Smoothie.

Kentaro fez um leve movimento com a cabeça em minha direção mostrando que tinha notado minha presença, mas não falou nada.

Eu me arrastei para perto dele um pouco mais.

Não sabia ao certo por onde começar, por isso engoli em seco e tentei explicar as coisas do meu ponto de vista:

— Durante o ensino fundamental eu era uma verdadeira nerd, não do tipo inteligente, minhas notas eram horríveis, o dia que eu tirava uma nota boa eu comemorava como se fosse um aniversário. Eu era uma verdadeira derrotada e por causa disso eu buscava fugir da realidade através de qualquer forma de entretenimento que estivesse ao meu alcance. Principalmente entretenimento relacionado a quadrinhos e livros que não são muito conhecidos hoje em dia... Nessa época a She... Anna era minha melhor amiga — nesse momento Kentaro inclinou a cabeça em minha direção, parecendo interessado. — Na verdade ela era a única, a única que não se aproveitava de mim e nem zombava de mim, muito pelo contrário a gente vivia na casa uma da outra, ela também gostava de quadrinhos, principalmente os de terror, Vampirella e coisas do tipo, a gente era as duas esquisitonas, eu a chamava de She-Devil porque ela é ruiva e ela me chamava de Funko, porque eu gostava de James Brown... Tá bom e também por causa do tamanho da minha cabeça que ela fala que é enorme como se eu fosse um Funko Pop. Mas voltando ao assunto principal, quando a gente terminou o ensino fundamental eu já não aguentava mais minha vida, foi ai que eu decidi que no ensino médio eu iria mudar, eu jurei para mim mesma que não aceitaria mais ficar entre os últimos, jurei que ficaria sempre em primeiro e que não iria aceitar a opinião de outros inferiores a mim e que se para isso eu tivesse que ficar sozinha era um preço que eu estava disposta a pagar. E foi aí que minha fama começou e minha amizade com a Anna terminou e aos poucos nos tornamos inimigas... Ela não enxergava as coisas do jeito que eu enxergava, ela não compreendeu que tudo aquilo que não amadurece com o tempo apodrece... Eu não me arrependo de ter mudado, mas na busca por estar sempre no topo eu fui longe demais e acabei te humilhando ou pior te ferindo... — nesse ponto da conversa Kentaro estava cem por cento voltado para mim e eu pude perceber que ele havia chorado recentemente, ao ver os sinais de lágrimas em seu rosto senti meu coração apertar, sem coragem de encará-lo eu cobri meu rosto com as mãos e exclamei: — Oh Deus! Me perdoe Kentaro jamais tive a intensão de te fazer chorar! Nunca me senti tão envergonhada em toda minha vida!

— Não precisa chorar Vivien — disse Kentaro se apressando a dizer, enquanto retirava minhas mãos da frente do meu rosto. — Eu não estou triste por sua causa.

— Não? — perguntei confusa ainda chorosa enquanto ele limpava minhas lágrimas com um lenço.

— Não — disse ele me oferecendo um sorriso caridoso.

— Mas o Show...

— Vivien, eu sei que você é muito esperta, mas quando se trata de enxergar a realidade você é péssima, na verdade geralmente você cria sua própria versão da realidade para suprir um dia tedioso com as asas da imaginação — disse Kentaro dobrando e guardando o lenço no bolso. — Todo mundo no grêmio sabia das suas armadilhas.

Minha boca se abriu como se fosse o guardião da caverna no desenho do Aladdin.

— Mas como...

— A Rosinha fez uma reunião secreta um dia depois da nossa votação, ela disse que após refletir percebeu que você estava mentindo e a Mila e os outros concordaram, mas acontece que nós não podíamos ignorar a vontade da diretora, então eu decidi que iria cair em qualquer armadilha que você criasse... Suas armadilhas foram muito óbvias, com exceção da última que me deixou um tanto quanto exposto.

Nesse momento eu corei e quase cobri meu rosto com as mãos de novo, mas Kentaro me impediu.

— Se isso é verdade — disse recuperando a voz. — Então por que você estava chorando?

Kentaro desviou o olhar de mim e coçou a nuca antes de responder:

— Quando você votou em mim na reunião eu me senti no topo do mundo — começou ele olhando para o céu. — Eu finalmente tinha a oportunidade de mostrar aos meus pais que minha vida estava dando certo, quando eu cheguei em casa e convidei eles para virem no Show de Talentos eles concordaram comigo, mas eu pude ver nos olhos deles que... Que eles estavam mentindo.

Nesse momento Kentaro ficou cabisbaixo observando as próprias mãos.

— Eles não vieram hoje — disse ele, sua voz ficando cada vez mais embargada conforme prosseguia. — Eles... Acham que eu tenho vergonha deles, porque eles são idosos... Mas isso não é verdade, eu tenho orgulho, mas eu odeio quando as pessoas zombam deles... — de repente ele me encarou com o olhar suplicante. — Você não acha que eu tenho vergonha deles acha? — antes que eu pudesse responder ele disse: — Queria que eles estivessem aqui.

Quando eu vi as lágrimas descerem pelo rosto dele, eu percebi o quão patéticas eram as minhas lágrimas comparadas com as dele. Sem resistir eu o abracei com toda a minha força.

Depois de um tempo ele se soltou de mim, limpando o rosto o mais rápido que podia.

— Quer saber não ligue para mim, eu sou um idiota — disse Kentaro envergonhado. — Talvez eu devesse ter chorado por ter passado vergonha na frente da escola inteira, ao invés de por um motivo tão absurdo como esse, não é?

— Você acha isso um absurdo? Kentaro, vou lhe contar o que é um absurdo de verdade, desde que te vi pela primeira vez... Eu... Eu...

— Você o que, Vivien? — perguntou ele ficando corado, seu rosto se aproximando do meu involuntariamente.

— Eu acho que você é um robô, pronto falei.

— O que?

— Ou um androide, semelhante aos personagens do Lab Rats ou a XJ9 ou até mesmo aquela personagem das Crônicas de Sarah Connor...

Eu sei que é ridículo eu ter contado isso para ele, mas foi a única coisa que consegui pensar para distraí-lo da tristeza.

— Eu não sou um robô! — disse ele soltando uma gargalhada.

— Isso é exatamente o que um robô diria para tentar me despistar. — disse ficando corada por ele não ter levado minha revelação a sério, por esse motivo eu omiti a parte na qual eu achava que ele tinha sido enviado para me destruir.

— Vivien você está tirando sarro de mim, não está?

— Eu estou falando sério Kentaro.

— Você conheceu meus pais.

— Kentaro robôs costumam chamar seus criadores de pais, além do mais seu pai parece muito com um cientista maluco e sua mãe não aparenta ter a idade que tem, isso sem falar que seu quarto estava muito organizado e as muitas outras centenas de evidencias que eu recolhi durante o semestre apontam para o fato de que você é um robô ou androide, se você é da Terra ou não eu ainda não tenho certeza.

— Isso realmente é absurdo — disse Kentaro limpando uma lágrima de riso do canto do olho, um sorriso enorme em seu rosto. — Existe alguma maneira que eu possa provar para você que sou humano?

— Hmm? — disse fingindo pensar. — Eu poderia levar você para um laboratório ou algo do tipo, mas eu consigo pensar em algo que pode ser o suficiente para o momento.

E então eu dei um beijo na boca dele.

Sim, eu beijei Kentaro. Não me julguem ok, eu estava no clima, ele estava perto demais e quando eu o vi dar uma brecha simplesmente aconteceu. Além disso pode não parecer mais era uma ótima forma de eu saber se ele era ou não um androide. E quando seus lábios tocaram nos meus, o calor que me invadiu deu fortes indicações que ele era de carne e osso.

— E então? — disse Kentaro após alguns segundos, sua voz soando como se ele tivesse acabado de acordar de um sonho.

— Hmm, ainda não tenho certeza. — disse depois que recuperei o fôlego. — Vou ter que testar mais algumas vezes antes de chegar a uma conclusão.

Nesse momento ele deu risada e eu também, a gente estava agarrado um no outro e nenhum de nós tinha coragem ou vontade de se soltar.

— Acho que é melhor a gente voltar para o Show de Talentos — raciocinei depois de um tempo. — Ou é capaz que a diretora pegue a gente de novo juntos. E eu também prometi para a Rosinha que iria ver a apresentação dela.

— Tudo bem. — disse Kentaro com pesar.

Com as mãos entrelaçadas a gente iniciou o caminho em direção ao pátio.

— Sabe, a gente não precisa voltar para as nossas cadeiras lá na frente — disse. — Dessa vez eu não me importaria de me sentar na última fileira.

— Por que não?

— Porque meu caro Kentaro, reduziria as chances de a gente ser pego se beijando.

— Concordo plenamente Funko.

— O que você disse?

— Eu disse concordo plenamente Vivien.

— Você acha que eu sou surda?

— Jamais pensaria nisso ViviEN. Desculpe devo estar com mal funcionamento no meu chip.

— Haha, escute aqui Capitão Cueca é melhor parar com isso ou as coisas vão ficar sérias...

E esse foi o início do meu namoro com o Kentaro e mesmo que apesar de tudo isso ele ainda fosse um androide, eu já não mais me importava.

FIM.


Oi, aqui quem fala é Kentaro Yoshikawa, o menino androide [hehehe], e se você está se perguntando se a Vivien deixou de ser maluca depois desse incidente, eu posso te garantir que as coisas só pioraram, não acredita em mim? No início do terceiro ano do ensino médio o professor de filosofia nos encarregou com um trabalho em dupla, o objetivo do trabalho é simular a gravidez e os primeiros meses do nascimento de um bebê e fazer anotações durante todo o processo para descobrir quais lições de vida nós adquirimos. O problema é que a busca de Vivien por realismo irá acabar me matando de vergonha ou me levando à loucura!

O nome da história será Projeto Cegonha e começará a ser postado em algum ponto de janeiro ou fevereiro.


Notas finais
Se você acompanhou essa história e gostou considere ler outras histórias minhas, principalmente as que estão por vir. Tenho planos de escrever novas histórias de fantasia épica, aventura, humor e romance. Gostaria de agradecer a moça (que eu não sei o nome, mas que no perfil dela está Lnaezita) que comentou na maior parte dos capítulos, seus comentários além de adoráveis me motivaram a terminar a história!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!