Meu Colega de Sala é um Androide
6 06 – Super Comunicação
A oportunidade para realmente testar Kentaro finalmente havia chegado.
Era o último dia do mês de agosto e era dia de reunião com os pais. Minha escola leva muito a sério as reuniões e nelas o grêmio estudantil e os professores debatem junto com os pais quais eventos devem receber a maior atenção através do semestre. Grandes eventos como a Feira do Aniversário da Cidade, Halloween, Show de Talentos tem o objetivo de fazer com que toda a comunidade participe de forma que eles se tornem experiências marcantes.
O presidente do grêmio é o responsável por criar esse plano de acordo com a vontade dos alunos, mas ele não participa da reunião em si, deixando para os seus subordinados essa tarefa. Assim o presidente do grêmio e seu auxiliar ficam com a função de fazer algum serviço social no dia da reunião de pais, para dar o exemplo de submissão a causa.
Assim como no ano anterior eu e meu auxiliar ficamos responsáveis por cuidar das crianças e dos animais de estimação enquanto os pais ficam na reunião. Eu não sei ao certo o que passa na cabeça de um indivíduo que decide trazer animais ou crianças para uma reunião, mas é assim que funciona as regras.
No ano passado deixei Alec responsável pelas crianças e eu fiquei com os animais de estimação. Minha relação com animais é estranha, eu amo animais, mas o sentimento não é reciproco. Da última vez eles quase me mataram e um pinscher sem vergonha rasgou toda a barra da minha calça favorita, um dos motivos pelo qual dessa vez eu decidi vir de vestido.
Foi aí que eu tive a ideia "nesse ano vou deixar que Kentaro cuide dos animais". Dizem que androides não se dão bem com animais de estimação o que tornava toda a experiência mais galardoadora.
Tinha passado do meio dia e os pais haviam acabado de entrar na escola. Finalmente eu encontrei Kentaro perto do estacionamento.
— Até que enfim encontrei você. — disse com as mãos na cintura.
— Desculpe meus pais tiveram uma mudança de planos de última hora e tive que vir de bicicleta. — Ele fez uma leve reverencia em minha direção. — O que vamos fazer hoje? — disse Kentaro, ele parecia levemente desconcertado.
— O que foi? — disse. — Está com algum problema?
— Não. — disse ele com um sorriso inocente no rosto.
Ele me olhava de cima a baixo, provavelmente nunca tinha me visto sem o uniforme da escola, isso ou ele estava no meio de uma atualização. A razão de eu estar de vestido é porque me fazia me sentir mais à vontade. Ele por outro lado estava com as mesmas roupas de sempre, com exceção da camiseta que era cinza.
— Vamos, Giovana está me esperando. — disse me virando e andando apressadamente pelo corredor.
Quando chegamos perto das duas salas em questão eu me voltei para ele e disse:
— Você vai tomar conta dos animais de estimação.
— O que?
Eu abri a porta do cômodo onde os animais se encontravam. Uma série de latidos nos recebeu.
— Ouça com atenção. — disse para Kentaro. — Porque eu só vou explicar uma vez.
Ele balançou a cabeça, mas parecia surpreso com a quantidade de animais na sala.
Em ordem eu fui apontando para cada animal e explicando:
— Esse Shiba é o Doge. Scooby é o salsicha, cujo nome é um trocadilho infame. Fifi é esse Poodle despudorado. Iggy é o Buldogue Francês, esteja preparado esse cachorro gosta de chorar e é o barulho mais horrível que você vai ouvir na vida. Esse é o Epaminondas ele é um Golden Retriever, ele passou no veterinário e foi diagnosticado com um problema nas patinhas por isso ele está usando botas, não deixe ele arrancar elas. Lad é esse cachorro que parece com a Lassie...
— Collie.
— Você está com o que?
— Essa raça se chama Collie.
— Ow... Continuando. Esse aqui é o Mau, ele é um Husky, por algum motivo eu devo ter cara de lua porque ele sempre uiva para mim. Esse cachorro que parece o Samuel L Jackson é o Butch.
— Essa raça é um Boxer.
— Boxer, certo. Aquele ali no fundo é a mais cavernosa das criaturas...
— O Pitbull?
— Não, eu estou falando do pinscher o nome dele é Temístocles, o destruidor de calças. O pitbull é provavelmente o mais dócil dos cachorros aqui, o nome dela é Penelope. E para completar tem esses três gatos, eu não faço ideia porque trazer um gato para uma reunião mas aqui vai... O preto se chama Calígula, o cinza se chama Hannibal e o branco se chama Pompom. Dos três Pompom é o mais demoníaco, por isso cuidado para não ficar muito perto dele.
— O preto e o branco são Angorás e o cinza é um Pelo Curto Inglês. — explicou Kentaro orgulhoso de si mesmo.
— Ouviu tudo o que eu disse?
— Sim.
— Então eu já vou indo. — disse abrindo a porta.
— Mas e se eu tiver algum problema? — disse Kentaro se movendo que nem o urso do pica-pau.
— Não se preocupe, as instruções assim como comida e água de cada um está em cima da bancada. Tchau.
Naquele momento eu fechei a porta, um sorriso tão grande em meu rosto que faria qualquer câmera de celular em um raio de um quilometro tirar uma foto automaticamente.
Eu me dirigi para a sala ao lado onde Giovana me aguardava junto com as crianças.
Havia no total nove crianças. Tati e Tita, que eram gêmeas. Luca era o mais velho, com sete anos. Jordão e Jimmy que também eram irmãos. Também tinha Laurinha, Duda e Pietra. E para completar Hana que ainda era um bebê.
Naquele momento eu não estava nem um pouco preocupada de assumir a sala das crianças, porque eu pensava estar completamente preparada para qualquer situação. Na sala tinha brinquedos, materiais de desenho, uma tv e poltronas, uma mesa com comida e um berço.
Para a TV eu tinha trazido alguns dos meus desenhos favoritos, que incluíam Enrolados, A Nova Onda do Imperador, A Espada Mágica e Shrek 2. Para comer eu tinha preparado chocolate quente e cookies. A missão era fazer as crianças ficarem lentas e sonolentas o mais rápido possível.
Giovana veio até a porta e me entregou as chaves.
— Hana acabou de dormir eu coloquei ela no berço. — disse enquanto eu entrava e ela saia. — Estou indo para a apresentação, tchau.
— Boa sorte.
— Para você também.
Eu fechei a porta e falei para as crianças.
— Quem quer comer e assistir desenho!
As crianças seguiram exatamente as minhas instruções. Primeiro cada uma pegou a sua caneca de chocolate quente e uma porção de cookies e se sentou no lugar que achou mais confortável. Depois eu fiz uma votação para saber qual filme elas queriam assistir, elas nunca tinham assistido nenhum dos filmes que eu mencionei, mas votaram no Shrek 2, uma pena porque eu queria assistir A Espada Mágica.
Durante o filme as crianças estavam completamente entretidas, por isso eu peguei para mim um pouco de chocolate quente, no meu eu coloquei uma dose extra de chocolate e açúcar. Na cena na qual o biscoito gigante tenta invadir o castelo eu comecei a comer os cookies, por algum motivo essa cena me deixou melancólica, o doce dos cookies me ajudou a me sentir melhor.
Depois do Shrek eu coloquei Enrolados.
Eu me aconcheguei em uma poltrona e relaxei pensando como tudo estava indo perfeitamente bem.
De repente eu abri os olhos assustada, eu tinha cochilado!
Jordão estava me cutucando e o barulho de uma sirene soava pela sala.
Eu me levantei e Jordão me disse:
— A Hana acordou. — ele apontou para o berço.
Eu peguei Hana no colo ainda confusa, não demorou para eu perceber que ela era a sirene. Tentando acalmar a bebê comecei a balançar ela, enquanto observava o cômodo. Foi então que se iniciou o meu juízo.
Toda a sala estava de pernas para o ar, as crianças com exceção de Jordão que era o mais quieto, estavam correndo de um lado para o outro. Até mesmo o teto estava sujo, e mesmo hoje não consigo imaginar como um grupo de crianças com menos de um metro sujaram o teto da escola!
E não parou por aí, de repente eu senti uma dor aguda no meu intestino como se alguém estivesse dando um nó neles. A dor foi tão forte que suor frio escorreu por minha testa. Eu sabia que a qualquer momento o que estava ruim poderia ficar muito pior, liquidamente falando.
Por isso eu ajeitei Hana em meu braço direito e anunciei para a sala:
— Crianças formem fila e venham comigo, rápido!
Eu sai do cômodo o mais rápido que minhas pernas tortas permitiam e bati na porta ao lado. Como Kentaro não me atendeu eu abri a porta, na sala dos animais lá estava Kentaro, como Daniel na cova dos leões. Todos os cães estavam dormindo ao redor dele e os gatos estavam sobre, suas pernas. Até Pompom estava ronronando!
— Kentaro por favor!
O garoto se levantou o mais rápido que pode surpreso com minha educação.
— O que foi?
— Por favor, assuma as crianças, rapidinho — disse entregando para ele Hana que vendo os animais parou de chorar.
— Por que? — perguntou Kentaro ainda confuso. — O que aconteceu com seu rosto?
— Por favor, por favorzinho — disse enquanto sentia mais uma pontada no intestino, era como se um camelo estivesse tentando passar pelo buraco de uma agulha. — Assuma o controle das crianças é uma emergência. Rápido, rápido, rápido, rápidinhoooooooo! Por favor, por favor, por favor...
Naquele ponto eu estava me segurando para não cometer a maior desgraça da minha vida. A vista, porém, devia ser engraçada porque as crianças estavam dançando a minha volta. Provavelmente porque na tentativa de me segurar eu estava sapateando que nem um membro da comitiva de Michael Flatley.
— Pode ir eu dou conta. — disse Kentaro decidido.
Em seguida eu corri para o banheiro, se eu tivesse corrido um pouco mais rápido teria rompido o tecido da realidade e causado uma destruição do espaço-tempo contínuo.
O que aconteceu naquele banheiro durante os próximos minutos eu levarei para o meu túmulo. Quando terminei me olhei no espelho e percebi que meu rosto estava todo pintado de canetinha. Eu demorei mais alguns minutos para me livrar da tinta.
Quando voltei para a sala dos animais eu estava pelo menos uns cinco quilos mais leve e com a pele toda esfoliada.
Ao abrir a porta meu queixo caiu no chão.
Lá estava Kentaro com as crianças de um lado e os animais do outro, todos em completa harmonia.
Kentaro distraia ambos fazendo barulhos de animais com a boca e com as mãos.
— Como? — consegui deixar escapar de meus lábios.
Kentaro se levantou e se aproximou de mim sorrindo, eu juro que ele parecia estar flutuando alguns centímetros do chão.
— Eu tenho uma tia que tem vários animais de estimação e uma outra que tem várias crianças então eu estou acostumado.
Eu não consegui falar mais nada, tudo o que passou pela minha cabeça foi "Quem é esse que até aos animais e as crianças ele dá ordens e eles obedecem?".
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