A diretora da escola Natalie Brown era uma senhora que aparentava a idade que tinha, ela era uma mulher cuja face demonstrava seus anos de experiência, uma mulher que parecia ter lutado todas as guerras dos últimos cem anos e sobrevivido para contar a história. Tal pessoa como é esperado pode não ser muito bonita, mas impõe tamanho respeito com sua presença que não faz diferença.

Alguns dias após a reunião de pais a diretora veio pessoalmente me agradecer por ter feito um ótimo trabalho como presidente do grêmio, dizendo que ninguém em seus muitos anos como diretora tinha feito um serviço tão bom planejando o semestre e tomando conta das crianças e dos animais. Depois da conversa ela me encarregou de levar todos os documentos apresentados na reunião que foram rejeitados para serem arquivados no Galpão 13.

Para completar o serviço em si eu iria precisar da ajuda de alguém forte, mais uma vez decidi escolher Kentaro na intenção de testá-lo. Já tinha em mente uma ou duas teorias que gostaria de colocar em prática.

Até agora todos meus planos tinham falhado miseravelmente, mas eu sou uma garota determinada e só ia parar quando pudesse vencer Kentaro ou ao menos expor sua natureza robótica.

O Galpão 13 não era um de vários galpões, na verdade ele era o porão da escola ele era chamado assim porque várias coisas macabras haviam acontecido com pessoas que se aventuravam em suas profundezas. Incluindo a história/lenda de que uma mulher tinha morrido caindo as escadas na entrada do galpão, e que seu espirito as vezes era visto gemendo entre as centenas de estantes.

O motivo de eu ter chamado Kentaro para me ajudar a levar os arquivos para o porão não tinha nenhuma relação com o fato de eu estar com medo dos perigos que residiam no lugar. Não ouse pensar o contrário.

A caixa com os documentos era muito grande para uma pessoa só carregar, por isso eu tive que ajudar Kentaro. Eu fiquei com a parte da frente e Kentaro ficou com a parte de trás, porque só eu sabia o caminho até o porão. Assim a gente partiu aos trancos e barrancos.

— Vivien — disse Kentaro pronunciando meu nome corretamente pela primeira vez, ele parecia bem mais confiante para me dirigir a palavra agora que fazia parte do grêmio. — Você ainda não me disse para onde estamos indo.

— Menos conversa e mais força! — disse quase deixando a caixa cair. — Estamos indo para o Galpão 13.

— O galpão amaldiçoado?

Eu obriguei Kentaro a fazer uma pausa de emergência.

— Como você sabe? — disse olhando desconfiada para ele, enquanto sacudia meus braços na esperança que eles parassem de doer.

— Anna mencionou. — disse Kentaro sem nem uma gota de suor.

— Tinha que ser a She-Devil — disse dando de ombros e voltando a carregar a caixa. — Mas você não tem medo dessas coisas bobas tem?

— Não. — disse Kentaro com um olhar reflexivo, após alguns segundos perguntou: — Por que você chama Anna de She-Devil?

Eu coloquei a caixa no chão de novo.

— Eu a chamo de She-Devil desde o fundamental. — disse como se isso explicasse tudo. — E ela me chama de Funko.

— Ah então você é a Funko, isso explica muita coisa.

— Não ouse me chamar assim!

— Desculpe. — disse ele escondendo um sorriso, os olhos brilhando. — Mas você ainda não me disse por que você a chama de She-Devil.

— Vai me dizer que não conhece essa personagem? — disse jogando o cabelo para trás incrédula.

— Eh... Não.

— Está querendo me dizer que não sabe quem é Red Sonja?

— Por acaso deveria saber? — disse Kentaro erguendo uma das sobrancelhas.

— Por acaso o nome Conan não refresca sua memória? — disse fazendo o gesto de conexão com a mão.

— Detetive Conan? — disse Kentaro pensativo. — Nunca tive tempo para assistir esse anime, episódios demais.

— Conan o Bárbaro! Literalmente o personagem de pulp fiction mais famoso de Robert E Howard. Todo mundo sabe quem é Conan e Red Sonja!

— Se você está dizendo.

Eu me segurei para não bater nele, viu esse era só mais um dos momentos no qual ele me provocava disfarçadamente. Eu conheço esses personagens desde pequena quando meu irmão Victor me apresentou o universo de ficção de polpa, que incluía tudo desde Doc Savage até O Sombra. Tenho certeza que esses personagens são igualmente conhecidos pela maioria das pessoas na Terra.

Alguns minutos depois finalmente chegamos diante do Galpão 13, a jornada demorou um pouco mais do que o esperado porque eu tive que realizar algumas paradas para descansar.

Eu abri a porta do galpão e disse:

— Agora eu fico com a parte de trás e você com a da frente.

— Por que?

— Você está cheio dos questionamentos hoje hein? — disse trocando de lugar com ele. — Eu não quero descer a escada na frente, porque se algo der errado vou ser esmagada pela caixa.

Ele me lançou um olhar que dizia "eu sou a bucha de canhão?" mas não teve coragem de fazer a pergunta em voz alta.

Primeiro liguei a luz dentro do galpão, depois a gente começou a descer a escada cuidadosamente.

— Cuidado — eu disse. — Se alguma coisa acontecer e eu acabar morrendo, vou te assombrar pelo resto da minha existência.

— Eu me sentiria honrado. — disse Kentaro distraído.

Quase tropecei ao ouvir isso.

Finalmente chegamos no fim da escada, diante de nós estava o Galpão 13, com centenas de estantes abarrotadas com toda sorte de coisas. Um cheiro de mofo e umidade permeava sobre tudo.

— E agora? — perguntou ele.

— A gente segue até o fim do corredor.

A verdade é que não precisávamos ir até o fim do corredor, mas eu assim queria porque no final se encontrava um segundo interruptor, onde eu pretendia assustar Kentaro, do mesmo jeito que fui assustada por Alec no ano anterior.

Quando a gente chegou no final do corredor e ajeitou a caixa na parte de baixo de uma das estantes menos abarrotadas, eu corri para o interruptor e apaguei a luz. A escuridão consumiu todo o Galpão. A única fonte de luz vinha das escadas.

Nesse momento alguém ou "alguma coisa" fechou a entrada do porão de forma que até a luz no fim do túnel se apagou.

Minha mente finalmente percebeu o erro que eu estava cometendo tarde demais, eu estava no escuro com uma máquina de matar e quem sabe mais o que.

Por isso eu tentei apertar o interruptor o mais rápido possível. A luz voltou por alguns breves instantes, e eu cheguei a lançar um sorriso desafiador para Kentaro.

— Tá com medinho? — disse, minhas pernas chacoalhando que nem dois bambus diante de um vendaval.

Um som elétrico anormal soou pelo galpão e a luz apagou novamente com um zunido ensurdecedor.

Gostaria de dizer que me comportei como uma verdadeira mulher valente, mas a verdade é sempre mais sombria.

— OH MEU DEUS! — disse apertando o interruptor várias vezes sem sucesso. — Eu não quero MORRER aqui!

Às vezes diante do desespero eu me torno uma verdadeira idiota, eu admito, esse foi um desses momentos.

Tentei procurar pelos olhos vermelhos de Kentaro na escuridão, mas ele não era um desses modelos que os olhos brilhava no escuro.

De repente eu senti alguma coisa me tocar no ombro.

— Eu não quero morreeer! — disse invocando o meu tiririca interior e me esperneando tentando me afastar, mas sem sucesso. — Socorro! Eu não quero morrer!

— Sou eu Kentaro! — disse ele me agarrando pelos ombros com firmeza.

Por um instante eu pensei "é o fim" e voltei a choramingar.

— Sou eu Kentaro. — disse ele novamente sua voz soou bem próximo do meu rosto, próximo demais, o que me fez ficar paralisada e muda.

— Acalme-se, eu acho que dá para nós voltarmos para a entrada se seguirmos em linha reta na direção oposta.

— Eu nunca vou conseguir — reclamei. — Tenho uma coordenação motora pior do que a da Bela do Crepúsculo!

— Não faço a menor ideia do que você está falando, mas eu tenho um bom senso de direção — “lógico você é um robô” — Se você segurar minha mão a gente consegue sair daqui.

Ele segurou minha mão direita e com um puxão de leve começou a me direcionar para onde ele acreditava ser a saída.

— Vamos lá — disse Kentaro. — Com calma, um passo de cada vez...

— Mas e se um fantasma aparecer? Ou Cthulhu? — disse paralisando no lugar de novo, minhas pernas travando. — Ou pior e se um rato aparecer?

— Não se preocupe...

Nesse momento algo aconteceu com Kentaro e sua mão escapou da minha.

Eu soltei um grito tão forte que eu acho que assustei todas as criaturas malignas do galpão com ele.

— Acalme-se Vivien! Eu só escorreguei, eu estou aqui! — disse ele pegando na minha mão novamente. — Respire fundo, nós estamos quase lá.

Eu vou admitir eu me agarrei nele por completo sem conseguir sair do lugar, eu preferia morrer para um androide do que para algo sobrenatural e ficar presa naquela escola ridícula para sempre.

— Desse jeito eu não vou conseguir me mover. — disse Kentaro. — Já sei suba nas minhas costas.

— De cavalinho? — disse eu incrédula. — Aí já é vergonha alheia demais e se alguém ver a gente?

— Vivien, eu já te carreguei pela escola nos braços não tem nem duas semanas.

Eu subi nas costas dele.

E por incrível que pareça quando coloquei meus braços em volta de seu pescoço eu me acalmei. Provavelmente seu corpo tinha algum dispositivo relaxante, como aquelas poltronas de massagem que custam uma fortuna.

Em questão de segundos ele achou a escada, e eu fiquei me sentindo uma completa idiota.

Quando ele alcançou o primeiro degrau eu desci da costa dele.

— Eu assumo daqui. — disse tentando recuperar o mínimo de dignidade ao ver a luz na fresta da porta do porão.

Quase no topo eu me empolguei um pouco e tentei subir dois de degraus por vez, o que foi um erro porque eu escorreguei e teria rolado escada abaixo se Kentaro não tivesse me agarrado como a uma boneca de pano.

Nesse momento alguém abriu a porta do Galpão 13 e nos encarou.

A forma como eu e Kentaro estávamos nos segurando um ao outro, fazia a olhares destreinados parecer que estávamos dando uns amassos no escuro, meu rosto ruborizado e ofegante não me ajudou nem um pouco nesse momento.

A pessoa diante de nós era nada mais nada menos do que a diretora, com uma pequena caixa na mão, ela parecia completamente horrorizada.

— O que está acontecendo aqui?

— Não é o que a senhora está pensando. — disse o mais rápido possível, me soltando de Kentaro.

Nos minutos seguintes tomamos uma bronca lendária, foi a primeira vez que vi o rosto de Kentaro ficar tão vermelho que parecia que ele estava querendo se camuflar com a parede no fundo.

Depois de nos lembrar sobre a ordem das coisas e o valor de ser um indivíduo recatado e decente a diretora nos mandou para a classe.

Eu não troquei nem uma palavra com Kentaro.

Na hora do recreio ninguém menos do que a She-Devil veio atrás de mim irritada:

— Por acaso você andou beijando Kentaro?

— Não. — disse tentando fugir da vista dela o mais rápido possível.

— Porque existe esse rumor de que vocês estão namorando.

— Por que não pergunta para o próprio Kentaro? — disse me desviando das pessoas, mas Anna insistia em me seguir.

Desconcertada ela admitiu:

— Eu até tentei, mas ele se escondeu dentro do banheiro dos meninos.

Nesse momento eu entrei dentro dos banheiros das meninas e me tranquei dentro de um dos cubículos fechando a porta na cara de Anna.

Nesse dia eu percebi que eu tinha um super poder, a habilidade de passar Super Vergonha.