Meu Colega de Sala é um Androide
15 15 – Super Companhia
Eu odeio hospitais.
As paredes brancas, a iluminação mórbida, o cheiro de antisséptico e mofo, as senhas incessantes, as pessoas doentes que fazem você se sentir doente só de estar perto e o eco dos sapatos nos corredores intermináveis.
Quando o Sr. Yoshikawa me levou para dentro dele eu percebi que aquele era o esconderijo perfeito para um androide, porque ninguém quer passar mais do que o tempo necessário em um hospital.
Por fora eu era apenas uma aluna do ensino médio que veio visitar seu colega de classe no hospital, no fundo eu era um jovem com uma missão, descobrir se o chip de Kentaro já havia sido trocado por um que completaria o objetivo com precisão.
Quando finalmente alcancei a porta do quarto onde Kentaro se encontrava, o Sr. Yoshikawa falou para eu ficar com Kentaro enquanto ele resolvia alguns assuntos pendentes com o doutor. Se por algum motivo você pensou que isso era uma desculpa esfarrapada, você está certo, porque era uma desculpa esfarrapada.
Ao entrar no quarto meu coração começou a bater acelerado. Kentaro estava deitado em uma maca e seus olhos estavam cobertos com curativo. Ele parecia anormalmente inchado e sua pele tinha um tom amarelado nem um pouco natural, também havia alguns aparatos espalhados por seu corpo ligados a um monitor que davam um ar meio cyberpunk, apesar de tudo isso dava para identificar que era a mesma pessoa que estudava na minha classe.
Havia uma mesa não muito longe da maca junto com duas cadeiras, sobre ela eu coloquei os materiais que eu tinha trazido. Por algum motivo eu esfreguei meus dedos ansiosa.
— Mãe? — perguntou Kentaro despertando, depois de alguns segundos ele se rearranjou na maca assustado. — Vivien?
— Como você soube? — disse batendo o pé no chão, mesmo sabendo que ele provavelmente tinha um sonar.
— Por causa de seu cheir... — murmurou Kentaro antes de perceber o que estava dizendo. — O que você está fazendo aqui?
Eu considero essa uma das piores recepções que eu já recebi na vida. Só perde para as visitas do meu tio Albert, sempre quando ele chega em nossa casa ele só tem duas prioridades, pegar o que tiver de comer na geladeira e assistir a TV de 60 polegadas.
Kentaro parecia realmente surpreendido seu rosto ficou todo corado, não tão corado como de costume, mas era o suficiente dada as circunstâncias, eu daria uma nota 5/10 em uma escala de vergonha.
— Seus pais me trouxeram. — disse casualmente enquanto ajeitava as coisas sobre a mesa.
— Você conheceu meus pais? — questionou ele apreensivo.
— Sim, são um casal adorável. — disse distraída, brincando com uma mecha de cabelo. — E diferente de você eles me receberam muito bem.
— Desculpe... Não estou me sentindo muito bem no momento — disse Kentaro relaxando depois de ouvir minha resposta. — Alguém mais sabe que eu estou aqui?
— Acredito que os médicos, as enfermeiras... — ao ver a expressão no rosto de Kentaro prossegui um pouco mais séria. — Não, eu sou a única com exceção dos professores. E por falar em professores eles te desejaram melhoras. Como gesto de gratidão a professora Valéria falou que você não precisa entregar o dever de casa, o professor Louis te deu um vale refeição, por algum motivo desconhecido, e o professor Vlad te presenteou com um Toblerone, que eu iria te entregar, mas como a fila de espera estava muito grande eu acabei comendo.
Kentaro deu uma risada fraca quando ouviu a última parte, ele achou que eu estava brincado, mas era verdade, nunca confie em mim quando se trata de chocolate.
— E que papo foi esse de me reconhecer pelo cheiro? — indaguei enquanto verificava minhas axilas.
— Seu shampoo... Tem um cheiro bom. — respondeu ele ficando corado novamente, dessa vez eu daria 07/10, ele estava evoluindo.
— Como está se sentido? — disse me aproximando dele tentando olhar por baixo do curativo. — Não está sentindo dor, está?
— Com o tanto de medicamento que eles me dão — disse Kentaro inquieto se segurando para não puxar a bandagem dos olhos. — Estou surpreso por estar sentindo as batidas do meu coração. A pior parte é não conseguir enxergar.
— Eu sei como é. — disse pesarosa.
— Sabe?
— Na verdade não, mas deve ser horrível — disse coçando a cabeça. — Por isso Kentaro em uma situação como essa você deve pensar positivo.
— Sério, Vivien? — disse ele com um tom reprovador.
— Imagine que você está em um spa — disse tentando soar otimista. — Um spa onde a comida é horrível, e também onde você não pode fazer nenhum exercício e os pepinos ficam grudados na sua cara durante toda a estadia, quer saber acho que usar a imaginação não está ajudando.
— Obrigado Vivien não sei o que faria sem suas ideias. — disse Kentaro em um tom cansado, mas deixando escapar um sorriso pacífico.
— Bem — proclamei. — Hoje eu vim te ajudar a se manter em dia com as matérias da escola, e como eu não sei quando irei ver você de novo...
— Espero um dia poder te ver de novo. — sussurrou Kentaro quase choroso, ver aquela expressão no rosto dele foi como tomar um soco no estomago.
— Kentaro seus travesseiros estão todos bagunçados, deixe eu te ajudar — disse tentando amparar quase subindo em cima da maca, quando me dei conta meus cabelos estavam sobre o rosto dele.
Nesse momento algo se soltou da mão de Kentaro e caiu no chão, eu já estava pronta para pedir desculpas quando notei que era o chaveiro de gato que ele tinha prendido na minha jaqueta.
— O chaveiro. — eu disse pegando-o do chão e dando uma inspecionada.
— Eu gosto de ter algo para segurar... E o Smoothie...
— Smoothie? — disse dando uma casquinada.
— Eu dei o nome de Smoothie para ele — disse Kentaro sorrindo sem graça. — Smoothie Criminal...
Quando eu ouvi isso eu não resisti e dei uma gargalhada. Ao que parecia esse realmente era o Kentaro original, com seu hábito de dar péssimos nomes para as coisas.
Eu tentei colocar o chaveiro de volta não mão dele, mas ele aproveitou para segurar minha mão, o aperto estava fraco, mas acredito que era o máximo do esforço de Kentaro. Por isso eu fiquei lá parada segurando a mão dele por alguns minutos, sem falar nada ouvindo apenas os bips e bops do monitor.
— Acho que está na hora de revisar as lições — disse indo até a mesa e pegando um dos cadernos e depois arrastando uma das cadeiras para mais perto da maca. — Vamos começar com a aula de biologia, a lição é algo que você deve estar familiarizado: O sistema reprodutor masculino.
— Vivien!
— Brincadeira — disse dando risada da cara dele, finalmente atingindo 10/10 na escala de Vergonha. — A gente vai revisar o negócio do velho das ervilhas.
— Por um acaso você está falando do experimento de Mendel com as ervilhas lisas e rugosas?
— Se você prefere falar em termos técnicos — disse virando a página do caderno. — E mais uma coisa não ouse dormir enquanto eu estiver lendo.
— Eu não dormiria por nada nesse mundo — disse Kentaro sorrindo satisfeito.
Cinco minutos depois ele dormiu.
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