Alguns dias depois de visitar Kentaro no hospital ele recebeu alta e voltou a estudar na escola.

Porém, as coisas não voltaram a ser como eram.

O primeiro sinal de mudança era o fato de Kentaro ter que usar óculos especiais que fazia ele parecer uma mistura do Stevie Wonder com o Riddick, dependendo do ponto de vista.

Isso era só o começo das mudanças. Rosinha voltou a se sentar ao meu lado e Kentaro passou a se sentar ao lado da porta, para o caso de precisar de uma emergência, à frente da She-Devil. Mais tarde ele avisou que não poderia continuar no grêmio estudantil e Japp passou a ser o meu auxiliar, agora que não estava mais tão ocupado.

A She-Devil se encarregou de ficar sempre ao lado dele, e na hora do recreio Roy agia como se fosse um segurança impedindo que qualquer um se aproximasse de Kentaro sob ameaça de tomar um soco bem dado.

E assim os dias se passaram, sem que eu conseguisse me aproximar nem mesmo a um metro de Kentaro sem ter que me justificar para Roy ou a She-Devil, isso sem contar com as várias pessoas que o cercavam para perguntar o que tinha acontecido com seus olhos ou se ele estava bem.

Conforme isso ocorria eu me vi pela primeira vez naquele semestre sem a interferência direta de Kentaro em minha vida. Por isso através do curso de outubro eu retornei ao topo, na verdade minha participação nas aulas nunca foi tão boa e mesmo no grêmio era como se eu fosse outra pessoa, muito mais produtiva e motivada.

Inclusive certo dia após uma das reuniões do grêmio, eu estava conversando com Rosinha sobre os assuntos do dia e perguntei:

— ...Qual é a sua opinião sobre tudo isso?

Ela olhou para mim e seus olhos ficaram marejados.

— O que foi? — disse me perguntando se tinha dito algo errado.

— Não foi nada. — disse ela cobrindo o rosto com as mãos.

Após insistir por alguns minutos ela disse sem graça enxugando as lágrimas com a costa das mãos:

— É que você nunca tinha perguntado por minha opinião antes.

Eu fiquei chocada com essa resposta, não era possível que ela estivesse certa, com toda a certeza eu tinha perguntado a opinião dela nos dois anos desde que nos tornamos amigas. A partir desse dia eu percebi que algo dentro de mim tinha mudado, me deixando mais madura.

E apesar desse mês ter sido o mais produtivo e alegre de minha vida, as vezes quando me via sozinha ou no silêncio da noite eu acordava entristecida e começava a chorar, sem entender ao certo o motivo.

Na última semana de outubro as pessoas não paravam de falar sobre o Cine Terror, não sabia ao certo porque, eu odiava filmes de terror moderno e ao que parecia eu era a única nesse barco.

Mas a menção constante desse evento me instigou a bolar um plano perfeito que me permitiria falar com Kentaro.

Através de Karina eu fiquei sabendo que a She-Devil tinha esquecido de devolver um livro na biblioteca por pelo menos um mês, em seguida fui até a diretora Natalie e mencionei casualmente para ela que a Anna tinha danificado um livro da escola e não sabia o que fazer. Depois disso as coisas aconteceram automaticamente, alguns minutos se passaram e a voz da diretora no autofalante anunciou que era para a She-Devil ir para a biblioteca com urgência.

Assim que eu a vi se afastar de Kentaro, correndo, me dirigi até Roy e disse fingindo inocência:

— Acredito ter visto a Ivana com um garoto agora pouco, mas não acho que seja nada sério.

Roy olhou para Kentaro como se estivesse receoso de deixá-lo ali e eu disse:

— Não se preocupe Roy, pode deixar que eu levo Kentaro até a sala depois do recreio.

Kentaro fez um sinal de aprovação e Roy saiu correndo.

— Algum pobre coitado não vai apanhar por causa disso, vai? — perguntou Kentaro encarando o sorriso malvado em meu rosto.

— Vai depender de duas coisas, do quanto Roy gosta do Kevin ou do quão rápido o Kevin consegue correr do Roy. — disse abanando a mão para ele. — E então Kentaro, como vai você?

— Vou bem obrigado. — disse ele, calmo.

Era o terceiro dia desde que ele tinha retirado os óculos do Riddick, dava para ver as cicatrizes ao redor de seus olhos, elas eram pequenas linhas de cor metálica, mostrando que ele tinha um ótimo sistema de regeneração, muito parecido com o do T-1000.

— Tem sido difícil te encontrar sozinho, se não te conhecesse diria que está me evitando.

Um silêncio constrangedor se ergueu entre nós.

Olhando para o chão, notei que a gente se encontrava no mesmo lugar onde eu tinha visto ele bater em Roy em agosto, uma parte de mim ainda lamentava a perda do bolinho.

— Escute, o Cine Terror é amanhã, né? — disse sem olhar para ele.

— Sim — disse ele observando tudo menos meu rosto. — Obrigado por ter ouvido minha ideia.

— Isso não foi nada — disse dando um tapinha no ombro dele. — A ideia era boa... Você planeja vir amanhã?

Kentaro ficou mais sem graça do que o normal, tomando folego ele disse:

— A Anna me chamou e eu aceitei ir com ela — disse ele parecendo chateado. — Eu aceitei porque pensei que você não gostava de filmes de terror... Me desculpe.

— Por que está se desculpando? — eu disse encarando-o, um sorriso largo em meu rosto. — Não tem nenhum problema.

Eu olhei para o relógio na parede e disse:

— Veja que horas são! Acho que é melhor te guiar até a sala antes do sinal bater.

Ofereci meu braço e ele aceitou. A gente avançou pelos corredores vazios em silencio. Algo nas palavras e atitude de Kentaro me fez me sentir tão leve que era como se eu fosse um balão de festa, e o único motivo pelo qual eu sabia que não estava cheia de hélio é porque minha voz não estava fina como a do Alvin e os Esquilos.

— Aqui estamos. — disse quando a gente chegou na porta da nossa classe.

Nesse momento o sinal marcando o fim da diversão bateu.

Antes de ir para minha carteira, eu me aproximei de Kentaro sem falar nada, ele me observou acuado como um rato de laboratório. Com minhas mãos eu peguei o rosto dele e aproximei ele do meu até ele ficar alguns centímetros de distância. Analisei o lado direito de sua face, virei e fiz o mesmo com o lado esquerdo, então passei a ponta dos meus dedos cuidadosamente pelas cicatrizes em torno dos olhos dele. Sua pele estava mais quente que o Arnold no final do Exterminador do Futuro 2. Por fim eu completei acariciando o lado de seu rosto com a costa dos meus dedos.

Após confirmar que ele era mesmo o Kentaro original e não um outro androide substituto, eu soltei o rosto dele e lhe presenteei com o meu sorriso mais radiante, o tipo de sorriso que eu guardava para ocasiões especiais como o natal.

Ele me encarou com uma expressão indecifrável, a boca levemente aberta, como se quisesse dizer ou fazer algo, mas não tivesse dentro de si coragem suficiente.

Os alunos então começaram a voltar para a sala e eu me dirigi para minha carteira, sem falar nenhuma palavra.

Me sentindo na mais absoluta paz.