Meu Colega de Sala é um Androide
13 13 – Super Orgulho
Era apenas mais um dia de aula, o curso de vida fluía naturalmente e a única coisa que marcava que algo tinha acontecido no fim de semana é o fato de eu e Kentaro estarmos sem falar um com outro. Isso não era um problema porque a companhia um do outro durante as lições era o suficiente para nos satisfazer. Era um tipo de silêncio confortável.
E assim as coisas seguiram até o recreio.
E foi a partir daí que as coisas começaram a desandar, como o momento antes de uma tempestade onde o ar fica úmido e mormacento avisando que haverá uma pancada de raios e trovões.
Giovana me avisou que a nossa barraca tinha sido a mais bem sucedida da feira e que depois das aulas eu e Kentaro deveríamos ir até a diretoria para receber a nossa Fita Azul. Tal notícia me deixou muito contente, não apenas porque a vitória era nossa, mas também porque me daria a desculpa perfeita para poder conversar com Kentaro assim que o recreio acabasse.
Quando o sinal bateu eu fui a primeira a chegar na sala e conforme os outros alunos entravam fiquei cada vez mais ansiosa pela chegada de Kentaro, mas ele nunca chegou.
Nos primeiros minutos da última aula um inspetor veio avisar para alguém pegar o material dele e levar para a diretoria. Eu me voluntariei e comecei a guardar as coisas de Kentaro tentando não pensar no pior. Me dirigi para a diretoria sem saber o que esperar.
Kentaro estava sentado em um dos bancos no corredor, quando ele me avistou não havia nenhum sorriso em seu rosto, ao contrário, a expressão em sua face era a mesma de quando ele ficava com dor de cabeça.
— O que foi? — perguntei sentindo algo afundar no meu estomago.
— Vivien — disse Kentaro com uma voz fria, enquanto pegava o material das minhas mãos. — Me responda, você por algum motivo contou sobre o que aconteceu na feira para a diretora?
— Sim, por que?
Kentaro fez uma pausa como se estivesse tentando engolir uma pílula particularmente grande.
— Por que você fez isso?
— Luke e Antonio precisavam ser punidos pelo que eles fizeram. — disse com certa aspereza, para mim isso era óbvio.
— Então você sabia que eles foram expulsos? — disse Kentaro sem olhar em meus olhos, como se a minha frase tivesse confirmado seus pensamentos.
— Fui eu que sugeri a expulsão. — disse cruzando os braços. — Esse tipo de brincadeira idiota é inadmissível.
— Em nenhum momento você pensou em me contar isso? — disse ele ferido. — Para saber qual é a minha opinião?
— Eu acreditei que você concordaria. — disse e perdendo a paciência prossegui: — Eles quase te mataram se eu não tivesse te socorrido a tempo a gente não iria estar tendo essa conversa!
— Mas eu estou aqui, isso não conta de nada?
— Do que você está falando? — disse incrédula. — Eu salvei a sua vida!
— Eu sou muito grato por isso — disse Kentaro, ele colocou a ponta dos dedos nas têmporas e fechou os olhos por alguns segundos antes de prosseguir. — Os pais do Luke e do Antonio vieram aqui sabia? E por causa disso meus pais foram chamados, não era para os meus pais saberem que eu tinha me afogado Vivien...
— Eu não...
— Quando minha mãe ficou sabendo que eu quase tinha morrido ela passou mal... — Kentaro fez uma pausa como se estivesse tentando segurar o choro. — Ela está no hospital agora mesmo, é por isso que eu estou saindo mais cedo da escola.
Quando eu ouvi isso meu coração parou, mas eu estava furiosa demais para ceder espaço para outros sentimentos.
— Eles quase mataram um aluno, eu mal consegui dormir só de imaginar o que poderia ter acontecido, o que você queria que eu fizesse ignorasse tudo? Acha que eu sou estúpida ou algo do tipo?
Eu percebi que eu estava gritando e tremendo que nem uma britadeira, minha voz ecoando pelo corredor.
— Eu não concordo com você Vivien — disse Kentaro sem gritar, mas sua expressão era de tamanho desapontamento, que eu preferiria que ele tivesse gritado. — Não acho que eles tinham que ser expulsos, por isso fiz a diretora mudar de ideia e dar mais uma chance para eles, trabalho comunitário é punição o suficiente. Quanto a você Vivien eu sinto vergonha de você. Você não pensou em mim, não pensou em meus pais, não pensou nos pais deles. Não sou programado para lidar com este tipo de atitude egoísta.
E depois de falar isso ele virou as costas e foi embora. Se você prestasse bastante atenção você poderia ouvir o som do meu coração se partindo em um milhão de pedaços.
Eu soltei um uivo de frustração e voltei para sala chorando de raiva prometendo a mim mesma que nunca mais iria perdoá-lo, e que nunca mais iria confiar em um androide.
Ninguém falou comigo até o fim da aula, nem mesmo o professor.
As minhas lágrimas caíam quentes por meu rosto ainda que meu coração estivesse frio, porque no fundo, bem no fundo eu sabia que a culpa tinha sido minha. Eu havia estragado tudo.
Passei a noite sem dormir tentando imaginar todas as possibilidades do que poderia acontecer na manhã seguinte, se iria ignorá-lo, gritar com ele ou até mesmo perdoa-lo. Tudo isso de nada adiantou porque quando o dia seguinte chegou Kentaro não tinha vindo para a escola.
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