Meu Colega de Sala é um Androide
14 14 – Super Segredo
Setembro terminou e outubro começou sem nenhum sinal de Kentaro. Minha raiva não apenas tinha dissipado, mas meus pensamentos tinham criado várias teorias do que realmente poderia ter acontecido.
Teoria 1:
Kentaro era um androide que tinha a missão de me matar, mas conforme ele me conheceu ficou apaixonado e acabou indo contra seus donos que o destruíram. Por isso ele tinha sido rude comigo, para que eu não sentisse a falta dele quando ele partisse. Muito nobre de sua parte.
Teoria 2:
A She-Devil criou ou encomendou um androide para me destruir, ela percebeu que durante a feira do aniversário da cidade ele havia se apaixonado por mim por isso ela contratou Luke e Antonio para destruí-lo e após eles falharem ela mesmo finalizou o serviço. Isso explicaria o fato de Kentaro ter uma amizade com ela mesmo ela sendo uma pessoa insuportável, ele estava sendo forçado a fazê-lo.
Teoria 3:
E a pior de todas as versões: Kentaro era um androide especialista em entrar na vida de damas inocentes, roubar o coração delas e depois desaparecer deixando elas morrerem com a dor da perda. Talvez Kentaro ainda estivesse ali, só que camuflado para eu não notar sua presença, disfarçado de objetos comuns observando meu desespero. Essa era a teoria mais apocalíptica, mas não podia ser descartada.
Eu ainda não estava certa sobre qual versão estava mais próxima da verdade, mas era o melhor que podia fazer para ocupar minha mente. Era como se eu fosse uma viciada em reabilitação, a ausência de Kentaro abriu um espaço tão grande na minha vida que eu não sabia ao certo o que fazer ou como reagir. Incrível como alguém que eu conheci por cerca de dois meses tivesse tamanho poder sobre mim, isso só podia ser hipnose ou algo do tipo.
No grêmio fiz a sugestão do Cine Terror para os outros membros e eles aprovaram a ideia. Não muito depois a diretora aprovou também, mais por causa do baixo orçamento do que qualquer outra coisa. Como eu não estava com disposição, eles encarregaram a responsabilidade de organizar o evento na mão de outros membros como Alan e Charles.
As coisas não iriam durar muito se continuassem naquele ritmo, porque eu não estava comendo direito, nem dormindo direito e por causa disso não conseguia prestar atenção em ninguém, o que incluía amigos e professores. O que era ruim porque dentro de um mês os testes iriam começar.
E apesar de minha tristeza não havia nenhuma lágrima em meus olhos, por algum motivo desconhecido eu não conseguia chorar. Tentei forçar ouvindo músicas tristes e assistindo Sempre Ao Seu Lado, mas não obtive nenhum sucesso.
Durante a última aula do início de outubro Imani apareceu na porta da sala e me chamou para ir com ela até a diretoria, conforme a gente avançava pelos corredores ela lançou um olhar solidário para mim e perguntou:
— Posso te pedir um favor?
— Claro. — respondi, ainda que minha voz tenha saído sem nenhum animo.
— Não conte a ninguém sobre a conversa a seguir está bem? — ela apertou meu ombro para dar ênfase as suas palavras.
— Certo. — disse uma pontada de curiosidade despertando em mim.
A gente chegou na diretoria onde um senhor aguardava, observando a estante dos troféus. Ele parecia com o ator Ken Watanabe, seu olhar era esperto e ele tinha uma certa elegância para se vestir, a única coisa que entregava sua idade era as rugas em seu rosto. Sua postura impecável foi a primeira coisa que chamou minha atenção.
— Aqui está, Sr. Yoshikawa — disse Imani me apresentando. — Essa aqui é a coleguinha do Kentaro que eu tinha lhe falado.
Me contive para não corrigir a professora, não era uma coleguinha, eu já tinha dezesseis anos, pelo amor de Deus!
— Obrigado Srta. Bello — disse o senhor fazendo uma reverência para a professora, e se voltando para mim ele estendeu a mão. — Prazer em conhecê-la srta.?
— Vivien Mitchell — disse apertando a mão dele. — Mas pode me chamar de Vivien.
— Prazer srta. Vivien — disse ele com um sorriso polido. — Eu sou Kenji Yoshikawa o pai do Kentaro.
Eu tomei um pequeno susto quando ele disse isso, o que não passou despercebido por seu olhar esperto. Seu sorriso se alargou. Era muito curioso para mim que o pai dele era mais velho que todos os meus avós. Uma vozinha no fundo da minha mente dizia que eu tinha encontrado o cientista maluco que tinha feito Kentaro.
— Eu vou deixar vocês conversando — disse Imani se distanciando. — Tenho muita coisa para resolver.
O Sr. Yoshikawa fez uma reverencia para ela e antes de sumir de vista ela deu uma piscadela para mim, e não faço a menor ideia do porquê.
— Eu estou aqui porque preciso da sua ajuda. — disse o Sr. Yoshikawa.
— Pode contar comigo. — disse sem perder tempo, queria muito saber o que estava acontecendo.
— É muito bom saber que Kentaro tem amigos — disse ele com o peito estufado. — Muito bem, eu preciso que você faça uma cópia de todas as lições que Kentaro perdeu durante os últimos dez dias.
— Pode contar comigo. — disse novamente balançando a cabeça.
— A verdade é que os últimos dias tem sido muito difícil para o Kentaro — disse o Sr. Yoshikawa com uma expressão vazia. — E ele precisa de algo para distrair a cabeça.
— Posso lhe perguntar o que aconteceu? — perguntei sem conseguir conter minha curiosidade.
— Ah eu tinha esquecido de dizer — disse o Sr. Yoshikawa coçando o rosto, pensativo. — Quando minha esposa passou mal...
— Ela está melhor?
— Não precisa se preocupar, a pressão dela tinha caído porque quando descobriu que Kentaro tinha quase morrido ela estava de jejum, mas não foi nada sério.
Eu soltei um suspiro de alívio e o Sr. Yoshikawa voltou a sorrir.
— Naquele dia a gente aproveitou que estava no hospital para fazer exames de rotina em Kentaro — disse o Sr. Yoshikawa voltando a sua história. — Em um dos exames a gente acabou descobrindo que as dores de cabeça que Kentaro estava tendo estava relacionada com um problema na vista dele que precisou de uma cirurgia urgente... Ele ainda está no hospital se recuperando.
Meu corpo estremeceu da ponta dos dedos até a cabeça, era como se um fardo tivesse caído dos meus ombros. Novos medos, porém, se apressaram para estender suas garras em direção ao meu coração.
— Então se puder fazer esse favor com questão as lições. — disse o Sr. Yoshikawa com uma leve reverência. — Quando terminar é só ligar para mim que eu venho buscar...
— Não precisa — disse. — É só me dar o endereço da casa de vocês que assim que eu terminar entrego pessoalmente.
— Mas isso seria pedir demais. — disse o Sr. Yoshikawa surpreso.
— Não será nenhum incomodo — disse com um sorriso genuíno. — Vai ser bom para ocupar minha mente.
E assim o Sr. Yoshikawa se despediu fazendo mais uma reverencia e dessa vez ela foi tão profunda que eu fiquei corada, com medo do senhor acabar partindo ao meio sem querer.
Depois que as aulas terminaram eu passei o resto do dia trancada em meu quarto fazendo a cópia das lições. E pela primeira vez em um bom tempo não havia nenhuma preocupação em minha cabeça.
Mas esse momento passou quando após as aulas do dia seguinte eu me dirigi para a casa de Kentaro. A primeira coisa que me surpreendeu foi que Kentaro morava bem longe da escola e isso me deu tempo suficiente para me preocupar com toda sorte de coisas.
Inclusive com minha aparência, porque antes de sair da escola eu tinha me arrumado um pouco mais do que o normal, por algum motivo eu queria causar uma boa impressão nos pais de Kentaro, mas paguei um preço caro por isso porque o dia estava particularmente quente e o suor escoria por todas as partes do meu corpo, era como se eu fosse uma nascente ou algo do tipo.
Nem todo o suor era por causa do clima. Uma pequena parte da minha mente estava com medo de que aquilo fosse uma armadilha para me capturar, eu nunca ouvi falar de androides terem pais, tudo isso era muito novo para mim. Uma coisa é certa eu ficaria de olhos bem abertos para notar qualquer coisa fora do lugar.
Quando finalmente toquei a campainha da casa de Kentaro eu tentei ao máximo afastar meus pensamentos intrusivos, mas não obtive muito sucesso.
Uma senhora veio atender a porta:
— Oh você deve ser a Vivien, por favor entre, seja bem vinda... Eu sou Mariko a mãe do Kentaro.
Ela tinha a minha altura e seu cabelo bem preto ia até a altura do pescoço. Seu rosto era largo e seus olhos bem puxados de forma que quando ela sorria, eles pareciam duas fendas bem fininhas. Ela também tinha uma forma física de dar inveja, cada parte de seu corpo tinha a proporção correta, Thanos se sentiria orgulhoso.
Na entrada da casa havia um jardim muito bonito com toda a sorte de flores, de forma que quando entrei dentro da casa o perfume suave delas invadiam os cômodos.
— Meu marido saiu para fazer as compras do mês — disse a Sra. Yoshikawa sorrindo. — Não sabia que você iria terminar o serviço tão rápido.
— Não tinha muita coisa — menti mostrando para ela a pasta com as lições.
Uma chaleira começou a apitar na cozinha e enquanto corria para lá ela apontou para uma porta no fim do corredor e disse:
— Pode deixar a pasta em cima da mesa no quarto do Kentaro.
Eu fiz como ela tinha me mandado e entrei no quarto dele, sentindo um arrepio na minha pele. Parecia um cenário de filme ou novela, tudo estava perfeitamente arrumado e organizado. Fiquei um tempo observando os livros na estante dele e a mãe dele apareceu atrás de mim.
— Ele é muito organizado, não é? — ela disse ainda sorrindo.
Eu balancei a cabeça positivamente. Sem contar para ela que estava procurando por passagens secretas.
— Você veio de tão longe — disse a Sra. Yoshikawa. — O mínimo que posso te oferecer é um chá.
Ela falava com tamanha delicadeza que simplesmente não consegui rejeitar.
A gente se sentou no sofá lado a lado. Sobre a mesinha de centro ela me serviu chá com biscoitos. Eles provavelmente estavam deliciosos, mas eu não posso te dizer se isso é verdade, porque queimei a boca tentando tomar o chá e depois disso não senti o gosto de mais nada, mesmo assim comi o suficiente para não parecer indelicada.
— Fico muito feliz que Kentaro tenha amigos como você — disse a Sra. Yoshikawa depois de beber um pouco de chá.
— Não sei se eu seria considerada uma amiga. — disse com sinceridade, uma pontada atravessando meu peito quando pronunciei essas palavras.
— Ah não seja tão modesta — disse ela cobrindo o sorriso com a mão. — Você fez todo esse esforço de fazer a lição e vir até aqui. Sabe as coisas não tem sido fácil para o pobre Kentaro...
— Por causa da cirurgia?
— Não — disse a Sr Yoshikawa balançando a cabeça. — Kentaro estava tendo uma tremenda dificuldade nas últimas escolas que ele frequentou... Ele é muito estudioso, mas ele leva muito a sério quando alguém ofende o que ele acredita ser a honra minha e do meu marido.
Isso explicava porque ele tinha ficado todo surtado comigo.
— Para você ter noção — prosseguiu a Sra. Yoshikawa. — Ele foi expulso da última escola porque bateu em alguns colegas de classe... Segundo o diretor ele dobrou os meninos como se fossem origami...
Para minha surpresa a Sra. Yoshikawa segurou uma risada.
— Mas porque isso aconteceu? — perguntei me inclinando na direção dela.
— Eu e o Kenji sempre sonhamos em ter um filho, mas por causa de nossas profissões e outros dilemas eu só vim conseguir engravidar com cinquenta anos... Sim eu tenho mais de sessenta, mas não conte para ninguém.
A minha boca se abriu automaticamente, em parte porque estava impressionada e em parte para refrescar minha língua queimada. A Sra. Yoshikawa deu uma risada.
— Jamais pensamos que isso seria um problema — prosseguiu ela. — Mas muitos jovens gostam de provocar Kentaro por causa de nossa idade e esse é o caminho mais fácil de deixá-lo irritado, por isso dessa vez eu e meu marido decidimos que não iriamos nos envolver com a escola e até agora tudo tinha funcionado perfeitamente.
A gente ficou em silêncio por alguns segundos tomando chá e comendo biscoitos. Quando eu terminei coloquei a xícara com o pires sobre a mesinha.
— Sabe — disse a Sra. Yoshikawa tomando minha mão e apertando com as dela com carinho, seu rosto ainda continha um sorriso, mas seu olhar estava sério. — Tenho uma gratidão eterna por você ter salvo a vida do meu filho. Meu único filho.
— Infelizmente eu acho que seu filho não pensa o mesmo — disse com o máximo de frieza que consegui juntar. — Ele disse que eu sou... Que eu sou... Uma vergonha!
Eu não sei se foi o chá, o calor que abriu meus poros sudoríparos, ou o perfume das flores, mas ao encarar aqueles olhos negros, toda a tristeza que eu tinha reprimido jorrou do meu peito e eu comecei a chorar sem conseguir me conter.
A Sra. Yoshikawa tentou me segurar, mas essa demonstração de carinho só fez com que mais lágrimas caíssem de meus olhos. O que mostra uma grande ironia da vida, no momento no qual eu queria chorar nem uma lágrima vinha, no momento menos oportuno lá estava eu soluçando que nem um galão de água.
— Ow minha querida não chore — disse a Sra. Yoshikawa limpando minhas lágrimas com um lenço que até hoje eu não sei de onde veio.
— Ele está certo eu sou terrível e egoísta e... e... — disse com um bico que daria inveja em um tucano.
— Se você fosse egoísta não teria feito tudo o que fez por ele, Kentaro também me contou tudo o que você faz pela escola e o amor que você tem por sua família. — tentou racionalizar a Sra. Yoshikawa.
As lágrimas vinham com tamanha força que eu simplesmente não conseguia fazer outra coisa a não ser deixar minha alma ser lavada, o fato do meu corpo e o da Sra. Yoshikawa também serem lavados no processo era só um bônus.
— Ele me odeia. — eu disse indignada, sem acreditar no que estava confessando. — E é tudo culpa minha.
— Vivien — disse a Sra. Yoshikawa pegando meu rosto. — Ele não te odeia muito pelo contrário... Escute, eu tive uma ideia, porque você mesmo não leva a lição para ele amanhã e veja por si mesma. O que você acha?
Eu concordei com a cabeça. Ao notar a sujeira que eu tinha feito fui invadida pela vergonha, era como se eu fosse um bebê na creche.
Por isso eu me recompus e respirei profundamente.
Quando Sr. Yoshikawa chegou em casa ele jamais suspeitou o que tinha acontecido.
Ao sair da casa deles era como se eu fosse uma outra pessoa, pelo menos três quilos mais magra e o clima nem estava tão quente assim.
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