Meu Colega de Sala é um Androide
11 11 – Super Chef
O grande dia finalmente havia chegado: A Feira do Aniversário da Cidade tinha oficialmente começado.
Eu já estava com meu uniforme pronta para encarar mais esse desafio.
Imani era a responsável por supervisionar e organizar a nossa barraca cujo nome era Jungle Boogie (a professora que escolheu o nome), e a gente iria vender cachorro quente. Imani escolheu eu, Charles, Giovana e Kentaro, e separou a gente em dois turnos eu e Kentaro iriamos ficar com o turno da tarde e Giovana e Charles iriam ficar com o turno da noite. Originalmente Giovana tinha ficado com o turno da tarde, mas ela me convenceu a trocar porque ela queria curtir o dia com Charles, e como eu sou uma boa amiga eu acabei cedendo.
Kentaro ficou responsável por preparar os lanches e eu fiquei com a tarefa de atender os clientes e quando necessário fazer o suco. O cachorro quente era uma ficha, o hambúrguer era duas, o suco e o refrigerante era uma também. A barraca que conseguisse mais fichas iria ganhar uma Fita Azul e desta vez era a oficial do evento!
E como sempre eu tinha uma missão secundária. Na noite anterior eu havia formulado a ideia de tentar manipular Kentaro com minha delicadeza e doçura na intenção de fazê-lo mudar seus objetivos assassinos e quem sabe vir para o meu lado, ele daria um ótimo robô ajudante.
Era meio dia quando a Feira abriu e o público começou a entrar. O cheiro de hambúrguer fritando na chapa, o som de música e de pessoas conversando acaloradamente preenchia o ar. A música tocando na nossa barraca era Jungle Boogie do Kool and the Gang e outras do James Brown, por isso quando os clientes chegaram eu estava me sentindo bem Funky e alegre.
A primeira hora foi bem tranquila e ao fim dela Victor apareceu.
— Hey mana. — disse ele encarando o cartaz com o cardápio. — Me vê um hambúrguer e um suco de laranja.
— Você veio! — eu disse contente.
— Valentin veio comigo também — disse Victor se recostando na bancada da barraca. — Ele desapareceu assim que chegou a hora de trocar dinheiro pelas fichas, aquele filho da mãe, se você ver ele fala que eu estou procurando por ele.
— Está bem. — disse sorrindo enquanto entregava o lanche e o suco nas mãos dele.
Victor deu uma mordida no lanche ao ritmo da música, depois de alguns segundos disse:
— Isso aqui é muito gostoso. — ele parecia surpreso.
— É porque é caseiro — disse franzindo o rosto com um sorriso enquanto guardava as fichas. — Foi o Kentaro que fez, tanto o pão quanto o hambúrguer.
— E aí Kentaro beleza? — disse Victor notando Kentaro trabalhando ao fundo pela primeira vez.
Kentaro cumprimentou ele a distância sem conseguir evitar de ficar corado, a memória de como se conheceram ainda fresca em sua mente.
— Se qualquer profissão que você queira falhar — disse Victor adicionando uma quantidade obscena de ketchup no lanche. — Abra uma lanchonete, vai fazer muito sucesso. Isso aqui está divino.
Depois que Victor foi embora Imani apareceu para ver se as coisas estavam dando certo e partiu logo em seguida, me dando uma piscadela.
Um rapaz misterioso se aproximou da barraca, suas roupas o faziam parecer Leon o profissional, até mesmo os óculos escuros eram os mesmos, ao avistá-lo eu disse para Kentaro:
— Assuma o controle, vou no banheiro e já volto.
Fingi que sai da barraca, mas fiquei na parte de trás observando Kentaro.
O rapaz misterioso pediu um hambúrguer e um refrigerante. Kentaro entregou o lanche e a bebida para ele e pegou as fichas mecanicamente, distraído por causa de seus afazeres.
— Mas que palhaçada é essa? — disse o rapaz apontando para o lanche.
Kentaro olhou para onde ele estava apontando, o lanche tinha vindo com uma mordida tiranosaurídia. Os olhos de Kentaro se arregalaram sem saber o que fazer.
— Vou reportar vocês por isso. — disse o rapaz.
— Me perdoe não sei como isso aconteceu, eu vou devolver suas fichas e lhe dar um outro lanche por conta da casa. — disse Kentaro entrando no seu modo pica-pau e fazendo um milhão de reverências.
Então Kentaro olhou para trás e me viu ali parada ainda mastigando o hambúrguer que eu tinha mordido quando ele não estava olhando.
— Vivien você mordeu...? — disse Kentaro pálido e confuso.
Nesse momento o rapaz misterioso e eu começamos a dar risada e Kentaro ficou ainda mais perdido.
— Não liga para ele não, Kentaro. — disse me aproximando da bancada. — Esse é o meu irmão Valentin.
— Você viu a cara dele? — disse Valentin rindo enquanto cumprimentava Kentaro com um aperto de mão. — Qual é o seu nome?
— Kentaro Yoshikawa. — disse voltando para o fogo.
— Ah então você é o garoto do banheiro. — disse Valentin começando a comer o lanche.
Falando bem baixinho para mim meu irmão disse:
— Eu não faço a menor ideia do que isso significa, foi o Victor que me mandou falar isso.
Kentaro ficou corado novamente, era muito bom ver ele sentindo vergonha ao invés de mim, para dar uma variada.
— Falando nele, ele está te procurando. — disse ainda sorrindo.
— Eu peguei as fichas com ele agora pouco. — disse Valentin com a boca cheia. — Ele queria que eu pagasse cinco conto por ficha e eu estou duro.
Depois de comer ele disse dando um tapa na barriga:
— Vivi, já vou indo. Tem uma barraca de pontaria perto da entrada e eu acho que vou lá tentar ganhar algum brinde.
Depois disso as coisas ficaram um pouco mais tensas, pelo jeito a fama do hambúrguer caseiro estava espalhando porque a quantidade dos clientes começou a aumentar exponencialmente, o que era bom e ao mesmo tempo estressante. Mesmo com muitos clientes Kentaro estava dando conta da chapa com maestria e até fazia alguns gracejos para impressionar as crianças, tais como jogar o hambúrguer para cima e fazer ele cair no pão.
No meio da multidão eu vi outro rosto conhecido:
— Ah não — disse fingindo estar irritada. — Eu me recuso a atender você.
Kentaro se virou para ver o que estava acontecendo.
— Me recuso a atender irmãos que abandonam suas irmãs — disse fazendo bico.
— Do que você está falando, para mim você sempre foi e sempre será a minha irmã favorita. — disse Vincent meu outro irmão ao lado de sua namorada.
— Fácil falar, eu sou sua única irmã. — disse erguendo as sobrancelhas de forma exagerada. — Está bem, eu abro uma exceção, mas só desta vez.
Eu os atendi, mas como tinha outros clientes só tive tempo de cumprimentá-los com um abraço.
— Quantos irmãos você tem? — disse Kentaro impressionado.
— Esse foi o último, eu acho. — completei brincando enquanto fazia mais um suco de laranja.
Por volta das quatro horas a clientela tinha reduzido consideravelmente e já era possível respirar. Os hambúrgueres estavam acabando então decidi guardar um para mim e escondi ele acima do freezer, junto com uma garrafa de refrigerante.
— Como você faz isso? — disse enquanto Kentaro finalizava mais um lanche com uma eficiência que daria inveja nos criadores do McDonalds.
— Quer tentar? — disse Kentaro me oferecendo a espátula.
Eu tentei uma, duas e três vezes seguidas, mas todas foram mal sucedidas.
— Deixe que eu te ensino.
Kentaro pegou minha mão com cuidado e de trás de mim começou a me guiar como um fantoche. Na primeira tentativa eu errei feio, porque o toque de Kentaro me fez enrijecer que nem durepoxi, na segunda eu quase atingi o alvo, quando eu me preparava para terceira tentativa alguém disse:
— O segredo está no movimento do punho, bebê.
Ao ouvir essa voz eu acabei lançando o hambúrguer para o alto com tamanha força que se não houvesse um teto na barraca ele teria se tornado o primeiro hambúrguer astronauta da história.
— Pai?
Ao me virar, chocada, me deparei com ninguém menos do que meu pai e minha mãe, Thomas e Barbara Mitchell. No rosto dele havia um enorme sorriso e minha mãe me encarava com um olhar de quem sabe o que está acontecendo por trás dos panos.
Kentaro se virou com tanta pressa que acabou deixando a espátula cair no chão, depois de pegá-la ele ficou pedindo desculpas e fazendo várias reverências.
— Pai, mãe, vocês vieram — disse fingindo que eles não tinham visto o que eu estava fazendo segundos antes. — O que vão querer.
Kentaro saiu para lavar a espátula e continuava fazendo as estupidas reverências a distância.
— Qual que é o mais barato? — perguntou meu pai contando as fichas na mão.
Minha mãe deu uma cotovelada nele.
— Tá bom, me vê dois hambúrgueres e um refrigerante para mim e um suco para sua mãe.
Kentaro voltou e fez os lanches, enquanto eu fazia o suco.
— E como estão as coisas? — disse minha mãe enquanto eu entregava o lanche ao meu pai.
— Uma maravilha graças a Deus.
— É eu vi com meus próprios olhos o quão bem as coisas estão indo. — disse meu pai, com a boca cheia e minha mãe lhe deu outra cotovelada, fazendo um pedaço de bacon cair no chão. — Hey!
Quando terminou Kentaro ficou encarando meus pais a distância, principalmente minha mãe, ele a observava como se ela fosse uma divindade, a boca semi aberta como um verdadeiro bocó.
Minha mãe era muito parecida comigo, exceto na cor dos olhos, que eram castanhos, os olhos verdes eu puxei do meu pai.
A gente conversou um pouco enquanto eu atendia outros clientes e alguns minutos depois deles terem ido embora eu e Kentaro fechamos a barraca para comer alguma coisa. Todos os hambúrgueres tinham sido vendidos e para o turno da noite só iria haver cachorro quente. A barraca era de cachorro quente, mas quase ninguém tinha pedido cachorro quente.
Kentaro foi se trocar primeiro, e quando ele voltou foi a minha vez. Ao retornar a barraca Kentaro estava sentado em um banco na parte de trás comendo um lanche e tomando um refrigerante. Eu fui até o freezer e percebi que alguém tinha pego meu hambúrguer e meu refrigerante!
— Kentaro — disse indo até ele e cruzando os braços. — Esse lanche era meu!
Ele se voltou para mim como se tivesse tomado um choque.
— Me desculpe... Eu não tinha comido nada e eu achei...
Antes que ele começasse com as reverências eu disse:
— Não precisa se desculpar, acho que desta vez a culpa foi minha por não ter avisado. — e me sentei ao lado dele. — Mas eu vou querer metade... E do refrigerante também.
— Mas eu coloquei a boca. — disse Kentaro enquanto eu pegava a garrafa de vidro.
— E qual o problema? — disse depois de dar uma golada e devolver a garrafa para ele.
Para minha alegria ele ficou corado que nem um pimentão robótico.
— Me passe o lanche. — disse e depois de dar uma mordida generosa devolvi para ele.
Eu estava com tanta fome que nem liguei para o fato daquilo ser um beijo indireto.
— Hmmmmm — disse após dar uma segunda mordida. — Este é um hambúrguer bem saboroso. Você se importa de me dar um pouco da sua bebida deliciosa para me ajudar a limpar a garganta?
— Pulp Fiction? — disse Kentaro me olhando de lado, cobrindo a boca cheia com a mão.
— Estou passando tempo demais com você — disse sem tirar os olhos dele. — Você é o único que entende minhas referências. Hmmm, mas falando sério essa massa é muito gostosa ela é de que?
— É uma receita de família — disse Kentaro mordendo o lanche.
Nesse ponto eu comecei a ficar corada, porque eu percebi que Kentaro estava mordendo sempre em cima dos lugares onde eu mordia e estava fazendo isso de propósito!
— A carne também está bem saborosa. — disse desviando o olhar. — Deve ser uma receita de família, passada de geração em geração segundo a tradição dos samurais.
— Não — disse Kentaro rindo após beber o refrigerante. — A receita do hambúrguer eu pesquisei na internet mesmo.
A gente ficou em silêncio por um tempo. O lanche parecia ser infinito e a cada mordida de Kentaro eu ficava um pouco mais corada. Eu acho que Kentaro estava dando mordidas pequenas só para me matar de vergonha.
— Porque cancelaram o baile de Halloween? — perguntou Kentaro quebrando o silêncio.
— Só dá para fazer um evento grande por semestre. — disse. — Pelo menos foi o que me disseram.
— E não vão fazer nada no lugar?
— E o que daria para fazer que não custe dinheiro?
— Não sei — disse Kentaro pensativo. — Talvez uma noite de cinema de terror ou algo do tipo. O dia das Bruxas é meu feriado favorito, seria uma pena se não fizéssemos nada.
— Não é uma ideia ruim. — disse e após um novo silêncio disse mudando de assunto. — Você não tem irmãos?
— Não, sou filho único. — disse Kentaro suavemente acanhado.
— Seus pais não vão aparecer na feira? — disse sem saber ao certo porque estava fazendo essas perguntas impertinentes, talvez em parte porque ele me parecia meio solitário.
— Infelizmente eles estão ocupados.
Eu sabia que a verdade é que androides não tem pais, eles são criados por cientistas malucos, mas guardei minha teoria para mim mesmo.
— Você vai embora depois que a Giovana e o Charles chegarem? — perguntei coçando um pé com a ponta do outro.
— Acho que sim, por que? — disse Kentaro me encarando atentamente.
— Por nada, é só que um evento desse não acontece sempre... — eu não estava conseguindo encontrar a coragem para fazer a pergunta.
— Vivien você quer explorar a feira comigo? — perguntou ele por mim, ainda assim não consegui olhar para ele, o chão parecia ser um lugar muito interessante no momento.
— Pode ser. — disse com minhas bochechas queimando, sentindo que minhas palavras tinham ido para o mesmo lugar que minha coragem.
Depois de alguns segundos de silêncio eu disse completamente vermelha:
— Está quente aqui, não é?
Fale com o autor