Meu Colega de Sala é um Androide
9 09 – Super Proteção
— Existem vários tipos de beleza, mas nenhuma delas combina com esse poster. Mas essa é só a minha opinião.
— Tente não falar algo estúpido toda vez que abre a boca, Luke, acaba com a ilusão de que você tem um cérebro.
Esse é só um dos exemplos da troca de farpas entre Kentaro e Luke DeYoung durante uma das reuniões do grêmio. E eu estava A-MAN-DO!
Os gêmeos DeYoung eram lindos, charmosos e marcantes. Por fora eles eram idênticos, por dentro eles eram diferentes que nem Yin e Yang. Edson o primogênito, por quinze minutos, era altruísta e solidário, era uma das pessoas mais legais no mundo, ao contrário de seu irmão que era uma pessoa completamente egocêntrica. O único defeito de Edson era que ele não participava de nada no qual seu irmão caçula não pudesse estar envolvido, incluindo a chapa do grêmio.
Hoje era o último de uma série de dias tediosos participando de incontáveis reuniões, discutindo toda sorte de minuciosos detalhes burocráticos sobre a feira. O que já era esperado de um evento que contaria com a participação de centenas senão milhares de pessoas. Tudo isso seria insuportável se não fosse pelos breves momentos onde Kentaro e Luke combatiam com palavras, esses momentos eram como água gelada no meio do deserto árido do tédio.
Para mim era refrescante ver Kentaro odiar outra pessoa além de mim e eu lhe concedia pontos extras por essa pessoa ser meu ex. Era como assistir um filme como Alien vs Predador, onde os dois monstros querem te destruir por motivos diferentes, mas não podem evitar de matar um ao outro. Tenho que admitir nesses momentos Kentaro parecia um anjo enviado do céu, porque as pessoas geralmente não tinham coragem ou paciência de responder Luke por causa de sua posição como um dos garotos mais populares da escola.
Quando a reunião acabou era quase cinco horas da tarde, mas quando me encontrei na saída da diretoria parecia que já era noite. O céu estava com nuvens tão carregadas que a questão não era se iria chover, mas quando iria chover.
Eu abri a minha mochila e percebi que tinha esquecido minha capa de chuva. Droga, pensei, eu tinha feito meu cabelo naquela semana, se pegasse essa chuva iria estragar todo ele.
Nesse momento eu olhei para dentro da escola, para ver se tinha um lugar onde eu pudesse esperar caso começasse a chover, Kentaro vinha se aproximando da saída como se fosse Arnold Schwarzenegger no Exterminador do Futuro 2 indo ao encontro da Sarah Connor, a única diferença é que ao invés de uma shotgun ele carregava um guarda-chuva.
Pensei em me esconder, mas sua aparição foi tão repentina que não tive tempo.
Ele parou ao meu lado e observou o céu carregado com seu olhar penetrante, depois de alguns segundos ele virou o rosto para mim:
— Precisa de ajuda para chegar em casa? — disse apontando para o guarda-chuva.
— Eu acho que dá para eu chegar em casa antes da chuva. — disse fingindo estar otimista.
— Eu não contaria com isso — disse Kentaro com um suave sorriso. — A chuva vai começar em três, dois, um...
Um raio rasgou o céu, seguido pelo trovão que fez as janelas e o chão tremerem.
— Haha você errou...
Antes que eu pudesse terminar a frase direito o céu começou a desabar. Era tanta água que por alguns instantes eu me perguntei se não tinha acabado de começar o Dilúvio 2.0.
— Como você fez isso? — perguntei fingindo que não sabia que androides sabem prever o clima.
— Experiência. — disse Kentaro olhando para trás. — Quer que eu te acompanhe até em casa?
— Não sei — disse receosa. — Detesto guarda-chuvas, com eles você se molha mais do que fica seco.
— Pelo menos não vai molhar o cabelo. — disse ele racionalmente.
— Está bem — disse depois de encarar a chuva por alguns segundos e perceber que ela realmente não ia amenizar tão cedo. — Mas...
Kentaro me puxou para trás de um pilar. Mila, Edson e Luke se aproximaram sem ver a gente. Os três estavam vestindo capas e entraram na chuva sem pensar duas vezes. Luke ficava fazendo gracinhas deixando Mila irritada.
Assim que eles desapareceram de vista Kentaro se ajeitou dizendo:
— Não sei o que as pessoas veem nesse cara. — disse Kentaro demonstrando uma rara irritação.
— Rico, bonito e popular, puxa não consigo ver porque alguém iria gostar dele? — disse encarando Kentaro com uma careta irônica. — E ao contrário do que você disse na reunião Luke DeYoung tem um cérebro, o que lhe falta é um manual de como usá-lo. Acredite em mim porque eu já namorei ele.
— Poderia repetir por favor — disse Kentaro pegando o guarda-chuva. — Vejo seus lábios se moverem, mas tudo o que consegui entender foi "bananas?"
— Cuidado para onde aponta essa coisa. — disse me desviando enquanto ele abria o guarda-chuva, ajeitando minha mochila perguntei: — Vamos?
— Me mostre o caminho.
Dizer que havia dois adolescentes debaixo de um guarda-chuva voltando para casa lentamente cria uma imagem bem romântica, não acha? Deixe-me acabar com essa ilusão.
Imagine que um desses adolescentes era na verdade um androide, que tinha por objetivo eliminar a outra pessoa. E que o que estava caindo não era uma chuva, mas sim uma tempestade. Adicione uma dose extra de ventos fortíssimos que faziam a água cair do céu de lado, obrigando o casal a desbravar o caminho a frente com o guarda-chuva inclinado. Adicione raios, trovões e relâmpagos a gosto. Misture tudo e o resultado era a cena menos romântica do século.
Avançar era como escalar o Everest. E as gotas eram tão geladas que era um milagre elas não estarem caindo em formato de cubo.
Kentaro estava sendo o mais cuidadoso possível, tentando me proteger ao máximo ele me oferecia a prioridade da sombra do guarda-chuva. Devo confessar que as vezes eu me afastava um pouco dele com a intensão de molhá-lo, só para testar se seus circuitos eram à prova d’água.
Em algum ponto no caminho, Kentaro disse quase gritando na chuva forte:
— Você tinha dito que namorou Luke, certo? Como que isso aconteceu?
Ele parecia realmente chocado com essa notícia, por isso decidi contar para ele a verdade, você sabe, para que ele não achasse que “eu” tinha tomado um fora.
— Edson foi a primeira pessoa que conheci nessa escola, através dele eu conheci Mila e através dela eu entrei para o Clube de Teatro. Ela então decidiu fazer uma adaptação da peça do Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão, já ouviu falar?
— Já ouvi falar da continuação “Realidade de Uma Tarde Chuvosa de Inverno” — disse Kentaro tentando fazer piada com a nossa situação, quando ele percebeu que eu estava séria ele prosseguiu: — A peça com o cara com cabeça de Jumento?
— Sim, esse personagem é o Nick Bottom.
— Por acaso Luke interpretou esse personagem? — disse Kentaro não conseguindo se segurar.
— Não — disse me aproximando de Kentaro um pouco mais, para que ele pudesse me ouvir, colocando em teste a lei de Newton de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. — Continuando... Nessa peça eu interpretei Titânia, a rainha das fadas e Luke interpretou Oberon, o rei das fadas, durante os ensaios ele impressionava todo mundo com sua atuação, com o fim da peça a gente começou a namorar. O relacionamento durou dois meses, foi quando eu percebi que na verdade ele não estava atuando bem, ele era babaca igual o Oberon. O relacionamento não era platônico, era plutônico, ou seja, radioativo, por causa disso eu decidi terminar antes que se tornasse algo sério. Desde então perdi a vontade de namorar...
— Mais um motivo para odiar esse mané.
— O que? — perguntei me aproximando do rosto dele.
— Nada.
Nesse ponto a chuva ficou um pouco mais fraca, mas os ventos e os raios se intensificaram. Enquanto atravessávamos uma rua o vento nos pegou tão desprevenidos que acabou quebrando o guarda-chuva.
Kentaro ficou parado como um idiota olhando para o guarda-chuva que agora parecia mais uma flor gigante. A cena seria hilária se não fosse pelos raios.
— Minha casa fica aqui perto — disse começando a correr. — Vamos!
A gente correu até o portão da minha casa. Quando entramos, eu percebi que não cheguei a me molhar muito, Kentaro por outro lado estava pingando da cabeça aos pés, nesse momento ele devia ser noventa por cento água.
Na garagem a gente foi recebido por latidos.
— Esse é o Rush — disse tentando chegar na porta o mais rápido possível. — Ele é o cachorro do meu irmão, ele é um...
— Beagle. — disse Kentaro sorrindo tentando acariciar o cachorro. — Ele morde?
— Pelo menos não enquanto ladra. — disse passando pela porta. — Não o deixe entrar, minha mãe fica furiosa. Você parece gostar de animais quantos cachorros você tem?
— No momento nenhum — disse Kentaro enquanto coçava a barriga de Rush. — Meu pai é alérgico a quase tudo que respira, e minha família nunca foi muito boa com animais de estimação, para você ter uma ideia eu só tive três, um cachorro chamado Cachorro, um gato chamado Gato e um porquinho da Índia chamado Roberto.
Kentaro parecia ser alguém inteligente, mas nenhuma dessa inteligência era empregada na hora de dar nome para as suas mascotes.
— Eu sempre quis um gato, mas deixa para lá... — disse.
No pórtico da casa Kentaro fez uma reverência e disse:
— Com licença.
— Não precisa fazer isso gênio, não tem ninguém em casa, deixe o tênis aqui.
— Acho que é melhor eu ir para casa. — disse Kentaro coçando a cabeça.
— E pegar a chuva com isso? — disse apontando para aquilo que um dia tinha sido um guarda-chuva e agora parecia uma peça que poderia ser colocada em um museu de arte moderna. — Espere pelo menos a chuva passar.
Kentaro retirou o tênis engolindo em seco.
— Venha — disse fazendo um sinal com a mão. — Vou te mostrar meu quarto.
Gostaria de fazer uma pausa para explicar minhas atitudes nas cenas a seguir. Primeiro Kentaro tinha passado muitas horas comigo durante as últimas semanas porque ele era meu auxiliar, naquele ponto estava começando a pensar nele mais como um R2D2 ou um C3PO do que num T-1000 ou Mr. X. Segundo eu não queria ficar sozinha em casa. Terceiro eu me sentia um pouquinho culpada de Kentaro estar todo molhado. E por último a reunião tinha sido muito chata, por isso eu estava muito entediada, e eu me torno perigosa quando estou entediada. Por isso não me julguem.
Em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu estava levando um garoto para o meu quarto.
— Esse é o meu quarto. — disse ligando a luz. — Não repara nos posters, eles são do meu irmão, ele não dorme mais aqui, mas não tive coragem nem paciência de tirar eles da parede.
Meu quarto é forrado de posters, quadrinhos, livros, DVDs e Action Figures. Os temas incluem ficção cientifica vintage, espada e feitiçaria, ficção planetária, terror cósmico e coisas do tipo. A única coisa que não se encaixava nesse tema era a minha escrivaninha onde ficava meu notebook e alguns retratos.
— Puxa — disse Kentaro impressionado. — Você é uma ner...
— Não ouse usar a palavra que começa com N nessa casa. — disse lhe dando o meu olhar mais ameaçador. — Muito menos no meu quarto.
Sem graça ele começou a observar as fotos sobre a escrivaninha.
— Essa é você vestida de Dejah Thoris? — disse Kentaro rindo ao me ver em um retrato com cerca de dez anos, participando da minha primeira convenção de ficção cientifica.
— Você sabe quem é Dejah Thoris? — perguntei cruzando os braços. — Mas não sabe quem é Conan?
— Agora eu sei quem é Conan. — disse Kentaro olhando ao redor.
— Desde quando?
— Andei pesquisando ultimamente... — respondeu Kentaro distraído, de repente ele apontou para os livros ao lado do notebook. — Jane Austen, Homero, Dumas, você está lendo os livros que eu mencionei para Giovana.
Eu comecei a me explicar e Kentaro começou a dar risada quando foi tomado por uma crise de espirros.
— Você está ensopado. — disse tocando no ombro dele.
Nesse momento pensamentos intrusivos tomaram minha mente. Dos mesmos criadores de "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" eu apresento "Androides Ficam Gripados?", e esse pensamento idiota me fez dar risada.
— Acho que é melhor você tomar um banho. — disse do nada, passando a mão no pescoço.
— O que? Eu n...
— Tire a roupa. — disse estalando os dedos.
— O QUE? — Kentaro com a voz tão aguda que quase quebrou o vidro da janela, vários tons de vermelho tomando seu rosto.
— Suas roupas estão molhadas — disse. — Se continuar usando-as você vai ficar gripado. Tire a camiseta e a calça e vá tomar um banho, enquanto isso eu as ponho para secar na secadora.
Para mim, que sou uma completa idiota não havia nada de errado com minha sugestão, além do mais a cara de Kentaro estava tão engraçada que me fazia querer dizer coisas só para ver como ele reagiria.
Kentaro tentou reclamar, mas lhe obriguei a fazer o que eu tinha sugerido. Ele entrou no banheiro e me entregou a calça e a camiseta com a porta quase fechada.
Eu fui para a lavanderia secar a roupa, nesse ponto a chuva tinha enfraquecido.
De repente eu ouvi um grito vindo do banheiro. Eu corri para ver o que tinha acontecido. Estava com medo de um raio ter caído e queimado Kentaro no chuveiro, mas a verdade era algo pior, muito pior.
Na frente do banheiro estava meu irmão Victor de costas para a porta.
— Vivien — disse ele com os olhos arregalados. — Por que tem um menino pelado no nosso banheiro?
Naquele ponto o meu super poder ultrapassou o tédio e voltou a agir: "Super vergonha ao ataque!"
Nos minutos seguintes eu expliquei o melhor que pude ao meu irmão o que tinha acontecido. E dentro de alguns outros minutos Victor levou Kentaro até a casa dele de carro.
Até hoje eu penso no que teria acontecido se fosse meu pai que tivesse chegado em casa primeiro ou pior minha mãe, e só de pensar nas possibilidades minha super vergonha ataca.
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