— Iremos até o fim! Lutaremos nas salas. Lutaremos na piscina, lutaremos com confiança crescente e força crescente nos corredores, concertaremos nossa escola, qualquer que seja o custo. Lutaremos no estacionamento, lutaremos na cantina, lutaremos nas quadras, lutaremos nas arquibancadas. Nunca nos renderemos!

— Vivien Churchill, eu não quero ser um estraga prazer, mas a gente não está indo para a guerra — disse Kentaro pegando sua faixa vermelha e amarrando ela ao redor da testa. — Além do mais não tem como eu ajudar na piscina.

— E por que não? — disse irritada por ele ter interrompido meu discurso motivacional.

— Porque eu não sei nadar.

Ele terminou de amarrar a faixa e jogou as pontas dela para trás, ele disse para mim que fazia isso para imitar o Ryu do Street Fighter, mas para mim ele estava fazendo cosplay do Lambo, o primo japonês do Rambo.

Faltava um dia para a Feira de Aniversário e ninguém em toda a escola e seus arredores estava parado. Os últimos dias tinham sido um caos absoluto, mas agora as vésperas do grande evento, parecia que tudo sairia de acordo com o plano. Mas ainda havia bastante coisa a ser feita.

Eu e Kentaro fazíamos parte da Brigada dos Quebra-Galhos. A Brigada era formada por duplas, um menino e uma menina, que saiam pela escola em busca de ajudar aqueles que precisavam de uma mão extra para completarem suas tarefas. A dupla que ajudasse mais pessoas iria conquistar a primeira Fita Azul do evento, uma fita secreta e especial. E eu queria aquela Fita. Mas isso não era tudo, eu queria testar os limites da bateria de Kentaro, ou seja, era uma missão dupla.

Durante a semana a gente tinha feito de tudo, desde recortar bandeirinhas até montar barracas. Todo esse esforço tinha nos colocado na liderança, mas para mim ainda não era o suficiente. A dupla Luke/Antonio e Giovana/Charles estavam bem na nossa cola e a dupla Ivana/Japp não estava muito longe.

Por um tempo Luke e Antonio chegaram a empatar com a gente, mas foram punidos porque Antonio foi pego ajudando sem camiseta, o que me fez dar muita risada.

Era a primeira vez desde a chegada de Kentaro que ele estava do meu lado e devo admitir que com sua força e capacidade cibernética mais o meu cérebro e beleza nós éramos imbatíveis.

— Não quero desculpas Kentaro, quero resultados — disse enquanto pegava o celular do meu bolso. — Sabe o que mais eu quero?

— A Fita Azul. — disse Kentaro entediado.

— Não deixe meus sonhos serem sonhos. Ontem, você disse amanhã, então apenas faça!

— Vivien LaBeouf? — disse Kentaro se virando para mim surpreso. — Você já fez esse discurso ontem.

— Eu ia fazer o do Jordan Petterson, mas eu tive que arrumar meu quarto hoje de manhã e não tive tempo para decorar o discurso dele... — nesse momento meu celular recebeu uma mensagem. — Tem alguém chamando!

Geralmente nossa escola não permitia nem mesmo andar com celulares no terreno da escola, mas como era uma ocasião especial a diretora abriu uma exceção. Quem quer que precisasse de ajuda só precisava mandar uma mensagem no grupo da Brigada e quem se apresentasse primeiro pegava o serviço.

— Quem está chamando? — disse Kentaro tentando observar meu celular.

— Jamila no Laboratório.

— Acho melhor a gente recusar. — disse Kentaro fazendo um gesto negativo com as mãos.

— Nós não rejeitamos serviço soldado! — disse, me endireitando. — Aonde está a sua disposição?

— A última vez que a gente foi para o laboratório eu voltei para casa azul, Vivien. Azul.

— O que eu posso fazer, a cor azul combina com você. — disse segurando uma risada. — Fique longe dos tubos de ensaio dessa vez, por precaução. Avante eorlingas!

Kentaro não respondeu, mas me seguiu mesmo assim.

Quando chegamos no laboratório a equipe tinha mudado de objetivo desde o último desastre e tinham optado por transformar a sala em um restaurante de gastronomia molecular. Não sei se o plano iria dar certo, mas pelo menos ninguém iria sair azul de lá, eu acho. A única ajuda que eles precisaram foi trazer as mesas e as cadeiras para dentro, o que Kentaro se prontificou a fazer.

Logo em seguida nós dois fomos chamados para ajudar a colocar a faixa do evento acima da entrada da escola e Kentaro mostrou uma incrível habilidade escalando os andaimes, era como se ele fosse uma versão adolescente do Sonny do Eu, Robô.

Após isso o Professor Vlad chamou o máximo de ajudantes para construir mais barracas no estacionamento. Todas as duplas foram usadas nessa tarefa e mais uma porção de outros alunos o que não chegou a compensar muito em questão de pontuação. Quando terminamos Kentaro estava suado enquanto eu ainda estava seca, porque preferi ajudar apenas com a parte motivacional.

Mal tínhamos terminado com as barracas e o pessoal da piscina veio atrás da gente. Tentei explicar para eles que Kentaro não podia nadar, porque era um androide, o serviço, porém era carregar as canoas até perto da piscina, onde no dia seguinte iria ter uma competição. Assim nós partimos para mais essa missão. Na metade do serviço, eu sai para almoçar com minhas amigas, quando eu voltei Kentaro já tinha terminado o trabalho e almoçado, ele era um robô muito eficiente.

No turno da tarde, Justin Case na sala de informática nos chamou para ajudar instalando o programa de Bingo em cada um dos computadores para a competição do dia seguinte. O serviço foi bem lento por causa dos computadores pré-históricos, o lado positivo foi que deu tempo de fazer a digestão.

Em seguida nós fomos ajudar na cozinha, e pela primeira vez Kentaro começou a mostrar cansaço. Por isso eu decidi contribuir, ele lavava a louça e eu enxugava. Sabe nesse ponto eu percebi que a bateria de um androide não é muito melhor do que a de um celular, qual é a vantagem de ser um androide poderoso se tem que recarregar no fim do dia? Deixei essa questão para refletir antes de dormir aquela noite.

Era quase quatro horas da tarde quando o Clube de Pintura chamou a gente para ajudar a limpar os equipamentos que eles tinham usado, e devo dizer o que a Bianca Rosário tem de ótima artista ela tem em capacidade de sujar o lugar ao redor com tinta. A gente começou lavando os pincéis e os rolos e o cheiro de tinta era quase insuportável, mas pelo menos a gente estava mexendo com água.

Kentaro desligou a mangueira dele e com as mãos na têmpora disse:

— Vivien assuma o controle. — em seu rosto havia uma expressão de dor que eu nunca tinha visto.

— Por que? — disse desligando a minha mangueira.

— Minha cabeça está me matando. — disse Kentaro recostando na parede os olhos fechados. — Infelizmente eu sofro com esse mal desde pequeno.

A cabana com os equipamentos de pintura ficava um pouco afastada do resto da escola. Por isso eu peguei Kentaro pela mão e levei ele até um dos bancos que ficava ao lado.

— Sente aqui um pouco. — disse ajudando e me sentando ao lado dele.

Eu tinha escolhido aquele lugar não apenas porque estava afastado do barulho da escola, mas também porque estava protegido pela sombra da própria cabana. Um vento fresco estava batendo em nossos rostos. Eu tentei usar o celular para pedir ajuda, mas a bateria tinha acabado, deveria ter pensado duas vezes antes de ter jogado Angry Birds no almoço, mas agora era tarde demais para se arrepender.

A gente ficou ali por alguns minutos e Kentaro acabou pousando a cabeça no meu ombro. Eu devo admitir, estava me sentindo muito culpada, eu tinha passado o dia às custas do esforço de Kentaro e agora eu tinha quebrado ele, e pelo que eu saiba não existe devolução em androides assassinos com defeito depois que a garantia expira.

— Quer saber chega! — disse fazendo Kentaro acordar assustado.

— Desculpe — disse ele se endireitando e se afastando um pouco de mim.

— Coloque a cabeça no meu colo. — disse determinada.

— O que? — disse ele abrindo apenas um olho confuso.

— Se deite no banco e coloque a cabeça sobre as minhas coxas. — disse, não dava para ser mais especifica do que isso.

Ele continuou me encarando como um ciclope tentando entender qual era a piada.

— Vamos Kentaro, me obedeça — disse pegando a cabeça dele e deitando ela no meu colo. — E tire essa faixa da cabeça.

Ele se ajeitou em mim e quando eu vi que seu rosto não estava corado, como de costume, percebi que a dor devia ser séria.

Peguei minha garrafa de água que ainda estava gelada e derramei a água sobre a faixa vermelha em minha mão. Depois eu comecei a passar a faixa dobrada na testa de Kentaro com cuidado, como se fosse uma compressa. Ele soltou alguns gemidos de dor, mas não pediu para eu parar, por isso continuei.

Quando eu terminei deixei ele descansar, cheguei a passar a mão nos cabelos dele procurando por uma entrada USB para recarregar meu celular, mas não encontrei nenhuma.

O vento e o som abafado a distância acabaram me levando ao sono, e me recostei parte no banco e parte em Kentaro...

De repente eu acordei ouvindo passos de alguém se aproximando. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a diretora Natalie surgiu e eu dei um grito acordando Kentaro.

— Por que será que sempre que os encontro sozinhos, vocês sempre estão aprontando? — ela estava com uma mão na cintura. — Eu vim aqui para lhes entregar a Fita Azul e vocês estão aqui namorando...

— Nós não estávamos namorando — disse balançando a cabeça com tanta força que estava quase virando uma coruja, minha voz soando um pouco mais alto do que eu pretendia. — Kentaro está com dor de cabeça e...

Kentaro coçou os olhos aparentemente incomodado por ter sido acordado. Nele não havia nenhum traço de medo da diretora, era como se ele estivesse em um outro mundo.

— Isso eu consigo perceber — disse a diretora. — Mas por que você está parada ao invés de terminar o serviço?

— Vou fazer isso agora mesmo diretora! — disse me levantando e fazendo uma continência.

— Aqui, pode ser que isso te estimule — disse ela prendendo uma Fita Azul no meu peito e a outra no peito de Kentaro. — Se estiver passando mal, vá para a enfermaria Kentaro.

— Obrigado diretora. — disse Kentaro se deitando no banco novamente sem parecer ter entendido o que a diretora tinha dito.

Eu corri para a mangueira e voltei para o meu trabalho, sem saber se me sentia orgulhosa ou com vergonha.

Conforme a diretora se afastava eu juro que vi um sorriso em seu rosto enquanto ela dizia baixinho consigo mesma:

— Esses jovens... Tão fofos.