Meu Adorável Hóspede
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Sentindo o perfume amadeirado mesclado a leve fragrância de menta entrar por suas narinas lhe proporcionando bem estar, Felicity abriu levemente os olhos e os fechou. Sua vontade era continuar emaranhada aos lençóis e voltar a dormir, a sensação de estar flutuando a deixando languida. Abrindo novamente os olhos, ela varreu o local com os mesmos tentando se localizar, a sua frente um armário com livros foi o suficiente para se situar, estava agora no que se tornara o quarto de Tommy. Memórias da noite anterior a fazendo recordar quando ele lhe ofereceu a cama dizendo que tudo bem ele dormir mais uma noite no sofá, agradecida ela se jogou no móvel e apagou imediatamente. Sem sonhos eróticos dessa vez.
Agradecendo mentalmente por isso, ela saiu do quarto a fim de fazer sua higiene matinal e se preparar para mais um dia de trabalho. Apesar de ser um sábado, Oliver havia sido categórico ao intima-la a comparecer a QC com a desculpa de que o prazo para a entrega do projeto para os novos chipsets estava chegando ao fim e ele precisa termina-lo para solidificar a parceria com a Daily Consolidated.
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Ainda sonolenta e com a cabeça latejante, algo parecido como mil britadeiras zunindo em seus ouvidos, Thea caminhava pelo apartamento desconhecido. Seguindo o som de algo como uma colher batendo em um prato — ou seria panela? Ela ainda não conseguira distinguir — atravessou a pequena sala e adentrou na cozinha parando ao reconhecer Tommy, em calça de moletom preta e camisa cinza, mexendo em uma panela à frente do fogão. Apagando o fogo, ele virou com a panela em mãos, um mero sorriso surgiu em sua face ao vê-la, desmanchando-o em seguida ao notar as olheiras da morena, ela estava literalmente com a cara amassada e os cabelos ainda bagunçados denunciando a ressaca.
Deixando a panela no balcão, ele seguiu até a cafeteira e serviu uma generosa xícara para ela. Aceitando sem questionar ela sentou-se e sorveu o líquido fazendo uma careta de desagrado em seguida.
— Argh. Sem açúcar.
— Vai curar a ressaca.
Acenando com a cabeça ela continuou a sorver o café, a cada gole uma nova careta. Ao perceber que ela havia acabado ele decidiu que era a hora de questiona-la sobre os acontecimentos da noite anterior.
— O que foi aquilo que aconteceu ontem? -
A expressão de desagrado e reprovação a fazendo encolher-se no banco. Baixando a cabeça ela desenhava círculos imaginários no balcão.
— Só pensei em me divertir um pouco. — fingindo indiferença ela levantou a cabeça e ajeitou a postura, audaz.
Incrédulo, Tommy abriu e fechou a boca, as mãos em punhos ele tentou controlar a raiva.
— Se divertir. — falou devagar como se para ter certeza que ouvira certo — Então beber e se esfregar em caras desconhecidos feito uma vadia é se divertir? — desequilibrando-se do banco e ficando em pé Thea recuou, o coração apertando pelas palavras ditas, a deixando magoada e irritada.
Chocado com a própria reação ele abriu as mãos, não era como se ele tivesse alguma responsabilidade sobre ela. Mas Inferno. Ela era apenas uma menina. Irmã do seu melhor amigo, ainda que estivessem um pouco afastados. A conhecia desde que era um bebê, é claro que ele se importava, é claro que ele cuidaria dela e ele queria muito que ela soubesse o quanto se importava, que ela era importante, e não, ela não estava sozinha no mundo. Tem uma mãe, um irmão e amigos que se importam, que sentiriam a dor se algo acontecesse a ela.
— Quem é você para falar assim comigo porra. — ela gritou, piscando várias vezes, lágrimas se formando em seus olhos que ardiam já.
— Eu sou o filho da puta que salvou a porra da sua bunda ontem. — socou o balcão com força, sem se importar com a dor do ato, estava irritado.
— Você quer um obrigado? Pois eu agradeço Merlyn, mas não se meta mais em meus negócios. — ela gritou de volta.
— Seus negócios. — riu seco, sem humor, desdenhando das palavras dela.
— Vai se foder seu merda. — as palavras saindo sem controle e ela queria socar-lo furiosamente — Você não pode falar assim comigo, eu sou apenas uma vadia que infelizmente é irmã do seu amigo. — o tom de voz mais brando, ela olhou para um canto qualquer.
— Caralho Thea. — deu a volta ao balcão e aproximou-se dela — Se... Se algo acontece com você... Você não vê o quão em risco você se põe — a abraçou recebendo resistência — me sinto no direito de falar assim sim, porque eu... — a apertou em seus braços — eu me importo.
Abraçando-o de volta, ela chorou. Ele nunca a havia tratado dessa forma, nunca tão duro, áspero e apesar das palavras ele a confortou e ela sentiu-se segura, como em muito tempo não sentia. Antes da suposta morte de Oliver era ele quem cuidava dela, quem brigava e depois a confortava. Ele fazia seu papel de irmão. Depois ele voltou e foi diferente, ela não recebera seu irmão de volta, apenas uma casca, não era mais o seu Ollie. Ela raramente o via e na maioria das vezes ele era ríspido, as vezes, só as vezes ela sentia que o tinha de volta, mas aí ele se afastava de novo e tudo o que ela podia fazer era esperar por um mísero momento em que ele voltava a ser o seu irmão.
— Desculpe. — Tommy soprou as palavras pesadamente. Sentindo-a molhar sua camisa ele deu-se conta que algo estava errado. Ele já foi assim um dia, inconsequente, problemático e havia uma razão, sempre há uma razão.
Afundando mais a cabeça em seu peito, ela fechou os olhos e acenou afirmativamente. Um silêncio confortável se instalou no ambiente.
— Desculpe por tá dando trabalho. — ela quebrou o silêncio após alguns minutos.
Afastando-se, mas sem quebrar o contato, ele a avaliou, seus olhos sinceros o desarmando por completo. Deu um beijo em sua têmpora e voltou para trás do balcão.
— Está com fome? — mudando de assunto radicalmente ele desejava apagar a tristeza do rosto dela.
— Nãaa. — ela negou com uma nova careta — Não sei se meu estômago aceitaria qualquer coisa no momento.
— Certo. — indo até a geladeira ele pegou uma jarra com água e encheu um copo entregando-o a ela — Para hidratar.
Voltando ao preparo do café da manhã ele torceu mentalmente para que não tivessem acordado Felicity com a pequena discussão.
Olhando tudo ao redor Thea achou estranho que ele acostumado com o muito estivesse morando em um lugar que apesar de bem organizado, cuidado e bonito era pequeno e simples.
— É bonito seu novo apartamento, pequeno, mas aconchegante. — ela analisava cada canto do cômodo.
— Na verdade não é meu. — ele terminou com as torradas e voltou-se para ela.
Surpresa ela quis saber mais — E de quem é?
— É meu. — entrando no campo de visão da morena Felicity sorria timidamente.
— Senhorita Smoak? — olhando Felicity com interesse ela quis ter certeza de quem se tratava. Já a vira antes na QC, tinha quase certeza se tratar da assistente de Oliver.
— É um prazer novamente senhorita Queen. — Felicity a cumprimentou.
Aceitando o cumprimento ela se deu conta de uma coisa, se o apartamento é de Felicity, o que Tommy estava fazendo ali, tão a vontade? Franzindo o cenho ela se voltou ao amigo.
— Você — apontou para ele — e você — apontou para ela — estão juntos? — antes que qualquer um respondesse ela deu um grito de perplexidade — O meu Deus, o meu Deus, o meu Deus — repetia a palavras nervosamente — E... Eu tentei te beijar — olhou para Tommy escandalizada — e ... — virou para Felicity — eu sinto muito, eu não sabia — com as bochechas coradas ela se desculpava — eu sinto muito, muito mesmo.
Se pondo a frente dela e penalizado pela súbita reação de desespero ele tentou acalma-la — Ei tá tudo bem — a segurou pelos dois ombros — você estava bêbada.
— Mas não o suficiente para não saber o que estava fazendo. — ela falou sem olhar para qualquer um dos dois. Tommy tentando faze-la parar de se remexer.
E de repente os dois pararam ao ouvirem uma risada. Era Felicity, rindo sem parar, o nervosismo tomando conta de si, limpando uma lágrima que caiu com o tanto que ela ria ela foi cessando o ataque de risos. Tanto Tommy quanto Thea confusos imaginando o por que ela tanto ria.
— Desculpem. É que, que foi hilária a cara que você fez, foi realmente engraçado, quer dizer não foi só sua cara, mas... — ela olhou para Tommy — O Tommy e eu, uau, essa foi demais garota. — Sem pensar ela jogou as palavras ao ar — Essa foi demais mesmo...
E de repente as palavras foram morrendo em sua boca. Algo diferente na expressão dele a fazendo ficar séria se arrependendo do que dissera, ela não sabia porque, mas desejava não ter dito aquelas palavras quando notou que ele parecia magoado.
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Após o repentino ataque de Felicity o clima ficou levemente tenso, sem que qualquer um dissesse mais nada Tommy foi deixar Thea em casa, nenhum dos dois entrou em detalhes sobre o momento em que estavam vivendo.
Tommy tinha algo mais em mente, a reação de Felicity que o desconcertou, foi como um balde de água fria, um soco no estômago e ele saiu machucado. Ele sabia que da parte dela não havia nenhum interesse, mas não imaginou que a simples menção aos dois em um relacionamento soasse como uma piada para ela, foi duro, foi esmagador. E ele se perguntava porque ele se importava tanto com a rejeição dela. Não queria admitir, mas Felicity Smoak ganhou mais que sua amizade, ganhou seu coração e sem que percebesse ela o quebrou também.
Ele não a culpava, ele sabia dos sentimentos dela por Oliver e por diversas vezes ele tentou ignorar o suor espontâneo, as mãos frias, a boca seca e o coração que acelerava toda vez que ela o tocava ou o olhava nos olhos, ele sabia que era um caminho perigoso a seguir e por isso ignorou de todas as formas possíveis. Mas agora, agora não dava mais pra negar, estava apaixonado. Apaixonado. Deu um riso amargo, o desconforto que esse sentimento trás consigo, tudo o que ele sempre quis evitar. E quem diria, Thomas Merlyn jogado ao abismo pela garota nerd do T.I.. Uma verdadeira discrepância comparado a quantidade de corações que ele já partiu. Talvez seja castigo por todas as outras! Ele tinha certeza que esse dia chegaria e chegou mais cedo que o esperado.
Não a vira mais naquele dia, ao chegar no apartamento encontrou apenas uma nota de que ela estaria trabalhando. Melhor assim. Não estava disposto a encara-la ainda. No dia seguinte estranhou quando já passava das duas da tarde e ainda não a encontrara, tinha quase certeza que ela não havia saído, aos domingos ela, assim como ele passava a manhã dormindo e a tarde eles se enchiam de "porcarias" e maratonavam algum seriado, já havia virado rotina e só a noite ela saia para encontrar Oliver e Diggle no porão da boate, preocupado ele seguiu para o quarto dela. Colocando parcialmente o corpo para dentro do cômodo ele a encontrou, em posição fetal, os olhos fechados e o semblante carregado, estava nítido que ela não se encontrava bem.
Aproximando-se de onde ela estava ele tocou seu rosto levemente, o suor escorria-lhe pela face e ela estava gelada.
— Felicity?
Abrindo os olhos ela encontrou o par azul preocupado.
— Hey. — ela falou baixo ao mesmo tempo que uma nova contração a fez retrair os músculos e contorcer-se na cama.
— Qual é o problema? — falou com cautela.
— Apenas coisas de mulher.
Ele sabia o que aquilo significava, não tinha tantas experiências com mulheres além do sexo, mas já ouvira falar em cólica e TPM.
— Você parece muito mal — abaixou-se ficando a altura dela — quer ir ao médico? — preocupou-se ainda mais quando novamente a viu se encolher no colchão.
— Não precisa — ela soprou as palavras com dificuldade — vai passar. — tentou tranquiliza-lo.
— Tem certeza? — Com um aceno de cabeça ela confirmou — Certo. Eu vou deixa-la descansar. — levantou-se e se encaminhou para a porta parando quando ela o chamou.
— Obrigada, obrigada por se preocupar.
Sem dizer nada ele saiu.
Pelo que pareceram horas Felicity continuou deitada, sentindo as contrações indo em vindo, amaldiçoou-se por não ter lembrado de abastecer seu estoque de remédios pré-menstrual. Tentou cochilar, mas tudo o que ela conseguia fazer era gemer e suar frio. Abriu os olhos quando a porta foi aberta e Tommy entrou novamente, tinha uma bandeja em mãos em uma xícara sobre a mesma.
— Comprei remédios — ele disse enquanto sentava na cama com a bandeja no colo — e isso aqui, apontou para a xícara — segundo o farmacêutico tem efeito calmante.
Sentando-se ela aceitou o comprimido branco e a xícara com chá. Após tomar todo o líquido junto ao remédio ela deitou-se novamente.
Tommy estava levantando quando ela segurou sua mão.
— E... Eu... — suspirando ela tentava encontrar as palavras certas.
— Não precisa agradecer. — ele sorriu docemente e levantou.
Se ajeitando na cama ela fechou os olhos. O silêncio confortável e ela ouviu quando ele saiu no quarto. Depois de alguns minutos quando estava quase dormindo, ela sentiu o colchão afundar atrás de si e uma mão levantando a blusa do pijama e em seguida algo quente pousar em sua barriga.
— Ele também disse que compressa de água quente ajuda. — a voz rouca e baixa em seu ouvido causando-lhe arrepios.
Usando o braço dele como apoio para sua cabeça, ela segurou o outro que repousava com a bolsa térmica sobre sua parte inferior. O remédio começando a fazer efeito e ela sentiu-se relaxar, maravilhando-se com o corpo dele sobre o seu.
Ouvindo a respiração dela abrandar Tommy ficou mais aliviado, ela não estava mais sentindo dor. Ao vê-la tão frágil e indefesa ele quis cuidar dela, fazer a dor passar esquecendo-se que ela partira seu coração. Afagando os fios loiros ele se deixou levar pelo cheiro de lavanda que ela emanava e acabou dormindo também.
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