Message in a bottle
27 Capítulo 26
Notas iniciais
No dia seguinte, a primeira coisa que Rachel fez foi levar o happenstance, onde ficou lá até o sol baixar. Embora Quinn tivesse deixado um recado para ela com a telefonista do hotel em Dallas, ela não tinha ligado na noite anterior, dizendo a si mesma que era tarde demais e a loira já estaria dormindo. Era mentira e ela sabia disso, mas simplesmente não sentia vontade de falar com a loira.
O fato era que ela não sentia vontade de falar com ninguém. Ainda estava irritada pelo que Quinn fizera, e o melhor lugar para pensar sobre tudo era em mar aberto, onde ninguém poderia incomodá-la.
Na maior parte da manhã, ficou se perguntando se a loira percebia o quanto a situação toda a deixara abalada. O mais provável era que não, do contrário não teria agido daquela forma.
Isto é, se Quinn gostasse mesmo dela.
À medida que o sol subia no céu, porém, a sua raiva começou a diminuir. Pensando com mais clareza, começou a achar que o pai tinha razão – como sempre. O motivo para Quinn não ter aparecido não tinha haver com ela, mas com as diferenças entre a rotina das duas. Quinn tinha mesmo responsabilidades que não podia ignorar, e enquanto continuassem a levar vidas separadas, esse tipo de coisa continuaria acontecendo.
Embora isso não a deixasse feliz, ela se perguntou se perguntou se todos os relacionamentos tinham momentos como aquele. Na verdade, não sabia. A única outra relação verdadeira que tivera fora com Catherine, e não era fácil comparar as duas. Para começar, ela e Catherine eram casadas e viviam sob o mesmo teto. Além disso, se conheciam desde sempre. E, sendo mais jovens, não tinham as mesmas responsabilidades com que Rachel e Quinn precisavam lidar agora. Recém-saídas da faculdade, não tinham casa própria, nem filhos para cuidar. Não, o que tinham era completamente diferente do que ela e Quinn estavam vivendo agora, e não era justo comparar os dois relacionamentos.
No entanto, havia uma coisa que ela não podia ignorar, algo que a perturbou durante toda a noite. Sim, ela sabia que havia diferenças, mas o que lhe chamava atenção era o fato de nunca ter questionado se ela e Catherine formavam um time. Nenhuma vez ela tivera dúvidas sobre o seu futuro com Catherine, ou lhe passara pela cabeça que uma das duas não fosse capaz de sacrificar tudo pela outra. Mesmo quando brigavam – sobre o local onde morar, sobre abrir ou não a loja, ou mesmo sobre o que fazer no sábado à noite – nunca acontecia de uma das duas duvidar do relacionamento. Havia algo permanente no modo como interagiam, algo que lembrava Rachel que sempre estariam juntas.
Quinn e ela, por outro lado, ainda não haviam chegado a esse ponto.
Quando o sol baixou, ela já tinha se dado conta de que não era justo pensar dessa forma. Ela e Quinn se conheciam havia pouco tempo – não realista esperar que aquele comprometimento surgisse tão cedo. Com o tempo e as circunstâncias corretas, elas iriam tornar-se parceiras também.
Não iriam?
Balançando a cabeça, ela percebeu que não tinha plena certeza disso. Não tinha certeza de uma série de coisas. Mas uma coisa ela sabia: nunca tinha analisado seu relacionamento com Catherine do modo como fazia agora com Quinn, e isso também não era justo. Além do mais, análises não a ajudariam. Nem toda a avaliação do mundo mudaria o fato de que não se viam tanto quanto desejavam – ou precisavam.
Não. O que precisavam agora era de ação.
##
Rachel ligou para Quinn assim que chegou em casa, à noite.
– Alô – atendeu, sonolenta. A morena falou baixinho:
– Oi, sou eu.
– Rachel?
– Desculpe acordá-la, mas você deixou algumas mensagens na minha secretária eletrônica.
– Que bom que ligou. Eu não sabia se você ia ligar.
– Por algum tempo eu não quis mesmo.
– Ainda está brava comigo?
– Não – retrucou ela. – Triste, talvez, mas não zangada.
– Por que não estou aí neste fim de semana?
– Não. Porque você não está aqui na maioria dos fins de semana.
##
Nessa noite Rachel voltou a sonhar. No sonho, Quinn e ela estavam em Boston, caminhando por uma das movimentadas ruas da cidade, apinhada de pessoas comuns – homens e mulheres, velhos e jovens, alguns de terno, outros com as roupas largas típicas da juventude de hoje. Por algum tempo ficaram olhando vitrines, como tinham feitos em uma das visitas da morena. O dia estava claro e ensolarado, sem uma só nuvem no céu, e Rachel estava gostando de passar aquelas horas com ela. Quinn parou junto à vitrine de uma lojinha de artesanato e perguntou se Rachel queria entrar. Ela balançou a cabeça e falou:
– Vá você. Vou esperar aqui fora.
Certificando-se de que a morena não queria mesmo acompanhá-la, Quinn entrou sozinha na loja. Rachel ficou do lado de fora, perto da porta, relaxando à sombra dos edifícios, quando viu pelo canto de olho algo familiar.
Era uma mulher caminhando pela calçada a certa distância dela, os cabelos louros na altura dos ombros.
A morena piscou e desviou o olhar por um momento, mas logo tornou a focar naquela direção. Algo no modo como ela se movia chamou atenção, e Rachel ficou observando-a se distanciar devagar. Finalmente a mulher parou e virou a cabeça, como se tivesse lembrado de alguma coisa. Rachel perdeu o fôlego.
Catherine.
Não podia ser.
Ela balançou a cabeça. A distância, não conseguia ter certeza se estava ou não.
A mulher começou a se afastar outra vez, no instante exato em que Rachel a chamou.
– Catherine... É você?
Ela parecia não ter ouvido a voz da morena acima do ruído da rua. Rachel olhou de relance por cima do ombro e viu Quinn dento da loja, analisando as mercadorias. Quando tornou a virar o rosto para rua, Catherine – ou quem quer que fosse – estava virando a esquina.
Ela saiu atrás dela, andando depressa, depois começou a correr. As calçadas ficavam mais lotadas a cada segundo, como se uma composição do metrô tivesse de repente aberto as portas, e ela prosseguiu desviando de grandes grupos de pessoas até chegar à esquina.
Entrou na rua onde a mulher tinha virado e percebeu que o ambiente ia ficando cada vez mais escuro e ameaçador. Apertou o passo de novo.
Embora não tivesse chovido, sentia que estava pisando em poças d´água. Parou por um instante para recuperar o fôlego, o coração martelando no peito.
Nesse momento, a neblina começou a cobrir a rua, quase como uma onda, e logo ela não enxergava mais do que um metro à frente.
– Catherine, você está aí? – gritou. – Onde você está?
Ouviu uma risada a distância, mas não conseguiu distinguir de onde vinha.
Recomeçou a andar bem devagar. Ouviu a risada de novo – infantil, feliz. Então tornou a ficar imóvel.
– Onde você está?
Silêncio.
Ela olhou de um lado para o outro.
Nada.
A neblina ficava cada vez mais espessa e uma chuva fraca começou a cair. Ela tornou a andar sem saber aonde estava indo.
Viu alguma coisa penetrar na névoa e seguiu depressa naquela direção.
Catherine estava se distanciando, apenas uns poucos passos à sua frente.
A chuva começou a cair com mais força, e de repente tudo parecia se mover em câmera lenta. Ela se pôs a correr... devagar... devagar... conseguia vê-la logo à frente... a neblina mais espessa a cada segundo... a chuva caindo a cântaros... uma visão de relance dos cabelos dela...
E então ela desapareceu. Rachel parou mais uma vez. A chuva e a neblina tornavam impossível enxergar.
– Onde você está? – gritou Rachel de novo.
Nada.
– Onde você está? – ainda mais alto.
– Estou aqui – disse uma voz vinda da chuva e da névoa.
A morena secou o rosto.
– Catherine, é mesmo você?
– Sou eu, Rachel.
Mas não era a voz dela.
Quinn saiu de dentro da névoa.
– Estou aqui.
Rachel acordou e se sentou na cama, suando em bicas. Enxugou o rosto no lençol e ficou acordada por um longo tempo.
##
Mais tarde no mesmo dia, Rachel encontrou-se com Leroy.
– Acho que quero me casar com ela, pai.
Estavam pescando juntos no píer, com mais uma dúzia de pessoas, a maioria aparentemente perdida nos próprios pensamentos.
Leroy ergueu o rosto, surpreso.
– Há dois dias parecia que você não queria ver Quinn de novo.
– Pensei muito desde então.
– Deve ter pensado mesmo – comentou o mais velho, baixinho.
Ele recolheu a linha, examinou a isca e tornou a lançá-la na água. Mesmo duvidando que conseguisse pescar algo digno de ser levado para casa, para ele a pescaria era um dos maiores prazeres da vida.
– Você ama essa moça? – perguntou.
Rachel encarou-o, surpresa.
– Claro que amo. Já disse isso a você algumas vezes. Leroy balançou a cabeça.
– Não disse, não. Conversamos muito sobre ela, você que ela a faz feliz, que parece que vocês já se conheciam e que não quer perdê-la, mas nunca me disse que a amava.
– É a mesma coisa.
– Será mesmo?
##
Depois que foi para casa, a conversa que tivera com o pai ficava se repetindo em sua mente.
Será mesmo?
– Claro que é – respondera ela de imediato. – E mesmo se não fosse, eu a amo mesmo.
Leroy encarou a filha por um instante, antes de finalmente desviar os olhos.
– Quer se casar com ela?
– Quero.
– Por quê?
– Porque a amo, só isso. Não é suficiente?
– Talvez. Rachel recolheu a linha frustrada.
– Não era você quem achava que devíamos nos casar? – perguntou.
– Era.
– Então por que está questionando isso agora?
– Porque quero ter certeza de que você está fazendo isso pelos motivos certos. Há dois dias você nem sabia se queria vê-la outra vez e agora está pronta para casar. Me parece uma reviravolta muito grande, e quero me certificar de que é pelo que você sente por ela, e que não tem nada haver com a Catherine.
Ouvir o nome dela deixou Rachel um pouco perturbada.
– Catherine não tem nada haver com isso – apressou-se a dizer. Balançando a cabeça, deu um suspiro profundo. – Sabe, pai, às vezes não consigo entendê-lo. Você passava o tempo todo me pressionando, dizendo que eu tinha que deixar o passado para trás, que precisava encontrar outra pessoa. E agora que fiz isso, parece que está tentando me convencer a desistir.
Leroy colocou a mão no ombro de Rachel.
– Não estou tentando convencê-la a desistir de nada, Rachel. Estou feliz por você ter encontrado Quinn, por vocês se amarem, e espero realmente que acabem se casando. Só disse que, se vai casar, é melhor fazer isso pelos motivos certos. O casamento é entre duas pessoas, não três. E não é justo com ela se você se casar pelas razões erradas.
Rachel levou um momento para retrucar:
– Pai, quero me casar porque amo Quinn. Quero passar a vida com ela.
Leroy ficou em silêncio por um longo tempo, observando-a. Então disse algo que fez a filha desviar os olhos:
– Então, em outras palavras, está afirmando que superou Catherine por completo?
Embora sentisse o peso do olhar de expectativa do pai, Rachel não sabia a resposta.
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