Notas iniciais
Oi! Bom, acho que esse é o capítulo mais esperado por alguns...ou não. Vem drama aí! Preparem-se Ah, eu não revisei. Qualquer coisa, vai ficar assim mesmo.

– Está cansada? – perguntou Rachel.

Ela estava deitada na cama, falando com Quinn, com apenas a luz do abajur da cabeceira acesa.

– É, acabei de chegar. Foi um fim de semana longo.

– Tudo correu como você imaginava?

– Espero que sim. Ainda não dá para saber, mas conheci muita gente que um dia pode me ajudar com minha coluna.

– Então foi bom você ter ido.

– Foi bom e ruim. Na maior parte do tempo fiquei achando que devia ter ido ver você.

A morena sorriu.

– Que dia você vai para a casa dos seus pais?

– Na quarta de manhã. Vou ficar até domingo.

– Eles estão ansiosos para ver você?

– Estão, sim. Não veem o Tommy há quase um ano, e sei que estão morrendo de vontade de tê-lo por perto por uns dias.

– Que bom.

Houve uma pausa breve.

– Rachel?

– Oi.

A loira falou em tom suave:

– Só quero que saiba que ainda lamento muito pelo fim de semana.

– Eu sei.

– Eu gostaria de fazer algo para compensá-la.

– o que tem em mente?

– Bom... Você pode vir no fim de semana depois do Dia de Ação de Graças?

– Acho que sim.

– Ótimo, porque vou planejar um fim de semana especial só para nós duas.

@@@@

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Foi um fim de semana que nenhuma das duas esqueceria.

Nas duas semanas que antecederam, Quinn ligou para Rachel com uma frequência maior do que a costumeira. Em geral, era a morena quem ligava, mas parecia que cada vez que sentia vontade de falar com a loira, Quinn adivinhava e telefonava. Em duas ocasiões, Rachel estava indo pegar o telefone a fim de ligar para Quinn quando ele começou a tocar. Na segunda vez em que isso aconteceu, Rachel atendeu dizendo simplesmente:

– Oi, Quinn.

Isso surpreendeu a loira e por algum tempo ficaram brincando sobre a capacidade paranormal de Rachel antes de engrenarem numa conversa relaxada.

Quando Rachel chegou a Boston duas semanas depois, Quinn foi buscá-la no aeroporto. Tinha lhe dito que vestisse um traje elegante, e a morena saiu do avião usando um vestido, algo que a loira nunca vira antes.

– Uau! Exclamou Quinn.

A morena ajeitou a alça do vestido, envergonhada.

– Estou bem?

– Está linda.

Saíram do aeroporto direto para jantar. Quinn tinha reservado uma mesa no restaurante mais elegante da cidade. Fizeram uma refeição tranquila e maravilhosa, e depois a loira a levou para assistir a Os Miseráveis que estava com temporada em Boston. O teatro estava lotado, mas Quinn conhecia o gerente e conseguiu os melhores lugares.

Chegaram em casa tarde, e para Rachel o dia seguinte pareceu igualmente corrido. Quinn levou-a à redação e apresentou-lhe algumas pessoas, depois passaram o resto da tarde visitando o Museu de Belas-Artes. À noite jantaram com Santana e Brittany no Anthony´s, um restaurante no último andar do Prudential Building, com uma vista deslumbrante de toda a cidade.

Rachel nunca tinha visto algo do tipo.

A mesa delas era perto da janela, e Santana e Brittany levantaram para recebê-las.

– Lembram-se de Rachel, não? – perguntou Quinn, tentando não parecer muito tola.

– Claro que lembramos. É um prazer revê-la, Rachel – disse Santana, inclinando-se pra um abraço curto e um beijo na face. – Me desculpe por ter forçado Quinn a ir comigo naquele fim de semana. Espero que você não tenha sido muito dura com ela.

– Sem problemas – retrucou ela, assentindo de maneira tensa.

– Ainda bem. Porque analisando em retrospecto, acho que valeu a pena ela ter ido.

Rachel encarou-a com curiosidade. Quinn inclinou-se e perguntou:

– Como assim, Santana?

Os olhos da latina brilharam.

– Recebi boas notícias ontem, depois que você saiu.

– O que foi? – quis saber Quinn.

– Bem... – começou Santana, em tom casual. – Conversei por uns vinte minutos com Dan Mandel, chefe da Information Inc., e ele ficou muito impressionado com você. Gostou muito da sua postura profissional. E o melhor de tudo...

Ela fez uma pausa teatral, tentando conter o sorriso.

– Sim? – perguntou a loira, ansiosa.

– A partir de janeiro, ele vai publicar a sua coluna em todos os jornais da empresa dele.

Quinn levou a mão à boca para abafar um gritinho, mas ainda assim várias pessoas das mesas vizinhas se viraram para olhar. Ela inclinou-se para Santana, falando de pressa, e Rachel deu um passo para trás.

– Está brincando! – exclamou a loira, incrédula.

Santana fez que não com a cabeça, sorrindo abertamente.

– Não. Estou lhe contando o que ele me disse. Quer conversar com você outra vez na terça. Tenho uma entrevista marcada para as dez horas.

– Tem certeza de tudo isso? Ele quer publicar a minha coluna?

– Certeza absoluta. Mandei um e-mail para ele com o seu currículo e alguns artigos, e ele me ligou. Quer publicá-la, disso não há dúvida. Já está resolvido.

– Mal posso acreditar!

– Pois acredite. Eu ouvi rumores de que outros também estão interessados.

– Ah... Santana...

Num impulso, Quinn abraçou a amiga, com um entusiasmo iluminando o seu rosto. Brittany cutucou Rachel com o cotovelo.

– Ótimas notícias, não?

Rachel levou um momento para responder.

– É...ótimas – disse finalmente.

@@@@@@@

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Depois que fizeram os pedidos, Santana pediu uma garrafa de champanhe e fez um brinde, parabenizando Quinn pelo futuro brilhante. As duas falaram sem parar durante o resto do jantar. Rachel ficou calada, sem saber o que dizer. Como se sentisse o seu desconforto, Brittany inclinou-se para ela.

– Parecem duas meninas, não é? Santana passou o dia desfilando pela casa, louca para contar para ela.

– Eu queria entender tudo isso um pouco melhor. Na verdade, não sei o que dizer.

Brittany tomou um gole da bebida, balançando a cabeça. Suas palavras saíram um pouco baixas:

– não se preocupe com isso. Mesmo que entendesse, provavelmente não ia conseguir falar nada. Elas tagarelam assim o tempo todo. Se eu acreditasse nessas coisas, juraria que em outra vida elas foram gêmeas.

Rachel olhou para Santana e Quinn do outro lado da mesa.

– Talvez tenha razão.

– Além do mais, você vai entender quando conviver com isso em tempo integral. Depois de algum tempo, vai acabar entendendo quase tão bem quanto elas. Eu, por exemplo, já me acostumei.

O comentário não passou despercebido a Rachel: Quando conviver com isso em tempo integral?

Como Rachel não respondeu, Brittany mudou de assunto:

– Então, quanto tempo vai ficar?

– Até amanhã à noite.

Brittany assentiu.

– É difícil vocês não se verem com frequência, não é?

– Ás vezes é.

– Posso imaginar. Sei que de vez em quando Quinn fica deprimida por isso.

Do outro lado da mesa, Quinn sorriu para Rachel.

– Do que vocês estão falando aí? – perguntou em tom alegre.

– de várias coisas – retrucou Brittany. – Principalmente sobre sua boa sorte.

Rachel assentiu com um gesto breve e Quinn observou- a ajeitar-se na cadeira. Era óbvio que a morena estava desconfortável. Apesar de ela não saber o por quê. Ficou pensando nisso.

@@@@@@@

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

– Você estava calada hoje – comentou Quinn.

Estavam de volta ao apartamento dela, sentadas no sofá, com o som tocando baixinho.

– Acho que não tinha muita coisa a dizer.

A loira pegou em sua mão e falou baixinho:

– Que bom que você estava comigo quando Santana me deu a notícia.

– Fico feliz por você, Quinn. Sei que isso significa muito.

Quinn deu um sorriso hesitante. Mudando de assunto, perguntou:

– Gostou de conversar com a Britt?

– É... É fácil de dar bem com ela. – Rachel fez uma pausa. – Mas não sou muito boa em grupo, sobretudo quando estou meio por fora do assunto. Eu só...

Ela parou de falar, sem saber se devia dizer mais alguma coisa, e resolveu não continuar.

– O quê?

A morena balançou a cabeça.

– Nada.

– Não, o que você ia dizer?

Depois de um instante Rachel respondeu, escolhendo as palavras com cuidado:

– Eu ia dizer que este fim de semana está sendo estranho para mim. O teatro, jantares elegantes, sair com os seus amigos... – Ela deu de ombros. – Não era o que eu esperava.

– Não está se divertindo?

Rachel passou as mãos pelos cabelos, parecendo constrangida outra vez.

– Não é que eu não esteja me divertindo. É só que... – tornou a dar de ombros. – Eu não sou assim. Nada disso é algo que eu faria normalmente.

– Foi por isso que planejei o fim de semana assim. Queria apresentar coisas novas a você.

– Por quê?

– Pela mesma razão porque você quis que eu aprendesse a mergulhar: porque é uma coisa gostosa, uma coisa diferente.

– Não vim para cá para fazer coisas diferentes. Vim para ficar com você. Passamos muito tempo longe, e desde que cheguei parece que estamos sempre correndo de um lado para o outro. Ainda nem tivemos chance de conversar, e eu vou embora amanhã.

– Não é verdade. Jantamos sozinhas ontem, e ficamos sozinhas no Museu hoje. Tivemos muito tempo para conversar.

– Sabe o que eu quero dizer.

– Não sei, não. O que você queria fazer? Ficar trancada em casa?

Ela não respondeu. Ficou sentada quieta por um instante, depois se levantou do sofá, foi até o outro lado da sala e desligou o som.

– Tem algo importante que estou tentando dizer desde que cheguei – falou Rachel, sem encará-la.

– O que é?

A morena baixou a cabeça. É agora ou nunca, pensou. Deu um suspiro profundo, juntou a coragem e enfim se virou para Quinn.

– Acho que esse mês sem nos vermos, foi realmente muito difícil, e não sei se quero continuar assim.

Quinn ficou sem ar por um instante.

Ao ver a expressão da loira, Rachel foi em sua direção, sentindo um estranho peso no peito causado pelo que estava prestes a dizer.

– Não é o que você está pensando – falou depressa. – Você entendeu errado. Não é que eu não queira mais vê-la. O que eu quero é estar com você o tempo todo.

Quando chegou ao sofá, a morena se ajoelhou diante da loira, Quinn a encarou, surpresa. Rachel tomou a mão dela entre as suas.

– Quero que você se mude para Wilmington.

Embora Quinn soubesse que aquilo estava prestes a acontecer, não esperava que fosse naquele momento, e sem dúvida não daquela maneira. Rachel continuou:

– sei que é um passo muito grande, mas, se você for para lá, não teremos mais esses longos períodos separadas. Poderíamos nos ver todos os dias. – Ela ergueu a mão e acariciou o rosto da loira. – Quero caminhar na praia com você, quero sair para velejar com você, quero que você esteja lá quando eu chegar da loja. Quero que tenhamos a impressão que nos conhecemos desde sempre...

As palavras saíam depressa, e Quinn tentou entender o sentido delas. Rachel prosseguiu:

– Sinto tanto a sua falta quando não estamos juntas... Sei que o seu trabalho é a aqui, mas tenho certeza de que o jornal de lá aceitaria você...

Quanto mais ela falava, mais a cabeça de Quinn girava. Para Quinn, era como se Rachel tivesse tentando recriar seu relacionamento com Catherine.

– Espere um pouco – conseguiu enfim dizer, interrompendo-a. – Não posso simplesmente arrumar as coisas e partir. Quero dizer... Tommy está na escola...

– Você não tem que ir agora – retrucou Rachel. – Pode esperar até o fim do ano letivo, se for o melhor. Conseguimos aguentar até agora, então mais uns meses não vão fazer diferença.

– Mas ele está feliz aqui. Este é o lar dele. Tem os amigos, o futebol...

– Ele vai ter tudo isso em wilmington.

– Como pode saber? É fácil para você dizer isso, mas não tem certeza.

– Você não viu como nos demos bem?

Quinn soltou a mão da morena, cada vez mais frustrada.

– Isso não tem nada haver com a questão, você não entende? Sei que vocês dois se deram bem, mas você não estava pedindo a ele para mudar de vida. Eu não estava pedindo a ele para mudar de vida. – Ela fez uma pausa. – Além disso, o problema não é só ele. E quanto a mim, Rachel? Você estava lá hoje, sabe o que aconteceu. Acabei de receber notícias maravilhosas sobre minha coluna, e agora você quer que eu desista dela também?

– Não quero é desistir de nós. Existe uma grande diferença.

– Então por quê você não pode se mudar para Boston?

– Para fazer o quê?

– A mesma coisa que faz em Wilmington. Dar aulas de mergulho, velejar, qualquer coisa. É muito mais fácil para você se mudar do que para mim.

– Não posso fazer isso. Como eu disse, isso aqui – ela fez um gesto abrangendo o aposento e as janelas – não sou eu. Eu ficaria perdida.

Quinn levantou-se e atravessou a sala, agitada. Passou a mão pelos cabelos.

– Isso não é justo.

– O que não é justo?

Quinn encarou a morena.

– Tudo. Você pedir que eu me mude, pedir que eu mude toda a minha vida. É como se você estivesse impondo uma condição: podemos ficar juntas, mas tem que ser do seu jeito. Bem, e os meus sentimentos? Eles não são importantes também?

– claro que são importantes. Você é importante, nós somos importantes.

– Bem, não parece. Tenho a impressão de que você está pensando só em si mesma. Quer que eu desista de tudo aquilo que eu consegui com o meu trabalho, mas não está disposta a ceder em nada.

Quinn disse isso sem desviar os olhos do de Rachel.

Rachel levantou-se do sofá e foi até ela. Quando se aproximou, Quinn recuou, erguendo os braços como uma barreira.

– Escute, Rachel, não quero que me toque agora, está bem?

A morena abaixou as mãos. Por um longo momento nenhuma das duas disse nada. Quinn cruzou os braços e desviou o olhar.

– Então acho que a resposta é que você não vai – falou Rachel por fim, parecendo irritada.

A loira escolheu as palavras com cuidado:

– Não. Minha resposta é que vamos ter que conversar sobre isso.

– Para que você tente me convencer de que eu estou errada?

O comentário da morena não mereceu resposta. Balançando a cabeça, Quinn foi até a mesa da sala de jantar, pegou a bolsa e se encaminhou para a porta da rua.

– Aonde você vai?

– Vou comprar uma garrafa de vinho. Preciso de uma bebida. – respondeu a loira.

– Mas já é tarde.

– Tem uma loja no fim do quarteirão. Volto em alguns minutos.

– Por que não podemos falar sobre isso agora?

– Porque eu preciso de alguns minutos à sós, para pensar – retrucou.

– Está fugindo?

Parecia uma acusação.

Quinn abriu a porta e manteve-a aberta enquanto dizia:

– Não, Rachel, não estou fugindo. Volto daqui a alguns minutos e não gosto que você fale assim comigo. Não é justo que você faça com que me sinta culpada por causa disso tudo. Acabou de me pedir para mudar a minha vida inteira, e estou pedindo alguns minutos para pensar sobre tudo isso.

A loira saiu do apartamento. Rachel ficou alguns minutos com os olhos fixos na porta, esperando que ela voltasse. Como isso não aconteceu, ela praguejou contra si mesma. Nada tinha acontecido como ela pensara. Num minuto ela lhe pedia para se mudar para Wilmington e no minuto seguinte Quinn a deixava plantada ali, precisando ficar sozinha. Como as coisas tinham chegado àquele ponto?

Sem saber o que fazer, ela ficou andando de um lado para o outro. Relanceou a cozinha, depois o quarto de Tommy, e continuou pelo corredor. Quando chegou ao quarto de Quinn, parou por um instante antes de entrar. Depois foi até a cama, sentou-se e apoiou a cabeça nas mãos.

Seria justo da parte dela pedir que a loira mudasse? De fato, a vida dela era ali, e era uma vida boa. No entanto, ela tinha certeza de que Quinn poderia ter tudo aquilo em Wilmington. De qualquer forma que encarasse a questão, ficava claro que seria muito melhor para as duas morarem lá do que em Boston. Olhando à sua volta, ela teve certeza de que jamais poderia viver num apartamento. Mas mesmo que fossem para uma casa, Quinn teria uma bela vista? Ou, se fossem para um bairro residencial longe do centro, seriam cercadas por dezenas de casas iguais à sua?

Era complicado. E, de alguma forma, tudo que ela dissera, saíra errado. Não queria que Quinn achasse que ela estava lhe dando um ultimato, mas, relembrando o diálogo das duas, entendeu que tinha feito exatamente isso.

Suspirando, pensou no que faria a seguir. Achava que não havia nada que pudesse dizer quando ela voltasse que não levasse a outra briga. Essa era a última coisa que ela queria. As discussões quase nunca levam a soluções, e era de soluções que elas precisavam no momento.

Entretanto se não havia nada que ela pudesse dizer, o que sobrava? Rachel pensou por um momento antes de enfim decidir escrever-lhe uma carta explicando os próprios sentimentos. O ato de escrever sempre a ajudara a pensar com mais clareza – sobretudo nos últimos anos – e talvez Quinn conseguisse entendê-la.

Olhou na direção da mesa de cabeceira. O telefone estava ali, e ela devia anotar os recados de vez em quando, mas a morena não viu sinal de papel ou caneta. Abriu a gaveta, vasculhou-a e encontrou uma esferográfica.

Continuou a remexer lá dentro em busca de papel e achou revistas, alguns livros de bolso e algumas caixinhas de joia vazias. De repente, algo familiar atraiu sua atenção.

Um veleiro.

Estava numa folha de papel, entre uma agenda fina e um exemplar antigo de uma revista. Estendeu a mão para ela, imaginando tratar-se de uma das cartas que lhe escrevera ao longo dos últimos meses, e então parou de repente.

Como ela tinha conseguido aquilo?

O papel de carta tinha sido um presente de Catherine, e ela só usava quando ia escrever para ela. Suas correspondências para Quinn tinham sido redigidas em outro papel, comprado numa loja.

Rachel percebeu que estava prendendo respiração. Rapidamente vasculhou a gaveta, retirou a revista e encontrou não uma, mas cinco – cinco! – folhas de papel de carta. Ainda confusa, piscou várias vezes antes de olhar para a primeira, e ali, escritas com sua caligrafia, estavam as palavras:

Minha adorada Catherine

Ah meu Deus. Ela passou a segunda página, que era uma cópia.

Minha querida Catherine

A carta seguinte:

Querida Catherine

– O que é isso? – resmungou ela, sem conseguir acreditar no que via. – Não pode ser...

Tornou a examinar as páginas, para ter certeza.

Mas era verdade. Uma carta era original e duas eram cópias, mas eram as correspondências dela, as que escrevera para Catherine depois de seus sonhos, as cartas que jogara no Happenstance e que nunca imaginara tornar a ver.

Num impulso começou a lê-las, e a cada palavra, a cada frase, sentia as emoções vindo à tona, invadindo-a de uma vez – seus sonhos, suas lembranças, sua perda, sua angústia. Parou de ler.

Sua boca estava seca, e ela contraiu os lábios. Em vez de continuar a leitura, Rachel ficou apenas olhando as cartas, em estado de choque.

Mal ouviu a porta da frente se abrir e fechar.

– Rachel, voltei – chamou Quinn. Ela fez uma pausa e então a morena ouviu seus passos pelo apartamento. – Onde você está?

Rachel não respondeu. Não conseguia fazer outra coisa além de tentar entender como aquilo acontecera. Como ela podia ter aquelas cartas? Eram correspondências dela...suas cartas particulares.

Cartas para a sua esposa.

Cartas que não eram da conta de mais ninguém.

Quinn entrou no quarto e olhou para ela. Embora Rachel não soubesse disso, tinha o rosto pálido e os nós dos dedos que seguravam as páginas estavam brancos.

– Você está bem? – perguntou Quinn, sem distinguir o que ela tinha nas mãos.

Por um momento, foi como se Rachel não a tivesse ouvido. Então erguendo os olhos lentamente, a morena a encarou furiosa.

Assustada, Quinn quase tornou a falar. Mas não o fez. Como uma onda, tudo a atingiu ao mesmo tempo – a gaveta aberta, os papéis na mão dela, sua expressão – e ela entendeu no mesmo instante o que tinha acontecido.

– Rachel... eu posso explicar – disse depressa, baixinho.

Rachel pareceu não ouvir.

– Minhas cartas... – sussurrou.

Olhou para Quinn com um misto de confusão e raiva.

– Eu...

– Como foi que conseguiu minhas cartas? – quis saber ela.

O som da sua voz fez a loira se encolher.

– Encontrei uma delas na praia e...

– Você encontrou? – interrompeu a morena.

Quinn assentiu, tentando explicar.

– Foi quando eu estava em Cape Cod. Tinha acabado de correr na praia e achei a garrafa...

Rachel olhou para a primeira página, a única carta original. Era a que ela tinha escrito no início daquele ano. Mas as outras...

– E estas? – indagou, erguendo as cópias. – De onde vieram?

– Enviaram para mim – retrucou ela com delicadeza.

– Quem?

Confusa, a morena levantou da cama. Quinn avançou um passo na direção dela, estendendo a mão.

– As pessoas que encontraram as cartas. Uma delas leu minha coluna...

– Você publicou minha carta?

Ela parecia ter levado um soco no estômago.

Por um instante. Quinn não respondeu.

– Eu não sabia... – começou.

– Não sabia o quê? – gritou Rachel, a mágoa evidente na voz. – Que era errado fazer isso? Que essa carta não era uma coisa que eu queria que o mundo inteiro visse?

– Ela apareceu na praia, você sabia que alguém ia encontrar – disse Quinn rapidamente. – Não usei os nomes verdadeiros.

– Mas publicou no jornal...

Incrédula, a morena não conseguiu terminar a frase.

– Rachel, eu...

– Não! – retrucou ela, com raiva. Tornou a olhar para as cartas e depois para Quinn, como se aa visse pela primeira vez. – Você mentiu para mim – continuou, quase como se fosse uma revelação.

– Eu não menti...

Rachel não estava escutando.

– Você mentiu para mim – repetiu, como se para si mesma. – E foi me procurar. Por quê? Para poder escrever outro artigo? Foi esse o motivo de tudo?

– Não... Não foi nada disso...

– Então o que foi?

– Depois de ler as cartas eu... eu quis conhecer você.

Ela não entendeu o que a loira queria dizer. Ficava olhando das folhas para ela e de novo para as folhas. Sua expressão era de dor.

– Você mentiu para mim – falou pela terceira vez. – Você me usou.

– Eu não...

– Usou, sim! – gritou a morena, a voz ecoando no quarto. Lembrando-se de Catherine, ela segurou as cartas diante de si, como se Quinn nunca as tivesse visto antes. – Estas cartas são minhas, são os meus sentimentos, os meus pensamentos, a minha maneira de lidar com a perda da minha mulher. São minhas, não suas.

– Eu não tinha intenção de magoar você.

A morena encarou- em silêncio. Tinha os músculos da mandíbula tensos.

– Foi tudo mentira, não foi? – disse finalmente, sem esperar que ela continuasse. – Você pegou os meus sentimentos por Catherine e tentou manipulá-los, transformá-los, naquilo que queria. Achou que, porque eu amava Catherine, ia amar você também, não foi?

Quinn empalideceu. De repente não conseguiu mais falar.

– Você planejou tudo desde o princípio, não é verdade? – ela fez uma pausa e passou a mão livre pelos cabelos. Quando falou, a voz começou a falhar: — Foi tudo uma encenação...

Por um instante, Rachel pareceu atordoada, e Quinn lhe estendeu a mão.

– Rachel, eu admiti que queria conhecer você. As cartas eram tão lindas que eu queria ver o tipo de pessoa que escrevia assim. Mas não sabia aonde aquilo ia dar, não tinha planejado nada além de conhecê-la. – Ela pegou a mão de Rachel. – Eu te amo, Rachel. Você tem que acreditar.

Quando Quinn ficou em silêncio, a morena puxou a mão que ela segurava e se afastou.

– que tipo de pessoa você é?

Isso feriu a loira, e ela reagiu na defensiva:

– Não é o que você está pensando...

Rachel insistiu, alheia à resposta dela:

– Você embarcou em alguma fantasia estranha...

Aquilo era demais.

– Pare, Rachel! – exclamou Quinn com raiva, magoada pelas palavras da morena. – Você não ouviu nada do que eu disse!

Enquanto gritava, Quinn sentia as lágrimas aflorando aos olhos.

– Por que devo escutar? Você vem mentindo para mim desde que nos conhecemos – acusou Rachel.

– Não menti! Só não falei das cartas!

– Porque sabia que tinha agido mal!

– Não. Porque sabia que você não entenderia – retrucou ela, tentando recobrar a calma.

– Eu entendi muito bem. Entendi o tipo de pessoa que você é!

Quinn estreitou os olhos.

– Não fique assim – pediu.

– “Assim” como? Zangada? Magoada? Acabei de descobrir que toda a nossa história foi um teatro e você quer que eu pare?

– Cale a boca! – exclamou Quinn, sem conseguir conter a fúria.

Rachel pareceu atônita diante do comportamento de Quinn, e a encarou em silêncio. Por fim, entregou-lhe as cartas e disse, com a voz entrecortada:

– Você acha que entende o que Catherine e eu tínhamos, mas não sabe de nada. Não importa quantas cartas leia, nem quanto me conheça: você nunca vai compreender. O que nós tínhamos era verdadeiro. Era tudo autêntico, e ela era autêntica...

Ela fez uma pausa para ordenar os pensamentos, olhando para Quinn como se ela fosse uma desconhecida. Então, enrijecendo o corpo, disse algo que a magoou mais do que qualquer outra coisa que tivesse falado até o momento:

– Nós duas nunca chegamos nem perto do que Catherine e eu tínhamos.

Não esperou pela resposta. Em vez disso, passou por ela em direção à sua mala. Depois de jogar suas coisas dentro dela, fechou-a com brutalidade. Por um momento Quinn pensou em impedi-la, mas o comentário dela a deixara aturdida.

Rachel se empertigou, erguendo a bagagem.

– Isto é meu, vou levar comigo – falou, pegando as cartas.

Compreendendo de repente o que Rachel pretendia fazer, Quinn perguntou:

– Por que está indo embora?

Rachel a encarou.

– Não sei quem é você.

Sem dizer mais nada, ela se virou, atravessou a sala e saiu pela porta da frente.

Notas finais
Aos que comentaram no capítulo passado o meu muito obrigada de verdade. Eu realmente preciso de comentários, estou meio desanimada. Talvez nem poste mais semanalmente. Vai depender de vocês... See you.