Message in a bottle
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Os pratos chegaram minutos depois, e elas continuaram a conversar enquanto comiam. Dessa vez Rachel falou mais que Quinn, contando-lhe como era crescer no sul e porque ela nunca sairia dali, mesmo se tivesse chance. Falou também sobre algumas aventuras que vivera enquanto velejava ou mergulhava. Quinn escutava fascinada. Comparadas aos casos que os homens de Boston contavam – e que em geral tinham haver com sucesso nos negócios – as histórias dela eram algo inédito. Rachel falou sobre os milhares de criaturas marinhas que vira em seus mergulhos e descreveu a experiência de velejar durante uma tempestade inesperada que quase virara o barco. Contou que certa vez chegou até a ser perseguida por um tubarão-martelo e foi forçada a se abrigar no navio naufragado que estava explorando.
– Quase fiquei sem ar antes de poder subir – concluiu, balançando a cabeça.
Enquanto ela falava, Quinn ouvia com atenção, feliz por Rachel estar mais extrovertida do que na noite anterior. Ainda notava nela as características da véspera: o rosto cansado, os olhos cor de chocolate e a maneira relaxada de se mover. No entanto, agora ela se expressava de uma forma mais enérgica, e ela achou essa mudança muito atraente. Rachel não parecia mais pesar tudo o que dizia.
Terminaram o almoço – ela tinha razão, a comida era deliciosa – e beberam uma segunda cerveja cada uma, enquanto os ventiladores de teto giravam acima delas. Com o sol cada vez mais alto, o restaurante foi ficando quente, porém não menos aglomerado. Depois que a conta chegou, Rachel colocou algumas notas na mesa e fez um gesto em direção à porta.
– Está pronta para ir?
– Quando quiser. E obrigada pelo almoço. Estava ótimo.
Enquanto saíam do restaurante, Quinn imaginava que Rachel iria querer voltar imediatamente para a loja, mas ela a surpreendeu sugerindo algo diferente:
– Que tal um passeio pela praia? Costuma ser um pouco mais fresco à beira-mar.
Quando Quinn aceitou, Rachel a conduziu para a lateral do cais e as duas começaram a descer as escadas lado a lado. Os degraus eram meio empenados e cobertos uma fina camada de areia, o que as obrigava a segurar no corrimão enquanto desciam. Ao chegarem à praia, tomaram a direção do mar, caminhando sob o píer. A sombra era refrescante no calor do meio dia, e quando colocaram os pés na areia batida à beira d´água, ambas pararam um instante para tirarem os sapatos. À volta delas, famílias inteiras apinhavam-se nas toalhas estendidas ou brincavam no mar.
Puseram-se a caminhar em silêncio, lado a lado, enquanto Quinn olhava ao redor, apreciando a paisagem.
– Já foi a muitas praias desde que está aqui? – perguntou Rachel.
Quinn fez um gesto negativo com a cabeça.
– Não. Só cheguei anteontem. Esta é a primeira praia daqui que conheço.
– Está gostando?
– É linda.
– É parecida com as praias lá do norte?
– Com algumas, mas a água aqui é bem mais quente. Você nunca foi à Costa Norte?
– Nunca saí da Carolina do Norte.
Ela sorriu.
– Uma verdadeira viajante internacional, hein? – brincou.
Rachel riu baixinho.
– É, mas acho que não estou perdendo muita coisa. Gosto daqui, e não consigo imaginar um local mais bonito. Não existe outro lugar onde eu preferisse estar. – Depois de mais alguns passos, Rachel a olhou de relance e mudou de assunto: — Então, quanto tempo vai ficar em Wilmington?
– Até domingo. Tenho que voltar ao trabalho na segunda.
Mais cinco dias, Rachel pensou.
– Conhece mais alguém na cidade?
– Não. Vim sozinha.
– Por quê?
– Porque queria conhecer. Ouvi vários elogios, e quis ver com meus próprios olhos.
Rachel considerou sua resposta por um instante.
– Você costuma viajar de férias sozinha?
– Na verdade, é a primeira vez.
Uma mulher fazendo cooper apareceu e se aproximou rapidamente delas, com um labrador preto ao lado. O cão parecia exausto por causa do calor, com a língua pendurada para fora. Alheia ao estado do animal, a mulher continuou correndo e por fim se desviou de Quinn. Rachel quase disse alguma coisa a ela quando passou por elas, mas achou que não era da sua conta.
Alguns minutos depois, ela tornou a falar:
– Posso lhe fazer uma pergunta pessoal?
– Depende da pergunta.
Rachel parou de caminhar e se abaixou para pegar algumas conchas que tinham atraído a sua atenção. Virou-as nas mãos algumas vezes e estendeu-as a Quinn.
– Você está saindo com alguém especial em Boston?
Enquanto pegava as conchas, Quinn respondeu:
– Não.
As ondas lambiam os pés das duas, paradas na água rasa. Embora Rachel esperasse por essa resposta, não conseguia entender porque alguém como ela estava sozinha.
– Por que não? Uma mulher como você deve ter muitas pessoas para escolher.
Ela sorriu e ambas recomeçaram a andar devagar.
– Obrigada. É muito gentil da sua parte. Mas não é fácil, especialmente para quem tem um filho. Há muitas coisas que tenho que pensar quando conheço alguém. – Fez uma pausa. – Mas e você? Está namorando alguém?
Ela balançou a cabeça.
– Não.
– Então é a minha vez de perguntar: por que não?
Rachel deu de ombros.
– Acho que não conheci alguém que eu quisesse namorar.
– Só isso?
Era o momento da verdade, e ela percebeu isso. Tudo o que tinha a fazer era confirmar o que já dissera e ponto final. Mas ficou em silêncio por alguns minutos.
A multidão na praia ia diminuindo à medida que elas se afastavam do píer e só se ouvia o som das ondas se quebrando. Rachel viu um grupo de andorinha-do-mar perto da linha da água, já se afastando do caminho das duas. O sol, que agora batia quase diretamente acima delas, refletia-se na areia, obrigando-as a estreitar os olhos por causa da claridade. Rachel não olhou para ela enquanto falava, e Quinn aproximou-se dela para ouvi-la acima do ruído das ondas.
– Mas não é só isso. Isso é mais uma desculpa que qualquer outra coisa. Para ser franca nem cheguei a tentar encontrar alguém.
Quinn observou-a com atenção enquanto ela falava. Rachel olhava direto para frente, como se organizasse os pensamentos, mas Quinn sentiu sua relutância.
– Há uma coisa que não lhe contei ontem.
Quinn sentiu um aperto no peito, porque sabia exatamente o que estava por vir.
– Ah, é? – comentou Quinn mantendo uma expressão neutra.
– Também já fui casada – contou Rachel por fim. – Durante alguns anos. – Virou-se para Quinn com uma expressão que a fez se retrair. – Mas ela faleceu.
Ela. Quinn pensou. Era a primeira vez que ela ouvia de Rachel a confirmação de que ela era mesmo casada e com uma mulher. Mas, tudo que eu vejo é a intensidade do amor que existiu entre duas pessoas.
– Sinto muito – retrucou Quinn baixinho.
Mais uma vez, Rachel estacou e recolheu algumas conchas, porém dessa vez, não as entregou a ela: depois de examiná-las distraidamente, jogou uma delas no mar. Quinn observou a concha desaparecer no oceano.
– Aconteceu há três anos. Desde então não me interessei em namorar, nem sequer em procurar uma namorada.
Rachel ficou em silêncio, pouco à vontade. Não era comum falar sobre a esposa para alguém. E nem sobre sua sexualidade tão abertamente, mas talvez Quinn já soubesse, todos sabem afinal.
– Você deve se sentir solitária, às vezes.
– Sim, mas tento não pensar muito sobre isso. Me mantenho ocupada com a loja, há sempre alguma coisa para fazer lá, e isso ajuda a passar o tempo. Antes que eu perceba, é hora de ir para cama, e no dia seguinte começo tudo outra vez.
Quando terminou de falar, Rachel olhou para ela de relance, com um sorriso fraco. Pronto, tinha contado. Durante anos tivera vontade de conversar sobre isso com outra pessoa além do pai, e acabara contando a uma mulher de Boston que mal conhecia – uma mulher que, de algum modo, conseguira abrir as portas que ela própria tinha trancado.
Quinn ficou em silêncio. Como Rachel também não disse nada, ela por fim perguntou:
– Como era ela?
– Catherine? – Rachel sentiu a garganta ficar seca. – Quer mesmo saber?
– Quero – afirmou Quinn com delicadeza.
Rachel jogou outra concha no mar, colocando os pensamentos em ordem. Como conseguiria descrevê-la com palavras? No entanto, parte dela queria tentar – queria que Quinn, entre todas as pessoas, compreendesse. Sem poder evitar, mais uma vez Rachel foi atraída para o passado.
Flasback on...
– Oi, querida – cumprimentou Catherine, erguendo os olhos do jardim, — Não esperava você tão cedo em casa.
– As coisas estão muito devagar na loja hoje, então pensei em vir almoçar em casa e ver como você está.
– Estou bem melhor.
– Acha que foi a gripe?
– Não sei. Provavelmente alguma coisa que eu comi. Mais ou menos uma hora depois que você saiu eu estava me sentindo bem e resolvi trabalhar um pouco no jardim.
– É, estou vendo.
– Que tal minhas flores? – perguntou ela, apontando para um canteiro cuja terra tinha sido revolvida.
Rachel examinou os amores-perfeitos recém-plantados que bordejavam a varanda e sorriu.
– São lindas, mas não acha que devia ter deixado um pouco de terra no canteiro?
Catherine enxugou a testa com as costas das mãos e a fitou, estreitando os olhos à forte luz do sol.
– Estou tão suja assim?
Seus joelhos estavam pretos por ter se ajoelhado na terra e o rosto tinha uma mancha escura. Os cabelos escapavam do rabo de cavalo, e a pele estava vermelha e suada pelo esforço.
– Você está linda.
Catherine tirou as luvas e jogou-as na varanda.
– Não estou não, Rach, mas obrigada. Venha, vou preparar seu almoço. Sei que você tem que voltar para a loja.
Flasback off.
Ela suspirou e finalmente virou a cabeça para Quinn que a encarou e esperou. Ela falou baixinho:
– Ela era tudo que eu sempre quis. Linda, encantadora, com um senso de humor inteligente, e me apoiava em tudo o que eu fazia. Nos conhecíamos desde sempre: estudamos na mesma escola, nos “casamos” um ano depois de me formar na faculdade. Ficamos casadas por seis anos, até o acidente, e foi a melhor época da minha vida. Quando ela foi levada... – Ela fez uma pausa, como se as palavras lhe fugissem. – Não sei se algum dia vou me acostumar a ficar sem ela.
O modo como ela falou de Catherine fez Quinn lamentar por ela mais do que esperara. Não era apenas a voz, mas a expressão dela quando a descrevia – como se estivesse dividida entre a beleza e a dor das próprias lembranças. Embora as cartas fossem comoventes, não a tinham preparado para aquilo. Eu não devia ter tocado nesse assunto, pensou ela. Eu sempre soube o que ela sente por Catherine. Não havia motivo para obriga-la a falar sobre isso.
Havia, sim, disse outra voz dentro da sua mente. Você tinha que ver a reação dela com os próprios olhos. Precisava descobrir se ela estava pronta para deixar o passado para trás.
Depois de alguns instantes, Rachel jogou distraidamente o restante das conchas no mar.
– Desculpe – disse ela.
– Pelo quê?
– Eu não devia ter lhe falado dela. Ou falado tanto de mim.
– Não tem importância, Rachel. Eu queria saber. Eu mesma perguntei, lembra?
– Eu não pretendia falar como falei – continuou ela, como se tivesse feito algo errado.
A reação de Quinn foi quase instintiva: aproximou-se dela, estendeu a mão, pegou a de Rachel e apertou-a de leve. Quando a encarou, viu surpresa em seus olhos, embora ela não tivesse tentado retirar a mão.
– Você perdeu a esposa, e isso é algo que a maioria das pessoas da nossa idade não sabe o que é.
Rachel baixou os olhos, enquanto ela procurava as palavras certas.
– Seus sentimentos dizem muito sobre você – continuou ela. – Você é o tipo de pessoa que ama para sempre...Não há do que se envergonhar.
– Eu sei. É que já se passaram três anos...
– Algum dia você vai encontrar alguém especial. Isso costuma acontecer com as pessoas que já amaram. Faz parte da natureza delas.
Quinn tornou a apertar a mão dela, e Rachel sentiu que aquele toque a aquecia. Por algum motivo, não queria que aquela sensação terminasse.
– Espero que tenha razão – disse, por fim.
– Eu tenho. Conheço essas coisas. Sou mãe, esqueceu?
Rachel riu baixinho, tentando liberar a tensão.
– Não esqueci, não. E deve ser uma ótima mãe.
Deram meia-volta e começaram a se dirigir mais uma vez para o píer, conversando tranquilamente sobre os últimos três anos, ainda de mãos dadas. Quando chegaram ao furgão, e durante o caminho de volta à loja, Rachel estava mais confusa do que nunca. Os acontecimentos dos dois últimos dias tinham sido totalmente inesperados. Quinn já não era mais desconhecida, tampouco era apenas uma amiga. Não havia dúvida de que se sentia atraída por ela. Por outro lado, ela iria embora dentro de poucos dias, e ela sabia que provavelmente era melhor assim.
– Em que está pensando? – quis saber Quinn.
Rachel passou a marcha enquanto atravessavam a ponte em direção a Wilmington e à Island Diving. Vá em frente, disse a si mesma. Conte a ela o que está passando pela sua cabeça.
– Eu estava pensando que se você não tiver planos para hoje à noite eu gostaria que viesse jantar na minha casa – disse ela finalmente, surpreendendo a si própria.
– Eu estava esperando que você me convidasse – retrucou Quinn, sorrindo.
Quando entrou à esquerda na rua que levava à loja, ela ainda estava surpresa por tê-la convidado.
– Pode chegar por volta das oito? Tenho algumas coisas para fazer na loja e acho que só vou conseguir terminar mais tarde.
– Tudo bem. Onde você mora?
– Em Carolina Beach. Quando chegar à loja, eu lhe ensino o caminho.
Entraram no estacionamento e Quinn seguiu Rachel até o escritório. A mesma anotou as instruções num pedaço de papel e, tentando não mostrar a confusão que sentia, disse:
– Você não vai ter dificuldade em encontrar. É só procurar o meu furgão na frente da casa. Mas, caso tenha algum problema, meu telefone está aí.
Depois que ela saiu, Rachel ficou pensando sobre o jantar. Sentada em seu escritório, duas perguntas que não conseguia responder a atormentavam. A primeira: por que estava tão atraída por Quinn? E a segunda: por que de repente sentia estar traindo Catherine?
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