Message in a bottle
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Quinn passou o restante da tarde explorando a cidade, enquanto Rachel trabalhava na loja. Como não conhecia Wilmington muito bem, pediu informações sobre como chegar ao centro histórico e ficou algumas horas visitando lojas. A maioria se voltava para o público de fora, e ela encontrou algumas coisas que agradariam a Tommy, embora nada de que ela própria gostasse. Depois de comprar alguns shorts que ele poderia usar quando voltasse da Califórnia, Quinn voltou ao hotel para tirar um cochilo. Os últimos dias tinham sido cansativos, e ela logo adormeceu.
Rachel, por sua vez, não tinha um minuto de sossego. Uma carga de equipamentos novos chegou assim que ela voltou e, depois de embalar as mercadorias de que não precisaria, ela ligou para a empresa a fim de combinar a devolução delas. Mais para o final da tarde, ficou sabendo que três das pessoas que tinham se matriculado para ter aulas de mergulho naquele fim de semana estariam fora da cidade e precisavam cancelar. Ao verificar a lista de espera, constatou que não havia alunos substitutos.
Às seis e meia estava cansada, e suspirou de alívio quando finalmente fechou a loja. Quando saiu de lá, foi direto ao mercado e comprou as coisas de que ia precisar para o jantar. Assim que chegou em casa, tomou banho e vestiu um short limpo e uma camiseta leve de algodão, depois foi pegar uma cerveja na geladeira. Após abri-la, saiu para a varanda nos fundos da casa e sentou-se numa das cadeiras de ferro fundido. Consultou o relógio e percebeu que Quinn logo estaria lá.
**
Rachel ainda estava sentada nos fundos da casa quando ouviu o som de um carro subindo o quarteirão em baixa velocidade. Saiu da varanda e percorreu a lateral da casa, observando até ver Quinn estacionar na rua, logo atrás do seu furgão.
Quinn saltou usando jeans e a mesma blusa de antes, aquela que fazia maravilhas ao seu corpo. Parecia relaxada ao ir ao seu encontro, e, quando deu um sorriso caloroso, Rachel percebeu que a atração por Quinn tinha crescido depois que as duas almoçaram juntas. Isso a deixou um pouco inquieta, por um motivo que não quis admitir.
Seguiu na direção dela de modo mais casual possível e as duas se cruzaram no meio do caminho. Quinn levava uma garrafa de vinho branco. Quando Rachel se aproximou, sentiu o perfume de Quinn, que ela não estava usando antes.
– Trouxe vinho – disse ela, entregando a garrafa a Rachel. – Achei que ia cair bem com o jantar. – Então, depois de uma pausa curta: — Como foi a sua tarde?
– Bastante agitada. Tivemos fregueses até a hora de fechar, cheguei em casa quase agora. – Dirigiu-se para a porta da frente, com Quinn a seu lado. – E você, o que fez durante o resto do dia?
– Tirei uma soneca – respondeu, implicando com ela, e Rachel riu.
– Esqueci de perguntar antes, mas você quer algo especial para o jantar?
– O que está planejando fazer?
– Eu pensei em fazer um caril vegetariano, mas depois fiquei imaginando se você comeria esse tipo de coisa?
– Sério? Eu adoro caril. – Disse calmamente e pensou “vegetariana... está aí uma informação que eu não sabia”.
– Então terá uma surpresa agradável – disse com um sorriso brincando em seus lábios.
– Como assim?
– Eu faço o melhor caril do mundo.
– Ah, é mesmo? – perguntou Quinn em desafio.
– Você vai ter a prova – afirmou Rachel.
Quinn deu uma risada melodiosa.
Enquanto se aproximavam da porta, Quinn olhou para a casa pela primeira vez. Era relativamente pequena – retangular, com um só andar – e forrada de madeira, cuja pintura estava descascando em vários pontos. Ao contrário das construções em Wrightsville Beach, a dela tinha sido erguida direto na areia. Quando Quinn perguntou por que a casa não se sustentava sobre pilotis, como as outras, Rachel explicou que ela fora construída antes do código de construção em áreas de ciclones.
– Agora casas tem que ser elevadas para que durante um maremoto a água possa passar sob a estrutura. No próximo furacão dos grandes, pode ser que esta velha casa seja arrastada para o mar, mas até agora tive sorte.
– Não fica preocupada com isso?
– Na verdade, não. Não é uma casa muito boa, e foi só por isso que consegui comprá-la. Acho que o antigo dono enfim se cansou de tanta tensão cada vez que uma tempestade vinha do Atlântico.
Chegaram aos degraus rachados que levavam à porta e entraram. A primeira coisa que Quinn percebeu foi a vista da sala: as janelas iam do chão ao teto e ocupavam toda a parede dos fundos da casa, dando para a varanda e a praia.
– Que vista incrível! – exclamou surpresa.
– Não é? Já faz alguns anos que moro aqui, mas ainda não me cansei de admirar.
De um dos lados havia uma lareira cercada por várias fotos subaquáticas. Quinn foi até lá.
– Se importa se eu der uma olhada por aí?
– Não, fique à vontade. De qualquer maneira, tenho que preparar a comida. Preciso começar.
Então ela saiu pela porta corrediça de vidro.
Depois que Rachel se foi, Quinn contemplou as imagens durante algum tempo, em seguida foi dar uma olhada no restante da casa. Como muitas casas de praia que ela conhecia, não havia lugar para mais de uma ou duas pessoas morarem. A construção só contava com um quarto, cuja porta ficava fora da sala de estar. Como a sala, o quarto tinha também janelas do chão ao teto com vista para a praia. A parte da frente casa, que era mais próxima à rua, continha uma cozinha, uma pequena copa e um banheiro. Embora estivesse tudo conservado, a casa parecia não ter passado por uma reforma havia anos.
Quinn voltou à sala, parou junto ao quarto e olhou para dentro. Mais uma vez viu fotos subaquáticas decorando as paredes. Além disso, havia um grande mapa da Carolina do Norte pendurado logo acima da cama, documentando a localização de quase quinhentos navios naufragados. Em cima da mesa de cabeceira, Quinn viu o retrato emoldurado de uma mulher. Certificando-se de que Rachel ainda estava lá fora, ela entrou no aposento para ver melhor.
Catherine devia ter uns 20 e poucos anos quando a foto foi tirada. Como as imagens nas paredes, aquela parecia ter sido batida pela própria Rachel, e ela se perguntou se fora emoldurada antes ou depois do acidente. Pegou a fotografia e percebeu que Catherine era bonita – um pouco mais magra que ela – e tinha cabelos loiros na altura dos ombros. Embora a foto devesse ser uma ampliação, ela conseguiu ver com clareza os olhos de Catherine: eram verde-escuros, quase como os de um gato, dando-lhe um ar exótico, e ela quase parecia devolver o olhar de Quinn. Ela recolocou a foto no lugar com cuidado de deixa-la exatamente na mesma posição de antes. Ao se virar, continuou sentindo que Catherine observava todos os seus movimentos.
Ignorando a sensação, olhou para o espelho preso à cômoda. Para surpresa dela, só havia mais uma foto que incluía Catherine. Era uma foto do casal sorrindo, paradas no convés do Happenstance. Como o barco aparentava já ter sido restaurado, ela calculou que a foto devia ter sido tirada poucos meses antes da morte de Catherine.
Consciente de Rachel podia entrar no quarto a qualquer momento, Quinn saiu do quarto, sentindo-se um pouco culpada por ter bisbilhotado. Foi até a porta corrediça de vidro que unia a sala à varanda e abriu-a. Rachel estava descascando algumas batatas e sorriu para ela quando a viu sair. Quinn até a beira da varanda, onde Rachel estava “trabalhando”, e inclinou-se contra o parapeito.
– Foi você quem tirou todas as fotos penduradas nas paredes? – quis saber.
Ela usou as costas das mãos para afastar o cabelo do rosto.
– Fui eu. Durante algum tempo levei minha câmera em todos os mergulhos. Pendurei a maioria das fotos na loja, mas tinha tantas que pensei em colocar aqui também.
– Parecem profissionais.
– Obrigada. Mas acho que a qualidade delas tem mais haver com a quantidade que tirei. Você devia ter visto todas as que não ficaram boas.
Enquanto falava, Rachel ergueu a bacia onde todas as batatas estavam descascadas e cortadas em cubo. Parecia pronta, e ela levou-a para cozinha, Quinn acompanhou.
Rachel pegou a berinjela e dispôs em numa tigela, polvilhando com sal e colocou para reservar um instante. Quinn apenas olhava admirada. Rachel colocou o óleo para aquecer numa grande frigideira no pequeno fogão à lenha que havia em sua cozinha.
– Sabia que já inventaram o fogão a gás? – falou Quinn no mesmo tom brincalhão de antes.
– Sabia, mas prefiro fazer como quando me ensinaram quando era mais nova. Além disso, fica mais gostoso assim. Fazer um caril como esse num fogão a gás não teria graça.
Quinn sorriu e disse:
– E pensar que você me prometeu o melhor caril que já comi...
– E vai ser. Confie em mim.
Quando terminou de juntar os ingredientes, mexendo ocasionalmente, durante cerca de 5 minutos e viu que já estavam ligeiramente alourados, retirou do fogo deixou a tampa colocada um pouco descoberta.
– Vou deixar o fluido penetrar por uns minutos. Quer beber alguma coisa? – perguntou indo até a varanda.
– O que você tem? – perguntou Quinn.
Rachel pigarreou.
– Cerveja, refrigerante e o vinho que você trouxe.
– Uma cerveja está ótimo.
Rachel foi até a cozinha novamente.
Enquanto ela estava lá dentro, Quinn virou-se e deu uma olhada nos dois da praia. Agora que o sol estava se pondo, a maioria das pessoas tinha ido embora, e as poucas que ficaram praticavam cooper ou caminhavam. Embora a praia não estivesse cheia, várias pessoas passaram na frente da varanda no pequeno espaço de tempo em que Rachel ficou ausente.
– Você nunca se cansa de toda essa gente? – perguntou Quinn quando ela voltou.
Ela entregou-lhe a cerveja.
– Na verdade, não. De qualquer maneira, não passo muito tempo aqui. Em geral, quando chego em casa a praia está deserta. E no inverno ninguém vem pra cá.
Apenas por um instante Quinn imaginou Rachel sentada na varanda, contemplando o mar, solitária como sempre.
– Agora está tudo em ordem, vou recomeçar a preparar o jantar.
– Posso ajudar em alguma coisa?
– Não há muito a fazer. Mas se você tiver sorte, talvez eu a deixe ver minha receita secreta.
Quinn inclinou a cabeça para um lado e encarou-a com um olhar desconfiado.
– Sabe, você está me fazendo criar uma expectativa muito alta em relação a esse seu caril.
– Eu sei. Mas tenho fé.
Rachel deu-lhe uma piscadela e riu, antes de segui-la até a cozinha. Abriu um dos armários e tirou mais batatas. Parada diante da pia, lavou primeiro as mãos e em seguida os tubérculos. Depois de acender o forno, enrolou-as em papel alumínio e colocou-as dentro. Apesar de tudo o fogão a gás serviria para algo.
– O que posso fazer?
– Como eu disse, não há muita coisa. Acho que está tudo sob controle. Comprei uma daquelas saladas prontas, e não temos mais nada no menu pra hoje.
Quinn ficou de lado enquanto ela colocava a última batata no forno e tirava a salada da geladeira. Enquanto arrumava as folhas numa tigela, Rachel olhou-a de soslaio. O que havia nela que a fazia querer de repente estar o mais perto possível? Pensando nisso, Rachel foi pegar o caril e colocou em um prato e foi procurar o resto dos utensílios de que precisava. Depois de colocar o caril no prato, colou tudo perto de Quinn.
Ela lançou lhe um sorriso de desafio.
– Então, o que há de tão especial nesse caril?
Ordenando os pensamentos, Rachel juntou o concentrado de tomate, o caldo, o sumo do limão, as batatas e a couve-flor e levou ao fogo.
– Algumas coisas. Primeiro, é preciso que mexa um pouco até reduzir o lume e cozinhe, tapado, durante uns quinze minutos. Depois adiciona a berinjela, o quiabo, as ervilhas e o leite de coco e depois temperar com sal, pimenta-do-reino e alho em pó. E... colocar um pouco de conhaque e deixar ferver um pouco mais, lentamente e destapado e deixa-los durante alguns minutos no fogo até ficarem tenros.
Ela ia trabalhando enquanto falava, e pela primeira vez desde que se conheceram Rachel aparentou a idade que tinha – pelo que dissera, era uns três anos mais nova que ela.
– É este seu segredo?
– Isto é só o começo – prometeu ela, dando-se conta mais uma vez da beleza de Quinn – o resto tem haver com acompanhamentos, não com temperos.
– Você parece ser uma grande cozinheira.
– Na verdade, não. Sou boa em algumas coisas, mas hoje em dia não tenho o hábito de fazer comida. Quando chego em casa, em geral quero algo que não exija muito esforço.
– Também sou assim. Se não fosse pelo Tommy, acho que nem cozinharia mais.
Ao terminar mais uma etapa, Rachel foi novamente até a gaveta e voltou para perto dela com uma faca na mão. Pegou alguns tomates que estavam sobre o balcão e pôs-se a picá-los.
– Parece que você tem um ótimo relacionamento com o seu filho.
– Tenho mesmo. Só espero que continue assim. Ele é pré-adolescente, e tenho medo de que ficando mais velho vá passar menos tempo comigo.
– Você não devia ficar preocupada com isso. Pelo modo como fala dele, acho que os dois serão sempre unidos.
– Torço para isso. Neste momento, ele é tudo que tenho. Não sei o que faria se ele começasse a me excluir da sua vida. Tenho alguns amigos com filhos um pouco mais velhos que ele, e eles me dizem que é inevitável.
– Com certeza ele vai mudar um pouco. Todos mudam, mas isso não significa que não vá mais conversar com você.
Ela lançou lhe um olhar rápido.
– Está falando por experiência própria ou está me dizendo o que quero ouvir?
Rachel deu de ombros, notando mais uma vez o perfume dela.
– Estou só me lembrando do que passei com meu pai. Sempre fomos unidos quando eu era criança, e isso não mudou quando eu entrei no ensino médio. Comecei a fazer coisas diferentes e a sair mais com os meus amigos, mas continuávamos conversando muito.
– Espero que aconteça o mesmo comigo – disse ela.
Com os preparativos em andamentos, um silêncio tranquilo se abateu sobre elas. O simples ato de cortar tomates com Quinn ao seu lado tinha diminuído parte da ansiedade que Rachel sentia até então. Quinn era a primeira mulher que Rachel convidava para ir àquela casa, e ela percebeu que havia algo reconfortante no fato de tê-la ali.
Quando terminou, Rachel colocou os tomates na tigela da salada e enxugou as mãos numa toalha de papel. Depois se inclinou para pegar sua segunda cerveja.
– Quer outra?
Quinn bebeu o resto da sua, surpresa por tê-la terminado tão depressa. Assentiu, colocando a garrafa vazia sobre o balcão. Rachel tirou a tampa e estendeu a bebida para ela, abrindo uma segunda para si própria. Quinn estava apoiada no balcão e, quando ela pegou a garrafa, algo nela pareceu familiar a Rachel: o sorriso permanente em seus lábios, talvez, ou o modo como ela a observava erguer sua própria garrafa até a boca. Mais uma vez, recordou a preguiçosa tarde de verão passada com Catherine quando ela a surpreendera indo almoçar em casa – um dia que em retrospecto parecia tão cheio de presságios... Mas como ela poderia ter previsto que tudo aquilo aconteceria? As duas tinham ficado na cozinha exatamente como ela e Quinn estavam agora.
Flashback on...
– Imagino que você já tenha almoçado – disse ela a Catherine, que estava parada na frente da geladeira aberta.
Ela olhou-a de relance.
– Não estou com muita fome – declarou. – Mas estou com sede. Quer um pouco de chá gelado?
– Sim, chá parece ótimo. Sabe se o carteiro já passou?
Catherine assentiu enquanto tirava a jarra de chá da prateleira superior.
– Está tudo em cima da mesa – informou.
Ela abriu o armário e pegou dois copos. Depois de colocar o primeiro sobre o balcão, ela estava servindo o segundo quando este escorregou de sua mão.
– Você está bem? – perguntou Rachel, preocupada, deixando as cartas caírem no chão.
Catherine passou as mãos pelos cabelos, envergonhada, depois se abaixou para recolher os cacos de vidro.
– Fiquei um pouco tonta por um segundo – explicou. – Já vou melhorar.
Rachel foi até ela e começou a ajudar na limpeza.
– Está se sentindo mal de novo?
– Não, mas talvez tenha passado tempo demais lá fora.
Rachel ficou em silêncio por um instante, recolhendo os cacos.
– Tem certeza que devo voltar para o trabalho? Esta semana tem sido bem difícil para você.
– Estou bem. Além disso, sei que você tem muita coisa para fazer por lá.
Embora ela tivesse razão, quando Rachel enfim voltou para o trabalho teve a sensação de que talvez não devesse ter lhe dado ouvidos.
Flashback off.
Ela engoliu em seco, subitamente consciente da imobilidade na cozinha.
– Vou ver como está o concentrado – falou, precisando fazer algo, qualquer coisa. – Espero que esteja pronto.
– Posso arrumar a mesa enquanto isso?
– Claro. Vai encontrar quase tudo bem aqui.
Depois de lhe mostrar onde estavam as coisas de que ela ia precisar, Rachel foi para a varanda, forçando-se a relaxar e a expulsar da mente aquelas lembranças fantasmagóricas. A maresia era fresca, quase inebriante, e pela primeira vez ela percebeu que, apesar da visão de Catherine poucos minutos antes, ainda apreciava o fato de Quinn estar ali. Na verdade, sentia-se feliz – uma sensação que não experimentava havia muito tempo.
Não era só o fato de se darem bem, mas também as pequenas coisas que Quinn fazia. O modo como ela sorria, como a olhava, até mesmo como segurara sua mão naquela tarde – tudo isso começava a lhe dar a sensação de que ela a conhecia havia mais tempo do que na realidade. Rachel se perguntou se isso acontecia porque ela era parecida com Catherine em tantos aspectos ou porque seu pai tinha razão quando dizia que ela precisava passar mais tempo com outra pessoa.
Enquanto ela estava na varando, Quinn arrumou a mesa. Colocou uma taça para vinho junto a cada prato e procurou talheres na gaveta. Ao lado dos utensílios havia duas velas e castiçais pequenos. Depois de se perguntar se aquilo seria demais, ela decidiu coloca-los na mesa – caberia a Rachel acendê-los ou não. Rachel entrou quando ela estava terminando.
– Ainda temos alguns minutos. Quer sentar um pouco lá fora enquanto esperamos?
Quinn pegou sua cerveja e a seguiu. Como na noite anterior, soprava uma brisa suave. Quinn se acomodou numa das cadeiras e Rachel se sentou ao seu lado, com um dos tornozelos apoiado no joelho da outra perna. A camiseta clara dela realçava sua pele bronzeada, e Quinn ficou observando-a enquanto ela contemplava o mar. Ela fechou os olhos por um momento sentindo-se mais viva do que em muito tempo.
– Aposto que você não tem uma vista assim da sua casa em Boston – comentou Rachel, rompendo o silêncio.
– Tem razão, não tenho mesmo. Moro num apartamento. Meus pais acham que eu sou louca por morar no centro. Acham que eu deveria ir viver no subúrbio.
– E por que não vai?
– Eu morava lá antes do divórcio. Agora é mais fácil assim. Posso chegar ao trabalho em poucos minutos, a escola de Tommy fica no mesmo quarteirão e nunca preciso pegar estrada, a não ser para sair da cidade. Além disso, queria algo diferente depois que meu casamento acabou. Não conseguia suportar os olhares dos vizinhos depois que souberam que Noah tinha ido embora.
– Como assim?
Ela deu de ombros e respondeu com a voz mais baixa:
– Nunca lhes contei por que Noah e eu nos separamos. Achei que não era da conta deles.
– E não era mesmo.
Ela silenciou por um instante, recordando.
– Sei disso, mas na cabeça deles Noah era um ótimo marido. Era bonitão e bem-sucedido, e eles não queriam acreditar que ele faria alguma coisa errada. Mesmo quando estávamos juntos, Noah agia como se fosse tudo perfeito. Eu não tinha a menor ideia de que ele estava tendo um caso, até o final.
Quinn a fitou com a expressão de mágoa.
– Como dizem, a esposa é sempre a última a saber.
– Como foi que você descobriu?
Ela balançou a cabeça.
– Sei que parece clichê, mas descobri através da lavanderia. Quando fui buscara as roupas dele. O funcionário me entregou alguns recibos que tinham ficado no bolso do paletó. Um deles era de um hotel no centro. E eu sabia pela data, que ele estava em casa naquela noite, de modo que devia ter sido à tarde. Ele negou quando o confrontei, mas pelo jeito que me olhou eu sabia que estava mentindo. Por fim, a história toda veio à tona e eu pedi o divórcio.
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