Message in a bottle

14 Capítulo 13


Notas iniciais
Oi...

– E aí o que aconteceu?

Leroy Berry inclinou-se sobre a xícara de café, falando com a voz mansa. Com quase 50 anos, tinha altura mediana, era magro e tinha rugas profundas no rosto. Os cabelos já estavam embranquecendo. Tinha algumas cicatrizes nos braços cobertos de manchas de sol e os nós dos dedos estavam meio inchados pelos anos que ele trabalhava como camaroneiro. Se olhassem para ele assim, pensariam que ele está doente, mas a verdade estava longe disso: ele ainda trabalhava quase todos os dias, embora agora em meio expediente, saindo de casa antes do amanhecer e voltando por volta do meio-dia.

– Nada. Ela entrou no carro e foi embora.

Acendendo o primeiro da dúzia de cigarros que fumava por dia, Leroy encarou a filha. Durante anos seu médico dissera que o cigarro iria matá-lo, mas, como o próprio médico tinha morrido de enfarte aos 40 anos, Leroy não levava muita fé em conselhos do tipo. Rachel acreditava que provavelmente o pai iria viver mais que ela.

– Bom, foi um desperdício, não foi?

Rachel ficou surpresa com sua maneira de falar.

– Não, pai, não foi um desperdício. Eu me diverti bastante. Foi agradável conversar com ela, e apreciei a sua companhia.

– Mas não vai sair com ela de novo.

Rachel deu um gole no café e balançou a cabeça.

– Acho que não. Como eu disse, ela está aqui de férias.

– Por quanto tempo?

– Não sei. Não perguntei.

– Por que não?

Rachel estendeu a mão para outro potinho de creme e derramou o conteúdo em seu café.

– Por que está tão interessado, afinal? Fui velejar com uma pessoa e me diverti. Não há mais nada a dizer sobre isso.

– Claro que há.

– O quê, por exemplo?

– Por exemplo, se você se divertiu o suficiente para começar a sair com outras pessoas novamente.

Rachel mexeu o café com ar pensativo. Então era isso. Embora ao longo dos anos tivesse se acostumado com os interrogatórios do pai, naquela manhã ela não estava no clima para discutir o assunto de novo.

– Pai, já falamos sobre isso outras vezes.

– Eu sei, mas estou preocupado com você. Tem passado muito tempo sozinha.

– Não tenho, não.

– Tem, sim – insistiu o pai, com ternura.

– Não quero discutir, pai.

– Nem eu. Já tentei e não deu certo. – Leroy sorriu e, depois de um instante de silêncio, tentou uma nova abordagem: – Então, como ela era?

Rachel considerou a pergunta por um momento. Contra a própria vontade, ficara pensando nela por um longo tempo antes de ir se deitar na noite anterior.

– Quinn? É atraente e inteligente. Muito simpática também, a seu modo.

– Solteira?

– Acho que sim. É divorciada, e imagino que não teria saído comigo se fosse comprometida com alguém.

Enquanto a filha falava, Leroy estudou cuidadosamente a expressão dela. Quando Rachel ficou em silêncio, o pai tornou a se inclinar sobre a xícara de café.

– Você gostou dela, não foi?

Olhando dentro dos olhos do pai, Rachel viu que não conseguiria esconder a verdade.

– É, gostei. Mas, como eu disse, não devo vê-la de novo. Não faço ideia de onde está hospedada e, pelo que sei, ela pode até ir embora hoje mesmo.

Leroy observou-a em silêncio antes de fazer a pergunta seguinte, com toda a cautela:

– Mas se ela ainda estivesse aqui e você soubesse onde, acha que iria procurá-la?

Rachel afastou o olhar sem responder. Leroy estendeu a mão por cima da mesa e segurou o braço da filha. Mesmo aos 50 anos, ele tinha mãos fortes, e Rachel sentiu-o fazer pressão suficiente apenas para chamar a sua atenção.

– Minha filha, já se passaram três anos. Sei que você a amava, mas agora o certo é deixar o passado para trás. Você sabe disso, não sabe? Tem que conseguir retomar a sua vida.

Rachel levou um momento para responder:

– Eu sei, pai, mas não é tão fácil assim

.

– Nada que valha a pena é fácil. Lembre-se disso.

Terminaram o café poucos minutos depois. Rachel jogou alguns dólares sobre a mesa e seguiu o pai para fora da lanchonete, em direção ao seu furgão no estacionamento. Quando enfim chegou à loja, dezenas de coisas lhe passavam pela cabeça. Incapaz de se concentrar no trabalho burocrático que a esperava, resolveu voltar às docas e terminar o conserto do motor que tinha começado na véspera. Embora definitivamente precisasse passara algum tempo na loja, naquele momento sentia a necessidade de ficar sozinha.

##

Rachel puxou a caixa de ferramentas da caçamba do furgão e levou-a para o barco que utilizava quando dava aulas de mergulho. Era uma velha baleeira que comportava até dez alunos mais o equipamento.

Consertar o motor era um trabalho demorado – ainda mais para alguém tão pequeno – mas não difícil, e ela já tinha adiantado bastante na véspera. Enquanto removia a caixa do motor, pensava na conversa que tivera com o pai. Leroy tinha razão, é claro. Não havia motivo para continuar sentindo o que sentia, mas Deus era testemunha que não conseguia mudar. Catherine tinha sido tudo para ela. Bastava que ela a olhasse para Rachel saber que tudo estava certo no mundo. E quando ela sorria...Por Deus, aquele sorriso era algo que ela nunca conseguira encontrar em outra pessoa. E ter uma felicidade como essa arrancada de si...não era justo. Mais do que isso, parecia errado. Por que logo Catherine? E por que ela? Durante meses ficara acordada à noite, perguntando-se como seria sua vida se as coisas tivessem acontecido de uma forma diferente. E se ela tivesse esperado um segundo antes de atravessar a rua? E se as duas tivessem demorado mais alguns minutos tomando café da manhã? E se ela tivesse ido com Catherine naquela manhã em vez de ir direto para a loja? Depois de mil conjecturas, ela não estava mais perto de compreender do que estivera logo depois que aconteceu.

Tentando clarear a mente, concentrou-se na tarefa à sua frente. Removeu os parafusos que prendiam o carburador no lugar e removeu-o do motor. Pôs-se a desmontá-lo com todo o cuidado, para verificar se havia dentro dele alguma peça gasta. Não acreditava que fosse essa a causa do problema, mas queria dar uma olhada, só para certificar.

O sol se erguia no céu, enquanto Rachel trabalhava num ritmo regular, e ela logo começou a enxugar o suor que passou a se formar em sua testa. Lembrou que àquela mesma hora, na véspera, observava Quinn descer as docas na direção do Happenstance. Notara a presença dela logo de início, talvez porque ela estivesse sozinha. Mulheres com a aparência dela quase nunca iam às docas sozinhas: em geral estavam acompanhadas por cavalheiros ricos e mais velhos, proprietários dos iates atracados no outro lado da marina. Quando Quinn parara junto ao Happenstance, ela ficara surpresa, embora tivesse imaginado que Quinn faria apenas uma pausa ali por uns instantes antes de seguir seu caminho – o que a maioria das pessoas normalmente fazia. Mas, depois de observá-la por algum tempo, percebera que ela fora às docas para ver o seu barco, e o modo como ela o estudava de vários ângulos dava a impressão de que estava ali para algo mais, além disso.

Rachel ficara curiosa e fora até lá para falar com ela. Na ocasião, ela não tinha percebido, mas depois, quando estava preparando o barco para o pernoite, tinha se dado conta que havia algo estranho no modo como Quinn olhara para ela pela primeira vez. Era quase como se reconhecesse nela alguma coisa que Rachel costumava manter em segredo. Mais do que isso, era como se soubesse mais sobre ela do que estava disposta a admitir.

Então balançou a cabeça, consciente de aquilo não fazia sentido. Quinn dissera que lera os artigos na loja – talvez viesse daí aquele olhar estranho. Ela pensou sobre o assunto e por fim concluiu que devia ser isso mesmo. Sabia que nunca falara com ela antes, pois teria se lembrado. Além disso, ela morava em Boston e estava em viagem de férias. Foi a única explicação plausível que lhe ocorreu, mas mesmo assim havia algo na situação toda que não se encaixava muito bem.

Mas isso não tinha importância.

As duas tinham velejado juntas, tinham apreciado a companhia uma da outra e depois se despediram. Fim de história. Como afirmara ao pai, não conseguiria encontra-la mesmo se quisesse. Naquele momento ela já devia estar voltando para Boston, ou estaria dentro de alguns dias, e ela tinha mil coisas para fazer naquela semana. O verão era a principal estação de procura por aulas de mergulho, e ela tinha alunos marcados para todos os fins de semana até o final de agosto. Não tinha tempo ou disposição para ligar para todos os hotéis de Wilmington para encontra-la e, mesmo que tivesse, o que diria? O que poderia dizer que não soasse ridículo?

Com essas perguntas em mente, continuou trabalhando no motor. Depois de achar e substituir uma juta que vazava, tornou a instalar o carburador e fechou o motor. Em seguida, ligou-o. Como o barulho estava normal, soltou as cordas que prendiam a baleeira e circulou com ela durante quarenta minutos. Testou diversas velocidades, ligando e desligando o motor várias vezes, e quando ficou satisfeita levou o barco de volta à doca. Feliz por ter demorado menos temo do que pensara, recolheu as ferramentas, levou-as de volta para o furgão e dirigiu por alguns quarteirões até a Island Diving.

Como sempre, havia papéis empilhados sobre a escrivaninha, e Rachel passou algum tempo analisando-os. A maioria era de formulários já preenchidos, encomendando mercadorias de que a loja precisava. Havia também algumas contas. Ela se acomodou na cadeira e logo acabou com a burocracia.

Pouco antes das onze, Rachel terminou tudo o que precisava ser feito e dirigiu-se à frente da loja. Jake, um dos empregados de verão, falava ao telefone e estendeu três pedaços de papel a Rachel quando esta se aproximou. Os dois primeiros eram de fornecedores e, pelas curtas mensagens rabiscadas, parecia que houvera uma confusão com algumas das encomendas que tinham feito recentemente. Mais uma coisa para resolver, pensou, voltando ao escritório nos fundos.

No caminho, leu a terceira mensagem e estacou quando percebeu de quem era. Leu o nome de novo para se certificar de que não tinha se enganado, entrou no escritório e fechou a porta. Discou o número e falou o número do quarto.

Quinn Fabray estava lendo o jornal quando o telefone tocou e atendeu no segundo toque.

– Oi, Quinn, é a Rachel. Recebi aqui um recado de que você ligou.

– Ah, oi, Rachel. Obrigada por ligar de volta. Como vai? – disse ela, parecendo feliz em ouvi-la.

A voz de Quinn lhe trouxe lembranças da noite anterior. Ela sorriu ao imaginá-la sentada no quarto de hotel.

– Bem, obrigada. Estava cuidando da papelada da loja e recebi o seu recado. O que posso fazer por você?

– Bom, esqueci meu casaco no seu barco ontem à noite e queria saber se você encontrou.

– Não, mas também não procurei. Você deixou na cabine?

– Não tenho certeza.

Rachel ficou em silêncio por um instante.

– Bom, vou até lá dá uma olhada. Depois ligo para você e digo se encontrei.

– Não é trabalho demais?

– Claro que não. Não vai levar mais que alguns minutos. Você vai ficar aí por mais algum tempo?

– Vou, sim.

– Está bem, eu ligo daqui a pouco.

Rachel despediu-se e saiu da loja, caminhando em passos rápidos até a marina. Depois de subir a bordo do Happenstance, destrancou a cabine e desceu. Não encontrou o casaco, então se virou e deu uma olhada no convés. Avistou-o perto da popa, parcialmente escondido sob uma das almofadas do banco. Pegou-o, certificou-se de que não estava manchado e voltou à loja.

Foi para o escritório e ligou para o numero escrito no pedaço de papel. Dessa vez Quinn atendeu no primeiro toque.

– É a Rachel outra vez. Encontrei seu casaco.

Ela soou aliviada.

– Muito obrigada por ter ido procurá-lo.

– Não foi trabalho nenhum.

Quinn ficou em silêncio, como se decidindo o que fazer. Finalmente, pediu:

– Será que você pode guardá-lo para mim? Posso chegar à sua loja em vinte minutos para pegá-lo.

– Será um prazer.

Depois de desligar, Rachel se encostou na cadeira, pensando no que tinha acabado de acontecer. Então Quinn ainda não tinha ido embora da cidade e ela iria vê-la outra vez. Embora não conseguisse entender como ela poderia ter esquecido o casaco, pois tinha levado poucas coisas, uma coisa estava clara: ela tinha ficado muito satisfeita por aquilo ter acontecido.

Não que isso tivesse importância, naturalmente.

##

Quinn chegou cerca de vinte minutos depois, usando um short e uma blusa decotada e sem mangas que valorizava maravilhosamente as suas curvas. Quando entrou na loja, tanto Jake quanto Rachel a observaram enquanto ela olhava em volta. Quando enfim a avistou, ela sorriu e cumprimentou-a de longe. Jake olhou para Rachel de sobrancelha erguida, como se perguntasse: “ O que você anda me escondendo?”

Rachel ignorou a expressão do funcionário e encaminhou-se para Quinn com o casaco na mão. Sabia que Jake iria prestar atenção em tudo o que fizesse e interroga-la depois, embora ela planejasse não contar nada.

– Está como novo — disse, estendendo o casaco quando ela se aproximou.

Enquanto Quinn não chegava, Rachel limpara a graxa das mãos e vestira uma das novas camisetas à venda na loja. Não era maravilhosa, mas dava-lhe uma aparência melhor que a de antes – pelo menos agora ela parecia limpa.

– Obrigada por ter ido buscá-lo – falou ela.

Havia em seus olhos algo que a fez sentir a mesma atração por ela que experimentara no dia anterior. Ela coçou o rosto distraidamente.

– Foi um prazer. Acho que o vento deve tê-lo empurrado para fora de vista.

– Imagino que sim – respondeu Quinn, com um ligeiro dar de ombros.

Rachel observou enquanto ela ajeitava a alça da blusa. Não sabia se Quinn estava com pressa e não tinha certeza se queria que ela fosse embora logo. Disse as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça:

– Eu me diverti muito ontem à noite.

– Eu também.

Quinn olhou-a nos olhos enquanto falava e Rachel deu um leve sorriso. Não sabia mais o que dizer – havia muito tempo não passava por uma situação assim. Embora sempre fosse expansiva com clientes e pessoas em geral, aquilo era completamente diferente. Ficou passando o peso do corpo de uma perna para outra, sentindo-se com 16 anos de novo. Por fim foi Quinn quem quebrou o silêncio:

– Acho que lhe devo alguma coisa por ter tido esse trabalho.

– Não seja boba, você não me deve nada.

– Talvez não por ir buscar meu casaco, mas também por ontem à noite.

Rachel balançou a cabeça.

– Também não. Fiquei feliz por você ter ido.

Fiquei feliz por você ter ido. As palavras ficaram ecoando na mente de Rachel a partir do momento em que ela as pronunciou. Dois dias antes, ela não teria conseguido imaginar-se dizendo-as a alguém.

O telefone tocou ao fundo e o som arrancou-a de seus pensamentos. Para ganhar tempo, ela perguntou:

– Você veio de tão longe só para pegar o casaco ou estava planejando dar um passeio também?

– Na verdade, não planejei nada. Está quase na hora do almoço, então eu ia comer alguma coisa. – Quinn a encarou. – Tem alguma recomendação?

Ela pensou antes de responder:

– Gosto do Hank´s, que fica no cais. A comida é fresca e a vista é esplêndida.

– Onde fica exatamente?

Ela fez um gesto por cima do ombro.

– Em Wrightsville Beach. Pegue a ponte para a ilha e vire à direita. É fácil, basta só seguir as placas para o cais. O restaurante fica lá.

– É especializado em que tipo de comida?

– Principalmente frutos do mar. Eles têm camarões e ostras sensacionais, mas se você preferir outro tipo de comida eles também tem hambúrgueres e coisas assim.

Quinn esperou para ver se Rachel diria mais alguma coisa, e como ela ficou quieta, ela desviou os olhos, dirigindo-os para as vitrines. Ficou ali parada e pela segunda vez em poucos minutos Rachel ficou sem jeito na presença dela. O que havia em Quinn que a fazia sentir-se assim? Enfim, após se controlar, ela falou:

– Se quiser, posso leva-la até lá. Estou ficando com fome também, e se você aceitar companhia, será um prazer.

Ela sorriu.

– Acho uma ótima ideia, Rachel.

Ela pareceu aliviada.

– Meu furgão está nos fundos. Quer que eu dirija?

– Você conhece o lugar melhor que eu – respondeu Quinn.

Rachel indicou o caminho por dentro da loja até a porta dos fundos. Caminhando um pouco atrás para que Rachel não visse sua expressão, Quinn não conseguiu deixar de sorrir.

##

O Hank´s funcionava desde que o cais fora construído e era frequentado tanto pelos moradores quanto por turistas. Com um ambiente discreto, mas com muita personalidade, era parecido com os restaurantes do cais de Cape Cod – piso de madeira gasta por anos de sapatos sujos de areia, amplas janelas com vista para o oceano Atlântico e fotos de pescadores com seus troféus nas paredes. A um lado ficava a porta que levava à cozinha, e Quinn viu garçons e garçonetes de shorts e camisetas azuis com o nome do restaurante estampado carregando bandejas com pratos de frutos do mar. As mesas e cadeiras eram de madeira, de aparência resistente, decoradas com entalhes de centenas de frequentadores. Não era um lugar formal, e Quinn percebeu que a maioria das pessoas parecia ter passado boa parte da manhã deitada ao sol e depois ido direto para lá.

– Confie em mim – disse Rachel, enquanto se encaminhavam a uma mesa. – A comida é maravilhosa, apesar da aparência do lugar.

Sentaram-se a uma mesa perto do cant5o e Rachel empurrou para o lado duas garrafas de cervejas vazias que ainda não tinham sido recolhidas. Os cardápios estavam apoiados num conjunto de frascos de plástico com condimentos como ketchup, molho de pimenta, molho tártaro, molho rosé e outro intitulado apenas “Hank´s”. Com uma plastificação barata, os cardápios pareciam não ser trocados há anos. Ao olha em volta, Quinn observou que quase todas as mesas estavam ocupadas.

– Está lotado – comentou, acomodando-se.

– Sempre está. Mesmo antes de Wrightsville Beach ficar popular entre os turistas, este restaurante era uma espécie de lenda. Nos fins de semana é difícil conseguir lugar sem esperar algumas horas.

– Por que enche tanto?

– Pela comida e pelos preços. Todas as manhãs Hank recebe uma carga de peixes e camarões frescos, e é possível fazer uma refeição completa sem gastar mais que 10 dólares, incluindo a gorjeta. E algumas cervejas.

– Como é que ele consegue manter os preços tão baixos?

– Acho que é pelo volume da clientela. Como eu disse, o restaurante está sempre lotado.

– Então tivemos sorte de conseguir uma mesa.

– Tivemos. Mas chegamos antes dos moradores locais, e os turistas nunca ficam muito tempo. Entram correndo para comer alguma coisa rápida e voltam para debaixo do sol.

Quinn olhou ao redor mais uma vez, antes de examinar o cardápio.

– E aí, o que você recomenda?

– Gosta de frutos do mar?

– Adoro.

– Então, o atum ou o golfinho. Os dois são deliciosos.

– Golfinho? – estranhou ela.

Rachel riu baixinho.

– Não é o Flipper. É o peixe-golfinho. É assim que ele se chama por aqui.

– Acho que vou querer o atum – disse ela, com uma piscadela. – Só por via das dúvidas.

– Acha que eu ia inventar uma coisa dessas?

– Não sei – respondeu Quinn, em tom brincalhão. – Lembre-se de que só nos conhecemos ontem. Ainda não sei o suficiente sobre você para ter total certeza do que é capaz de fazer.

– Estou magoada – retrucou Rachel no mesmo tom.

As duas riram e, depois de um momento, Quinn surpreendeu Rachel ao estender a mão e tocar por um instante o braço dela. Rachel lembrou de repente que Catherine costumava fazer q mesma coisa para chamar sua atenção.

– Olhe ali – disse Quinn, indicando as janelas com um gesto de cabeça.

Rachel virou-se para ver. No cais, um homem de idade avançada carregava seu equipamento de pesca, uma figura totalmente corriqueira não fosse pelo enorme papagaio empoleirado no ombro.

Rachel balançou a cabeça e sorriu, ainda sentindo os resquícios do toque dela em seu braço.

– Temos todo tipo de gente aqui. Não chega a ser como a Califórnia, mas espere só alguns anos.

Quinn ficou observando o homem descer o cais.

– Você devia arrumar um daqueles para lhe fazer companhia enquanto estiver velejando.

– E acabar com o silêncio? Conhecendo a minha sorte, provavelmente o bicho não falaria. Ia ficar cacarejando o tempo todo, arrancando um pedaço da minha orelha com o bico a cada vez que o vento mudasse.

– Mas você ia ficar parecendo uma pirata.

– Ia ficar parecendo uma idiota.

– Ah, você não tem senso de humor – comentou Quinn com careta de brincadeira. Depois de uma breve pausa, ela olhou em volta. – Então, eles têm alguém para servir ou temos que pescar e preparar nosso peixe?

– Malditos ianques... – resmungou ela, balançando a cabeça.

Ela tornou a rir, perguntando-se se Rachel estaria se divertindo tanto quanto ela e sabendo, de algum modo, que sim.

Instantes depois, a garçonete apareceu e anotou os pedidos. Tanto Quinn quanto Rachel quiseram cerveja. Depois de algum tempo, a jovem retornou com duas garrafas.

– Sem copos? – perguntou Quinn, com uma sobrancelha erguida, depois que a garçonete se afastou.

– É. Este lugar tem muita classe.

– Estou entendendo porque você gosta tanto daqui.

– Está insinuando que não tenho bom gosto?

– Só se o assunto deixar você insegura.

– Agora você está parecendo uma psiquiatra.

– Não sou psiquiatra, mas sou mãe, e isso me torna uma especialista na natureza humana.

– Ah, é mesmo?

– É o que eu digo ao Tommy.

Rachel bebeu um gole da cerveja.

– Falou com ele hoje?

Ela assentiu e também bebeu um gole.

– Só rapidinho. Ele estava indo para Disneylândia quando liguei. Eles queriam chegar bem cedo, então não deu para conversar muito. Tommy queria ser um dos primeiros da fila para o Indiana Jones.

– Ele está se divertindo com o pai?

– Está adorando. Noah sempre teve jeito com ele, e acho que tenta compensar o fato de não vê-lo com frequência. Sempre que Tommy vai para lá, sabe que será divertido e interessante.

Rachel encarou-a com curiosidade.

– Você fala como se não tivesse muita certeza disso.

Ela hesitou antes de responder:

– Bem, eu só espero que ele não tenha uma decepção mais tarde. Noah e a nova esposa estão com um bebê e, assim que o menino estiver maior, acho que vai ser muito mais difícil para Noah e Tommy saírem juntos.

– É impossível proteger os filhos das decepções da vida – comentou Rachel, inclinando-se para frente enquanto falava.

– Sei disso, sei mesmo. É só que...

Ela parou, e Rachel gentilmente terminou a frase para ela:

– Ele é seu filho e você não quer vê-lo magoado.

– Isso mesmo.

No lado externo da garrafa tinham se acumulado gotas de condensação, e Quinn começou a arrancar o rótulo. Mais uma vez, era algo que Catherine costumava fazer. Rachel bebeu outro gole da cerveja e forçou a mente a voltar para a conversa.

– Não sei o que dizer, a não ser que tenho certeza de que, se Tommy for parecido com você, vai se sair bem.

– Como assim?

Ela deu de ombros.

– A vida não é fácil para ninguém, inclusive para você, que também já passou por épocas difíceis. Acho que, vendo a mãe vencer as adversidades, ele vai aprender a fazer a mesma coisa.

– Agora é você que está parecendo uma psiquiatra.

– Só estou lhe dizendo o que eu aprendi. Eu tinha mais ou menos a idade do Tommy quando minha mãe morreu de câncer. O exemplo do meu pai me ensinou que eu tinha que seguir com a vida, não importava o que acontecesse.

– Seu pai se casou de novo?

– Não – retrucou Rachel, balançando a cabeça. – Acho que houve ocasiões em que ele gostaria de ter se casado, mas isso nunca aconteceu.

Então é isso, Quinn pensou. Tal pai, tal filha.

– Ele ainda mora aqui?

– Mora. Nós estamos sempre juntos. Tentamos nos ver pelo menos uma vez por semana. Ele gosta de me manter na linha.

Ela sorriu.

– A maioria dos pais são assim.

Continua...

Notas finais
Desculpe pelos erros no capítulo... não costumo revisá-los rs, mas, tá valendo. Qualquer coisa reclamem lá nos comentários tá ;-). Bom, o próximo capítulo é o complemento desse... Vou tentar não demorar tanto a postar galera :-/ Ah, comentem rs!