Message in a bottle
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Rachel viu-a chegar pouco depois das sete, usando um short e uma blusa vermelha sem mangas, carregando uma cestinha de piquenique numa das mãos e um pulôver e um casaco leve na outra. Não parecia estar tão nervosa quanto Rachel e sua expressão não revelou o que ela pensava enquanto se aproximava. No momento em que Quinn acenou, ela experimentou a familiar onda de sentimento de culpa e retribuiu rapidamente o cumprimento, antes de terminar de desatar as cordas. Resmungava consigo mesma e fazia o possível para se acalmar quando ela chegou ao barco.
– Oi! Espero que não esteja esperando há muito tempo.
El tirou as luvas que estava usando e disse:
– Ah, oi. Não estou, não. Cheguei um pouco mais cedo para preparar as coisas.
– Terminou de fazer tudo que precisava?
Ela deu uma olhada em volta para se certificar.
– É, acho que sim. Quer ajuda para subir?
Rachel colocou as luvas de lado e estendeu-lhe o braço. Quinn entregou-lhe as coisas que levava e ela as colocou sobre um dos bancos que acompanhavam as laterais do convés. Quando Rachel segurou as mãos dela a fim de puxá-la para cima, ela sentiu algo parecido com calo na sua palma. Depois que Quinn já estava em segurança, Rachel indicou o timão com um gesto, dando um pequeno passo para trás.
– Está pronta para partir?
– Quando quiser.
– Então pode se sentar. Vou colocar o barco na água. Quer beber alguma coisa antes de partirmos? Tenho refrigerantes na geladeira.
– Não, obrigada, estou bem – retrucou ela, fazendo um gesto negativo com a cabeça.
Olhou em volta do barco antes de se acomodar no canto. Observou enquanto Rachel girava uma chave e o motor começava a funcionar. Depois ela se afastou do timão e soltou as duas cordas que prendiam o barco no lugar. Lentamente o Happenstance começou a recuar para fora da rampa. Um pouco surpresa, Quinn comentou:
– Eu não sabia que havia um motor.
Rachel virou-se e respondeu por cima do ombro, falando alto para que ela conseguisse ouvir:
– É um motor pequeno, só o suficiente para conseguirmos subir e descer da rampa. Colocamos um motor novo quando o restauramos.
O Happenstance afastou-se da rampa, depois da marina. Uma vez em segurança nas águas do canal, Rachel virou o barco na direção do vento e desligou o motor. Calçou as luvas e levantou a vela a toda a velocidade. O veleiro começou a se mover ao sabor do vento, e um instante depois Rachel estava junto à Quinn, inclinando-se na direção dela.
– Cuidado com a cabeça, a retranca vai passar por cima de você.
Em seguida, as ações se sucederam com surpreendente rapidez. Ela baixou a cabeça e observou tudo acontecer como ele dissera. A retranca moveu-se acima dela, levando consigo a vela para capturar o vento. Quando chegou a posição correta, Rachel usou as cordas para tornar a prendê-la. Antes que Quinn tivesse tempo de piscar, Rachel já estava de volta ao timão, fazendo ajustes e observando a vela por cima dos ombros, como para se certificar de ter feito tudo certo. Tudo isso levou menos de trinta segundos.
– Não sabia que era preciso fazer tudo tão depressa. Pensava que velejar fosse um esporte tranquilo.
Rachel tornou a olhar por cima do ombro. Catherine costumava sentar-se no mesmo lugar, e, com o sol poente cortando as sombras, houve um breve momento em que imaginou que estivesse com ela. Afastou o pensamento e pigarreou.
– E é, quando estamos no mar, sem outras pessoas por perto. Mas agora estamos no canal, e temos que fazer o possível para ficar fora do caminho dos outros barcos.
Ela segurava o timão quase imóvel, e Quinn sentiu o Happenstance ganhar velocidade aos poucos. Levantou-se, aproximou-se de Rachel e parou ao lado dela. A brisa soprava e, embora Quinn sentisse no rosto, ela não lhe parecia forte o suficiente para encher uma vela.
– Certo, acho que conseguimos – disse Rachel com um sorriso tranquilo, olhando-a de relance. – Acho que não vamos precisar nos mover em ziguezague. A não ser que o vento mude, é claro.
Seguiam na direção da entrada do canal. Como sabia que Rachel estava concentrada, Quinn ficou em silêncio, parada ao lado dela. Pelo canto dos olhos, observava-a: as mãos no timão, as pernas incrivelmente longas sustentando alternadamente o peso dela enquanto o barco disparava ao vento.
No silêncio que se seguiu, Quinn olhou em volta. Como a maioria dos veleiros, o Happenstance tinha dois níveis: o convés inferior externo, onde estavam, e o convés da proa, pouco mais de um metro mais alto, que se estendia até a frente do barco. Era ali que ficava a cabine, onde havia duas janelinhas cobertas por uma fina camada de sal marinho que tornava impossível ver lá dentro. Uma portinha levava ao interior, e era baixa o suficiente para obrigar as pessoas a baixar a cabeça ao passar.
Virando-se de novo para ela, perguntou-se quantos anos Rachel teria. Aparentava 30 e poucos anos – Quinn não conseguia ser mais precisa que isso. Fitá-la de perto não ajudava muito – o rosto era muito exótico de uma beleza ímpar.
Quinn tornou a pensar que ela não era a mulher mais linda do mundo para muitos, mas para ela havia muito mais que beleza, havia algo muito mais atraente – algo indefinível.
Mais cedo, quando falara com Santana pelo telefone, tentara descrevê-la, mas, como ela não se parecia om ninguém que ela já havia conhecido em Boston, tivera alguma dificuldade. Dissera que ela tinha mais ou menos a sua idade, era linda, mas parecia natural, como se seu corpo fosse resultado simplesmente da vida que ela escolhera. Essa foi a caracterização mais aproximada que ela conseguira fazer, embora depois de vê-la outra vez de perto, agora, achasse que não tinha se afastado muito da realidade.
Santana ficou entusiasmada quando a amiga lhe contara que iam velejar aquela noite, apesar de Quinn ter sido tomada por diversas dúvidas logo depois. Por um momento, tivera medo de ficar sozinha com uma desconhecida – sobretudo no meio do mar – mas convencera-se de que seus temores eram infundados. Será como qualquer outro encontro, dissera a si mesma durante a maior parte da tarde. Não leve isso muito a sério. Quando chegou a hora de ir para as docas, contudo, ela quase desistiu. Por fim, decidiu que aquilo era algo que precisava fazer, principalmente por si mesma, mas também por causa da bronca que Santana lhe daria se ela não fosse.
Ao se aproximarem da entrada do canal, Rachel girou o timão, fazendo o veleiro se afastar da margem e tomar a direção das águas profundas. Ela olhava de um lado para o outro, atenta à aproximação de outros barcos enquanto firmava o timão. Apesar do vento instável, ela parecia ter controle absoluto da embarcação, dando a Quinn a impressão de saber exatamente o que estava fazendo.
Enquanto o Happenstance cortava a água, as andorinhas-do-mar voavam em círculos acima delas. As velas fremiam ruidosamente. A água passava depressa ao longo da lateral do barco. Tudo parecia estar em movimento ao mesmo tempo que elas deslizavam sob o céu cada vez mais cinzento da Carolina do Norte.
Quinn cruzou os braços e pegou seu pulôver. Vestiu-o, contente por tê-lo levado: o ar já parecia bem mais frio do que quando tinham partido. O sol se punha mais depressa do que ela imaginara, e a luz cada vez mais fraca refletia-se nas velas, lançando sombras no convés.
Atrás do barco, a água sibilava e formava redemoinhos. Quinn se aproximou para enxergar melhor. A visão da água espumante era hipnótica. Mantendo o equilíbrio, ela colocou a mão na amurada e sentiu um pedaço que ficara por lixar. Ao olhar com atenção, notou uma inscrição entalhada ali: Construído em 1934 – Restaurado em 2001.
As ondas provocadas por uma embarcação maior que passou ao largo fez com que o barco balançasse, e Quinn voltou para perto de Rachel. Ela estava mais uma vez girando o timão, agora num ângulo menor, e Quinn percebeu um sorriso fugaz quando ela gesticulou na direção do mar aberto. Observou-a até que a mesma estabilizasse o veleiro.
Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, ela fizera algo completamente espontâneo, uma que uma semana antes jamais imaginara fazer. E agora que estava ali, ela não sabia o que esperar. E se Rachel acabasse sendo muito diferente do que tinha imaginado? Sem dúvida ela voltaria para Boston sabendo a verdade... Mas no momento esperava não ter que ir embora logo. Coisas demais já tinham acontecido...
Depois que se distanciou o bastante dos outros barcos, Rachel pediu a Quinn que segurasse o timão.
– É só mantê-lo firme- ensinou.
Mais uma vez ajustou as velas, aparentemente em menos tempo do que antes. Ao voltar ao timão, Rachel se certificou de que o barco estava na direção do vento, então fez um pequeno laço na corda da bujarrona e passou-o em volta do cabreste do timão, deixando uma folga de cerca de 3 centímetros.
– Certo, não teremos problemas – afirmou, dando um tapinha no timão, certificando-se de que ele manteria a posição. – Podemos nos sentar, se quiser.
– Você não precisa ficar segurando o timão?
– É para isso que serve o laço. Às vezes, quando o vento está muito instável, é preciso segurar o tempo todo. Mas hoje tivemos sorte. Poderíamos velejar nessa direção durante horas.
Com o sol baixando bem devagar atrás delas, Rachel conduziu Quinn ao lugar onde ela estivera sentada antes. Depois de checarem se não havia nada atrás dela que pudesse rasgar-lhe a roupa, as duas se acomodaram no canto – Quinn de lado, Rachel na popa, de modo a ficarem de frente uma para outra. Sentindo o vento no rosto, Quinn puxou os cabelos para trás e ficou contemplando a água.
Rachel a observou enquanto ela fazia isso. Era mais alta que ela (cerca de 1,67 cm, calculou), tinha um rosto lindo e um corpo que lembrava muitas mulheres que já havia visto na tv. No entanto, embora fosse atraente, havia nela algo que mais lhe atraíra o olhar. Era inteligente, isso ela logo sentiu, e confiante também, como se fosse capaz de viver fazendo apenas o que queria. Para ela, essas coisas eram as que realmente importavam. Sem elas, a beleza não valia nada.
De certo modo, quando olhava para ela lembrava-se de Catherine. Sobretudo a expressão. A esposa parecia sonhar acordada enquanto contemplava a água, e ela sentiu os pensamentos voltarem para a última ocasião em que tinham velejado juntas. Mais uma vez sentiu-se culpada, embora tivesse feito o possível para afastar esses sentimentos. Balançou a cabeça e ajeitou a pulseira do relógio distraidamente, primeiro folgando-a, depois tornando a apertá-la até a posição original.
– Aqui é muito lindo – disse Quinn, afinal. – Obrigada por ter me convidado.
Rachel ficou feliz pelo silêncio ter sido cortado.
– De nada. É bom ter companhia de vez em quando.
Ela sorriu ao ouvir isso, perguntando-se se Rachel falava a sério.
– Você costumava velejar sozinha?
Rachel inclinou-se para trás enquanto falava, estendendo as pernas diante de si.
– Em geral, sim. É uma boa maneira de relaxar depois do trabalho. Por mais que o dia seja tenso, depois que chego aqui parece que o vento leva tudo para longe.
– Mergulhar é tão difícil assim?
– Não, não é o mergulho em si. Essa é a parte divertida. Todo o resto é que é duro. A burocracia, as pessoas que cancelam as aulas na última hora, ter que deixar a loja sempre bem abastecida... Isso tudo faz o dia ser cansativo.
– Imagino. Mas você gosta, não é?
– É, gosto. Não trocaria o que faço por nada. – Fez uma pausa e ajeitou o relógio no pulso. – Então, Quinn, o que você faz?
Essa era uma das poucas perguntas seguras que ocorreram a ela durante o dia.
– Sou jornalista do Boston Times.
– Está de férias?
Ela fez uma pausa curta antes de retrucar:
– Pode-se dizer que sim.
Rachel assentiu. Já esperava essa resposta.
– Sobre o que você escreve?
Quinn sorriu.
– Sobre a criação de filhos.
Percebeu o ar de surpresa no rosto de Rachel, o mesmo que via sempre que saía com alguém pela primeira vez. É melhor passar logo por isso, pensou.
– Tenho um filho de 12 anos – continuou.
Ela ergueu as sobrancelhas.
– Doze anos? – repetiu.
– Você parece chocada.
– E estou. Você não aparenta ter idade para ser mãe de um menino de 12 anos.
– Vou tomar isso como um elogio – falou Quinn com uma careta, sem morder a isca. Não estava preparada para revelar sua idade. – Mas ele tem 12 anos, sim. Quer ver uma foto dele?
– Claro – disse ela.
Ela pegou a carteira, tirou a fotografia e entregou a Rachel. Ela estudou-a por um momento, depois olhou para Quinn de relance.
– Mesma cor de cabelo – comentou, devolvendo a foto. – É um menino bonito.
– Obrigada. – Enquanto guardava a fotografia, ela perguntou: — E você? Não tem filhos?
– Não – retrucou ela balançando a cabeça.- Nenhum filho.
Diante dessa resposta, Rachel continuou:
– Qual é o nome dele?
– Tommy.
– Ele veio com você?
– Não, está com o pai na Califórnia. Nós nos divorciamos há alguns anos.
Rachel assentiu, sem dizer nada, depois olhou por cima do ombro para outro veleiro passando a distância. Quinn também ficou por um instante contemplando o outro barco, e no silêncio ela se deu conta de como o mar aberto era tranquilo comparado ao canal. Os únicos sons agora eram os do vento balançando a vela do Happenstance abrindo caminho através das ondas. Nas docas, ela tinha achado esses mesmos ruídos diferentes – agora eles soavam quase livres, como se a amplidão do oceano pudesse leva-las ao infinito.
– Gostaria de ver o resto do barco? – perguntou Rachel.
Ela assentiu.
– Adoraria.
Rachel se levantou e tornou a verificar as velas antes de entrar, com Quinn um passo atrás de si. Quando Rachel abriu a porta, parou de repente, dominada de súbito por uma recordação enterrada havia muito tempo, mas que agora aflorava, talvez por causa da novidade de uma presença como a de Quinn.
Catherine estava sentada diante da pequena mesa, com uma garrafa de vinho aberta. À sua frente, um vaso com uma única flor recebia a luz de uma pequena vela acesa. A chama oscilava com o movimento do barco, lançando longas sombras pelo interior do casco. Na penumbra, ela conseguia distinguir o esboço de um sorriso.
– Achei que seria uma boa surpresa – disse ela. – Já faz um tempo que não comemos à luz de velas.
Rachel olhou para o fogareiro. Havia dois pratos embrulhados em papel alumínio ao lado dela.
– Quando você trouxe isso tudo para o barco?
– Enquanto você estava trabalhando.
Quinn ficou em silêncio, deixando-a em paz com seus pensamentos. Se percebeu sua hesitação, não demonstrou, e Rachel sentiu-se grata por isso.
À esquerda de Quinn, havia um banco que acompanhava um dos lados do barco e era largo o suficiente para que uma pessoa dormisse nele confortavelmente. Logo em frente ao banco ficava uma mesinha para dois. Perto da porta havia uma pia e um fogareiro com uma geladeira pequena embaixo, e próximo dali havia a porta que levava ao quarto de dormir.
Rachel ficou parada com todo o peso do corpo em um só pé e as mãos nos quadris enquanto ela explorava o interior, observando tudo. Não ficou colada nela, como alguns fariam, mas, ao contrário, deu-lhe bastante espaço. Mesmo assim, ela sentia seu olhar pousado nela, embora a mesma estivesse sendo discreta. Depois de um momento, Quinn comentou:
– Pelo lado de fora não dá para imaginar como aqui é espaçoso.
– Eu sei. – Rachel pigarreou, um pouco sem graça. – É surpreendente, não é?
– É, sim. Mas parece que você tem tudo de que precisa.
– Tenho mesmo. Se quisesse, poderia velejar até a Europa, embora não recomende isso. Mas para mim é ótimo.
Ela foi até a geladeira, inclinou-se e tirou de dentro uma lata de Coca-Cola.
– E agora? Quer beber alguma coisa?
– Claro – disse Quinn.
Deslizou as mãos pelas paredes, sentindo a textura da madeira.
– Tenho SevenUp e Coca-Cola. O que prefere?
– SevenUp está ótimo – respondeu.
Rachel estendeu-lhe a lata e os dedos de ambas se tocaram de leve quando Quinn a pegou.
– Não tenho gelo a bordo, mas está fresca.
– Tudo bem, também sei ser rústica – retrucou Quinn, e Rachel sorriu.
Ela abriu a lata e tomou um gole antes de colocá-la sobre a mesa. Enquanto Rachel abria sua Coca-Cola, olhava para ela, pensando sobre o que ela tinha dito antes. Um filho de 12 anos... E, sendo jornalista, isso queria dizer que devia ter cursado a faculdade. Se tinha esperado até se formar antes de se casar e ter um filho...isso significava que teria uns quatro ou cinco anos a mais que ela. Não parecia tão mais velha, com certeza, mas não agia como a maioria das garotas de 20 anos que ela conhecia na cidade. Suas atitudes eram maduras, algo que só as pessoas que passaram por altos e baixos na vida tinham.
Não que isso tivesse importância.
Quinn voltou a atenção para uma fotografia emoldurada pendurada na parede. Nela, Rachel estava de pé num cais, com um marlim que pescara, parecendo tão mais jovem do que era agora. Tinha um sorriso largo, e sua expressão alegre a fez se lembrar de Tommy sempre que ele fazia um gol no futebol.
As duas ficaram em silêncio por um momento e então Quinn disse, apontando para a foto:
– Vejo que gosta de pescar.
Rachel deu um passo em direção a ela e com a proximidade Quinn sentiu o calor que emanava dela. Ela cheirava a sal e vento.
– É, gosto – retrucou ela, baixinho. – Meu pai era camaroneiro e eu fui criada praticamente dentro d´água.
– Quanto tempo tem essa foto?
– Deve ter uns dez anos. Foi logo antes de eu voltar para a faculdade no último ano. Houve um concurso de pesca e meu pai e eu resolvemos passar umas noites na corrente do Golfo. Pegamos esse marlim a uns 100 quilômetros da costa. Levamos quase sete horas para leva-lo para dentro do barco, porque o papai queria que eu aprendesse do modo tradicional.
– Como é isso?
Ela riu baixinho.
– Basicamente significa que quando terminei estava com vários cortes nas mãos, e no dia seguinte mal conseguia mexer os ombros. A linha que usávamos não era forte o suficiente para um peixe daquele tamanho, então tivemos que deixa-lo nadar até o fim da linha e ir recolhendo-a devagar, esperando até que ele ficasse exausto demais e parasse de lutar.
– Mais ou menos como O velho e o mar, de Hemingway.
– Mais ou menos, só que eu não me sentia uma velha até o dia seguinte. Papai por outro lado, podia ter feito o papel do velho no filme.
– Esse ao seu lado é o seu pai?
– É ele, sim.
– Parece com você.
Rachel deu um sorriso de leve, perguntando-se se aquilo seria um elogio. Fez um gesto para que ela se sentasse e Quinn se acomodou diante dela. Depois perguntou:
– Você disse que fez faculdade?
Ela olhou-a nos olhos.
– É, fui para a Universidade da Carolina do Norte e me formei em biologia marinha. Nenhuma outra coisa me interessava muito, e como meu pai tinha dito que eu não voltaria para casa sem um diploma, achei que seria melhor aprender algo que pudesse ser útil mais tarde.
– Então comprou a loja...
Ela balançou a cabeça em negativa.
– A princípio não. Depois que me formei, trabalhei no Duke Maritime Institute como especialista em mergulho, mas isso não dava muito dinheiro. Então, consegui um certificado de instrutor e comecei a dar aulas nos fins de semana. A loja veio alguns anos depois. – Ela ergueu uma sobrancelha. – E você?
Quinn bebeu outro gole de SevenUp antes de responder:
– Minha vida não é tão empolgante quanto a sua. Cresci em Omaha, em Nebraska, e estudei na Brown. Depois de formada, trabalhei num monte de lugares, tentei coisas diferentes e finalmente me estabeleci em Boston. Estou em Boston Times há nove anos, mas só há alguns anos como colunista. Antes, era repórter.
– E você gosta de escrever colunas?
Ela considerou a pergunta por um instante, como se pensasse sobre o assunto pela primeira vez.
– É um bom trabalho – respondeu por fim. – Muito melhor agora do que quando comecei. Posso pegar Tommy na escola e tenho liberdade para escrever sobre o que quiser, contanto que esteja dentro do assunto da coluna. O salário é bom, também, então não posso me queixar, mas...
Ela fez uma pausa.
– Não é mais tão emocionante. Não me entenda mal, gosto do que faço, mas às vezes sinto que escrevo sempre as mesmas coisas. Isso não seria tão ruim se eu não tivesse tantas outras coisas para fazer com Tommy. Acho que nesse momento sou uma típica mãe solteira que trabalha demais, se é que entende o que quero dizer.
Rachel assentiu e perguntou com delicadeza:
– A vida nem sempre acontece como achamos que vai acontecer, não é?
– É, acho que não – concordou ela.
Mais uma vez os olhares delas se encontraram. A expressão de Rachel fez Quinn se perguntar se ela tinha dito algo que raramente dizia a alguém. Sorriu e inclinou-se na direção dela.
– Quer comer alguma coisa? Trouxe um lanche para nós na cesta.
– Quando você quiser.
– Espero que goste de sanduíche e salada. Foram as únicas coisas que achei que não estragariam.
– Parece melhor do que o que eu poderia arrumar. Se fosse só eu, é provável que tivesse parado para comprar um hambúrguer antes. Prefere comer aqui dentro ou lá fora?
– Lá fora, com certeza.
Continua...
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