Message in a bottle

11 Capítulo 10


Notas iniciais
Boa noite, como estão vocês? Estou muito feliz por ter recebido mais uma recomendação. Faberrittana, lindas palavras... Muito obrigada, acho que a minha visão sobre a história é quase como a sua... Capítulo todo seu ;-)

Os ponteiros do relógio corriam em direção às sete horas, mas para Rachel Berry o tempo tinha parado três anos antes, quando Catherine descera da calçada e fora morta por um homem idoso que perdera o controle do carro, mudando para sempre a vida de duas famílias.

Nas semanas que se seguiram, a raiva em relação ao motorista fora substituída por planos de vingança que continuavam irrealizados, simplesmente porque a dor a deixara incapaz de qualquer ação. Não conseguia dormir mais que três horas por noite, chorava toda vez que via as roupas dela no armário e perdera quase oito quilos por conta de uma dieta que se resumia a café e bolachas. No mês seguinte começara a fumar pela primeira vez na vida, e recorria ao álcool quando o sofrimento era forte demais para que ela o enfrentasse sóbria. O pai de Rachel encarregara-se por algum tempo de tomar conta da loja, enquanto a filha ficava sentada em silêncio nos fundos da casa, tentando imaginar o mundo sem a mulher. Não tinha forças nem vontade de continuar existindo e às vezes, ali sentada, rezava para que a maresia a engolisse, para que ela não precisasse enfrentar o futuro sozinha.

O que tornava tudo tão difícil era que, para Rachel, parecia não ter existido uma época em que Catherine não estivesse por perto. As duas se conheciam desde sempre e tinham estudado nos mesmos colégios durante toda a infância. No terceiro ano, eram melhores amigas e ela chegara a lhe dar dois cartões no Dia dos Namorados, mas depois disso afastaram-se aos poucos e ficaram algum tempo sendo apenas conhecidas, enquanto passavam de uma série para outra. Catherine era magra e desajeitada, sempre a magrela da turma, e, embora Rachel tivesse um lugar cativo no coração para ela, nunca percebeu que aos poucos ela se transformava numa jovem atraente. Nunca foram a uma festa juntas, nem sequer ao cinema, mas depois de quatro anos na Chapel Hill, onde Rachel se formara em biologia marinha, as duas se esbarraram em Wrightsville Beach e ela de repente percebeu como tinha sido tola. Catherine não era mais a garota ossuda que ela recordava. Numa palavra, era linda, com curvas maravilhosas que faziam tanto os homens quanto as mulheres virarem a cabeça sempre que ela passava. Tinha os cabelos loiros e os olhos guardavam mistérios infinitos. E quando seu ar de espanto enfim se desfez e ela lhe perguntou o que a mesma andava fazendo, elas iniciaram um relacionamento que levara ao casamento e a seis anos maravilhosos juntas.

Na noite de núpcias, sozinha num quarto de hotel iluminado apenas por velas, ela Catherine entregara a Rachel os dois cartões de Dia dos Namorados que ela lhe dera um dia e rira alto ao ver a expressão no rosto dela quando compreendeu o que eram.

– Claro que os guardei – sussurra ela, envolvendo Rachel com os braços. – Foi a primeira vez que amei alguém. Amor é amor, não importa a idade , e eu sabia que, se desse tempo ao tempo, você voltaria para mim.

Sempre que Rachel se pegava pensando em Catherine, recordava a imagem dela nessa noite ou então a última vez que saíram para velejar. Mesmo agora se lembrava daquela noite com nitidez: Catherine rindo alto, os cabelos loiros ao vento, o rosto radiante de felicidade.

Flashback on ...

Sinta os borrifos do mar! – exclamou ela, exultante, de pé na proa do barco.

Segurando-se numa corda, Catherine se inclinou na direção do vento, seu perfil se destacando contra o céu cintilante.

Tome cuidado! – gritou Rachel de volta, mantendo o timão firme. Ela inclinou-se ainda mais, relanceando o olhar para ela, atrás dela, com um sorriso maroto.

Estou falando sério! – insistiu Rachel.

Por um momento parecia que a mão dela segurava a corda com menos força. Rachel afastou-se depressa do timão, apenas para ouvi-la rir de novo enquanto se empertigava. Sempre com os passos leves, ela voltou com facilidade para o timão e envolveu Rachel com os braços. Beijou-lhe a orelha e cochichou em tom brincalhão:

Deixei você nervosa?

Você sempre me deixa nervosa quando faz essas coisas.

Não seja tão rabugenta – brincou ela. – Principalmente agora, que a tenho toda para mim.

Você me tem toda para si todas as noites.

Não assim – disse ela, beijando-a de novo. Depois de olhar em volta, ela sorriu. – Por que não baixamos as velas e jogamos a âncora?

Agora?

Ela assentiu.

A não ser, é claro, que você prefira velejar a noite toda.

Com um olhar sutil que não revelava nada, ela abriu a porta para a cabine e desapareceu de vista. Quatro minutos depois, o barco já estava ancorado e Rachel abria a porta para juntar-se a ela...

Flashback off

Rachel expirou com força, dispersando as recordações como se fosse fumaça. Embora conservasse na lembrança os acontecimentos daquela noite, constatou que, à medida que o tempo passava, ficava cada vez mais difícil visualizar com exatidão a aparência de Catherine. Aos poucos as feições dela começavam a esfumaçar-se diante de seus olhos, e, embora ela soubesse que o esquecimento ajuda a amortecer a dor, o que mais queria era voltar a vê-la. Em três anos, folheara o álbum de fotos apenas uma vez, e fora tão doloroso que ela jurara que seria a última vez. Agora só a via com clareza à noite, depois de adormecer. Adorava sonhar com ela, pois parecia ainda estar viva. Ela falava e se movimentava, e Rachel a segurava nos braços, e por um momento tinha a impressão de que tudo estava certo no mundo. No entanto, os sonhos também cobravam o seu preço, pois ao acordar ela sempre se sentia exausta e deprimida. Às vezes ia para loja e trancava-se no escritório, onde ficava a manhã inteira, para não ter que falar com ninguém.

O pai a ajudava como podia. Ele também tinha perdido a esposa, e sabia o que a filha estava passando. Rachel ainda o visitava pelo menos uma vez por semana, e sempre apreciava sua companhia. Era a única pessoa que ela compreendia realmente, e esse sentimento era retribuído pelo pai. No ano anterior, este lhe dissera que ela devia recomeçar a sair com garotas. “Não está certo ficar sempre sozinha. É quase como se você tivesse desistido de viver.” Rachel sabia que havia alguma verdade nisso. Mas o fato era que ela não tinha vontade alguma de encontrar outra pessoa. Não dormira com nenhuma outra mulher depois da morte de Catherine e – pior ainda – não sentia o menor desejo. Era como se uma parte dela tivesse morrido. Quando Rachel perguntara ao pai por que deveria aceitar esse conselho se ele próprio jamais tornara a se casar, o velho senhor desviara o olhar. Mas logo falara outra coisa que os assombraria, algo que depois se arrependera de ter dito: “Acha mesmo que é possível que eu encontre alguém digno de tomar o lugar dela?”

Com o tempo, Rachel recomeçara a trabalhar, fazendo o possível para continuar sua vida de forma normal. Sempre ficava até tarde na loja para organizar os arquivos e colocar o escritório em ordem, simplesmente porque era menos doloroso do que ir para casa. Descobrira que, se já estivesse escuro na hora em que chegasse em casa e se ela acendesse poucas luzes, não perceberia tanto as coisas dela, sua presença não seria tão forte. Acostumara-se a viver sozinha outra vez: cozinhar, limpar e lavar a própria roupa, e até trabalhava no jardim como Catherine costumava fazer, embora não apreciasse isso tanto quanto ela.

Pensara que estivesse melhorando, mas, quando chegara a hora de empacotar as coisas da esposa, não conseguira fazê-lo. O pai acabara encarregando-se de tudo. Depois de uma semana fora, mergulhando, Rachel voltara para uma casa despida dos pertences dela. Sem eles, a casa parecia vazia e Rachel não via mais motivo para continuar ali. Vendera-a em um mês e mudara-se para uma construção menor em Carolina Beach, achando que assim conseguiria finalmente prosseguir seu caminho. E estava fazendo isso, de certa forma, já havia três anos.

Mas o pai não tinha achado todas as coisas na hora de se desfazer delas. Numa caixinha que ficava na mesa ao lado do sofá, Rachel guardava alguns objetos dos quais não tinha suportado se separar: os cartões do Dia dos Namorados que ela lhe dera certa vez, a aliança dela e algumas outras coisas que as pessoas não compreenderiam. Tarde da noite, ela gostava de pegá-las, e, embora seu pai de vez em quando comentasse que ela parecia ter melhorado, Rachel ficava ali deitada pensando que isso não era verdade. Para ela, nada jamais seria o mesmo outra vez.

***

Rachel foi para a marina com alguns minutos de antecedência para aprontar o Happenstance. Removeu a capa da vela, destrancou a cabine e fez uma verificação geral.

O pai lhe telefonara no exato momento em que ela saía de casa a caminho das docas, e Rachel agora recordava a conversa:

– Quer vir jantar comigo? – perguntara o pai.

Rachel respondera que não podia.

– Vou velejar com alguém hoje à noite – explicou.

O pai ficou em silêncio por um instante, depois quis saber:

– Uma mulher?

Rachel contou de forma resumida como ela e Quinn tinham se conhecido.

– Parece que você está um pouco nervosa com esse encontro – comentou o pai.

– Não, pai, não estou nervosa. E não é um encontro. Como eu falei, só vamos velejar. Ela disse que nunca velejou antes.

– Ela é bonita?

– Isso faz diferença?

– Não. Mas ainda acho que é um encontro.

– Não é um encontro.

– Se você está dizendo...

Notas finais
Bom, capítulo pequeno, mas preciso. O encontro ficou para o próximo, que acho que vai ficar bem grande. Talvez eu poste amanhã...talvez rs.