Message in a bottle

29 Capítulo 28


Notas iniciais
Oi gente! Sei que prometi um capítulo a cada sábado, mas tá difícil. Não vou mais prometer postagens frequentes. Esse capítulo é um dos meus favoritos, espero que gostem. Só lembrando que a fic é uma adaptação galera.

Sem saber para onde ir depois de sair do apartamento de Quinn, Rachel pegou um táxi para o aeroporto. Infelizmente não havia voos para aquele horário, e ela acabou passando o resto da noite lá, ainda furiosa e incapaz de pegar no sono. Ficou andando pelo terminal durante horas, passando pelas lojas já fechadas, parando de vez em quando para olhar através das barreiras que limitavam o espaço dos viajantes noturnos.

Na manhã seguinte, pegou o primeiro voo disponível e chegou em casa pouco depois das onze. Foi direto para o quarto, mas quando se deitou os acontecimentos da véspera ficaram rondando em sua cabeça e não a deixaram dormir. Depois de passar horas tentando pegar no sono, ela finalmente desistiu: tomou banho e se vestiu, depois tornou a se sentar na cama, de olhos fixos na fotografia de Catherine. Por fim, pegou-a e levou-a para a sala, onde também estavam as cartas. No apartamento de Quinn ela ficara chocada demais para pensar nelas a fundo, mas agora, olhando para foto de Catherine, leu-as devagar, de forma quase reverente, e sentiu a presença dela encher o aposento.

Flashback on

– Ei, pensei que tivesse esquecido nosso compromisso – disse a morena, vendo Catherine surgir nas docas com uma sacola de compras.

Sorrindo, Catherine pegou na mão de Rachel para subir a bordo.

– Não esqueci, mas tive que fazer um pequeno desvio.

– Como assim?

– Tive que ir ao médico.

Rachel pegou a sacola da mão dela e colocou-a de lado.

– Você está doente? Sei que não anda se sentindo bem...

– Estou ótima – afirmou ela, interrompendo a morena com delicadeza. – Mas acho que seria melhor não velejar hoje.

– Tem alguma coisa errada, não tem?

Catherine sorriu mais uma vez inclinando-se para frente e tirando um pequeno pacote de uma das sacolas. Rachel ficou observando-a enquanto ela o abria.

– Feche os olhos e eu lhe conto o que está acontecendo – pediu ela.

Ainda um pouco insegura, Rachel fez o que ela pediu e escutou o papel sendo desembrulhado.

– Pronto, pode abrir os olhos agora.

Catherine tinha algumas roupas de bebê nas mãos.

– O que é isso? – perguntou a morena, sem entender.

O rosto de Catherine estava radiante.

– Estou grávida! – exclamou, entusiasmada.

– Grávida?

– Isso mesmo. Estou oficialmente com oito semanas de gravidez.

– Oito semanas?

Ela assentiu.

– Acho que engravidei na nossa última visita ao médico, era a última vez que tentaríamos, lembra?

Perplexa, Rachel pegou as roupinhas de bebê e segurou-as com delicadeza. Por fim, inclinou-se na direção de Catherine e abraçou-a.

– Não consigo acreditar...

– Mas é verdade.

Quando por fim conseguiu apreender a novidade, Rachel deu um largo sorriso.

– Você está grávida...

Catherine fechou os olhos e sussurrou ao ouvido da morena:

– E você vai ser mamãe...

Flashback off

Os pensamentos de Rachel foram interrompidos pelo ranger da porta. Leroy enfiou a cabeça para dentro do aposento.

– Vi seu furgão lá fora e vim ver se estava tudo bem – explicou – não esperava você de volta tão cedo.

Como Rachel não respondeu, o pai entrou e a primeira coisa que viu foi a foto de Catherine em cima da mesa.

– Você está bem, filha? – perguntou, preocupado.

Sentaram-se na sala e Rachel explicou a situação desde o inicio – os sonhos que vinha tendo ao longo dos anos, as mensagens que mandava dentro de garrafas e finalmente a briga na véspera. Não deixou nada de fora. Quando terminou, Leroy pegou as cartas da mão dela.

– Deve ter sido um grande choque – comentou, olhando as páginas de relance, surpreso com o fato de Rachel nunca ter lhe falado sobre elas. – Mas não acha que foi um pouco dura demais com Quinn?

Rachel balançou a cabeça em negativa, cansada.

– Ela sabia tudo ao meu respeito, pai, e nunca me disse nada. Ela armou a história toda.

– Não armou, não – retrucou Leroy em tom carinhoso. – Pode ter vindo para cá com a intenção de conhecer você, mas não a obrigou a se apaixonar. Isso você fez sozinha.

Rachel olhou para o outro lado antes de enfim encarar a fotografia sobre a mesa.

– Mas não acha que ela errou em esconder tudo de mim?

Leroy suspirou sem querer responder à pergunta, sabendo que isso levaria Rachel a remoer coisas antigas. Em vez disso, tentou pensar em outra maneira de conseguir se fazer entender pela filha.

– Há algumas semanas quando estávamos conversando no píer, você me disse que queria se casar com Quinn porque a amava, lembra?

Rachel assentiu, distraída.

– Por que isso mudou?

Rachel olhou para o pai, confusa.

– Já lhe falei que...

Leroy a interrompeu com delicadeza:

– É, você me explicou seus motivos, mas não foi totalmente sincera. Nem comigo, nem com Quinn, nem consigo mesma. Ela pode não ter lhe contado sobre as cartas, e concordo que talvez devesse ter feito isso. Mas não é por isso que você está zangada, mas porque, por causa dela, você tomou consciência de algo que não queria admitir.

Rachel olhou para o pai sem responder. Então levantou-se do sofá e foi à cozinha, sentindo de repente o impulso de fugir da conversa. Pegou uma garrafa de chá na geladeira e serviu-se de um copo. Depois abriu a porta do congelador e puxou a bandeja de metal para pegar alguns cubos de gelo. Num súbito acesso de frustração, ergueu a alavanca com força demais e os cubos de gelo voaram da bandeja e se espalharam por cima do balcão e pelo chão.

Enquanto Rachel praguejava e resmungava na cozinha, Leroy contemplava o retrato de Catherine, lembrando-se da própria esposa. Colocou as cartas ao lado da fotografia e foi até a porta de vidro corrediça. Depois de abri-la, ficou observando o vento frio de dezembro fazer as ondas se quebrarem violentamente, com seu estrondo ecoando pela casa, até que ouviu batidas na porta.

Virou-se, imaginando quem poderia ser. De repente se deu conta de que em todas as suas visitas à filha, estranhamente jamais presenciara a chegada de alguém.

Rachel na cozinha, parecia não ter ouvido as batidas, então Leroy foi atender. Atrás dele, os sinos pendurados na varanda tocavam alto.

– Já vou! – gritou ele.

Quando Leroy abriu a porta da frente, o vento invadiu a sala de estar, espalhando as cartas pelo chão. No entanto ele não notou nada – toda a sua atenção estava voltada para a visitante no pórtico. Ele não conseguia desviar os olhos dela.

Parada diante dele estava uma mulher loira que ele nunca tinha visto antes, Leroy ficou paralisado, sabendo exatamente quem ela era, mas incapaz de pensar numa só palavra para dizer. Então deu um passo para o lado, a fim de deixá-la passar.

– Pode entrar – falou baixinho.

Quando ela entrou e fechou a porta atrás de si, o vento parou de soprar de forma abrupta. Constrangida, ela olhou de relance para Leroy. Por um instante nenhum dos dois se pronunciou.

– Você deve ser Quinn – começou Leroy. Escutava Rachel na cozinha resmungando consigo mesma enquanto recolhia os cubos de gelo espalhados. – Já ouvi falar muito em você.

Ela cruzou os braços, hesitante.

– Sei que não estava sendo esperada...

– Tudo bem – encorajou-a Leroy.

– Ela está aqui?

Leroy fez um gesto com a cabeça na direção da cozinha.

– Está. Foi buscar alguma coisa para beber.

– Como ela está?

Leroy deu de ombros e abriu um sorriso lento e desanimado.

– Você vai ter que conversar com ela...

Quinn assentiu, de repente em dúvida se sua ida tinha sido realmente uma boa ideia. Olhou à sua volta e no mesmo instante viu as cartas espalhadas pelo chão. Avistou também a mala de Rachel no chão junto à porta do quarto, ainda intocada. Fora isso a casa parecia a mesma.

Exceto, é claro, pela fotografia de Catherine.

Quinn a viu por cima do ombro de Leroy. Em geral a foto ficava no quarto de Rachel. Agora ela estava num local de destaque, e por algum motivo Quinn não conseguia despregar os olhos dela. Ainda estava encarando-a quando Rachel apareceu na sala.

– Pai, o que aconteceu aqui...

A morena ficou paralisada. Quinn fitou-a, hesitante. Por um longo momento nenhuma das duas falou nada. Então a loira deu um suspiro profundo e disse:

– Olá, Rachel.

A morena não respondeu. Leroy pegou suas chaves sobre a mesa, sabendo que era o momento de sair.

– Vocês tem muito o que conversar, então vou embora.

Percorreu todo o caminho até a porta olhando de lado para Quinn.

– Foi um prazer conhecê-la – murmurou.

Enquanto falava, ergueu uma sobrancelha e deu de ombros ligeiramente, como se lhe desejasse sorte. Logo estava do lado de fora, afastando-se da casa.

– Por que veio até aqui? – perguntou Rachel calmamente assim que ficaram à sós.

– Eu queria ver você de novo – retrucou Quinn em voz baixa.

– Por quê?

Quinn não respondeu. Em vez disso, depois de um momento de hesitação ela se dirigiu a morena, sem desviar os olhos dos seus. Quando se aproximou, colocou um dedo nos lábios de Rachel e balançou a cabeça para impedir que ela falasse.

– Shhh... – sussurrou. – Sem perguntas... só por enquanto. Por favor...

A loira tentou sorrir, mas agora que a via de perto, a morena percebeu que ela tinha chorado.

Não havia nada que Quinn pudesse dizer. Não havia palavras para descrever o que ela passara.

Em vez de falar, enlaçou Rachel com os braços. Com relutância, a morena a abraçou também, enquanto a loira apoiava a cabeça em seu ombro. Beijou-a no pescoço e puxou-a mais para perto. Passando as mãos pelo cabelo dela, a loira percorreu seu rosto com a boca, até chegar aos lábios. Beijou-os primeiro de leve, os lábios mal roçando os de Rachel, depois apaixonadamente. Sem se dar conta, a morena começou a corresponder às carícias de Quinn. Suas mãos subiram devagar pelas costas da loira, apertando-a contra si.

Na sala com o barulho das ondas ecoando pela casa, elas ficaram abraçadas, cedendo ao desejo crescente. Por fim, Quinn afastou-se, pegou Rachel pela mão e a levou para o quarto.

Lá dentro ela soltou-a e cruzou o aposento, enquanto a morena ficava parada perto do batente. A luz da sala lançava sombras pelo corredor. Quinn hesitou apenas por um segundo antes de virar-se de frente para Rachel e começar a se despir. Rachel fez uma leve menção de fechar a porta, mas a loira balançou a cabeça. Dessa vez queria vê-la, e queria que ela a visse. Queria que Rachel soubesse que estava com ela e com mais ninguém.

Devagar, muito devagar, ela tirou a roupa. Primeiro a blusa... depois a calça jeans... o sutiã... a calcinha. Despiu-se com os lábios entreabertos, sem parar de encarar a morena a sua frente. Quando estava nua, ficou parada na frente de Rachel, deixando que o olhar dela percorresse todo seu corpo.

Por fim, aproximou-se dela e passou as mãos delicadamente por todo seu corpo – seios, ombros, braços – como se quisesse lembrar-se para sempre de como era tocá-la. Recuou um passo para permitir que a morena se despisse e ficou observando-a, atenta a cada detalhe enquanto as roupas dela caíam no chão. Aproximou-se de novo da morena, beijou-lhe os ombros e depois rodeou-a devagar, a boca de encontro à pele, a umidade de sua boca permanecendo em cada lugar que ela tocava. Então levou-a em direção à cama, deitou-se e puxou-a consigo.

A morena se encaixou entre as pernas da loira, beijando-a com intensidade, ela trilhou um caminho que conhecia, passando sua língua pelo pescoço da loira e chegando ao colo beijando e mordendo de leve seus seios sentindo as unhas de Quinn lhe arranhando as costas e puxando seus cabelos na nuca. Desceu seus beijos pela barriga da loira sem esquecer de nenhum detalhe desse caminho, parecia também querer guardar cada segundo desse momento. Chegou em sua intimidade, encarando o sexo da loira e passando sem perceber sua língua nos lábios. Olhou para cima e a loira lhe encarava com desejo, ela estava com a respiração acelerada, estava excitada e isso encorajou mais ainda a morena a provar-lhe seu gosto. Segurou as pernas da loira abrindo um pouco mais para ter acesso a sua intimidade, beijou de leve o sexo da loira, ouvindo um gemido de satisfação e aprofundou o toque de sua língua na entrada da loira, dessa vez o gemido saiu um pouco mais alto e veio acompanhado de mãos segurando seus cabelos mantendo-a no lugar e lhe conduzindo aos pontos de prazer. Rachel parou de repente e Quinn abriu os olhos apenas para sentir no instante seguinte Rachel a penetrar com dois dedos e beijar-lhe a boca urgência. Na medida em que a morena aprofundava seus dedos, o beijo se tornava selvagem e ouvia-se gemidos vindo das duas. O suor se fazia presente agora e as respirações rápidas denunciavam que o ápice das duas estava por vir, suas intimidades estavam sendo friccionadas uma na outra com movimentos sincronizados.

Fizeram amor com ferocidade, agarradas desesperadamente uma na outra. A paixão foi diferente de qualquer ocasião em que tivessem feito amor antes – cada uma delas dolorosamente consciente do prazer da outra, cada toque mais eletrizante que o anterior. Como se temendo o que o futuro traria, elas reverenciaram seus corpos com intensidade total, que ficaria para sempre em sua memória. Quando enfim chegaram ao orgasmo juntas, Quinn arqueou a cabeça para trás e gritou, sem tentar abafar o som.

Depois ela se sentou na cama e aninhou a cabeça de Rachel em seu colo. Passou as mãos pelos cabelos da morena e ficou ouvindo o som de sua respiração normalizar aos poucos.

Mais tarde, Rachel acordou sozinha. Percebendo que as roupas de Quinn também não estavam no quarto, a morena vestiu às pressas um short e uma camisa grande. Ainda colocando um braço na mesma enquanto saía do quarto, procurou-a por toda parte.

A casa estava fria.

Encontro-a sentada na cozinha, de casaco. À sua frente havia uma xícara de café quase vazia, o que indicava que ela estava sentada ali havia um bom tempo. O bule já estava na pia. Ao olhar para o relógio, a morena constatou que tinha dormido quase duas horas.

– Olá – falou a morena, hesitante.

Quinn olhou para ela por cima do ombro.

– Ah, oi, não ouvi você levantar...

– Tudo bem?

A loira não respondeu diretamente:

– Venha se sentar comigo. Tenho muita coisa para lhe contar.

Rachel obedeceu e lhe deu um sorriso vacilante. Quinn ficou brincando com a xícara de café por um momento, de olhos baixos. A morena estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto da loira. Como ela não reagiu, Rachel recolheu o braço.

Por fim, sem olhar para Rachel, Quinn pegou as cartas do colo e colocou-as sobre a mesa. Pelo visto, ela as tinha pegado enquanto a morena dormia.

– Encontrei a garrafa no verão, quando estava correndo na praia — começou, com a voz firme, porém distante, como se recordasse algo doloroso. – Não tinha a menor ideia do que a carta ali dentro dizia, mas depois de lê-la comecei a chorar. Era tão linda, eu sabia que tinha vindo direto do seu coração. E o modo como estava escrita... Acho que o que você escreveu me tocou porque eu também me sentia solitária.

A loira olhou para Rachel e continuou:

– Naquela manhã, mostrei a carta para Santana. Publicá-la foi ideia dela. No princípio eu não queria... Achava que era pessoal demais, mas ela não via nada de mal nisso. Achava que seria uma coisa boa para as pessoas lerem. Então acabei cedendo, imaginando que a história terminaria ali. Mas não terminou.

Quinn suspirou.

– Depois que voltei a Boston, recebi um telefonema de uma pessoa que tinha lido o artigo. Ela me mandou a segunda carta, que tinha encontrado alguns anos antes. Quando li fiquei curiosa, mas novamente não imaginei que o assunto teria desdobramentos.

Fez uma pausa e depois perguntou:

– Já ouviu falar na revista Yankee?

– Não.

– É uma revista regional, não muito conhecida fora da Nova Inglaterra, mas publica alguns artigos ótimos. Foi lá que encontrei a terceira carta.

Rachel encarou-a, surpresa.

– Ela foi publicada na revista?

– Foi. Eu procurei o autor do artigo e ele me mandou a carta que tinha. Depois disso... Bem, a curiosidade me venceu. Eu tinha três cartas, Rachel, não apenas uma, mas três, e todas me comoveram do mesmo modo. Aí, com a ajuda de Santana, descobri quem você era e vim até aqui para conhecê-la.

Quinn deu um sorriso triste.

– Eu sei que parece aquilo que você disse, que era algum tipo de fantasia, mas não era. Não vim até aqui para me apaixonar por você nem para escrever um artigo. Vim para ver quem você era, só isso. Queria conhecer a pessoa que tinha escrito aquelas cartas lindas. Por isso fui até às docas quando sabia que você estava lá. Começamos a conversar e aí, como você deve lembrar, foi você quem me convidou para velejar. Se não tivesse chamado, eu provavelmente teria ido embora no mesmo dia.

A morena não sabia o que dizer. Quinn estendeu a mão e colocou-a sobre a dela.

– Mas, sabe de uma coisa? Aquela noite foi muito boa, e me fez querer ver você de novo – continuou. – Não por causa das cartas, mas pelo modo como você me tratou. E daí em diante, tudo pareceu evoluir de forma natural. Depois daquele primeiro encontro, nada do que ocorreu entre nós fazia parte de um plano. Simplesmente aconteceu.

Rachel ficou calada por um instante, contemplando as cartas.

– Por que não me contou tudo isso? – perguntou enfim.

Quinn demorou algum tempo para responder:

– Algumas vezes eu quis fazer isso, mas... Não sei... Acho que me convenci de que não fazia diferença o modo como nos conhecemos, que a única coisa importante era como nos dávamos bem. – Ela fez um pausa, sabendo que havia mais coisas a dizer. – Além disso, achei que você não entenderia. Não queria perdê-la.

– Se tivesse me falado antes, eu teria compreendido.

A loira observou-a com atenção.

– Teria mesmo, Rachel? Teria realmente compreendido?

A morena sabia que aquele era o momento da verdade. Como não disse nada, Quinn balançou a cabeça e desviou o olhar.

– Ontem à noite, quando você pediu que eu me mudasse para cá, não concordei de imediato porque tive medo de por que você tinha pedido. – Ela hesitou. – Precisava ter certeza de que você queria a mim, Rachel. Precisava ter certeza de que você queria que eu viesse por nós, não porque estivesse fugindo de alguma coisa. Acho que queria que você me convencesse disso quando eu voltasse para casa. Mas você encontrou as cartas...

Ela deu de ombros e passou a falar num tom mais suave:

– No fundo, acho que sabia o tempo todo, mas queria acreditar que tudo daria certo.

– A que você está se referindo?

Quinn respondeu de maneira indireta:

– Rachel, não é que eu ache que você não me ama. Sei que ama. É isso que torna tudo tão difícil. Eu sei que você me ama, e eu também a amo. Se as circunstâncias fossem diferentes, talvez pudéssemos vencer todos os obstáculos. Mas neste momento acho que não podemos. Acho que você ainda não está pronta.

Rachel sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Quinn olhava dentro de seus olhos.

– Não sou cega, Rachel. Sempre soube o motivo de você às vezes ficar tão quieta quando estamos juntas. Sei por que quis que eu me mudasse para cá.

– Porque sinto sua falta – interrompeu, Rachel.

– Isso é uma parte, mas não é tudo – retrucou Quinn, fazendo uma pausa para pestanejar, reprimindo as lágrimas. Sua voz começava a falhar.

– E também por causa de Catherine.

Ela enxugou o canto do olho, visivelmente lutando contra o pranto, determinada a não perder o controle.

– Quando você falou sobre ela pela primeira vez, vi sua expressão... Era óbvio que você ainda a amava. E ontem à noite, apesar da sua raiva, vi de novo a mesma expressão. Mesmo depois de todo tempo que passamos juntas, você ainda não superou esse amor. E então... as coisas que você me disse... – Ela suspirou. – Você não estava com raiva só porque eu tinha encontrado as cartas, mas porque sentia que eu era uma ameaça ao que você tinha com Catherine... e ainda tem.

Rachel desviou os olhos, ouvindo o eco da acusação do pai. Mais uma vez Quinn estendeu a mão e tocou a de Rachel.

– Você é quem é, Rachel: uma mulher que ama profundamente, e também uma mulher que ama para sempre. Por mais que me ame, acho que nunca esquecerá Catherine, e não posso viver me perguntando se estou à altura dela.

– Podemos superar isso – começou Rachel, com a voz um pouco rouca. – Quero dizer... Eu posso superar isso. Sei que as coisas podem ser diferentes...

Quinn interrompeu-a apertando a mão dela de leve.

– Sei que acredita nisso, e parte de mim quer acreditar também. Se você me abraçasse agora e me implorasse para ficar, sem dúvida eu cederia, porque você me deu algo que eu não tinha há muito tempo. E nós viveríamos como vivemos até agora, ambas acreditando que estava tudo bem... Mas não seria verdade, entende? Porque na próxima vez em que tivéssemos uma discussão... – Ela fez uma pausa. – Não posso competir com ela. E por mais que eu queira que o nosso relacionamento perdure, não posso esquecer isso, porque você também não vai esquecer.

– Mas eu te amo.

Quinn sorriu. Soltou a mão de Rachel e acariciou lhe o rosto com ternura.

– Eu também te amo, Rachel. Mas às vezes só amor não é suficiente.

A morena ficou calada, com o rosto pálido. Depois de um longo silêncio, Quinn começou a chorar.

Rachel se inclinou em sua direção e passou o braço pelos seus ombros, frouxamente. Apoiou a face nos cabelos dela e a loira descansou o rosto no peito da morena, o corpo trêmulo, sem parar de chorar. Um longo tempo se passou antes que Quinn secasse as lágrimas e se afastasse. As duas se encaravam, e Rachel tinha os olhos suplicantes. Quinn balançou a cabeça.

– Não posso ficar, Rachel. Por mais que nós duas queiramos, não posso.

Essas palavras atingiram a morena com força. Ela sentiu a cabeça girar de repente.

– Não... – balbuciou.

Quinn se levantou, sabendo que tinha que ir embora antes que perdesse a coragem. Lá fora, um violento trovão soou. Segundos depois, uma chuva fina e nevoenta começou a cair.

– Tenho que ir.

A loira colocou bolsa a tiracolo e encaminhou-se para a porta da rua. Por um momento, Rachel ficou aturdida demais para se mexer.

Por fim, ainda atordoada, ela se ergueu e seguiu-a porta afora. A chuva agora era mais forte. O carro que Quinn alugara estava estacionado na entrada de veículos. Rachel viu-a abrir a porta do automóvel, incapaz de pensar em algo para dizer.

Dentro do carro, Quinn manuseou desajeitadamente a chave, depois a enfiou na ignição. Deu um sorriso forçado enquanto fechava a porta. Apesar da chuva, baixou a janela para vê-la com mais clareza e então girou a chave, dando partida no motor. As duas se encararam por um momento.

A expressão da morena quase venceu todos os propósitos de Quinn, sua frágil decisão. Por apenas um instante ela teve vontade de voltar atrás. Queria dizer a Rachel que não falara a verdade, que não podiam acabar tudo daquele jeito. Seria fácil fazer isso, parecia tão certo...

Porém, por mais que quisesse, ela não podia.

A morena deu um passo na direção do carro e Quinn balançou a cabeça para impedi-la. A situação já era dolorosa o suficiente.

– Vou sentir saudades, Rachel – disse ela baixinho, sem saber se morena podia ouvi-la.

Então engrenou a marcha a ré.

A chuva ficou mais forte, com as gotas mais frias e mais pesadas de uma tempestade de inverno.

Rachel ficou parada ali, olhando para Quinn.

– Por favor, não vá – pediu com a voz rouca e baixa, quase abafada pelo som da chuva.

Quinn não respondeu.

Sabendo que ia começar a chorar se ficasse ali por mais tempo, Quinn fechou a janela e, olhando por cima do ombro, começou a descer a entrada de veículos de ré. Rachel colocou a mão no capô quando o carro começou a se mover e seus dedos deslizaram pela superfície molhada enquanto o automóvel se afastava devagar. No instante seguinte o carro estava na rua, pronto para partir, os limpadores de para-brisa movimentando-se de um lado para o outro.

Com uma súbita urgência, Rachel sentiu que a sua última oportunidade estava indo embora.

– Quinn, espere! – gritou.

Por causa da chuva pesada, ela não a escutou. Rachel saiu correndo pela entrada de veículos, acenando com os braços para chamar atenção da loira. Quinn parecia não vê-la.

– Quinn! – tronou a gritar.

Rachel estava agora no meio da rua, correndo atrás do carro, pisando nas poças que já começavam a se formar. As luzes do freio piscaram por um segundo, depois se mantiveram acesas, enquanto o carro parava. A chuva e a neblina o rodeavam, fazendo o veículo parecer uma miragem. Rachel sabia que Quinn a observava pelo espelho retrovisor e a via se aproximar cada vez mais. Ainda há uma chance...

De repente as luzes do freio se apagaram e o carro tornou a se mover, acelerando com mais força dessa vez. Rachel continuou correndo atrás do veículo, perseguindo-o ao longo da rua. Via-o se afastar mais e mais, tornar-se menor a cada momento. Seus pulmões queimavam, mas ela continuou correndo, lutando contra a sensação de impotência. A chuva ficara muito mais forte, ensopando sua camisa e dificultando sua visão.

Finalmente a morena diminuiu sua velocidade, até parar por completo, ofegante. Com a camisa grudada à pele e os cabelos caídos sobre os olhos, Rachel ficou parada no meio da rua, com o temporal desabando à sua volta, vendo o carro da loira virar a esquina e desaparecer de vista.

Ficou ali parada por um longo tempo, tentando recuperar o fôlego, com a esperança de que Quinn fizesse meia-volta e retornasse para ela, desejando não ter deixado que ela fosse. Desejando mais uma chance.

Mas Quinn tinha partido.

Instantes depois um carro buzinou atrás dela, fazendo o seu coração disparar. Ela virou-se depressa e passou a mão pelo rosto para secar as gotas de chuva, quase esperando ver Quinn atrás do para-brisa, mas logo viu que tinha se enganado. Então recuou para o meio-fio a fim de deixar o automóvel passar, sentindo o olhar curioso do motorista, e de repente teve consciência de que nunca tinha se sentido tão solitária.

Notas finais
O começo do fim... ):