Memories
23 Hope
Notas iniciais
23º Esperança
― Desde quando você gosta de Merengue? ― Zelena questiona, empurrando a cadeira da irmã, pelas calçadas do Centro de Orlando. Ao seu lado, mas em silêncio e com o olhar em outra direção, está Ruby, questionando-se por que aceitou o pedido de Regina, para saírem. Não que realmente não quisesse, só não estava se sentindo bem em estar ao lado de Zelena. Ela ainda não tinha superado o que aconteceu no passado.
― Desde que... ― Calou-se por uns segundos, pensando em como responder àquela pergunta, sem parecer estranha.
― Desde que? ― Incentivou a continuar, realmente curiosa para saber. Havia ficado muito tempo longe da irmã, e não gostava de saber que havia perdido tanto.
― Em qual desses nós vamos entrar? ― Ruby questiona, apontando para dois clubes entre alguns restaurantes, interrompendo a conversa das irmãs.
Regina agradeceu diversas vezes pela interrupção. Como responder que gosta do ritmo desde quando conhecera Emma em Miami, anos atrás, se não tem certeza se foi ou não, real, o que se lembrara? Tudo que sabe é que, ao menos nessa realidade, conheceu-a juntamente com Zelena e Graham, quando estavam de férias, numa festa em uma balada de Miami, e que após passar mal de tanto beber, Emma foi lhe se socorrer. Ficaram amigas, e depois namoram.
― Não faço ideia, pois nunca vim em nenhum desses... ― A ruiva responde, dando de ombros, observando os dois, que pareciam ser bastante bons.
― Eu também não conheço nenhum... ― Franze o cenho. ― Não que eu me lembre... ― Acrescenta baixinho, já desanimada.
― Então vamos escolher um agora. ― Sugere Ruby.
― Ok! Vamos entrar nesse Beacham. ― Aponta com a cabeça, para o clube. ― Ele parece ser bem frequentado e animado.
•§•
― Acho que eu não quero mais entrar. ― Regina solta, faltando três pessoas para chegar a vez delas. Já estavam em pé naquela fila, há mais de meia hora.
― O que aconteceu? ― Sem se importar onde estava, e em como estava vestida, Zelena se ajoelha na frente da irmã, segurando em seus joelhos. ― Você estava tão animada... O que mudou?
― Olhe todas essas pessoas, e olhe para mim... ― Apontou disfarçadamente para as pessoas que entravam no clube. ― O que você vê de diferente? ― Inocentemente, Zelena fez o que lhe foi pedido e franziu o cenho, não encontrando nada. Voltou seu olhar interrogativo para a mais nova. ― Zelena, este lugar não é para mim. ― Pegando impulso na irmã, afastou-se para trás e saiu da fila, sendo seguida pelas outras duas mulheres.
― Regina... ― Suspira pesadamente, entendo o problema da irmã.
― Quando eu penso que finalmente aceitei minha condição, vem a realidade e me dá uma tapa na cara, mostrando que eu não posso aceitar. ― Murmura irritada, sentindo a garganta queimar. ― Às vezes eu penso que seria melhor se eu...
― Não ouse continuar essa frase. ― Bradou, assustando até mesmo Ruby, que estava mais atrás, ao telefone. Havia recebido uma ligação, assim que Regina anunciou que não queria entrar no clube.
― Diga-me o que uma inválida poderia fazer em um local onde o que mais se usa, são as pernas? Diga-me! ― Gritou de volta, atraindo a atenção de alguns. ― Eu estou cansada de toda essa conversa de esperança, de voltar a andar. Estou cansada. ― Confessa, deixando as lágrimas saírem. ― Não é fácil aceitar que fui dormir bem, com as duas pernas funcionando, e quando acordo, nem mesmo as sinto. ― Diz, frustrada, tocando nas mesmas e não sentindo.
― Você acabou de começar a fisioterapia. Ela não é mágica. Não vai funcionar no primeiro dia. ― A ruiva rebate com firmeza, tentando passar esperança para a irmã... ― É preciso algumas sessões, até que comece a fazer efeito.
― Você não é uma inválida! ― Grita Ruby, finalmente entrando na conversa. As duas irmãs, que estavam de frente uma para outra, observam-na se aproximar, e se ajoelhar em frente a mais nova. Precisava ter uma conversa olho no olho com a morena. ― Nem você, nem qualquer outra pessoa nas mesmas condições que você. ― Afirma, em um tom que não deixa brechas para discordância.― Se for para desistir, desista do seu medo, desafie a sua fragilidade e acredite no seu potencial, você é mais forte do que imagina, Regina. Só precisa acreditar nisso. ― Aperta as mãos da morena, que olha para o céu, tentando se segurar, para não cair aos prantos. ― É normal, no começo, as pessoas se sentirem exatamente como você, mas você e todas elas precisam saber: sua cadeira de rodas é apenas um instrumento de locomoção. Uma extensão do seu corpo, como suas pernas são. Você não é menos que os outros por isso. Vocês são exatamente como nós. Tudo que podemos fazer, vocês também podem. Só precisam querer, e parar de perder tempo, achando que não podem. Porque sim, vocês podem. Podem tanto quanto nós. Talvez até mais. ― Sorri, contagiando a ouvinte, que troca o olhar triste, por um meio sorriso. ― Você tem saúde, tem sua família que te ama, ao seu lado, e tem os seus amigos. Todos ao seu lado, apoiando e ajudando. Você tem tudo que uma pessoa precisa ter para ser feliz. ― Finaliza seu discurso oferecendo um genuíno sorriso à outra, que ouvia tudo atentamente. Seus olhos brilhando mais a cada palavra dita.
― Você nunca ouviu falar de danças, até mesmo de competição, com cadeirantes? ― Zelena questiona, aproximando-se também, e se ajoelhando. ― Se não sabe, pode aprender também. ― Ruby balança a cabeça afirmativamente, concordando com a ruiva. Desde que a conversa começara, ela havia colocado seus problemas com Zelena, de lado, para ajudar Regina.
― E se você acreditar, sabe que poderá abandonar essa cadeira. Sabe que sua condição, diferente de muitos por aí, é temporária. ― Ruby e Zelena se olham, e sorriem de forma cúmplice, como nos velhos tempos, por terem se unido, deixando os problemas de lado, para ajudarem a morena. ― E se eles estão felizes, vivendo bem, aceitando suas condições, por que você, que tem a chance de reverter isso, não pode também?
Emocionada com tudo que ouvira, Regina puxa as duas mulheres para si, e as abraça apertado, liberando o seu choro, contagiando as outras duas. Ao redor, as pessoas que tiveram suas atenções tomadas por conta dos gritos do início, e seguiram prestando atenção em tudo, começam a bater palmas devido ao discurso de esperança de Ruby.
― Será que nós podemos apenas aproveitar a noite, aqui fora mesmo? ― Sugere, afastando-se das outras duas mulheres. ― Eu realmente perdi a vontade de entrar. E não, não tem mais a ver com o que eu disse. ― Apressa-se em dizer, antes que falem algo. ― Não depois de tudo que você disse, Ruby. ― Completa, enxugando o rosto com a barra da blusa.
― Por mim... ― Zelena diz, dando de ombros, já começando a empurrar a cadeira da irmã para longe da entrada do clube. ― Eu só quero recuperar o meu tempo perdido com você. Não importa onde estejamos. ― Confessa, sentindo o coração bater mais rápido, por conta do nervosismo que rapidamente se instalou em seu corpo, ao tocar no assunto.
― E você, Ruby? ― Questiona, querendo inserir a outra na conversa, que já começava a andar mais afastada novamente.
― Claro! ― Respondeu em falso tom de animação, já pensando em como seria difícil passar a noite ao lado de Zelena.
•§•
― Enquanto eu estive na Inglaterra, eu aprendi a jogar Xadrez, Regina! ― A irmã ruiva joga uma batatinha frita para dentro da boca. ― Você não vai mais conseguir ganhar de mim, mana. ― Pisca um olho para ela e as duas gargalham. Mas na verdade, Regina não se lembrava de ser boa em Xadrez, e sim, ruim, sendo Zelena, a melhor jogadora. Mas ela não falaria isso para a irmã, que parecia tão animada em finalmente poder vencê-la.
― Uh... OK! Eu preciso falar... ― Diz séria, cessando as próprias risadas, e as da irmã. ― Ruby? ― Chama a morena de mechas ruivas, que olhava distraidamente, para as pessoas que passavam por perto, totalmente por fora da conversa. ― Vocês vão mesmo passar a noite sem falar uma com a outra? ― Joga na lata, sem rodeios. Não estava nada confortável em ver Ruby toda por fora, sem dizer um “ai” sequer, durante as conversas.
― Regina...
― Não! ― Interrompe a possível desculpa que a mais velha usaria. ― Eu sei que vocês brigaram no passado. Não lembro mais dos detalhes, infelizmente, mas sei que foi uma briga pesada, e que todas nós saímos magoadas, certo? ― As duas assentem com a cabeça. ― Mas vocês precisam conversar. Está claro como água, que precisam ter uma boa conversa sobre tudo que aconteceu na época. Sei que cada uma tem coisas para dizer ainda. Coisas que não puderam ser ditas, ou que não pensaram em dizer antes.
― Ela tem razão. ― Escutam a voz de Emma, e giram na cabeça da direção da voz, vendo a loira se aproximar devagar. ― Desculpa a formalidade... ― Diz, apontando para as suas roupas, ao observar como as três estavam vestidas. ― Vim direto do trabalho. ― Explica-se.
― Essa é a minha deixa. ― Regina murmura, empurrando sua cadeira para junto de Emma. ― Zelena, eu preciso confessar... ― Levanta um dedo, e vira a direção da cadeira para as duas, ainda sentadas em seus lugares. Imóveis. Ainda estavam surpresas com o que ouviram. ― Mesmo sem me lembrar, eu prefiro você com Ruby, do que com um homem que não conheço, e provocou, num passado que eu não me lembro, a discórdia e desunião entre nós. ― E então, vira a direção da sua cadeira para o outro sentido novamente, afastando-se na velocidade de suas limitações.
― Eu concordo! ― Diz uma Emma sorridente e orgulhosa pelo que acabara de ouvir, seguindo Regina, empurrando sua cadeira, e deixando as duas mulheres a sós para conversarem. Havia muito a ser dito e concertado.
•§•
Após andarem em silêncio por alguns minutos, já afastadas de Ruby e Zelena, encontram um banco vazio, numa parte mais calma. Emma se senta no fim do mesmo, e posiciona Regina ao seu lado, fazendo de sua cadeira, uma extensão.
― Você está bem? ― Questiona preocupada e Regina franze o cenho. ― O desmaio, e tal... ― Explica.
― Ah sim! ― Murmura, lembrando-se do que lhe aconteceu. ― Estou bem. Foi apenas a pressão baixa, por causa da glicose baixa. ― Fala despreocupada.
― Talvez você esteja precisando voltar aos seus dias de criança... ― Comenta bem humorada, fazendo a outra sorrir.
― Você foi me ver? ― Questiona realmente curiosa, pegando a outra de surpresa, mas causando-lhe um breve sorriso.
― Não só fui, como passei uma noite com você, preocupada por não ter acordado ainda. ― Confessa, fazendo o coração de Mills bater acelerado.
― Desculpa pela preocupação... ― Pede sem graça, desviando o olhar.
― Você não teve culpa... ― Rebate, pegando na mão da outra e fazendo um carinho de leve, aumentando o nervosismo da morena, e causando um em si.
E então ficam em silêncio por alguns minutos, apenas observando o movimento de carros e pessoas.
― Como soube que estávamos aqui? ― Questiona, quebrando o silêncio.
― Quando eu cheguei na sua casa, sua mãe me disse que tinham saído, mas não sabia para onde. Então liguei para Ruby, e ela me disse onde estavam. ― Explica. ― Vim direto para cá. ― Mills balança a cabeça de modo afirmativo. Seu olhar perdido em Emma, que apesar de olhar para frente, sentia que estava sendo observada.
Então, com o silêncio que se instalou novamente, sua mente vaga para a conversa que teve com a loira, no primeiro dia em que a viu no quintal de sua casa, depois de acordar do coma nessa realidade. A curiosidade pelo motivo pelo qual haviam terminado, surgindo novamente. Ela precisava perguntar de novo.
― Emma... ― Chama em tom baixo. Seu olhar ainda perdido na loira, enquanto sua mente viajava nas possíveis respostas que ela lhe daria como explicação. Já tinha percebido que Emma não gostava de falar no assunto, mas ela precisava saber. Precisava entender por que se separaram, se claramente ainda se amavam.
― Sim? ― Vira-se completamente para Regina, e cruza as pernas, acomodando-se melhor.
― Por que terminamos o namoro? ― Pergunta sem hesitar.
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