Memories
24 Waiting for a girl like you
Notas iniciais
24º Esperando por uma garota como você
[Regina]
A forma como Emma olha para mim, diz claramente que ela não quer falar sobre o assunto, e talvez deva estar travando uma batalha em sua mente, para decidir se fala ou não. Eu já havia percebido esse seu desconforto em todas as vezes que eu questiono sobre esse assunto, mas eu não posso deixar para lá. Eu preciso saber o que aconteceu com nós. Afinal, eu não estou aqui só de passagem, não precisando me importar com nada do que já aconteceu. Essa é a minha realidade verdadeira agora. Eu preciso e tenho que me acostumar com ela, e com como as coisas realmente são e foram. Se não terei minhas memórias de volta, e elas sempre ficarão confusas sobre o que é certo e errado, e o que aconteceu ou não, eu preciso que, pelo menos alguém me ajude a relembrar certas coisas que são importantes, que infelizmente não poderei fazer sozinha.
ꟷ Não é um assunto que eu gosto de falar, mas... ꟷ Respira fundo, desviando seus lindos olhos dos meus, fixando-os em algum ponto a sua frente.
Ficamos alguns minutos em silêncio e eu imagino que deva estar se preparando para começar, então espero que comece a falar. Mas à medida que os segundos vão passando, isso não acontece. Acredito que ela tenha desistido de continuar. Talvez seja um assunto delicado demais, e ela não consegue falar sobre. Acho melhor eu começar a pensar em um assunto para...
ꟷ Nós éramos muito apaixonadas. ꟷ Diz finalmente, interrompendo meus pensamentos, e meu coração bate acelerado com a informação. ꟷ Como todo namoro, que eu conheço ao menos, começou muito bem... ꟷ Abriu um sorrisinho, mas eu senti que era triste. ꟷ Mas depois de algum tempo, em algum momento a gente se perdeu, e com isso veio as brigas. Tempos depois, elas começaram a nos vencer. ꟷ Diz em tom de lamento, e eu posso sentir a tristeza em sua voz. ꟷ Tudo passou a ser motivo de discórdia. Até mesmo com coisas simples, tipo a cor de uma roupa, a escolha de um lugar para sair, ou mesmo não atender uma ligação. ꟷ A julgar pela sua expressão, parecia estar se lembrando de algum momento que me relatou. ꟷ Eu comecei a evitar de me encontrar com você. ꟷ E então olha para mim rapidamente. ꟷ Você nunca soube disso. Eu inventava desculpas e você acreditava. ꟷ Confessa. ꟷ Eu acho. ꟷ Dá um sorrisinho. ꟷ Mas eu fazia isso porque queria evitar mais uma ou duas brigas. ꟷ Explica-se, voltando a olhar para frente. ꟷ Você também fazia isso. E eu só descobri graças a um deslize de Zelena. ꟷ Deu um sorrisinho. ꟷ Ela não conseguiu disfarçar a surpresa pelo telefone em te encontrar no quarto, quando eu liguei e perguntei por você. ꟷ Balança a cabeça negativamente, ainda sustentando um sorriso. ꟷ Depois disso, eu entendi que você estava fazendo o mesmo que eu. Evitando mais brigas. ꟷ Então se cala, e eu não entendo o motivo até ver seus olhos brilhando e uma lágrima descendo por seu rosto. ꟷ Já estava ficando chato e cansativo, toda essa situação. ꟷ Volta a dizer. Sua voz embargada. ꟷ O nosso relacionamento só andava para trás. Vivíamos terminando e voltando. Não estávamos mais dando certo. ꟷ Vendo mais lágrimas descerem por seu rosto, aproximei minha mão da sua, que descansava em cima de sua perna, e a apertei, iniciando um carinho suave logo em seguida. ꟷ Você começou a focar demais no trabalho, para evitar ter tempo para mim, e eu também fiz o mesmo.
ꟷ Como você sabe disso? ꟷ Questionei, curiosa demais por saber como ela sabia de coisas que aparentemente não deveria.
ꟷ Zelena... ꟷ Responde-me rapidamente. ꟷ Vocês eram melhores amigas, antes da briga que tiveram. ꟷ Saber que minha irmã era minha melhor amiga, e que, por causa de uma briga, tendo como motivo o seu noivo, que eu ainda nem conheço, deixa-me momentaneamente irritada. Ainda mais por saber que não era eu a errada da história. ꟷ Ei... ꟷ Aperta minha mão, e eu direciono o meu olhar para ela. ꟷ Logo vocês voltam a ser como antes. ꟷ Diz, como se tivesse escutado os meus pensamentos, e sorri-me. Balanço a cabeça de modo afirmativo e sorrio também. ꟷ Bem, continuando... ꟷ Volta a olhar para frente, e eu faço o mesmo. Quanto as nossas mãos, agora era ela quem fazia carinhos na palma e no dorso. ꟷ Estávamos focadas demais no trabalho, tentando evitar uma a outra, mas sempre que nos víamos, brigávamos do mesmo jeito. O maior motivo, era justamente pelo pouco tempo que estávamos tendo juntas. Certo dia, eu recebi uma oportunidade para trabalhar em outro país. ꟷ Faz uma pausa e respira fundo. Parecia nervosa com o que diria a seguir. ꟷ Eu aceitei sem te contar nada, e faltando um dia para a viagem, depois de uma incrível noite que conseguimos ter em tanto tempo, eu contei sobre a viagem, e disse que precisaríamos terminar tudo. ꟷ Abri a boca totalmente surpresa com o que escutara. Eu não acredito que ela teve essa coragem e capacidade de fazer isso.
ꟷ Mesmo depois da boa e calma noite, que tivemos? ꟷ Ela assentiu e baixou o olhar. Parecia envergonhada.
ꟷ Você não aceitou a ideia, e foi sozinha para casa. ꟷ Continuou a contar, ainda olhando para baixo. ꟷ Fui atrás de você para tentar conversar, mas acabamos brigando mais uma vez. Só que dessa vez foi pior. Dissemos coisas desagradáveis uma para a outra. Coisas que estavam sendo ditas exatamente com o intuito de magoar. ꟷ E então suas lágrimas voltam a cair, porém agora, em maior quantidade. ꟷ Você saiu irritada do quarto, dizendo que queria esfriar a cabeça, e iria dá uma volta. Mas quando chegou na sala, encontrou Zelena e Graham brigando também. ꟷ Tiro meus olhos de nossas mãos, e direciono-os ao seu rosto, mas ela continua de cabeça baixa.
ꟷ Então...
ꟷ Sim... ꟷ Murmura, interrompendo-me. ꟷ Foi nesse mesmo dia que você brigou com a sua irmã e o noivo dela. ꟷ Confirma a minha dúvida. ꟷ Foi uma briga feia. Tão feia quanto a nossa. ꟷ Fecho os olhos, forçando-me a lembrar de qualquer coisa do que Emma me falara, mas nada me vem à mente. Apenas imagens criadas agora, para ilustrar os acontecimentos narrados. ꟷ Eu tentei intervir, ainda briguei com o Graham e tudo. ꟷ Continua falando, despertando-me das minhas tentativas frustradas de conseguir se lembrar de algo. ꟷ Depois da briga com a sua irmã e seu cunhado, você finalmente saiu de casa. Parecia uma bala. Tentei ir atrás, mas Zelena não me deixou sair logo. Ficou me segurando no sofá. Porém, quando ela me soltou, minutos depois, eu consegui sair. Quando te encontrei, correndo como se estivesse em uma corrida de fórmula 1, não pude evitar o que aconteceu a seguir. ꟷ Respirou fundo. Suas lágrimas correndo livres pelo rosto. ꟷ Apenas assisti você colidindo com outro carro, que também vinha em alta velocidade.
E então tudo fez sentido para mim.
Foi por isso que Emma ficou ao meu lado todos esses anos enquanto eu estive em coma. Ela se sentia culpada pelo que aconteceu comigo. Talvez tenha achado que, ficando ao meu lado, diminuiria a culpa que sente.
Soltei sua mão rapidamente, e me permiti chorar. Estava me sentindo uma idiota enganada, acreditando que ainda poderia existir “nós”. Acreditando que esteve ao meu lado, por ainda sentir algo por mim.
Como fui tola.
ꟷ Regina... ꟷ Tentou segurar em minha mão, mas não permiti, puxando-a para longe antes mesmo que tocasse.
ꟷ Foi por isso que você ficou ao meu lado todos esses anos. ꟷ Soltei, permitindo que a raiva se fizesse presente em meu tom. ꟷ Foi por isso que tem ido me visitar desde que eu saí do hospital. ꟷ A mágoa se fazia presente em minha voz.
ꟷ Não! Não foi por isso que eu passei todos esses anos ao seu lado. Não é por isso que eu vou te visitar sempre que posso, desde que você saiu do hospital. ꟷ Rebate em tom nervoso, virando o meu rosto para si. ꟷ Não foi por culpa, que eu passei dia e noite chorando ao seu lado, conversando com você, fazendo carinho em teu rosto, levando flores, ou que eu troquei minha cama pela poltrona do seu quarto. ꟷ Diz aflita, e eu percebo em seus verdes claros, a veracidade do que me disse. ꟷ Quando tudo aconteceu, não só eu, como Zelena, sentimo-nos culpadas. Brigamos diversas vezes por isso. Muitas vezes jogamos a culpa uma na outra, durante as brigas. Mas no fim, sempre concordávamos que as duas tinham culpa no cartório.
Fica em silêncio por um momento, e eu processo tudo que acabara de ouvir.
Zelena também se sentira culpada pelo que me aconteceu?
Olho para trás, e vejo-a ao longe, aparentemente conversando com Ruby. Espero que ao menos elas, estejam se entendendo.
ꟷ Sua mãe teve uma conversa com a gente... ꟷ Continuou a dizer, interrompendo meus pensamentos mais uma vez. ꟷ Depois dessa conversa franca que tivemos, ela nos fez entender que não éramos culpadas pelo que aconteceu. Que tinha sido uma fatalidade e tudo mais. Um ano depois, Zelena foi para a Inglaterra, e eu continuei ao seu lado.
ꟷ E a sua proposta de trabalho?
ꟷ Eu recusei. ꟷ Respondeu prontamente, pegando-me de surpresa. ꟷ Eu não iria embora e deixar você aqui. Não fazia sentido algum, eu ir para outro país e deixar a mulher que eu amo aqui, desacordada, em um coma, entre a vida e a morte. Eu tinha que ficar ao seu lado. ꟷ Diz baixinho, deixando meu coração acelerado com a forma que se referiu a mim. Ah! Como um coração apaixonado é bobo. ꟷ Eu fiquei até você abrir os olhos, porque eu amava você, Regina. ꟷ Declara-se, deixando meu órgão ainda mais em festa. ꟷ E ainda amo. ꟷ Acrescenta um pouco mais baixo.
Delicadamente, levanto seu rosto, virando-o em minha direção, o coração batendo tão forte, que talvez ela pudesse escutá-lo, e quando seus verdes se encontram com os meus castanhos, uma conversa silenciosa, apenas por eles, inicia-se. Uma conversa cheia de significados.
Sem nenhuma palavra precisar ser dita, trocávamos declarações, e eu tirava a minha confirmação de que tudo que ouvi, foi verdadeiro.
Criando coragem para fazer algo que eu gostaria de ter feito desde que a vi em meu jardim, com uma rosa nas mãos, pronta para me entregar, aproximo lentamente minha boca da sua, fecho os olhos me sentindo em um filme de romance e, ao som de Foreigner cantando waiting for a girl like you em uma versão acústica, que arrepiava até os cabelos mais íntimos, que tocava em algum bar próximo a nós, como se tivesse sido algo planejado, eu beijei os seus lábios no momento em que tocava o refrão, sentindo como se fosse a primeira vez que fazíamos aquilo.
A sensação de me sentir em casa, de me sentir verdadeiramente amada, acometeu-me, e meu peito seria capaz de explodir de tanta felicidade.
Nossos lábios moveram-se devagar, um de encontro ao outro, trazendo-me uma paz interior e uma tranquilidade, que há muito eu não sentia. Eu só desejava que aquele momento paralisasse, e então pudéssemos ficar assim por incontáveis minutos, mesmo depois de termos cansado. Era algo viciante e eu não queria parar.
Emma retribuiu o beijo, movendo seus lábios devagar sobre os meus, levou sua mão até o meu rosto, acariciando-o durante o ato, mas não aprofundou o contato. Devagar, afastou sua boca da minha, passando seus dedos em meus lábios, e eu abri meus olhos a tempo de vê-la ainda de olhos fechados, com um traço de timidez em seu rosto.
Em silêncio, afastamo-nos em seguida, e ela se levanta. Olha para onde Zelena e Ruby estavam conversando e, ainda envergonhada, chama-me para voltarmos para perto das duas. Assinto com um movimentar de cabeça e, repassando o final da conversa, e o beijo que trocamos, deixo-a que me leve até as meninas.
•§•
Após nos juntarmos com Zelena e Ruby, que aparentemente, por estarem sorrindo quando chegamos junto, pareciam ter progredido um pouco, mesmo que ainda precisassem conversar bem mais até que tudo se resolvesse de fato, pedimos um taxi, logo após nos despedirmos, e seguimos para casa.
Minha irmã fora o caminho todo, olhando pela janela, em silêncio, com ar pensativo. Talvez a sua conversa com Ruby, realmente tenha surtido efeito, e agora ela deveria estar repassando cada coisa dita e escutada.
Minha língua estava coçando para lhe perguntar o que tinham conversado, e como tinha ficado a situação de ambas, no fim daquela noite, mas eu não estava preparada para lhe contar sobre mim e Emma, e o resultado da nossa conversa também. Não porque eu não queria contar sobre o beijo, mas sim porque, simplesmente eu não sabia de nada. Tínhamos nos beijado após ela se declarar para mim, mas não conversamos sobre isso. Não falamos sobre o beijo, ou sobre reatar, ou não reatar, ou qualquer outra coisa desse tipo. Resumindo, eu não sabia o que dizer para Zelena, sobre nós. Então, assim como minha irmã, preferi olhar pela janela também, e em silêncio, repassar cada segundo do meu momento com Emma.
Quando eu cheguei em casa, minha ruiva me levou direto para o banheiro, a pedido meu, e assim como no caminho de volta para casa, mais uma vez, eu repassei cada detalhe da nossa conversa e do beijo que demos no final, chegando à conclusão de que eu estava muito, muito ferrada.
Eu estava apaixonada por todas as Emmas que a minha mente criou para as diversas realidades em que estive, mesmo cada uma, apesar de alguns em comum que tinham, serem bem diferentes, e algumas delas não serem nem reais, e não estava sabendo lidar com essa nova constatação.
Como eu havia me apaixonado por tantas pessoas ao mesmo tempo, mas ao mesmo tempo que são diferentes, são a mesma pessoa?
Eu não poderia simplesmente ficar com todas?
Eu não poderia simplesmente ter me apaixonado apenas por uma das personalidades?
Eu não poderia simplesmente viver apenas na realidade em que eu era noiva de uma Emma, a primeira por quem eu era apaixonada, e não estava presa em nenhuma cadeira de rodas?
Minha mente não poderia parar de brincar de fazer um jogo comigo?
Será que eu amava tanto essa mulher, ao ponto de ter criado tantas realidades alternativas, com diversas personalidades para ela, só para provar a mim mesmo, que eu a amaria de qualquer jeito? Que eu a amaria com todas as personalidades possíveis que ela poderia ter? Que eu a amaria de novo, e de novo, mesmo que ela fosse diferente da que eu conheci? Que eu amaria todas as suas partes, formas, faces, e personalidades que pudesse ter?
Ter vivido em todas essas realidades e ter me apaixonado por todas as Emmas que eu conheci, era como se tivesse sido uma prova de que o amor que sinto por essa mulher, é tão forte, que eu a amaria até depois do fim, passando-o para outras vidas, outras realidades alternativas, outros mundos.
Já na minha cama, pronta para dormir, tento pegar no sono, com todas essas questões pairando em minha mente.
•§•
Na manhã seguinte, antes mesmo de abrir os olhos, sinto algo preso em meu braço, deixando-o dolorido, e uma claridade fora do normal em meu rosto.
Sentindo a sensação de que eu não estava em meu quarto, e que estava sendo observada, abro os olhos devagar, e quase grito de frustração ao ver uma enfermeira mexendo em uma bolsa de soro, que estava conectada ao meu braço, enquanto lançava-me um sorriso simpático.
Ou eu tinha sido socorrida durante a madrugada e nem havia percebido, ou tinha acontecido tudo outra vez.
Se caso fosse a segunda opção, restava saber para qual eu tinha ido. Se seria mais uma nova vida, a possível real de tudo, e eu teria que me acostumar com tudo de novo, com mais uma Emma para conhecer e me apaixonar, e mais uma Zelena para conhecer, me reaproximar e confiar, ou se já era alguma conhecida.
Eu estava torcendo para que fosse a primeira opção. Mas se caso fosse a segunda, eu gostaria que fosse a segunda opção dessa segunda opção.
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