Mein Herz ist auf dem See
10 A Fúria do Oceano
“Ondas furiosas do mar, que arrojam as espumas da sua torpeza! Estrelas errantes, para as quais está reservada a escuridão das trevas para toda a eternidade!”
Judas 1.13
°
Ernest se encheu de temor. O resto dos homens congelou de medo.
– Pallas? — Gaguejou.
Mina estava no chão, virou-se com dificuldades, sentiu medo da criatura que vira.
Tentáculos de água envolviam o corpo da sereia. Alguns deles se uniram em feixes em sua mão e se fizeram em um tridente de ouro puro.
– Mas o que é isso! — Gritou Robert ao sacar uma pistola e atirar contra ela. Pallas recebeu o impacto em sua testa, mas nada sentiu. Retribuiu, estendeu sua mão para ele, lançando seu tridente com algum tipo de força telecinética.
– Não! — Robert sentiu três pontadas em seu peito, Pallas torceu o tridente, dilacerando-lhe as costelas. Robert tentava agonizar de dor mas não conseguiu, pois engasgava com o próprio sangue, ele sentia um nó apertando sua garganta, ele tossiu, expelindo uma grande quantidade de sangue pela boca. Finalmente, sua vida miserável o deixou. Fez-se um pesado silêncio.
– Ao convés! — Ordenou Edward, os marujos correram pelas escadas, temerosos.
O silêncio caiu novamente. Pallas caminhou vagarosamente rumo às escadas, como se deleitasse cada passo, Mina a fitava pasma, o rosto da sereia trazia um semblante fechado, seu olhos brancos sequer piscavam. Ernest não a reconhecia mais. Ela passou entre Ernest e Mina.
– Pallas... — Sussurrou Ernest. Ela parou subitamente, virou o pescoço de forma lenta e mecânica, o encarou com seus olhos mórbidos e esbranquiçados. Ela não era a mesma. Ernest sentiu os pulso congelarem, os grilhões que o contiam se fizeram em frágil gelo e se quebraram, Ernest tombou de joelhos no chão. Pallas ainda o fitava, imóvel como uma estátua.
– Pallas... — sussurrou novamente.
Pallas voltou-se para frente outra vez, seguiu adinate. Ela parou subitamente passar pelo corpo destroçado de Robert, estendeu o braço para o tridente e este levitou até a palma sua mão. Ela seguiu subindo as escadas, calada, sem parar, sem desviar o rosto, andando em uma trajetória retilínea, contínua e impecável.
– Ernest... — sussurou Mina, esforçando-se para se erguer sobre os joelhos.
– Mina! — Ernest imediatamente foi até ela e a abraçou. Ambos choraram muito, sentiam os soluços um dos outros. Mina tremia, perdera muito sangue, a carne de suas costas estava praticamente exposta.
– Ernest, estou com medo... — ela disse.
– Não tema, — Ernest mal conseguiu falar entre os soluços, sentia um nó apertando sua garganta.
– Ernest, eu quero ir para casa... — disse Mina.
– Não se preocupe, vou nos tirar daqui. — Ernest a carregou como uma criança, seu corpo estava fragilizado, parecendo uma boneca sem vida.
Acima, no convés, os homens corriam agitados, pegando suas armas e tomando posição. Edward bradava ordens, trajando novamente seu chapéu negro e seu casaco vermelho.
– Posição! Mirem na entrada da cabine! Eu quero aquela sereia abatida!
Toda a tripulação estava posta, apontando seus mosquetes e carabinas para escuridão após a entrada da cabine do navio. Estava quieto, eles respiram pesadamente, olhos fixos no alvo, as mão estavam suadas e os dedos tramiam perto do gatilho. Edward erguia sua espada, pronto para dar a ordem de fogo. Escutaram-se passos vagaros. A silhueta de Pallas se revelava aos poucos no escuro.
– Fogo!
Pallas foi alvejada por uma orquestra de tiros contínuos. Seu corpo sofria os impactos das balas, mas ela nada sentia, nem sequer mudava expressão. A rajada cessou.
– Recarregar! Rápido!
Todos começaram a recarregar suas armas freneticamente, mas Pallas não os esperou, tentáculos de água subiram do mar e os atacaram pelas laterais.
– Cuidado!
A tripulação lutou inutilmente contra a besta de água, Pallas caminhava calmamente em meio à carnificina, parecia se deileitar com a cena. Ernest surgiu de dentro da cabine com Mina em seus braços, se deparou com o combate.
– O que é isso!
Ernest recuou, abrigou-se no canto da sala escura, ambos sentados.
– Estou com medo... — sussurou Mina, Ernest a abraçou. De repente alguém adentrou, Edward, ele percebeu a presença dos dois.
– Você! — disse ele em alemão, apontado Ernest — O que significa isso!
– Como vou saber! — respodeu Ernest ao se levantar — Você quem brincou com o que não devia.
Mina se encolheu no canto, abraçou os joelhos.
– Eu vou matar você! — disse Edward ao caminhar em direção a Ernest. Tentou socar seu rosto, mas Ernest deteve sua mão e socou seu estômago. Edward cambaleou para trás, atordoado, Ernest manteve a postura, os punhos erguidos. Edward se repôs, e, grunhindo, se lançou em Ernest, erguendo o punho, Ernest bloqueou. Lutaram violentamente, trocando socos no rosto e nas costelas um do outro, Ernest o atordoou com um soco no queixo e em seguida o chutou, lançanado contra a parede. Ernest sacou seu sabre e desferiu um corte diagonal, mas Edward tomou uma lança e repeliu o ataque, trocaram golpe após golpe. Edward, tentou empalar Ernest com a lança, Ernest desviou o golpe e empurrou Edward através da janela.
Ele caiu no convés. Ernest deixou a sala, Pallas estava de pé no topo do mastro, inexpressiva, e cotrolando as serpentes de água em um combate feroz contra a tripulação do Hail Holy Queen, parecia uma deusa furiosa. Ernest a olhou admirado, e ao mesmo tempo, desacreditado. Correu até Edward, ele já se erguia com uma espada em mão, as espadas se cruzaram, tiniam, faiscavam no ar. Era uma luta árdua, Edward era um oponente experiente, sua guarda era difícil de quebrar, ele repelia os ataques de Ernest, rapidamente assumiu o ataque, mas Ernest bloqueou. Ambos forçavam suas espadas, as lâminas rangiam, faiscavam, suas faces se encaravam, Ernest sentiu que sua mão estava suada, sentiu cada gota de seu sangue ferver, cada gota de suor brotando de cada poro de sua testa. De repente uma das serpentes esmagou o centro do navio, partindo-o ao meio, ambas as partes ficaram inclinadas para o centro. Ernest agarrou-se ao mastro, manteve-se estável, porém Edward não teve a mesma sorte, segurava-se com dificuldades em um alçapão aberto, suas mão escorregavam na madeira molhada. Ele fitou Ernest, sua expressão se dissolveu em uma face de angústia.
– Ajude-me... — implorou — por favor...
Ernest fitou o rosto arrependido do pobre homem, sentiu seu coração amolecer. Edward escorregou ainda mais, fitou os olhos de Ernest.
– Por favor...
Ernest fez que sim, estendeu a mão para Edward, no entanto havia um objeto em sua mão: uma pistola. Ele puxou a pederneira com o polegar.
– Lebewoll, Kamerad...– atirou.
A bala destroçou a mão de Edward, ele caiu e foi tragado pelo mar. Ernest deitou-se sobre o mastro, exausto, sua testa molhada de suor, sua respiração ofegante.
“Mina...” pensou.
– Mina! — se deu conta que Mina ainda estava na cabine. Ele se levantou, escalou as escadas da polpa íngreme do navio, até adentrar a cabine
– Mina! — chamou ao entrar.
– Ernest! — Mina estava deitada nas grades que sobraram da janela da cabine, Ernest correu até ela.
– Você está bem? — perguntou.
– Sim mas... — havia um enorme caco de vidro atravessando o braço direito de Mina, muito sangue escorria do ferimento.
– Meu Deus... — Ernest levou o pulso à boca de Mina — Morda.
Mina mordeu a manga da camisa de Ernest, espremendo os olhos. Ernest arrancou a fragmento, Mina gruniu de dor. Ernest rasgou uma tira do seu vestido e, com ela, enfaixou o ferimento, apertando-o bem.
– Pronto. Consegue andar?
Mina fez que sim.
– Então Vamos sair daqui.
Ernest e Mina caminharam até as janelas traseiras do navio. Estava tudo inclinado, mas o carpete da cabine os dava uma certa aderência. Eles logo chegaram à polpa. Ficaram de pé em um ponto estável, suas mãos atadas, observando a destruição, Pallas levitava onde supostamente ficará o mastro principal.
– O que é isso... — perguntou Mina, adimrada.
– Uma sereia...
O mar estava agitado, uma forte tempestade trazia chuva violenta e ventos cortantes.
– Estou com medo...
Ernest a abraçou, acariciou seus ombros. Mina pousou a cabeça no peito de Ernest.
– Ernest... Estou feliz, por ter você aqui, no fim de tudo.
– Eu também... — Ernest parecia arrasado.
– Ernest...?
– Mina... Sinto muito... Por não ter vivido o bastante ao seu lado...
– Não diga isso. — Mina o olhou em seus olhos — Tivemos uma vida juntos, fulgaz mas intensa. Eu tive você, e eu o tenho agora...
– Mina... — Ele olhava no fundo daqueles olhos grandes e meigos, lacrimejados, mas pareciam um par de puras safiras, sua triste face se dissolveu em uma expressão terna. Uma lágrima rolou de seu rosto enquanto o mundo desabava ao redor. Ondas colossais se erguiam para tragar navio. Um monitor, o orgulho da Marinha Britânica, uma maravilha bélica, parecia tão insignificante em meio a fúria do oceano.
– Ernest... — sussurrou — eu amo você.
– Eu também... — ele a beijou, uma chave de puro ouro para fechar suas vidas...
Um último beijo no fim de tudo.
Um beijo de adeus...
E foram engolidos pelo oceano.
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