Notas iniciais
Com algum atraso, meu agradecimento ao Luan Barbosa, por favoritar minha história também (o site fica meio limitado no smartphone, só vi depois.)

Ergueu a cortina. Encontrou Fred dormindo, Cas, Marina e o... Shkreli? O Shkreli estava ali? Por que ele ainda estava solto?

— O que aconteceu?

— Ele não acorda, Mauro. Luca não encontrou nada errado com o corpo, mas ele não reage. E aquelas pessoas estão chegando hoje.

— Tenho que ver o que ele tem. — Foi só pensar naquilo e o mundo começou a apagar. A queimação piorou. Vindo de algum canto, sentiu alguém segurá-lo em pé. — Ugh. Eu preciso...

— Precisa ficar quieto, seu idiota. Senta aí. — Ah, era o Cas. Sentou no chão, abraçando o estômago, tentando prestar atenção no que Marina dizia, mas estava difícil. Cássio sussurrou, a voz carregada de preocupação. — Cara, você forçou muito antes de ontem. Foi assustador pra cacete. Descansa ou você morre mesmo dessa vez. Tá se sentindo melhor?

— Tô um lixo, Cas, mas vou viver.

O ciborgue grunhiu mal-humorado, olhando o grupo. — Você, Marina, Fred, e o Luca acabou de sair feito maluco. Se eu sou a pessoa mais saudável nessa merda, estamos fodidos. Opa, um gato. Finalmente uma boa notícia.

Bóris estava na fenda da cortina, e recuou um passo ao ver aquele homem caminhando pra ele sem fazer ruído, o olho com um brilho faminto. Ele parecia demais com um caçador pra ficar tranquilo.

— Ei, você é o gato de Viviane! — Marina exclamou e o ciborgue se interrompeu, frustrado. — O que está fazendo aqui?

— Eu não consigo fazê-lo entender. — disse pra Mauro, cabisbaixo. — Ele seguiu o resto do cheiro até aquelas caixas, mas não entende que ela se foi.

— Mas que droga. Eu vou cuidar dele, Bóris. Prometo.

Dele quem, Mau? Tem mais alguém aqui?

— Mingau, Cas. Você tinha razão, ele estava aqui perto.

— O gato da Magali está aqui dentro? — Cássio repetiu, sem acreditar. Era bom demais pra ser verdade. — O Luca deve ter ouvido o barulho da porta. Vou lá falar com ele, depois encontro o Mingau. Doc, você vem comigo. E os três aí tratem de descansar. Principalmente você, lobo imbecil. Volto assim que puder.

Marina olhou com desconfiança pro Mauro conversando aos cochichos com o capanga daquela bruxa maluca. O gato preto fez caras e bocas ouvindo seu primo, então subiu no peito do seu namorado e o encarou por uma eternidade. Quando Marina estava pronta para interromper aquela esquisitice, o gato pareceu voltar a si e pulou do Franja.

— Bóris, o que aconteceu com ele? — O felino a olhou com algo que parecia pena, mas não respondeu. — Mauro?

Alguém podia por gentileza dizer alguma coisa pra ela? Os dois pareciam com aqueles médicos de séries de TV, se preparando pra comunicar o falecimento de alguém. Prestou atenção no homem ao seu lado. Franja, que parecia doente de verdade. Que passou quase duas semanas cuidando dela e não tão bem de si mesmo.

— Sinto muito, garota. Sinto muito mesmo. — Depois disso, Mau levantou e acompanhou o gato pelo corredor, desnorteado o suficiente para não acertar sequer seu próprio nome.

Sem força pra caminhar naquele ritmo, ela os observou se afastarem. Ao mesmo tempo, todas as luzes apagaram. O vibrar grave do ar condicionado cessou.

Eles tinham chegado.

***

Mauro e Bóris chegaram até as telas. Os outros estavam diante da única tela acesa, vendo a massa de pessoas caminhando pela floresta, e parecia infinita.

Foi a primeira vez que Shkreli viu o que tinha acontecido com o mundo. Acreditou quando disseram que o mundo tinha acabado, mas ver a destruição era diferente. Tantas pessoas andando como zumbis o deixava com um nó na garganta. Os outros estavam pálidos e silenciosos, toda a luz vindo da tela do painel.

— Cássio, tá tudo trancado?

— E desligado. Todas as armadilhas montadas.

— Então pegue as armas. Traga todo o carrinho. — Ele assentiu em silêncio. — Shkreli, baixe a trava manual da porta. Nenhum vivo até agora.

— Mauro, o que está fazendo aqui? Eu não te falei pra descansar?

— Aconteceu uma coisa. Com o Fred.

Se estivesse olhando pra frente, teria visto o medo atravessar o rosto de Luca como a sombra de um pássaro, mas voltou ao normal e era como se uma pedra pudesse falar quando finalmente perguntou:

— Ele está vivo, Takeda?

— Está. Mas o problema não é esse. Eu-

Bóris caminhou até a luz, pisando casualmente no pé do garoto pra ele parar de piorar a situação. Francamente, para um mago ele era um desastre completo com palavras. Naquele ritmo o rapaz na cadeira de rodas teria três infartos antes de terminar o dia. — Investiguei um pouco a mente do ex-cachorro a pedido do garoto aqui, e ele explicou como era. Em resumo, um carnaval psicodélico. Nem sabia que cabia tanta doença mental numa pessoa só. Mas agora, quando fui até lá está tudo em branco. Vazio. Como se não tivesse ninguém.

— Como assim, ninguém? — A voz de Cássio subiu uma oitava.

— Se entendi direito, ele está dizendo que parte do Fred se foi. Que ele está vivo, mas não vai acordar. — Ele devia ter visto. Devia ter arrancado Fred da cabeceira de Marina. Escutava os xingamentos de Cássio sem realmente entender as palavras.

Tinha fracassado de novo, e tudo que restara do seu amigo era uma casca vazia. Focou a atenção na respiração. — Bóris, pode explicar melhor?

— Difícil explicar isso pra mundanos... O que vocês sabem sobre as sete partes da alma? Nada? Hum, já sei: o hardware está praticamente inteiro, mas o software… esse estragou. Já acumulava erro em cima de erro, e com o tempo sem comer, dormir, a morte possível da namorada… Buum. — Sentado nas patas traseiras, afastou as dianteiras, simulando a explosão. — Ele implodiu. Quebrou. Tela azul. Lamento.

Não precisava mencionar que a magia atrapalhada de Mauro, que tinha resgatado a menina (e que parecia impossível que não tivesse matado os três) terminou com o estrago, tornando-o definitivo, e até onde sabia, irreversível.

Cada um dos humanos na sala tentava assimilar as notícias péssimas que trazia, e quase podia ouvir o coitado do amigo da Ramona desmoronar de novo. O homem na frente das telas, por outro lado, parecia um penhasco. Manobrou a cadeira até olhar nos olhos do gato.

— Cássio, preciso que vá buscar as armas. Esvazie o armário, por favor. Doutor, mantenha os olhos na tela. Se vir alguém armado, ou algum veículo, me avise imediatamente. Bóris, Mauro: Entendi que não tem nenhum dano físico grave. Isso é reversível? Existe alguma forma dele acordar?

— Eu não sei.

— Olha pra mim, Mauro. Existe algum jeito? — Mauro ergueu a cabeça a custo, a culpa e a tristeza borbulhando nos olhos.

— Se existir, vou encontrar. Assim que eu puder voltar a fazer magia, procuro por ele. Prometo.

— Sei disso. Algum outro perigo imediato? Não? Então agradeço, Bóris, mas tenho outro problema para resolver agora. Preciso que repouse, Mauro. Com licença.

Bóris sussurrou pra Mauro. — Acho que é impossível. Nunca vi alguém voltar à consciência depois de tanto estrago.

— Se tiver uma chance, eu consigo. — O garoto parecia erguer-se de novo. — Você pode me ensinar?

— Sobre o quê?

— Sei que Viviane me odeia, mas se me mostrar o básico, talvez eu não mate ninguém na próxima. — Piscava muito, tentando não cair no choro. Sentou-se no chão, a dor agora era só um incômodo. — Merda, lá vem a Marina.

Ela vinha apoiada na espada como uma bengala, olhando pra ele e pro gato de Viviane com raiva. — Mauro, o que tá acontecendo com o Fred? Vocês não podem só dizer “Sinto muito” e ir embora!

Arfava, fazia tempo que não caminhava uma distância tão longa, mas não sairia dali sem uma boa explicação.

Quando Cássio voltava, encontrou Marina recuperando o fôlego no meio do corredor.

— Ma, o que você tá fazendo aqui? — Ela levantou o rosto molhado pra ele.

— Aquele idiota! — Soluçava, furiosa. — Por que ele fez isso? Idiota, idiota, idiota!

— Marina, não tô entendendo nada. De qual idiota você está falando?

— Do Franja, é claro! Do sem-noção que passou mais de uma semana sem dormir! Ele era um cientista, droga! Não sabia que as pessoas precisam dormir? Comer? E agora ele pode não acordar nunca mais por causa disso! Franja, seu imbecil!

Cássio largou o carrinho e abraçou Marina, e ela deixou as lágrimas descerem livremente.

Todos sabiam que o jeito de Fred amar era intenso, distorcido e doentio, e existe um limite pro que as pessoas podem perder sem ser destruídas. Pro Fred, esse limite se chamava Marina. Quando ela pareceu mais calma, Cássio a soltou com gentileza.

— Fica aqui e descansa um pouco. Vou ajudar Odin e depois puxo o imbecil pra ficar perto da gente lá nas telas, tá bom? Aí você bate nele e o xinga o quanto quiser. Garanto que vai se sentir melhor.

Ela concordou com a cabeça, enxugando o rosto. — Eu vou encontrá-lo de algum jeito, Cas. Eu sei que ele está lá, só está perdido. Eu...

— Tenta relaxar, Ma. Preciso deixar essas coisas com o Odin, num minuto eu volto. — O ciborgue voltou a puxar o carrinho até chegar perto do barulho surdo de pancadas na porta. Até o Bóris olhava fixo pra tela, como o jogo de futebol mais apavorante do mundo.

Caralho, ainda tinha tanta gente assim no mundo? Olhou inseguro pra porta. Sabia que aquela coisa em teoria aguentava até um míssil, mas ver aquele monte de obsessivos se espremendo lá era enervante. Será que aquele disfarce tosco que usavam pra sair funcionaria se tivessem que passar no meio daquela multidão?

Já tinha trazido Marina e Fred quando apareceu o caminhão. Era mesmo um caminhão baú, balançando na estradas esburacadas. Podiam ver o brilho da arma do atirador no topo do veículo, e placas de metal soldadas dando um aspecto remendado. Atrás dele, um jipe seguia com menos dificuldade. Parecia um carro de safári, com grades nas janelas e no para-choque.

Quando os veículos estavam a menos de uma centena de metros, começaram uma curva e desviaram até sumir de vista. Shkreli suspirou alto de alívio, e Cássio deu uns tapinhas nas costas de um Mauro quase feliz. Marina agradecia baixinho, sem tirar os olhos da imagem.

— Parabéns, Mau. Você é foda, nenhum deles sequer olhou pra cá. Eu sabia.

Finalmente, os obsessivos rareavam e parecia que não haveria uma invasão. Marina dormia e os outros estavam sonolentos. Cássio já cabeceava de sono, Mauro e Shkreli se esforçavam pra erguer a cabeça. Mesmo Luca, habituado como estava a vigiar as telas, se esforçava pra manter os olhos abertos.

— ...Pariu... apito chato...

— São cinco... Alguém des... porca...

Cinco da manhã... aquele alarme devia ser importante, mas significava o quê? Estava difícil pensar com tanto sono… a imagem foi tomada por um aviso em amarelo. “Aperte OK para reiniciar o sistema de ventilação”. Outro alarme piscando em vermelho: “Baixa pressão parcial de oxigênio” Apertou o OK na tela. Fecharia os olhos só uns minutos, estava tão cansado.

Luca acordou no susto. As luzes de emergência estavam acesas, mas pelo seu relógio eram cinco e quarenta da manhã. Não lembrava do alarme ter soado. Olhou ao redor, todos tinham dormido no lugar em que estavam.

Suando frio, deu-se conta do erro. Fred não calculara o tempo limite com duas pessoas a mais e o laboratório era selado. Tinham tido sono por pouco oxigênio, além do cansaço. Não lembrava de ter religado a ventilação, mas era o que devia ter acontecido. Na ânsia de passar despercebido, tudo permaneceu desligado quase por tempo demais.

***

Cássio acordou dolorido. Diabos, estava tão cansado que apagou no chão mesmo. Mauro e Shkreli tinham dormido no lugar também. Droga, até o Luca? Esperava que ele não tivesse outra escara por ficar tanto tempo naquela posição. Bocejando em silêncio e mexendo o pescoço, foi até o rapaz curvado diante da bancada. Os ombros de Odin sacudiam, e ele tinha afastado o teclado. A cena era tão inusitada que demorou a entender, e quando finalmente compreendeu, não conseguiu dar mais nenhum passo.

Luca estava chorando. Aos soluços.

Vê-lo se despedaçar sem um ruído parecia tão errado. Olhou ao redor, todos ainda pareciam bem. Aproximou a mão dele, não teve coragem, então chamou o mais suave que conseguiu:

— Luca? — Levou um tempo pra controlar a respiração e conseguir falar. A voz soou tão normal que se não estivesse olhando pra ele, pensaria que Odin só estava um tanto aborrecido.

— O que você quer, Cássio?

— Hum...Eu… Nada, só nunca te vi assim.

— Sou um fracasso. Um enorme erro. Quase morremos todos porque fui burro e deixei a ventilação desligada tempo demais. Meu Deus, o Joaquim, a Maria, a Isa, agora a Marina e o Fred. Eu… Não posso mais fazer isso. Não posso.

Enxugou o rosto vermelho com as costas da mão e pôs a pistola na bancada.

— Toma. É sua. Vou parar com isso antes que seja tarde demais.

Santo Deus, era um idiota. Luca vendeu por tanto tempo a imagem de imbatível que Cássio acreditou. Todos acreditaram. — Espera, cara. O que quer dizer com “é sua”?

Luca não esperou. — Faça o que quiser dela, Cássio.

Quase não alcançou o controle antes da sala de ferramentas fechar. Luca o olhava exasperado, enquanto a porta subia.

— Luca, todo mundo erra, principalmente eu. Acontece, não seja tão duro consigo mesmo.

— Tenho o dever de ser no mínimo tão duro comigo quanto sou com vocês. E não, eu não posso errar.

— Posso saber por quê? Deixou de ser humano, por acaso?

Não esperava Luca o puxando pela camisa, o abaixando até que ficasse na altura dos seus olhos. — Porque as pessoas morrem, cacete! É a única coisa que eu posso fazer de cima dessa porra de cadeira! Tomar decisões!

As lágrimas voltaram a correr, porém ele não percebeu ou se importou. — E se tudo que faço é decidir errado e depois forçar o Mauro a corrigir minhas falhas, então você me diga, Cássio: Eu sirvo pra quê?

Cássio nunca tinha visto Luca daquele jeito. Deveria dizer alguma coisa? Só ouvir? Luca soltou sua camisa de repente, ainda o olhando num desprezo raivoso. — Foi o que pensei.

Virou-se e murmurou algo que o ciborgue não entendeu. — O que você disse, Luca?

— Eu falei... — repetiu alto e pausadamente. — que você deveria ter conseguido.

Cássio recuou, era como se Luca o tivesse socado. — Eu não... Luca, aquilo foi um erro. O pior da minha vida inteira, e isso é muita coisa. É até melhor que você me ache um cachorro louco, mas não pode achar que eu estava certo em te atacar!

— Mas estava.

Inferno, como ele faria pra alcançar o Luca? Mauro é que era bom com as palavras, Marina é quem tinha aquele jeito que desarmava todo mundo. Ele era só um pateta boca-grande. Luca seria outro Joaquim, e não aguentariam aquilo de novo. Esbarrou numa estante e algo que tinha no bolso o incomodou. Tirou automaticamente. Ah.

— É só um desejo, Cas. Eu não vou fazer isso com vocês. Não sou o Joaquim. — Cássio jogou uma bainha de faca vazia no colo dele. — O que significa isso?

— Você lembra de uma tarde que nós chegamos e eu saí brigando com todo mundo? Mais de um ano atrás?

— Fred quase te estrangulou naquela noite, você estava insuportável.

— Foi o dia em que eu matei a Mônica. — Não pensava que contaria essa história na vida. — Mauro literalmente me arrastou de volta. Depois de discutir com o Fred, me escondi no lugar mais fundo que conhecia.

Sentou de costas pra cadeira e respirou fundo. — O fato, Luca, é que eu seria um Joaquim. Liquidar a Mônica, quem sempre salvava nosso couro, me deixou desesperado. Não aguentava mais essa vida de merda. Não aguentava mais ser eu. Mas o lobo idiota me achou.

— Imaginei.

— Ele ficou lá enchendo o saco até eu me sentir melhor. Dei a faca que usaria pra ele, mas não estava com a bainha. E nem importava, sabe? Não planejava guardar mesmo. O que quero dizer é que eu carrego esse troço pra me lembrar que sozinho eu seria só mais um nome numa caixa. E que às vezes outra pessoa vai salvar meu couro, e tudo bem mesmo assim.

“Você é humano, Luca. Tem o direito de ser só humano às vezes.”

Ouviu o choro recomeçar atrás dele, e ficou nervoso. — Desculpa, Luca. Disse alguma coisa esquisita, não foi? Eu queria dizer que-

Havia qualquer coisa no que Cássio falou que o encheu de alívio e mais, algo bom guardado há tanto tempo nos fundos da sua mente que já nem sabia o nome. Ainda era um cego prepotente e falho, mas a culpa já não o esmagava.

Voltou a chorar, e dessa vez não conseguiria parar tão cedo. Tateou até encontrar o ombro de Cássio, que tentava se desculpar por algo que nem sabia o que era, e ele calou.

Humano. Talvez pudesse ser só humano um pouco.

— Obrigado. — Conseguiu articular finalmente. — Muito obrigado.