Meia Lua

24 Aqueles que se perdem


Notas iniciais
Obrigada, Wanda Carter, por favoritar a história. Mais agradecimentos à Arymura, seu incentivo e apoio foram essenciais pra esse capítulo ficar bom. E aos demais, estamos no meu "mini-arco" favorito. Espero que gostem tanto quanto eu.

Do outro lado da porta, Marina e Mauro esperavam. Acordaram alarmados ao ver a arma sem o Luca, mas não conseguiam decidir se era bom entrar ou não.

“É só um desejo, Cas. Eu não vou fazer isso com vocês. Não sou o Joaquim.”

Marina olhou interrogativamente pra Mauro. Este bateu a mão na testa, constrangido. Não queria ser ele a contar essa parte, mas pelo visto não teria outro jeito. Quando ouviu Cas começar a falar daquela noite, Mauro a puxou pela mão e levou até as caixas. Viram uma bolinha de pelos brancos no local.

— Mingau! Vem cá, menino! Ô fofucho, você tá tão magro. – Marina agachou-se e ele mal levantou a cabeça. Ela virou-se pra Mauro. — O que ele tem?

— Ele encontrou a Magali ontem. Ele não sabia.

Marina sentou-se, a mão no dorso do animalzinho. Não sabia se queria confortar o gato ou receber conforto. — Mau, você vai me contar mais alguma história sombria, né? O que aconteceu com o Quim?

— Você quer mesmo saber? — Diante do silêncio dela, continuou. — Cássio foi o quarto a chegar. Quim e Maria Melo estavam com a gente. Fred e Quim traziam comida e procuravam outros sobreviventes por perto. Eu e Cas não pudemos ajudar. Viemos sujos de Obsessivos, e adoecemos. Nós melhoramos, tudo deu certo por uns dias até que Joaquim achou a Magali. Transformada.

Marina cobriu a boca em choque. — Ele se matou. Tiro na barriga. É, escolha ruim. Foi aí que descobrimos que ele carregava a arma do pai. E que gente morta não se transforma. Luca precisou terminar o serviço. Fred começou a adoecer nesse dia, tinha ficado bem próximo de Quim. Foi cada vez mais difícil pra ele sair. Desculpe, Ma. Se a gente imaginasse que você estava viva, teríamos chegado bem mais cedo.

— Eu entendo, Mauro. Não precisa se desculpar de novo. A Maria estava com vocês? O que aconteceu com ela?

— Maria já era fraca, com aquela mania de não comer. Quando a comida realmente acabou, ela parecia um esqueleto. Ela insistia que tudo isso acabaria logo, que o exército ou o governo viriam nos resgatar. Então ela teve uma dor no ouvido, coisa que daria pra curar fácil com o remédio certo. Mas não tínhamos nenhum. Alguns dias depois, ela já não se mexia. Quando a respiração começou a falhar, Luca deu um tiro nela.

“Ele até deixou a gente se despedir, mas não ajudar.

Luca se culpa por cada um. A gente nem fala o nome deles perto de Odin. Cássio e eu levamos muito tempo pra deixarmos nossos fantasmas irem, mas o Luca... ele os carrega como uma maldição. É claro que ele ficaria pior quando falei do Fred. Merda. No que eu estava pensando quando falei daquele jeito pra ele? Se fosse com o Cas, eu teria...” — calou-se alarmado.

— O que foi, primo? — Olhou e ele parecia sem jeito, como se tivesse falado demais.

— Nada. Passo muito tempo com Cássio. É meu melhor amigo. — Droga. Tentando justificar-se, ficava cada vez mais sem jeito. Sentia o olhar intrigado de Marina. Distraiu-se e quase confessara o que sentia.

Espera. O que sentia, afinal de contas? Porque estava nervoso igual a um adolescente? Respirou fundo e acalmou-se, até perceber os olhos castanhos da garota o encarando, bem perto dele.

— Você tá apaixonado, Nimbus?

Mauro pulou pra trás, os olhos arregalados. Gaguejou alguma coisa, até finalmente articular que Luca precisaria de ajuda e sumiu.

Marina olhou intrigada o corredor vazio. Nunca tinha visto Mauro corado e gaguejando. Fosse o Cebola, estaria trocando letras. Fofo, lhe lembrava o Franja, aquele misto de surpresa e choque de quem acha que o amor nunca vai acontecer com ele.

Voltou-se pro Mingau, e o pegou no colo delicadamente. — Vem aqui, fofinho. Eu sei que tá doendo, mas nós vamos cuidar de você a partir de hoje, tá? Eu também estava perdida, e eles me adotaram. Eles assustam um pouco, mas são bons e atenciosos. Vamos lá, quero te mostrar sua outra família.

***

Quem era? Sabia que existia e só. Não sentia nada claramente ou podia nomear o que sentia. Nenhuma pista de quem poderia ser, se tinha uma história, se tudo que existia era branco. Tinha um vago desassossego, como se devesse existir algo mais. Procurou ao longo do tempo, mas mesmo as sombras do começo sumiram. Percorrera toda a extensão branca ao seu redor e acima, e só as sombras. Havia rostos, pessoas felizes, um cachorro azul. Com certeza um cãozinho azul, que aparecia em todo lugar. No começo também tinha uma pessoa deitada, mas essa imagem sumiu com as outras.

Estaria se despedindo do mundo ou chegando? Essas imagens seriam da sua história ou de outras? Olhou pra baixo. O chão não era mesmo sólido, oscilava um pouco. Talvez houvesse alguma resposta abaixo dele. Concentrou-se e mergulhou.

Havia camadas e camadas, mais ruidosas e coloridas. Muitas, muitas pessoas e vozes, informações e nomes. Alguns rostos se repetiam mais. Pensamentos desorganizados e muito distorcidos, todos girando em torno de uma mulher deitada. Quanto mais se aproximava daquilo, a distorção piorava. Havia homens, feridos e quebrados, numa estrutura metálica. Foi mais fundo. A garota sorrindo pra ele, sem roupa.

A mesma garota, de cabelos longos e ondulados, o levando pra algum lugar. Muitas e muitas máquinas. Coisas explodindo. De novo o cachorrinho azul. Havia um homem loiro com bigode e uma senhora que apareciam muito juntos. Foi mais fundo. Em algum lugar, sabia, existia o que precisava. Já podia ver a si mesmo, enquanto nadava.

Chegou ao que parecia ser o limite. Ao contrário das camadas superiores, toda a luz emanava de uma corda, que parecia se estender pelo infinito, saindo e voltando pra escuridão. Tocou de leve. Parecia pulsar num ritmo familiar. Tão fina, via-se desgastada aqui e ali. Sabia que era importante. Se a partisse, sua existência ali acabaria, disso tinha certeza. Sua única certeza, aliás.

Era desconfortável a ausência de respostas pra tantas perguntas. Ter tanto poder, e não ter informações pra usá-lo. Levantou-se e voltou às camadas anteriores. Estava curioso sobre qual seria seu nome, e por que estava sozinho. Poderia voltar mais tarde.

***

— Amanhã o dia vai ser cheio. Estoque e rever as paredes do laboratório. E ainda fazer exercício e ajudar o Shkreli. Não sei como Luca dava conta de tudo isso sozinho.

— É cansativo mesmo. Boa noite, Cas.

— Você ainda tem aula com o Bóris. Lembra que ele vem depois de amanhã.

— Tô lembrado. Boa noite, Cas. – Virou-se pra dormir.

— Você vai dormir deitado?

— Dormi assim a vida inteira.

O rosto de Cássio não traía nada. – Vou ver se Marina ou Luca precisam de alguma coisa. Boa noite, Mauro. — Afastou-se rápido, antes que a frustração o fizesse explodir e dizer alguma coisa que não devia.

Desde que aquela merda de horda ficou vagando no seu quintal, as coisas foram de mal a pior. Fred não mexia um músculo, Luca se recuperava devagar. Começaram a ajudar Odin com a manutenção do lugar, mas não faziam ideia da quantidade colossal de coisas que Luca gerenciava. Mesmo dividindo tudo entre eles, Marina e Shkreli, ainda tinha atividades todos os dias.

O pior de tudo era o Mauro. Desde a hora em que Bóris foi embora, ele mal falava além do necessário, ou explicava o que tinha acontecido. E agora nem dormia perto dele! Cássio não sabia o que tinha feito de errado. O babaca não se distanciou dos outros, pelo contrário: Passava um tempo maior com Luca e Marina, prolongava a meditação matinal e ajudava mais com o Fred. O imbecil parecia até mais tranquilo, e tudo que Cássio conseguia fazer pra não brigar com todo mundo era ficar calado, a mágoa espalhada na sua mente como uma doença.

Daria um jeito de convencer Odin, encontraria o tio, despacharia o pessoal e aquele cretino pra Hoshi ou qualquer outro canto seguro e acabaria com aquela maldita infestação mundial.

E sumiria. Aquele imbecil do Takeda nunca mais ouviria notícias dele. Era melhor assim.

Passou perto da cortina do canto da Marina e ouviu o ressonar tranquilo. Abriu uma fresta na cortina e viu o mesmo de toda noite: Dois colchões alinhados com os três dormindo profundamente. Mingau dormia enrolado em cima do travesseiro de Fred.

Deu a volta e passou um tempo olhando as telas de segurança. Havia dias que os vivos não apareciam, mas desligaram as luzes e mantiveram apenas o essencial. As telas não mostraram nada além de uma porção de obsessivos vagando. O celular de Fred permanecia na bancada. Pensou em ligar e pôr alguma música pra tocar, quando ouviu Mauro chamá-lo baixinho. A raiva ferveu ainda mais no peito, e decidiu não voltar. Ficaria em outro lugar, qualquer outro lugar a partir daquela noite.

Voltou para o lugar mais distante do laboratório que conhecia. Dormira lá várias vezes, depois que começaram a encontrar as coisas horríveis lá fora. Ficou ali, amargurado e triste, até Mauro... Droga! Não conseguia dar dois passos sem esbarrar em alguma maldita memória? Não tinha um raio de lugar onde não tivesse estado com Mauro?

Apoiou a testa nos braços, estes no joelhos e lutou pra dormir.

— Cássio?

— Cai fora.

— Vai dormir no colchão. Você precisa descansar.

— Tô bem aqui. – Nem levantou o rosto. – Preciso dormir. Fora.

— Cássio, por favor, sai daí. Vem dormir.

— Você dormiu sozinho a vida inteira. Fora, eu já disse.

O silêncio durou tanto que ele pensou que Mauro foi embora.

— Ok. Vou deixar você dormir. Tchau, Cássio. — Podia ouvir a tristeza na voz, e lutou pra ficar no lugar. Era mesmo um estúpido, como podia ainda se sentir mal por aquele cachorro? Depois do jeito como ele o tratara? Não iria conseguir dormir nunca daquele jeito.

Os dois mal se viram nos dias seguintes, sem contar as vezes em que buscavam por comida. e Mauro se afastava quando via Cássio. Marina e Shkreli ficaram um tanto alarmados ao ver os olhos de Mauro amarelos o tempo inteiro, mas não perguntaram nada. Cássio parecia um robô. Não falava com ninguém, trabalhava, pegava a comida e sumia, assim como no final do dia.

Quando finalmente chegaram na porta depois de dois dias de pesadelo, Luca os esperava na saída com uma expressão cuidadosamente fria.

— Se expliquem.

— Estou há dias coberto de tripa, exausto, moído e sei que fiz merda. Dá pra deixar o sermão pra depois?

— Vocês não sairão juntos de novo. Vão descansar.

Cássio e Mauro olharam de volta estupefatos.

— Odin, você não pode...

— Não dá pra fazer isso sozinho! Tem obsessivos demais lá fora!

— Posso e vou. Aqui dentro, podem se casar ou se matar, não é da minha conta. Mas lá fora, preciso que vocês se comportem como minha equipe, e não como os dois amadores suicidas que assisti nas últimas quarenta horas.

Os dois não conseguiram sustentar o olhar de Odin. — Foi tão patético que Marina tentou me convencer a deixar um dos dois aqui e deixá-la sair na próxima. Então até que vocês me provem que estão usando a cabeça pra outra coisa que não pôr uma máscara, não vão sair daqui juntos. Não preciso de mais dois apodrecendo no quintal.

— Odin, não é assim que... — Sentiu a mão mecânica de Cássio no seu peito.

— Desculpe. Não vai acontecer de novo. Prometo que vou obedecer quando me disser pra parar, e não vou mais discutir com o Mauro. Considere o problema resolvido. Não é, Mauro?

— Sim. Lá fora seremos profissionais.

— Que bom que ficou claro. Vou checar se Marina precisa de mim, e então dormir um pouco. Estarei no lugar de sempre, me chamem caso precisem. — Quando Luca se afastou o suficiente, Mauro finalmente encontrou coragem pra sair do lobo e chamar:

— Cássio, fica. Preciso conversar com você. — O viu hesitar, mas não se virou.

— Vai explicar porque me tratou como um jornal velho nas últimas semanas?

— Sim... Não! Eu não queria isso, Cássio. Você não é um jornal velho. É muito complicado. Eu-

— Nenhum de nós precisa disso, Mauro. Poupe as desculpas. Só... vai dormir.

— Você precisa me ouvir. Espera, Cássio.

— Não vou discutir com você, e não te quero morto, mas não preciso ouvir mais nada. Não durmo há trinta horas, meu braço humano dói pra cacete, hoje não é o meu dia pra aturar merda.

Droga, precisava fazê-lo entender. Não podia ter errado tão feio que não tivesse conserto. Mas Cássio se recusava a ficar no mesmo cômodo que ele, como conseguiria explicar sem falar daquilo que lhe vinha comprimindo como uma cobra há semanas? Como ficaria tão perto de novo? Deu um passo na direção dele, e mesmo que não tivesse feito ruído, todo o ciborgue se tensionou em resposta.

— Dê mais um passo, só um, e vou afundar sua cara no chão, estou falando sério.

Pareceu sentir algo no ar, e deixou transparecer só uma fração da raiva que continha agora. — Sim, vai precisar me obrigar a ficar. Mas se usar magia, faça essa porra direito e não me solte nunca mais. Porque na hora em que você me devolver o controle, em cinco minutos ou vinte anos, juro pelas caixas dos meus pais que eu vou acabar com você. Entendeu?

Não podia ceder agora. Se voltasse, se parasse pra ouvir, tudo iria parecer bem de novo e quando fizesse besteira e Mauro o rejeitasse mais uma vez, não restaria nada. Sequer conseguiria fingir ser humano outra vez.

Só mais umas semanas. Não deixaria Odin em paz até que ele concordasse. Ele teria poder pra mudar tudo, e ninguém estaria preso a ele. Forçou um pé, depois o outro, pra longe do idiota que o tinha feito acreditar que se importava.

Então era isso. A imagem do ciborgue se afastando lhe queimava, e teve certeza que estragou tudo. Porém Luca e Marina precisavam dele, então entregou as lembranças pro Lobo e continuaria a funcionar. De alguma forma. — Entendemos.

***

Um lugar tão branco era desorientador. Fechou o zíper da jaqueta da Brasa do Franja. Mauro, o autodidata Duque dos sortilégios, garantiu que a roupa a guiaria até o namorado, mas não havia sinal de nada. Era como caminhar pela maior maria-mole do mundo.

— Nota mental: Planos mágicos são piores que planos infalíveis.

Eu estou ouvindo.respondeu a voz de Mauro dentro da sua cabeça. Lembrava exatamente como tinha acabado naquela situação insólita. “É simples”, tinha dito Mauro. “Pense na mente de Fred como um túnel. Eu te dou as ferramentas e seguro a corda pra você entrar e sair. Te desço até lá, você conserta o Fred e eu te puxo de volta. Vou me comunicando com você no caminho”

O problema era que ninguém da Equipe Mágica de Suporte sabia exatamente o que estava errado, onde estava ou como consertar. E agora a consciência dela estava dentro da mente de Fred, que estava vazia como o vácuo espacial.

— Franja! Franja, cadê você? — Que pergunta sem sentido. Estava rodeada dele, mas nem um sinal de… bem, nada. Por onde começar a procurar? Saltou, quase voando, e não via cor ou movimento em nenhuma direção.

Marina? Tá me ouvindo bem?

— Alto e claro, Nimbus. Alguma ideia de onde começar? É como um deserto.

Siga seu instinto. Repita as palavras que eu te ensinei. Pra você deve aparecer alguma coisa. A mente dele quer ajudar você.

— Franja, me ajuda. — Repetiu as palavras mágicas esquisitas e quando abriu os olhos, sombras muito leves cobriam o deserto, e já não vestia a jaqueta. Ao invés disso, havia um pequeno scottish terrier azul a seus pés. Ela o afagou de leve.

Ele latiu uma vez e saiu por lugares que não existiam, e Marina o seguiu. Pelo canto dos olhos, podia ver pedaços de histórias que não lembrava, outras em que podia ver a si mesma, os pais dele, o Titi e o Jeremias.

Então as sombras eram um pouco mais nítidas: ela mesma, nas vezes que o visitava, a Mônica e os outros já adolescentes; Brigas com o Luca, as imagens de fogo e caos, Joaquim estendido no chão; Nimbus e Cascão imóveis numa cama; Mauro em pânico arrastando o Cássio sem um braço; uma imagem muito colorida, que podia ser uma pessoa numa câmera térmica.

— Mauro, vejo sombras, imagens mais recentes. O Bidu está me guiando.

Bom. Tome cuidado. Quando chegar mais perto, você deve encontrar os delírios dele. Não perca o Bidu de vista nem por um minuto.

— Como eu posso enfrentá-las?

Enfrentar o quê?

— As vozes. Os delírios.

Nem faço ideia.

— Vou te denunciar para o Clube de guias espirituais! Você é péssimo nisso!

Ouviu um quase riso do primo. — Sou um Mestre dos Mágicos. Te passo a missão e sumo.

Chegou a um ponto em que o cãozinho começou a enfiar a cabeça no chão de maria-mole. Ir pra baixo? Tudo bem.

— Mauro, ele está apontando para dentro do chão. Vou atrás dele.

Deixou-se afundar. Lá embaixo parecia o mar, com camadas e camadas. Tudo muito mais colorido e intenso, e foi difícil encontrar o Bidu entre tantas cores, mas ele não se perdeu. Seguia firme para baixo, resistindo às correntes. Atravessou uma imagem de uma feira de ciências premiada, e virou à esquerda. Perdeu a noção do tempo, atravessando aquelas histórias, que se grudavam nela como fiapos de algodão doce… Devia estar com fome, ou virando a Magali. Bidu parou de repente, ela não conseguiu. Esbarrou no cachorrinho azul, que esbarrou em...

— Franja? Franja, achei você!

— É esse o meu nome?

— Como disse?

— Me lembro do seu rosto. Já o vi várias vezes. Você está por todo lugar aqui e daquele lado também. Você se chama Marina Souza. Quem é você?

— Mauro, tá ouvindo isso?

Estou sim. Merda.

— Meu nome é Mauro? Você sabe quem eu sou? Sei muitas coisas, já andei pra todo lugar por aqui, então sei um bocado de mecânica e física, mas não sei quem são essas pessoas. Sinto como se devesse saber quem é você, mas não encontro a informação. Olha, um cãozinho azul. Bidu, acho. Ele também está por aqui, e ali.

— Bidu, tá faltando alguma coisa. Tem algum outro pedaço dele por aí?

Em resposta, Bidu continuou em frente. Marina pegou Franja pelo pulso e seguiu.

— Seu nome é Carlos Frederico Médici, e eu sou mesmo Marina. Eu vim te ajudar a… ficar inteiro, acho. Por enquanto vamos seguir Bidu.

— Eu não estou inteiro? É mesmo, está oco. Bidu é o cachorro, você é Marina, eu sou o Carlos Frederico, também chamado de Franja ou Mauro.

***

— E então, Cássio? Como está o resgate?

— Nenhuma notícia ainda. Luca está lá. Trouxe comida.

O rapaz estava péssimo. Alguma coisa acontecera entre eles, e o ciborgue a seu lado se fechara em si mesmo. Tentou parecer casual apesar do medo — justificado — que sentia borbulhar no estômago quando aquele olho vazio virava em sua direção.

— Obrigado. Nada de infectados nas telas. Vi alguns búfalos e elefantes pelo drone.

— Passamos pelo zoológico há mais de um ano… Eles também mereciam uma chance de não morrer de fome. Abrimos os portões.

— Foi certamente… ousado. Todos? Leões, tigres, ursos?

— Todos os que ainda andavam se espalharam. Comemos todos os que não podiam.

— E se eles atacarem vocês?

— Uma ninfa nos ajudou. Se eles atacarem, a gente se defende. — respondeu como se fosse algo óbvio. — Até hoje não aconteceu. Tenho que conversar com Odin. Fique aí.

O encontrou segurando o ombro de Fred e dizendo algo baixinho. — Chefe? Pensou a respeito? — Luca se recompôs e assentiu.

— Sei que meu tio está em algum lugar. Por favor, me deixe procurá-lo.

— E se você não voltar?

— Eu pensei nisso. Vai exigir um bocado de planejamento. Mas mesmo isso aqui tem prazo de validade. Ninguém sabe se a magia do lápis acaba. Precisamos ir bem mais longe pra alcançar comida hoje em dia. Já está bem difícil encontrar coisa que preste.

— Você me disse que os poderes são obscuros. Que controlaram você. Não parece boa ideia, Cas.

— Agora eu sei como é, não vai acontecer de novo. Tudo que levamos dias, eu poderia trazer em horas. Preciso fazer isso, posso resolver tudo.

— Ou acabar com todos nós. Cássio, vendi minha integridade e a de vocês, e só consegui pouco mais de um ano. E mesmo assim, sem a magia do Mauro e da Marina, já estaríamos todos mortos. Se vocês não voltarem ou você virar um monstro… Não duraríamos mais um mês.

— Mauro não vai comigo. Você pode protegê-los de mim, achar um lugar seguro.

Luca o conhecia bem. Ficar ali dentro estava se tornando intolerável, não conseguia mais lidar com o olhar magoado de Mauro, e se voltasse a tê-lo tão próximo, o cachorro não aceitaria ficar pra trás. O estúpido era incapaz de vez o monstro que ele era, acabaria ferido ou pior. Só mais algumas semanas. Luca suspirou exasperado.

— É arriscado demais. Porém podemos aumentar os suprimentos, revisar teu braço e se estiver tudo maravilhoso, em dois meses pensamos de novo, certo?”

— Obrigado. — Era melhor que nada. — Me avisa quando o Fred acordar.

— Se ele acordar. — Aquela situação não podia se prolongar mais. Se Mauro e Marina não conseguissem, a tarefa de encerrar aquela semivida lamentável seria de Luca mais uma vez.

O destino tinha um senso de humor cruel. Mas depois daquela manhã de humanidade, como diria o Cas, era mais uma vez Odin. Faria o que fosse necessário, não importava o que fosse lhe custar. Cássio, distraído com os próprios planos, não viu a determinação sombria que o governava.

— Ele vai. Ninguém mantém Fred num lugar em que Marina não esteja. Tenha fé.

— Fé. Que eu tenha .

Notas finais
* Sobre o que aconteceu pra Odin ficar tão fulo (ele quase esmurrou o computador antes dos dois chegarem): Apareceu um grupo grande de obsessivos, Cássio começou a matar como um maníaco, mesmo com Luca mandando parar; quando finalmente eles se esconderam pra dormir, Mauro não checou o lugar direito e eles foram atacados de novo no meio da janta. Foi um sufoco pra sobreviverem dessa vez. Certeza que Luca teria socado os dois se estivesse lá. * Apesar da política "não me meto no relacionamento desses dois" Luca, assim como Marina, tem uma boa ideia do que está acontecendo, e resumiu desse jeito pra ela: " Mauro é um idiota, Ma. Cássio é outro idiota. É um dos motivos pelos quais eles dão certo juntos, mas também o que impede a gente de enfiar juízo naquelas cabeças ocas. Acredite, eu tentei." * O suicídio de Joaquim mudou todo mundo. Foi o principal motivo pra Mauro e Cas começarem a sair, e Luca proibir a busca pela Marina. Fred lidou muito mal com tudo aquilo, e não se passou nem um mês pro ex-cientista começar a ouvir e ver coisas que não estavam lá. Muito obrigada a todos, e espero vê-los no próximo capítulo.