Meia Alma
27 Capítulo 26 - Realidade assustadora
Notas iniciais
O silêncio imperava na Ordem.
Todos os guerreiros estavam parados em frente à construção que funcionava como palanque para os anciões, ou para o próprio Adramalec, quando precisavam se pronunciar diante todos os guerreiros. Mas os anciões que ordenaram o ataque aos renegados simplesmente olhavam incrédulos para os guerreiros, enquanto eles esboçavam reação alguma.
E enquanto isso, os renegados apenas os encaravam de volta, em um número estrategicamente reduzido para enganá-los, enquanto as outras centenas apenas esperavam algum movimento, algum sinal de que necessitariam de ajuda.
– Eles estão bem atrás de vocês, ataquem!
Nada. Ninguém falava nada.
Como resposta, um único rapaz, alto de cabelos curtos e ondulados, penteados para trás, saiu do meio dos híbridos da Ordem, andando em direção ao grupo dos renegados. Calmamente, sem nenhuma arma empunhada. Simplesmente se embrenhou em meio às figuras de roupas de couro e escurecidas, algumas com armaduras e coisas para aumentar sua proteção.
Logo um o imitou, depois outro. Por fim, todos os guerreiros, sem exceção, juntaram-se ao grupo menor, numa clara mensagem: “Não estamos do lado de vocês. Se é para vocês caírem, vocês irão cair. E este momento será agora.”.
O que aparentava ser um dos mais velhos soltou um muxoxo, um pouco mais atrás dos outros que encaravam a multidão, e virou-se para um curador, dizendo:
– Se eles preferem do jeito difícil, que seja. Solte todos.
Ele assentiu, correndo e entrando no grande prédio.
Rugidos vieram, mais o som de passos, zunidos e grunhidos. Claro que não seria tão fácil. Quando se chega ao topo, ninguém jamais aceitará descer.
– Preparem-se. – alguém falou.
Pareceu que o chão se abriu, e dele, todas as experiências hostis da Ordem saíram. Zumbis negros, híbridos selvagens e enlouquecidos de longas presas, seres que ninguém nunca havia visto antes, com aparentes pedaços de metal retorcidos em seu corpo, como longas lâminas sobressalentes de suas costas. E eram muitos. Um atrás do outro. Centenas e centenas.
Se necessitavam de ajuda, era devido a superioridade numérica.
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– Q-quando...? – Alec grunhiu. – Q-quando eles decidiram invadir a Ordem?
– Não faço a mínima ideia.
Encarou Denis quase com raiva, enquanto Nina mantinha-se anormalmente quieta.
– Não me olhe assim, eu não sei de nada, só salvei vocês dois daquela coisa. – olhou-o cansado, tirando uns fios da testa, enquanto corriam sobre o último morro que levava até a Ordem. – Mas, ao que tudo indica...
Quando chegaram ao topo, viram com clareza a cena que se desenrolava abaixo deles.
Tudo que se movia parecia lutar. Não havia tantos gigantes, mas centenas de figuras lutavam nos imensos campos logo em frente às construções principais da Ordem. Já havia corpos retorcidos e grotescos jogados no chão, assim como membros claramente espalhados pelo chão.
Um calafrio atravessou o corpo de Alec, fazendo com que observar tudo aquilo, apenas de longe, lembrasse-se da Guerra do Norte. Mas de certa forma, evitariam ao máximo que as vidas fossem perdidas, e mesmo que fossem, não seria em vão.
– Droga... Passamos só três dias fora...
– Temos que ir para lá, agora.
Nenhuma palavra a mais foi dita. Simplesmente correram em direção à Ordem. Os muros e os portões estavam destruídos, e Alec simplesmente passou sobre eles, correndo em direção à luta, lançando-se logo no meio dela.
Os zumbis eram sem dúvidas os que “morriam” mais fácil, já a maneira com que eles de desfaziam. Ao acabar de desmantelar um, percebeu diversas fiações dentro daqueles corpos, juntamente com barras de metal.
Abaixou-se quando um ser de metal saltou sobre si. “O que é isso?”. Ele parecia humanoide, embora se apoiasse de quatro, com várias lâminas saindo de suas costas. Sobre ele estava o que lhe parecia um híbrido, mas tinha presas enormes e olhos doentiamente animalescos.
Ele saltou sobre si e num reflexo pôs sua espada na frente, e o ser a abocanhou com um ruído metálico, mas o impulso foi tão grande que Alec caiu no chão, porém lhe veio a calhar pois foi neste momento em que o ser resolveu atacá-lo, então o híbrido que estava sobre si que veio a morrer.
Levantou-se num saltou e girou para o lado desviando do monstro, e vários híbridos saltaram sobre ele. Após algum tempo escutando os gritos de morte do ser, zumbis e híbridos animalescos depois, ele pareceu morrer.
Atingiu um ao mesmo tempo em que um rapaz da Ordem o atacava, ambas as espadas atravessando o corpo monstruoso, e após algum tempo, percebeu que... Havia acabado.
Os monstros haviam morrido.
Foi quase um alívio, e parecia que todos se olhavam, tentando acreditar no que aconteciam. Todos aqueles monstros, mortos, e nenhum deles em si. Apenas alguns feridos, mas nada demais grave para ser considerada uma morte. Parecia que todos respiravam pesadamente, devido ao cansaço de ter que lidar com tantos seres, e Alec percebeu que tinha híbridos demais ali. Mesmo que os sessenta e alguma coisa se juntasse ao imenso grupo de renegados, o número de pessoas não inflaria tanto.
Os híbridos escondidos teriam se juntado?
Alec estava com uma sensação ruim. Estava fácil demais.
Ouviu gritos, e quando olhou em direção o prédio, chovia sangue. Chovia sangue dos corpos dos guerreiros mais a frente, e o sangue se espalhava por cada um em uma velocidade assustadora, os ferimentos esguichando o líquido do corpo cada um que logo após caía. Alec imediatamente tentou preparar-se para aparar o ataque, mas sentiu como se apenas um vento passasse por si.
E depois veio a dor.
Lancinante, fez com que caísse imediatamente, sem forças, o sangue esguichando de dois ferimentos extremamente profundos provenientes de seus ombros. Arquejou, controlando-se para não perder muito sangue. O que fora aquilo?! Era tanta dor que tinha vontade de morrer...
Forçou-se a levantar a cabeça da grama, e quase ficou horrorizado. Todos caídos. Um mar de corpos e sangue, e estava apenas algumas figuras de pé.
Sete figuras, para ser exato.
– Malditos Aparições... – grunhiu entre dentes. Era insano. Como apenas sete guerreiros poderiam ter nocauteado centenas?!
Puxou sua Aura há muito em desuso para poder curar aqueles ferimentos o mais rápido quanto o possível. Não eram grandes problemas para alguém do tipo regenerativo, mas alguém que não fosse teria problemas terríveis.
Anita foi a primeira a levantar, atacando uma Aparição próxima a si.
Num ímpeto, pareceu-lhe que todos os mais fortes – em sua opinião – levantaram-se, e agora se uniam para atacar os Aparições. Aeon, Shadow, Lionel e mais alguns outros que sua visão manchada de sangue impediu a ver.
Forçou sua cura, vendo brevemente os pés de Anita sumindo e reaparecendo em outro lugar devido à técnica fantasma, que ela aprimorara durante estes sete anos para que não usasse mais Aura e poder usar quantas vezes quisesse. Anita sem dúvidas era forte, mas aquela Aparição parecia ser tão forte e rápida e quanto. Ambas giravam numa luta de espadas, e aquela que errasse um mísero passo poderia perder a vida.
Agarrou as pedras no chão, e de uma vez sentiu os ferimentos fechados com um retesar de músculos, levantando-se. Ouvia gemidos e grunhidos de dor por toda parte, e vários metros à sua frente, viu Diego também sentar metros à frente. Preparou-se para se meter em ma das lutas, quando alguém agarrou seu pé, fazendo com que aquele metal que formava as botas ondular como água. Era uma híbrida da Ordem, pequena e de cabelo curto.
– No alojamento... – Balbuciou. – Tenho certeza de que eles esconderam um no alojamento...
E então perdeu a consciência.
Um? Alec contou rapidamente os Aparições. Sete. Não eram oito?
Por que um estaria escondido no alojamento?
Deixou todas essas perguntas de lado, priorizando a ação. Se mais um deles se juntasse a luta no meio da multidão, poderia por em risco as vidas de quem estava incapaz de lutar. Se ele estava lá mesmo, era melhor pegá-lo lá. Mas o problema era que ele, sozinho, não era capaz de ir contra um Aparição.
Mesmo não sendo a melhor alternativa, correu até Diego, agarrando-o pelo braço, e correu em direção ao prédio.
– Ei, temos que...
– Tem um lá dentro, aparentemente. E se estiver, não posso ir contra ele sozinho! – exclamou, fazendo com que Diego se calasse.
Depois de anos de treinamento, todos do grupo tinham no mínimo a força de um número cinco ou quatro. Talvez ele e Diego juntos fossem o suficiente.
Se houvesse água por perto, seria bem melhor...
Então algumas lembranças fizeram sua mente clarear no momento em que entraram.
– Diego, se realmente encontrarmos um Aparição, vamos tentar deixa-lo mais próximo quanto o possível do lago.
Ele assentiu.
– Claro... Talvez ajude. Talvez nem consigamos atrair ele.
– Temos que tentar.
Não parecia haver nada no primeiro andar, apenas algumas coisas reviradas, provavelmente devido ao fato dos híbridos terem saído na pressa. Correram até as escadas em espiral próximas à biblioteca, e Diego escutou passos, avisando a Alec.
Correram por dois corredores à esquerda, e viram um homem da Ordem que vinha correndo bem em sua direção. Ao vê-los, ele gritou e caiu de joelhos, tapando a cabeça com as mãos.
– P-por favor, n-não façam nada comigo. – ele tremia e estava chorando. – E-eles m-mandaram que eu t-terminasse apagasse a-as memórias dele a-antes de reanima-lo... Por favor, eu sou obrigado a trabalhar aqui!
– Terminar o quê?! – Alec exclamou, no exato momento que a parede explodiu.
O homem gritou novamente e os dois deixaram que ele passasse correndo por eles, viram uma figura andando em meio à nuvem de poeira, os passos ecoando em meio ao silêncio sepulcral que reinou naquele momento.
Oito simplesmente saiu dentre os escombros. Parecia que alguns cabos estavam presos ao seu capacete, e ele estava menos equipado como jamais vira um Aparição. Simplesmente usava o capacete, as botas de ferro e a espada negra. Fora isso, usava apenas uma camisa de mangas compridas e uma calça, ambas negras.
Ele olhou envolta, mais em direção onde estavam as Auras em luta, e então sorriu. Um sorriso sádico e cruel.
Alec logo soube que ele queria suas cabeças.
Foi mais por reflexo que Alec bloqueou o ataque, mas tanta força foi depositada ali que teve de praticamente se ajoelhar devido a força. Diego apareceu atrás de Oito, pronto para atacá-lo, mas ele puxou o cabo da espada, fazendo-a se transformar em duas, e bloqueou-o por cima do ombro.
Começou a fazer força contra a lâmina de Oito, forçando-se a levantar, mas o Aparição girou, praticamente arremessando os dois. Alec bateu com tanta força contra uma parede que a sentiu se quebrando, e logo voltou o som das espadas. Piscou, forçando sua visão a retornar.
Pensou ter visto aquele filhote de lobo que seguia Hideo.
Lançou-se contra o Aparição, mas quando acertou seu ombro, percebeu que não havia nada.
Logo sua imagem sumiu como o fantasma que era Anita.
Sua espada atingiu o chão com tanta força que as pedras voaram em todas as direções, e som de algo cortando o ar fez com que mordesse os lábios, já esperando o golpe final.
Mas um som metálico bem em sua nuca provou o contrário.
– Hideo?! – Diego exclamou.
XXX
Bufei contra o peso da espada, e então forcei a espada de Oito retornar, afastando-se da nuca de Alec. Puxei a minha para o lado, aproveitando a distração momentânea de Oito e chutei-o com toda minha força em seu peito, fazendo com que ele fosse arremessado para trás, girando no ar.
Limpei o suor de minha testa, e me virei para o lobinho parado do lado de Alec.
– Se puder ajudar.
Como resposta, um redemoinho de fogo se formou e ele voltou a ser o lobo gigante, que praticamente agarrou Alec pela gola e arrastou-o como um filhote para longe.
Não sei quanto tempo fiquei preso naquela coisa. Só sei que quando saí, ao mesmo tempo que Lúcio debandou para outro lugar qualquer, encontrei-o o filhote sentado, comendo um pássaro, enquanto parecia me esperar. Voltei imediatamente para a fazenda, mas não vi ninguém lá. E isso claramente me disse o que tinha acontecido.
Vim imediatamente para a Ordem e já encontrei esse caos. Tenho que perguntar depois o que aconteceu, se foram os monstros ou os Aparições que fizeram tudo isso com toda mundo, mas a Aura de Oito fez que eu viesse imediatamente para cá.
Ainda bem. Senão Alec provavelmente teria perdido a cabeça.
– Desgraçado. – Oito cuspiu.
– Digo o mesmo.
– Vai me pagar pela última vez.
Ele girou a cabeça para o lado ligeiramente, e fez voltar a ter uma única espada. Então me atacou.
Quando chegou bem a minha frente, ele desapareceu. Prevendo os movimentos de sua Aura, percebi que ele me atacaria por cima. Saltei para trás, apoiei rapidamente minhas mãos no chão, e impulsionei mais um salto, voltando a ficar de pé. Mal toquei o chão e dessa vez eu me impulsionei em sua direção, joguei-me no chão deslizante e lhe dei uma rasteira, mas ele saltou por cima de mim.
Agarrei-o pelo tornozelo, atirando-o com força no chão a ponto de parti-lo, então o puxei, agarrando pela camisa e o prensei contra a parede. Oito me chutou, fazendo com que cambaleasse e caísse.
Oito tentou me acertar no chão, mas rolei para o lado, já me levantando e pegando minha espada para logo bloquear um ataque. Oito atacou-me com três golpes diferentes e consegui, mesmo que com alguma dificuldade, bloquea-los. Quase fui encurralado contra a parede, mas me abaixei e o golpe desferido na altura de minha cabeça acertou o concreto, quebrando-o de tal modo que um sulco extremamente fundo foi deixado nele.
Só então senti o corte em meu ombro.
A dor foi lancinante e senti o sangue esguichando, vindo junto com isso um rosnado ameaçador do lobo contra Oito, mas forcei a me controlar para que não perdesse muito sangue. Rosnei impropérios, mas antes de usar minha Aura ele voltou a me atacar. Passei minha espada para a mão direita, e só então tive de bloquear um ataque na altura de minha cabeça.
Grunhi, e chutei o estômago de Oito, fazendo com que recuasse, abaixado. Grunhindo aleatoriamente, eu senti... Sua Aura se mover.
Saltei novamente no momento exato, e o chão se partiu, a parede se partiu, o teto se partiu. Como se houvesse centenas de lâminas gigantes e extremamente velozes envolta de Oito, e então parou.
Espera...
Esse não é o Corte?
Ele lançou-se sobre mim, mas desviei. Oito apoiou-se de cabeça para baixo, e quase me acertou um chute, mas estava com uma sensação ruim. Muito ruim.
Vira que ele conseguira usar uma espécie de imitação da técnica de Anita, talvez ele copiara a minha?
Lembrei de como ele me atacara na primeira vez que o vi.
Talvez não.
Após uma brecha de um ataque dele, ataquei sua cabeça por trás com o punho de minha espada, fazendo com aquele capacete quebrasse. Vi as lascas negras caindo no chão misturadas a um pouco de sangue, mas quando olhei para cima, vi Alec e Diego com os olhos arregalados e incrivelmente pálidos, em estado de choque.
– Não...
– Pelos deuses, n-não é possível...
Estava com uma sensação ruim. Muito ruim. De que se olhasse para trás, me arrependeria. Mas mesmo assim o fiz.
Dessa vez eu senti um soco no estômago.
Deuses, não... Não é possível...
Oito limpava o sangue que escorria de sua testa, e então os olhos azuis claríssimos voltaram-se contra mim.
Mas não era Oito.
O que a Ordem fez?! Oito era Yudai!
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