Meia Alma
28 Capítulo 27 - Esmagador
Notas iniciais
Eu não sabia o que pensar. Simplesmente o encarei, sem saber como agir, sem ter uma reação coerente, enquanto Yudai virava-se em minha direção.
– O que houve? Achava que eu não tinha rosto?
– Y... Yudai? – murmurei, e ele franziu o cenho, me olhando com estranheza.
– Yudai? Quem é Yudai? – a pergunta me deu um mais um soco. Como assim? Ele não era Yudai então? Pensei na possibilidade da Ordem ter criado um clone, talvez, mas então ele pressionou as próprias têmporas, e falou mais para si mesmo, murmurando num tom que quase não escutei. – Onde já escutei esse nome...? – uma faísca azul atravessou seu corpo, fazendo-me arregalar os olhos. – Não... Eles provavelmente estão tentando...
– A Ordem... – Alec começou.
Mal tive tempo para raciocinar. Yudai me agarrou e me arremessou contra a parede com tanta força que ela cedeu. Rolei no outro recinto – que eu não sabia nem qual era. – e cuspi sangue, respirando com dificuldade, minhas costas queimando com o impacto. Escutei os passos, e vi Yudai se aproximando, já erguendo a espada.
– Por que... – a espada fincou o chão quando rolei. – Você... – tentei levantar, mas tive de me jogar no chão para desviar de outro ataque. – Simplesmente não desiste?!
Ele cortou minha perna esquerda fora, fazendo com que eu gritasse, e no segundo seguinte houve o uivo do lobo. Ele saltou sobre Yudai, abocanhando seu ombro, mas ele simplesmente se debateu, pegou-o pelo maxilar, arrancando-o de seu ombro, e o atirou para o corredor que estávamos antes, e o lobo bateu contra a parede com um ganido.
Arrastei-me em direção a minha perna, mas ele cravou a espada em minha mão. Arquejei de dor e vi Alec aproximar-se correndo, mas quando ele ia acertar um golpe bem em sua cabeça, um som metálico se fez ouvir e sua espada parou a centímetros cabeça de Yudai.
O Corte Imaginário.
Ele deu um sorrisinho frio para Alec, e usando a mesma técnica, Yudai simplesmente incapacitou Alec cortando-o tanto que no momento temi por sua vida. Com um grunhido, arranquei minha mão de sua espada e fui até minha perna, enquanto algo me dizia que Diego tentava agora, também sem sucesso.
Refixei ela no lugar e ataquei Yudai imediatamente, mas ele simplesmente desviou sumindo da minha frente, fazendo com que eu tropeçasse no vazio.
– Por que sua velocidade diminuiu?
Girei e tentei bloquear um ataque, mas a força depositada também aumentou, quase arrancando meu braço, que foi atirado para o lado, mas com um giro, atirei-o de volta em direção ao rosto de Yudai, e surpreendentemente, ele não fez nada para me impedir. Muito pelo contrário, continuou com a espada caída ao lado do corpo, e acabei parando a um milímetro de seu rosto, que continuava com um sorrisinho de escárnio.
Eu não conseguia. Simplesmente não conseguia. As imagens de Yudai morrendo e de seu corpo voltavam constantemente à minha mente, coberto de sangue, os olhos e os lábios roxos, encarando o vazio. Da dor que isso me causou. De quanto tempo, eu fiquei mal com isso.
Eu não conseguia machucá-lo.
– Sua determinação também diminuiu. Por quê?
Foram cinco golpes. Cinco golpes que bloqueei com muito custo, e quando vi, percebi que bloqueara a espada bem em frente ao meu rosto, o rosto de Yudai extremamente próximo.
– A brincadeira acabou.
A explosão que ouvi a seguir foram das rochas cedendo. Yudai girou o Corte Imaginário num inferno de lâminas ao seu redor, e tudo começou a ceder. Parecia que pedras que soltavam do chão, flutuavam e então simplesmente se desintegravam. Tentei me afastar, mas isso não impediu que eu me machucasse. Meus dois braços simplesmente caíram junto com a espada, me fazendo gritar, e senti os cortes se espalhando por meu rosto, ombros, tronco e o começo de minhas coxas. Tudo ardia e sangrava como o inferno.
Minha visão começou a escurecer enquanto o sangue escorria por meus olhos, mas mordi minha própria língua, obrigando-me a não perder a consciência. Comecei a usar minha Aura para fechar alguns ferimentos, e então olhei para meus braços caídos no chão, e então olhei para Yudai, que não fizera mais nenhum movimento para me atacar. Ele só me encarava.
– Quer continuar? Vá em frente.
Grunhi e me abaixei, fixando o resto de meus braços nos tocos, o encarando, mas ele realmente não fez nada. Olhei envolta, à procura de Alec e Diego, onde estavam? Eu conseguira algo com a ajuda de Lúcio, mas eu só usaria se fosse extremamente necessário, afinal era extremamente perigoso. Um passo em falso, e pronto, já era. Estava acabado.
Levantei com alguma dificuldade, pegando a espada de maneira precária, já que meus tendões ainda estavam se religando, mas Yudai perdeu a paciência, simplesmente me atacou. Para ganhar tempo e conseguir me curar decentemente apelei para esquivas. Reprimi toda minha Aura para conseguir ler a dele com mais clareza, mas infelizmente Yudai percebeu, e reprimou a sua.
Comprimi meus lábios, irritado, mas tive que começar a prestar atenção em meus próprios instintos para conseguir manter-me vivo, afinal não demorei a perceber que a técnica de Yudai era refinada e desenvolvida o suficiente para me enganar com facilidade.
Infelizmente ganhei alguns ferimentos novos, mas felizmente não perdi minha cabeça.
– Isso está me irritando.
Ele sumiu da minha frente, e por reflexo olhei para trás, mas ele não estava lá. Olhei para cima, e Yudai também não saltara. Mesmo achando impossível, olhei para baixo, envolta, mas nada. Onde ele estava? Sem conseguir sentir sua Aura, não fazia a mínima ideia.
Forcei meu coração a reduzir suas batidas, parei de respirar, e então agucei minha respiração, ainda olhando envolta furiosamente. Onde estava? Ele com certeza não sumiria do nada. O nada zumbia em meus ouvidos, enquanto procurava por algum sinal.
Só senti a dor.
Um corte lateral foi feito do lado esquerdo ao direito em meu tronco bem na altura do estômago. O sangue jorrou e imediatamente tapei o ferimento com minha mão direita, um grunhido de dor escapando de meus lábios. Não me contive e consegui bloquear um ataque de esquerda, mas meu braço ficou tremendo.
– Você teve a chance. Por que não me matou?
Cuspi o sangue que se acumulava na minha boca para poder falar melhor.
– Porque você é o meu irmão.
Ele franziu o cenho e acertou um chute sobre minha espada, lançando-a contra meu próprio corpo. Não consegui evitar e acertou meu ombro e meu peito, fazendo com que eu caísse no chão, com seu pé ainda sobre a lâmina, fazendo-me ofegar pesadamente com os ferimentos e a lâmina cravada em meu corpo.
– Chega de asneiras. – disse.
Ele estava sem suas memórias, mas era ainda mais desesperador devido ao fato que ele parecia ser apenas um boneco cruel da Ordem sem elas. Como poderia fazer com que ele as recuperasse, fazendo-o parar com tudo aquilo? A única resposta que tive foi a lâmina sendo forçada ainda mais contra meu corpo, apesar de forçar meu braço contra de todas as maneiras possíveis.
Senti uma explosão no campo de batalha. Uma explosão de uma Aura com cheiro de leite. Algo me dizia que era um Aparição, e pisquei. Aumentava cada vez mais e mais, sem encontrar um limite para si mesmo, totalmente descontrolado. Oh droga...
Um Despertado desse nível agora não...
– Tsc. – Yudai ergueu sua espada rapidamente e quase senti a morte, de novo, quando uma lâmina se meteu no meio do caminho.
Ouvi um rosnado baixo, e vi que era Shadow. O encontro das forças fazia seus braços tremerem, mas com certeza ele conseguiu afastá-lo de mim. O que ele estava fazendo aqui? Lembrava de vê-lo e sentir sua Aura com cheiro da café torrado lutando no campo.
Deixando isso de lado, puxei minha própria espada do meu corpo com um gemido de dor, usando minha Aura para me curar. Estava levando uma surra sendo que não era nem porque não queria atacá-lo, mas sim porque simplesmente não conseguia acompanhá-lo. Não pensava que ele poderia ter uma superioridade física tão enorme.
Mas se bem... Ele se cristalizou depois que morreu...
Não consegui fechar todos os meus ferimentos. Shadow conseguiu desviar de golpes do Corte Imaginário, mas dava para ver que ele não aguentaria mais muito tempo.
Eu teria que...
Yudai sumiu. Pisquei, e já comecei a olhar envolta novamente, quando escutei algo que me pareceu o som de algo derrapando a poucos centímetros de mim. Olhei para trás na hora exato em que Yudai acertou uma cotovelada tão forte na cabeça de Raquel que o sangue começou a escorrer por seu rosto, claramente por ela tê-lo impedido de nos atacar.
O ódio ferveu em mim ao ver aquilo, e quando ele ergueu a espada para atacá-la de vez, aconteceu algo que eu também não esperava.
Ele hesitou.
Acertei-lhe um soco no estômago com toda minha força e somada a ela uns cinquenta por cento de minha Aura, fazendo-o praticamente voar pela parede.
Dane-se se ele é meu irmão, dane-se se é o que Lúcio me ensinou é perigoso. Eu vou fazer isso, ah, eu vou.
Toquei brevemente seus cabelos sujos de sangue quando passei por ela, mas passei direto. Fui atrás de Yudai.
Ele foi parar na ponte que ligava o alojamento dos híbridos ao alojamento, e estava se levantando com dificuldade, segurando o próprio estômago, me olhando com confusão quando cheguei com minha Aura aumentando cada vez mais.
– Toque nela mais uma vez, que eu te mato de novo, se for preciso.
Ele me olhou com estranheza, e então olhou para o lado. Neste mesmo momento, o que me pareceu ser um imenso e longo braço quebrou o espaço que havia entre nós, fazendo com que as pedras ruíssem, sobrando quase um abismo entre nós.
Quando minha Aura chegou a setenta e seis por cento, forcei-a para fora de meu corpo, tornando-a uma parte separada de mim. Era como se eu continuasse um híbrido sem Aura, mas minha Aura era uma parte completamente diferente de mim, envolta de mim.
E eu a “fiz” Despertar.
Yudai arregalou os olhos ao perceber o que fiz, e apenas senti os ossos crescendo envolta de mim, algo como uma membrana escurecida crescendo sobre meus lábios até abaixo a linha dos olhos, como uma máscara. Acho que o melhor que eu poderia descrever aquilo era como uma “roupa”, que me daria habilidades de Despertado – mesmo que em menor escala. – durante um tempo limitado, a menos que eu quisesse Despertar de verdade, meu corpo não se modificava. Embora as “características” crescessem envolta. Eu só sabia que tinha bastante ossos.
Eu tinha uma hora, ou para tentar fazer Yudai recuperar as memórias, ou derrotá-lo o que viesse primeiro.
Era isso o que eu tinha aprendido nesse meio tempo.
Flexionei minhas pernas e me atirei contra ele a toda velocidade. Yudai conseguiu bloquear o golpe, as forças fazendo com que o impacto soltasse um alto som, mas minha velocidade fez com que eu o arrastasse. Logo suas costas romperam com as portas de madeira pesada do alojamento. Escutei os aprendizes – que pareciam ter se escondido devido a eventuais ataques do Despertado, talvez. – murmurarem e exclamarem assustados, e Yudai girou sua espada, fazendo com que os contatos se desfizessem.
Soltei um rosnado dentro da máscara, e corri em direção em três saltos, mas Yudai simplesmente desviou, e tentou me atacar. Escutei sua espada com clareza, e a bloqueei por cima da mina cabeça. Girei, errando-lhe um chute por milímetros, mas girei, tentando lhe acertar com o outro, e este ele segurou.
Empurrei meu peso para o chão, e apoiei minhas mãos na pedra fria, fincando meus pés no peito de Yudai, girando e fazendo com que ele caísse num estrondo de pedras à minha frente. Ele arfou e cuspiu sangue, e senti sua Aura se movendo. Grunhi e saí de cima dele quase no momento em que ele criou outro inferno de lâminas, mas eu simplesmente já estava do outro lado do recinto.
Yudai levantou-se num salto, e me atirei contra ele novamente com tanta velocidade que o som do vento virou um zunido contra meus ouvidos, porém no último minuto, Yudai desviou.
Não cometi o mesmo erro que cometi com Adamantia. Simplesmente finquei minha espada no chão, usando-a para mudar de direção, e voltei-me para mais uma investida de frente contra ele. O contato das espadas dessa vez pareceu criar uma onda de impacto, pois a cada golpe que se encontrava, eu sentia um vento e um estrondo se espalhando a partir das lâminas para todo o recinto.
Minha mente estava pesando devido ao controle que usar tudo aquilo me requeria, mas ainda não me encontrava no limite, então não o diminuiria ainda.
Lembrei-me do jeito de como Raquel sangrara quando ele a atacou, e isso me encheu de raiva novamente. Comecei a atacá-lo o mais rápido que conseguia, mas para minha raiva ele simplesmente bloqueava tudo, mesmo que meu braço esquerdo fosse apenas um mísero borrão.
Agucei minha visão, e tudo pareceu câmera lenta. Ah sim, assim era melhor. Vi com clareza o momento em que Yudai ergueu sua espada para bloquear a minha, uma brecha se abrindo logo acima dela. Minha chance.
Ergui minha espada imediatamente, e ele lançou a si mesmo para trás no momento em que iria acertá-lo. Olhei-o com raiva, e o ato de piscar fez com que minha visão voltasse ao normal, irritando-me ao perceber que Yudai sumira. Grunhi contra aquilo, e ele me agarrou pela lateral, mas para evitar que eu fosse o único a me dar mal nessa história, agarrei-o pelas mangas de sua camisa.
Eu estava praticamente Despertado, e ele, sem usar Aura, estava tão forte quanto. Isso me dava raiva.
A parede cedeu atrás de mim e praticamente giramos no ar antes de atingir o chão numa explosão de barulho e terra. Levantei num salto, e Yudai investiu sobre mim. Abaixei-me, correndo por debaixo de seu braço para trás de si, cravei a espada no chão para mudar de direção e tentei cravar minha espada nele mais uma vez, sem sucesso. Yudai saltou num giro do chão e pousou sua lâmina, puxei-a de imediato e ele saltou de novo, empurrando-se no chão para uma nova investida.
Pus minha espada em frente ao rosto, empurrei Yudai, agarrei-o pelo pescoço, largando minha espada e o prensei contra o chão com minhas duas mãos.
Ele imediatamente começou a lutar para se soltar e respirar, mas continuei o prendendo, até que ele usou sua Aura, fazendo com que algo estalasse em minha mente.
Como fazer Yudai recuperar a memória.
Foi arriscado, mas diminuí minha Aura até a altura da dele, e nesse momento ele quase me derrubou, mas continuei segurando firmemente em seu pescoço, e comecei ao máximo tentar sincronizar minha Aura com a dele.
Quando percebi que consegui, comecei a aumentar a minha, e num ato, de desespero talvez, fiz com que todas as lembranças que eu tinha com Yudai jorrassem por minha mente, repetidamente, e então...
HIDEO, VOCÊ QUER ME MATAR? – Yudai gritou em minha mente, enquanto me encarava furiosamente com seus olhos vermelhos.
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