Meia Alma

26 Capítulo 25 - Lúcio


Notas iniciais
Olá, gafanhotos e libélulas híbridas! Eu tenho uma pergunta para vocês... Mas vai estar nas notas finais. Leiam, viram? Agora, cap novo, coisa nova, espero que gostem pq fiquei até 2h da matina escrevendo isso (e eu tinha q acordar para ir pra escola às 6:20. Considerem isso uma prova de amor máximo) -q

Fiquei sem reação, enquanto Raiden corria até o corpo de seu irmão. Tudo ficou confuso. Já vira a coisa negra atacar outras pessoas, Yudai, Raiden, mas nunca a vira matar. Mas agora, o corpo sem vida de Hadraian jazia a minha frente, os olhos verdes e vazios encarando o nada.

Eu queria sair dali.

Mas tudo o que eu conseguia era ficar encarando a cena, os olhos de Hadraian encarando o nada. Raiden estava chorando? Não estava prestando atenção.

A dor constante em meu peito deu uma pontada dolorosa.

Como se fosse minha culpa.

Parecia que havia neve sob meus pés, e o corpo estendido à minha frente era o de Yudai.

Por quê? A coisa estava atrás de mim?

Minhas pernas se mexeram sozinhas.

– Hideo?! – Aeon chamou, mas fui embora. Não queria ver aquilo. Não queria...

Entrei na floresta, nem olhando por onde eu passava. Eu queria vomitar. Por que eu queria vomitar? Argh, por que parece que a culpa é minha? O que aconteceu? Por que Hadraian teve de morrer, se ele era inocente?

Algo tocou minhas costas e dei um salto, já me preparando para atacar como se fosse algum inimigo, mas, ao me virar... Era o lobo. Com o meu símbolo preso na boca.

Olhei para ele quase que anestesiado, então me lembrei de pegar. Como ele sabia que era o meu? Enfim, apenas peguei o pingente, e as chamas que existiam ao redor dele simplesmente tornaram-se um redemoinho, e então o filhote pulou à minha frente.

Pisquei, e percebi que ele deveria ter o tamanho de um filhote de cachorro com uns três meses de idade já. Ele tinha os olhos bem abertos, e a pelagem era uma mistura de amarelo, alaranjado e negro. Ele ficou me encarando, mas apenas segui em frente, escutando-o me seguindo.

Escutei um estrondo, e então um rugido, vindo então com o uma Aura em efervescência. Um Despertado. Droga! As coisas começaram a dar errado tudo em um dia?!

Logo reconheci a Aura. Era a Aura de Marcus. Droga!

Comecei a correr, mas ele parecia estar completamente furioso, embora não estivesse exatamente atrás de mim. Mesmo eu correndo, ele continuava vindo em minha direção, então só me lembrei de saltar para o lado. Dito e feito. Ele passou correndo por mim, o chão tremendo diante seu peso, rugindo e com uma fúria imensa. Percebi duas daquelas estacas de mais cedo cravadas em seus ombros, e algo caiu pesadamente à minha frente.

Uma das gêmeas.

Ou melhor, o que sobrou dela. Estava toda destruída.

Fiz uma careta e desviei o olhar. Onde eu estava?

A Aura de Marcus seguia como se ele perseguisse algo, e havia várias Auras estranhíssimas bem na direção em que ele seguia. Pisquei, levantando-me, e senti o filhote de lobo tentando morder meus tornozelos, mas o ignorei. Que Auras eram aquelas? Não tinham cheiro, apenas calor. Aquilo era bizarro. Mais experiências da Ordem? Mesmo as Auras dos zumbis tinham cheiro. O que era aquilo?

Eu vou ver isso.

– Hideo?

Olhei para trás imediatamente.

– Raquel? Você está bem? – perguntei preocupado ao ver o que me pareceu sangue seco em seu cabelo e em seu rosto.

– Sim, acabei de acordar. – ela esfregou a cabeça. – Aconteceu alguma coisa?

– Bem... Hadraian morreu. – ela me encarou, e pela minha expressão, soube que não queria falar no assunto. – Raiden estava lá, e... Ah.

– Hm... – seu olhar baixou até o filhote, que estava sentado pacientemente ao meu lado, então se voltou para mim. – Vi aquele Despertado que vimos outro dia ainda há pouco.

– Eu sei, vou segui-lo.

– O quê?!

– Há algumas Auras estranhas que ele parece estar perseguindo. Quero ver o que são. – percebi o modo em que ela me olhava. – Eu vou tomar cuidado, tudo bem?

– Hideo, quase toda vez que você diz que irá tomar cuidado, alguma coisa acontece.

É, eu sei...

– Eu vou tentar não morrer. – ela me olhou preocupada. – Sério. Por favor, tente voltar para a fazenda, veja se Anita está lá. Se estiver, diga que estou bem, e provavelmente Aeon e Raiden também. E veja se minha família está bem...

Ela me encarou, antes de suspirar e abraçar meu rosto, me beijando.

– Não adianta tentar discutir com você, teimoso. – murmurou, mas então olhou dentro de meus olhos com um claro pedido: “Não morra”. E então correu floresta adentro.

Olhei para baixo e vi que o filhote de lobo estava tapando os olhos dourados com as patas.

– Por um acaso você é racional?

Ele rolou, ficando de pernas para cima – dando-me total visão de que era realmente um macho. – e ficou as balançando.

– Algo me diz que sim.

Rapidamente rastreei a Aura de Marcus, quilômetros a oeste, e então comecei a correr. As árvores passavam como borrões ao redor de mim, e topei com uma montanha. Praticamente a escalei aos saltos, e já no topo continuei correndo.

Foi mais uma meia hora até eu chegar numa imensa planície, encontrando Alec e Nina escondidos atrás de pedras que possuíam altos arbustos, observando o que estava acontecendo.

Alec olhou para mim sobre seu ombro, voltando então para a cena, que no momento eu apenas escutava. Rugidos, o chão sendo atingido, terra voando e sendo arrastada, pedras quebradas.

Agachei-me e me arrastei para o lado de Nina, observando a cena por sobre a pedra, ajustando minha visão para enxergar a distância.

Marcus golpeava furiosamente o chão, e havia umas formas estranhas.

Pareciam híbridos, mas olhando melhor, estavam usando apenas uns farrapos, como tangas. Cerrei os olhos, e percebi, chocado, que eles tinham dentes proeminentes, como Despertados, e escutava de longe os ruídos que eles soltavam. Grunhidos, rosnados e gemidos animalescos. Eles curvavam as mãos como garras e desviavam dos ataques de Marcus com maestria.

– Vocês... Vocês acham que eles são aqueles híbridos feitos com carne de Despertados, que Ygor mencionou? – Nina questionou, claramente amedrontada.

– Eles parecem totalmente animalescos. – Alec murmurou.

Uma saltou pelas costas de outro híbrido, e se prendeu à mão de Marcus. Vi claramente quando ela fincou as presas sobre a superfície de um dedo, arrancando um grande naco – lembrando que estamos falando de Marcus, que tem uma carapaça quase impenetrável. Ele rugiu e fechou a mão em um punho, socando o chão, o sangue da garota espirrando para todos os cantos.

Os outros não se abalaram, muito pelo contrário, continuaram a atacar Marcus do mesmo modo, como se a perda de um não fosse nada, suas feições retorcidas em expressões completamente animalescas, como se fossem apenas feras em busca de matar sua presa, como se nunca houvessem sido humanos um dia.

Aquilo me revirava ainda mais o estômago.

De repente, todos eles pararam, e essa custou a vida de mais dois, que foram esmagados pelos punhos enfurecidos de Marcus, mas eles simplesmente ignoraram. E então, jogando-se de quatro no chão como animais, eles fugiram.

Fiquei confuso com aquilo, mas então o lugar em que estávamos simplesmente ruiu. Pisquei, me mandando ter reação, então agarrei o filhote de lobo do fogo e saltei em direção ao solo da planície. Marcus nos ignorou e toda a comoção que causamos. Ele simplesmente estava com os olhos vidrados em outro lugar, e procurei por onde ele olhava.

E aí eu congelei.

Lucio estava parado há algumas centenas de metros distante de nós, apenas observando. Eu via claramente que ele usava apenas uma espécie de capa cinza abotoada ao seu ombro esquerdo, e ele parecia menor. Como uma criança de uns doze anos, talvez. Provavelmente ele fizera isso para enganar uma boa alma aleatória e devorá-la.

– Aquele é Lúcio? – Alec murmurou. – Ele não estava morto?

– Não, ele Despertou e fugiu. – falei e os dois me olharam assustados.

– VOCÊ! – Marcus berrou tão alto que meus tímpanos doeram. – VOCÊ O MATOU!

Parei para pensar, e lembrei que Marcus era amante de Futoji. Lucio havia o matado? Futoji era um Abissal!

– Será? – ele falou alto para Marcus, e um soco poderoso foi depositado bem onde ele estava.

Pisquei. Lucio não morreria tão rápido. Não era possível...

Dito e certo. Escutei uma explosão e um grito de Marcus, e quando vimos, o braço dele vinha voando em nossa direção.

– Corre! – Nina gritou, e cada um foi para um lado. O braço era tão pesado que o chão tremeu quando ele caiu.

E então, apenas escutei o som de algo rachando. Ajudei Nina a levantar, e Marcus, aparentemente, sem fazer movimento algum, foi partido ao meio. Uma metade caindo para cada lado.

Péssima notícia: Lucio, já em sua forma Despertada, voltou-se para nós.

Ninguém precisou dizer nada, apenas nos viramos e começamos a correr o mais desesperadamente que podíamos. Lucio, que obviamente não desistia fácil, começou a nos perseguir, e ele era muito rápido, afinal era um Despertado relativamente pequeno.

Estava preocupado em deixar os dois para trás e eles serem pegos, e percebi que nos aproximávamos cada vez mais da imensa coluna de tentáculos negros. Em poucos minutos, corríamos sobre a superfície negra e seca e Lucio mostrava-se cada vez mais perto...

Senti uma dor lancinante em meu peito, e o sangue espirrou fazendo-me cair. Olhei para baixo, desnorteado, e vi a mão de Lucio atravessando meu corpo. Arregalei os olhos, meu coração ainda mais acelerado. Ele por pouco, pouquíssimo, o errara.

Alec saltou, e de supetão cortou o braço de Lúcio. Ele o olhou com ódio, mas com um estrondo, uma saraivada de estacas foram lançadas da coluna em sua direção. Alec me ajudou a levantar, arrancou o braço cravado em meu corpo e me forçou a correr. Comecei a usar minha Aura para me curar o mais rápido quanto o possível, e contornamos a coluna negra, onde Nina nos esperava.

– Você está bem?! – perguntou, preocupada.

– Sim...

O som de algo quebrando retornou.

Olhei para trás, assustado, e vi que a coluna continuava a lançar estacas e mais estacas em direção a Lucio, mas tudo o que escutava eram os gritos de morte dos monstros. Aquele estalo retornou e olhei para os tentáculos, recuando lentamente.

Não me diga...

– Corram! Corram! Não parem! – gritei.

Quando começamos a correr, ousei olhar sobre meu ombro, e vi exatamente quando Lucio se lançou pela coluna, e... Ela ruiu.

Impossível.

Os tentáculos moveram-se sob nós, e se repuxaram de tal forma que fui arremessado. Praticamente voei durante algum tempo, até cair na terra morta e estéril, então levantei e continuei correndo atrás de Alec e Nina.

Entrei onde a floresta recomeçava, mas Lucio encontrava-se cada vez mais próximo. Desviei de algumas árvores e praticamente saltei quando senti que ele ia me atacar.

Lucio atingiu o chão onde eu estava segundos antes. Rolei e acabei parando de frente para ele, que me encarou, e sorriu. Mesmo estando a metros de distância, Lucio ergueu sua mão como se fosse me atacar, a couraça negra reluzindo contra o sol. Eu sabia que não dava para fugir. Ele simplesmente me atacaria. Se eu tentasse correr, ele me atacaria pelas costas, como antes. Se eu ficasse, daria na mesma.

Eu tinha prometido a Raquel que não iria morrer.

Repentinamente, um tentáculo agarrou-se ao braço de Lucio. Nós dois encaramos aquilo, confusos, e Lucio o puxou, mas não se soltou. Muito pelo contrário.

As árvores começaram a cair, e mais e mais tentáculos começaram a envolver Lucio, suas pernas, seus braços, sua cabeça. E quando vi, a escuridão voltou-se contra mim.

Não posso morrer, não posso morrer...

Logo não escutei nem enxerguei mais nada.

XXX

Estava tudo escuro, mas de algum modo havia luz.

Estava escuro como a noite, mas eu enxergava como se fosse dia.

À minha frente, metros, quilômetros de distância, estava algo. Coisas.

Havia um imenso ser de escuridão. Tinha a forma de um homem, mas era imenso. Escuro como a noite, apenas conseguia distinguir suas formas corporais como braços e pernas, não possuía expressões ou nada do tipo. Era apenas... Negro.

À sua volta havia coisas girando. Pareciam-me... Machados? Machados de uma luz arroxeada sinistra. Dezenas dele. Giravam como um redemoinho, e então vários desciam de uma vez. O ser berrava, desviava, mas era acertado. E isso acontecia. De novo e de novo, sem fim.

– Incrível, não é? – uma voz disse atrás de mim, mas de forma alguma me assustei. Era como... Eu esperasse sem esperar. – Não importa quantas vezes seja acertado, o monstro a cada golpe torna-se cada vez mais forte, mais rápido, mais... Invencível.

Virei, deparando-me com Lúcio. Ele trazia o mesmo olhar e o mesmo sorriso que ele trazia quando me treinava. Mas jamais havia me dado conta... Desde quando seus olhos eram tão tristes?

Desde quando seu sorriso era tão aparente?

Parecia que ele pensava que era a última pessoa que merecesse sorrir.

– O que é isso?

Ele ergueu levemente a cabeça, sem tirar os olhos do ser, antes de dizer com simplicidade:

– Eu.

Mais um rugido se fez ouvir e uma onda de choque tão forte se formou que levantou poeira numa tempestade à nossa direção – eu nem sequer sabia que aqui havia poeira. -, mas Lúcio sequer se abalou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

– Todos os dias, tento acabar com essa coisa e voltar a ser o que era antes. – começou. – Mas quanto mais tento, mais desapareço, e mais ele cresce. Às vezes me pergunto se voltar vale à pena, afinal, também sou um monstro.

– Não Lúcio. Aquilo é um monstro. Você é algo...

– Escuto isso há tanto tempo... – me interrompeu. – Desde antes te conhecer. “Um monstro se aproxima”, “Lúcio, sua força é monstruosa”, “Esse garoto é um monstro.”. Sou chamado de monstro há tanto tempo que me tornei um. E não consigo parar. Cada vez mais forte, cada vez mais incontrolável.

Ele se calou, e continuei em silêncio, encarando-o. Lúcio parecia estar liberando o que ele gostaria de dizer a muito tempo.

– O que eu mais odeio são monstros, e aqui estou eu. Eu sou um monstro. Um monstro horrível que todos temem, que ninguém consegue parar. Que ninguém consegue matar. Nem eu mesmo. – ele me olhou. – Hideo, eu não como há anos, mas meu corpo não se torna fraco, não morre. Continua em frente como se nada acontecesse. E o pior de tudo, eu não tenho controle sobre ele. Isso é horrível. Eu quero que tudo simplesmente se acabe, mas não. Apenas se estende infinitamente.

O ser rugiu mais uma vez, e mais uma onda caiu sobre nós. Desta vez, era realmente água. Como? Essa é a mente de Lúcio, funciona de acordo com suas regras. Não tenho nenhum poder aqui.

A água subia, estava já na altura de meus ombros, mas não me importava. Eu sabia de alguma forma que não iria me afogar.

– Todas as crianças que foram parar na Ordem devido a algum monstro eram sempre assim: Elas estavam escondidas, as pessoas com que elas estavam haviam sido devoradas por um monstro que fingia ser alguém de sua família, um híbrido as salvara, e no fim a cidade, por medo, as entregava para a Ordem. – ele parou, e a água subiu completamente. Eu respirava normalmente, e ele continuou também do modo mais comum do mundo. – Eu não fui assim. Eu estava na casa da minha avó com o meu pai e minha mãe. Uma reunião em família, sabe? Irmãos, primos, todos os parentes juntos. Tinham umas quarenta pessoas naquela casa.

Olhei para o monstro e ele continuava lutando furiosamente.

– No meio da noite, escutei barulhos estranhos e desci. E eu vi que havia um monstro, e que ele estava devorando a minha mãe. – ele olhou para o chão. – Nunca havia ficado tão aterrorizado, mas eu sabia que assim que ele acabasse, ele iria atrás de todos que estavam na casa. Meu pai tinha um machado que ele sempre levava quando ia para essas viagens, ele dizia que era o melhor para se cortar lenha. Lembro muito bem. Olhei para o outro lado da cozinha, e lá estava aquele machado, encostado na parede, perto do balcão. Fui o mais silenciosamente que eu consegui até ele e o peguei. – Ele ergueu as mãos, como se conseguisse sentir o peso do machado sobre elas. — Era pesado. Lembro que mal conseguia ergue-lo, mas do mesmo jeito fui em direção ao monstro. Parei bem atrás dele, e usei toda minha força para levantar aquele machado. Então parti a sua cabeça ao meio.

Acho que meus olhos estavam quase saltando da cara. Nunca havia ouvido falar de alguém que conseguira ter estômago para matar um monstro ainda criança. E humano. Lembrava de Lúcio gritar isso quando Despertou, mas ouvir em detalhes era muito pior.

– Acho que gritei, não lembro. Vi só então que o monstro era o meu pai. Eu estava tão assustado que posso dizer que estava em um estado de choque. Logo depois um híbrido chegou, arrombando a porta. Nunca me esqueci dele, era nortista. Olhos amendoados e o cabelo tão curto que era ralo. Ele, um híbrido, ficou assustado com o que viu. Eu ainda estava todo sujo de sangue, segurando aquele machado cravado na cabeça do monstro e sem reação. – ele balançou a cabeça como se tentasse afastar a imagem. – Para piorar, toda a família começou a descer para ver o que tinha acontecido, e vi no rosto de cada um, que eles estavam com medo. De mim, e o pior, eles pareciam ter nojo também.

Uma onda passou por nós, e essa quase nos arrastou, mas Lúcio não se abalou.

– No outro dia, a Ordem apareceu para saber o que tinha acontecido, e a minha família praticamente me jogou para eles. Minha avó disse... – ele fungou e percebi de cara que fora algo horrível o suficiente para abalá-lo. Quando continuou, sua voz estava embargada. – Ela disse que era para eles me levarem, e que eles nunca mais queriam me ver, pois na família deles, não havia monstros como eu, que eram capazes de matar próprios familiares.

Alguém me diz onde essa desgraçada mora que eu mesmo vou falar umas verdades para ela. Lúcio provavelmente os salvara e era assim que eles lhe retribuíam?!

– O próprio curador pareceu ficar sem reação com o que ela disse, e as pessoas da cidade gritavam e tentavam atirar coisas em mim, e eu estava lá, no mesmo estado da madrugada. Sujo de sangue e sem dizer nada. Mais cedo naquele dia mesmo, minha família tinha me jogado para fora de casa e as pessoas que passavam fora na rua me apedrejavam e diziam coisas... – ele se interrompeu. — Era horrível. Na cabeça deles eu que era o monstro. Então, no fim, o curador só me jogou no carro e foi embora.

Agora essa foi a gota d’água. O que essas pessoas tinham na cabeça?

– Você sabe que sempre fui acima da média dos aprendizes. Muito acima da média. E como me elogiavam? Que minha força era monstruosa, que eu era um monstro. Como se isso fosse uma coisa boa. – deu uma pequena risada de escárnio sem vontade alguma. – E, então, aqui estou eu. Um monstro que quer domar outro monstro. Parece que quando caio no fundo do poço, tento cavar para chegar mais fundo.

Me assustei quando dois machados apareceram girando do nada e se cravaram nas costas de Lúcio, e ele simplesmente se jogou sentando no chão e abraçou as próprias pernas, escondendo o rosto entre elas.

– Não importa quantas vezes eu atinja, ele nunca morre.

A água estava se tornando vermelha.

O que eu deveria fazer? Estava claramente muito além do que eu poderia ajudar. Olhei envolta, vendo o monstro lutando através da névoa vermelha que era o sangue de Lucio. Mordi meus lábios, voltando-me para ele. Aproximei-me cautelosamente, mas ele não esboçou reação nenhuma quanto minha aproximação, e então me ajoelhei ao seu lado.

– Lucio, você não tem culpa de nada.

Ele continuou sem se mover.

– Você fez o certo naquele dia, mesmo que sua família e a cidade inteira tenha sido cega o suficiente para não ver isso. Você salvou todos eles. Mas como já fui humano, assim como você, eu sei o quanto a raça é ingrata. Simplesmente fica com medo e condena o que não entendem, o que está além do alcance deles. Você não matou seu pai aquele dia. O monstro o matou. Você matou o monstro, apenas isso.

Mais um rugido se fez escutar, a água quase me arrastou.

– Você ensinou a mim, Denis e Yudai a lutar, mas mais que isso. Você não ficava como se fossemos apenas pirralhos que ficavam enchendo seu saco e tomando seu tempo, e que estava fazendo aquilo apenas por obrigação. Você nos tratava bem, como se fossemos uma família, tinha paciência até com as briguinhas sem sentido. Não seria um monstro que faria isso, mas sim uma pessoa... Uma ótima pessoa, aliás. Você não é um monstro Lucio. Você é uma pessoa. Uma das melhores que já conheci, aliás.

–... Eu posso.

– Lucio?

– Eu posso lhe ensinar mais uma coisa? – perguntou, sem mostrar seu rosto.

Notas finais
Sei que passei um bom tempo sem postar. Uns quatro meses e tals, com certeza mais... É óbvio que perdi leitores com isso. Quando voltei a postar, percebi que tinha 166 leitores - enquanto OdS tem 347 -, e passei a receber em média um comentário por capítulo. Agora, as postagens aumentaram para diárias. Fui verificar hoje, e o número aumentou para 232 leitores. Mas eu continuo recebendo um comentário por capítulo, graças a Maria Beatriz, que aparece até duas vezes no mesmo dia, dependendo quando eu posto -q. Não estou mendigando, mas acho que a maioria, além de leitora, é escritora, e sabe muito bem que comentários instigam os escritores a continuar, mas está meio difícil gente. Tá, estou com inspiração, mas tô com a sensação de que ninguém acompanha a história, praticamente. Eu não respondo? Não (tenho preguiça até de ir pegar água pra beber, então...), mas leio todas e sinceramente, gosto muito dos leitores que apareciam. Tipo a Maka (que agora é Victorian Alban. Estou ligada minha gente), Matheus Felipe, HB e a Lariissa. E todos - e quando eu digo todos, é todos mesmo. - sumiram nesses últimos capítulos. Mesmo a gente não tenha conversado direito, tenha trocado uns paranauês aí, eu considerava todos vocês, então dá falta. Gostaria que vocês voltassem, caso estivessem lendo ç.ç E aos leitores fantasmas que nem sabia que liam, vocês são bem vindo também =) Apenas metam a cara num comentário, que podem ter certeza de que lerei! Até amanhã!