Meia Alma
6 Capítulo 5 - Sombras
Notas iniciais
Eu estava com uma dor de cabeça infernal, acompanhada por uma horrível dor em meu olho esquerdo, o que tornava tudo ainda pior. Escutei diversos sons e vozes próximos a mim, até que alguém, cuidadosa e cautelosamente, levantou minha pálpebra esquerda, e pareceu sibilar de dor só de ver o estado de meu olho.
Alguém assoviou juntamente com a pessoa que estava xeretando o olho dos outros.
- Cara, isso está mais feio do que eu imaginei. – Ygor disse, e percebi que era ele que estava mais afastado, então, provavelmente deveria ter sido ele que assobiara. – Aquela coisa queimou o olho dele também!
- Alma, você acha que consegue curar isso? – Nina perguntou, fazendo-me perceber que era ela que mantinha meu olho aberto.
- Depende, vai ser um pouco difícil sem poder usar minha Aura, mas eu talvez possa manipular a Aura dele. – Alma respondeu, ainda mais afastada, e parecia estar mexendo com algo.
Alguma coisa gelada envolvida em tecido tocou meu olho, fazendo com que a dor de cabeça aumentasse. Torci minha boca e murmurei um “ai” fraco, percebendo que haviam posto uma camisa com neve dentro em meu olho. Não sei o que queriam fazer com aquilo. Talvez estancar o sangue.
- Ei, se você já tinha acordado, deveria ter avisado. – Alma ralhou, mas a ignorei enquanto me sentava.
Percebi que não estava mais na entrada da caverna, mas sim na galeria em que me servia de quarto, e que todos do grupo estavam lá dentro. Eles pareciam bastante preocupados. Tateei em meu rosto até encontrar a mão de Nina, que segurava a camisa gelada contra meu olho. Ela soltou imediatamente, deixando com que eu a segurasse.
- O que aconteceu? – perguntei, minha voz fraca.
- Você não se lembra? – Nina perguntou, sentando ao meu lado.
- Depende do que você está falando.
Moko pousou ao meu lado e me olhou com seus grandes olhos dourados, soltando um ganido baixo. Não sei o que deu em mim, mas comecei a coçar sua orelha como se estivesse coçando a orelha de um filhote de cão. Quando pus minha mão de volta ao colchão, ela lambeu levemente os meus dedos. Torci para que ela não tentasse comê-los.
- Da coisa de fogo. – Alec bufou, encostado na pedra da entrada.
- Bom, acho que é meio difícil que eu a esqueça, não é? – perguntei, indicando o pano molhado em meu olho.
Ele ficou em silêncio, de cara amarrada, assim como os outros. Raquel e Nina estavam ambas sentadas em meus lados, e Alma estava a minha frente. Moko estava com a cabeça apoiada em minha perna direita. Eu estava literalmente rodeado de garotas.
- Mas o que aconteceu? – Anita perguntou, parada próxima a Alec.
- Hã?
- Depois que você nos fez ir embora. – especificou.
Cerrei meu olho, estranhando. Eu lembrava-me de tê-los mandado ir embora, mas... Parecia que havia mais um buraco em mim, só que este não doía ou coisa parecida. Era como se houvesse um buraco em minha memória. O que acontecera depois de... De a coisa se “apresentar”?
- Ele disse que o nome dele...
- Aquilo tinha nome?! – Ygor exclamou, incrédulo.
- Posso terminar?
- Foi mal.
- Ele disse que... Que se chamava Daichi. – respondi. – E não me lembro de nada depois disso.
Todos ficaram em silêncio após escutarem o que eu dissera. Um movimento da cabeça de Moko me indicara que ela esticara suas orelhas, pronta para escutar a tudo atentamente, embora eu não dissesse nada.
- Memórias apagadas, talvez? – Maurice foi o primeiro a se pronunciar, e considerando a habilidade dele, parecia apropriado que ele desse aquela opinião.
- Talvez seja, porque escutamos você e aquela coisa conversando. – Alec continuou a fala de Maurice.
- Vocês sabem me dizer o que eu estava falando? – perguntei, logo depois arquejando diante a dor em meu olho.
- Não totalmente, porque vocês estavam falando na língua antiga. – Alec respondeu, coçando a cabeça.
-... Darneliyano antigo? Eu não sei muita coisa, não dava para eu estar falando então.
- Nenhum de nós sabe. – Diego bufou, sentado num canto muito mais afastado. – Mas você estava.
- Possessão. – Larry disse num tom irônico do canto em que estava.
Bem que poderia ser. Eu não tinha nível de escolaridade o suficiente para falar normalmente em Darneliyano antigo.
- Mas o que dava para vocês entenderem, vocês tem alguma ideia do que eu estava falando?
Anita pôs a mão no queixo, Larry olhou para o teto, Alma saiu da caverna – fujona -, Alec se deixou escorregar pela parede da caverna até o chão, Diego começou a olhar fixamente para a parede atrás de mim, Maurice se empurrou em direção a uma sombra, Ygor olhou para uma fissura na parede e as garotas ficaram em silêncio.
Péssima pergunta, talvez.
-... Agora fiquei até com medo de perguntar agora, mas o que eu estava falando?!
Diego começou a estalar os dedos. Fora isso, caverna voltou a ficar em silêncio. Eu estava começando a ficar nervoso com aquilo tudo.
- Você disse algo como “Se somos...”, e o resto da frase eu não entendi mais. – Diego foi o primeiro a me responder. – Só entendi fragmentos, não frases inteiras.
- O que mais?
- Eu só entendi você falando “voltar.”, só não consegui entender se era “ele”, “eles” ou “vocês”. – Larry disse pensativo, e eu não o culpava por ter se confundido. Eram palavras muito parecidas no fim das contas. – E pela primeira vez em muito tempo eu te vi com ao menos um fio de cabelo alegre.
- Que engraçado. – bufei, para então continuar. – E quem vai voltar?
- Como se seu fosse saber!
Talvez não tenha sido a melhor das perguntas.
- Quem deixaria feliz se soubesse que iria voltar ou coisa assim? – Moko perguntou, com a cabeça apoiada ainda em minha coxa.
A dor em meu peito pulsou no exato momento em que a primeira pessoa que me deixaria de certo modo feliz ao retornar passou por minha cabeça. Sacudi-a levemente, tentando enterrar tais pensamentos no mais profundo de minha mente, porém, o buraco em meu peito fazia com que fosse uma ação sem muito sucesso.
- É uma pergunta um tanto óbvia, não é? – Alec disse de modo brusco a mesma coisa que se passava em minha mente.
- Mortos não voltam à vida. – falei de modo seco, e Alec vergou a cabeça sobre seu ombro com uma expressão de “me desculpe”.
- Não sabemos se você estava se referindo a apenas uma pessoa, então não dá para ter certeza se... – Anita interferiu. – Eles estavam falando de Yudai. E você não parecia estar exatamente feliz.
- Como eu estava?
- Com a cara de sempre, tirando a carranca. – Observou.
-... Eu não tenho uma carranca.
- Você vive sem expressão, para mim já é carranca. – Maurice se manifestou escondido dentre as sombras.
Escutei claramente Nina e Raquel prendendo o riso, e tive de me segurar para não ir pessoalmente deixar Maurice sem expressão. No sentido literal. Os tremores do corpo de Moko em minha perna fizeram-me olhar para baixo, acabando por vê-la abanando alegremente sua cauda enquanto prendia o riso. Aquele único membro a traía completamente. A cauda.
Alma retornou equilibrando uma panela – na verdade, uma frigideira. Não sei onde ela a arranjara. – cheia de água – por que diabos ela pôs água numa frigideira?! -, e a pôs no chão.
- Tira isso do olho. – falou com simplicidade, o que logo fiz.
Ela colocou a mão direita sobre em meu olho ferido e fiz com que minha Aura se insinuasse em sua direção. Entendendo, ela a manipulou para que então começasse a regenerar meu olho. Com o outro, conseguia enxergar a luz branca escapando por entre seus dedos.
Meu olho ardia ligeiramente devido a cura de Alma, e eu sabia que a tendência era apenas piorar. Escutava os murmúrios baixos dos outros, e Nina levantou-se de meu lado, ficando somente Raquel, que até então ficara quieta.
Senti a ardência em meu olho começar a aumentar cada vez mais, e trinquei os dentes. Aquilo já chegava a doer, mas eu iria me manter calado, já que expor a dor não serviria para nada. Ela não iria sumir por causa de uma mera verbalização.
Comecei a pensar sobre o que ocorrera. O que diabos fora aquilo? Tudo bem, fora uma coisa chamada Daichi que saíra de uma fogueira, mas eu não fazia a mínima ideia do que era, do que ocorrera, do que havíamos falado. Lembrava-me de ele ter furado o meu olho e com o meu olho furado, eu conseguira vê-lo.
Para mim, o fato de ele ser tão parecido comigo era um mistério. Os outros provavelmente não o viram como eu o vira, mas eu sentia que eu deveria conhecer aquela pessoa, apesar de não fazer a mínima ideia de quem quer fosse. Toda vez que a imagem dele me vinha à cabeça, eu sentia quase que uma estranha nostalgia.
Mas antes, o nome dele: Daichi. Qualquer um conhece o nome Daichi, por causa da lenda de Sora e Daichi, mas... Se houvesse alguma possibilidade que aquela coisa fosse ele, eu estava ligeiramente incrédulo, afinal, em primeiro lugar, ele estava morto. Segundo, se houvesse como ele dar um jeito de vir para o mundo dos vivos, eu não via nada de especial para que ele viesse justamente atrás de mim. Terceiro: Não há nenhuma garantia de que ele e Sora tenham realmente existido.
Senti a cabeça de Raquel pendendo para cima de meu ombro, e eu também não me importei. De certa forma, sentia-me mais confortável assim, e também precisava me lembrar de que eu acordara a todos no meio da noite com os meus gritos, e certeiramente, eles pareciam ligeiramente cansados. Não deve ter sido muito agradável.
Moko subiu em meu colo, indo dele para o de Raquel, e ficou lá, até que fechei o meu outro olho, após ver Raquel coçando uma de suas orelhas brevemente, e quase nem percebi quando acabei dormindo.
~O~
Vinte e três espadas fincadas em meio a imaculada neve, suas bainhas congeladas devido a resistirem a gelo e neve durante sete longos anos. Sob cada espada, estava um corpo de um híbrido que morrera devido a Guerra do Norte. Era impossível não ficar com raiva da Ordem ao pensar que tantas vidas foram desperdiçadas em vão por algo que jamais daria frutos.
Eu estava no Vale dos Mortos.
Passei por entre elas, tentando não pisar no espaço diante cada uma, pois temia pisar sobre um corpo enterrado a espessas camadas de neve, escutando ao longe o som de metal chocando-se contra outro, coisa comum quando começávamos a treinar. Sentia as Auras de Larry e Ygor treinando, assim como Diego contra Susana. Eu sinceramente ficava mais preocupado com Ygor e Larry. Que eles não se matassem enquanto treinavam.
Respirei fundo, o vento álgido fazendo com que minhas narinas doessem juntamente com o nada enregelado que estava em meu peito. Sentia-me quase que oco por dentro, preenchido por vento. Talvez fosse bom se fosse ao menos um vento morno, mas era justamente o frio congelante que me assombrava a cada mísero segundo de minha existência.
Esfreguei minha testa, sentindo minha franja bagunçar-se com o movimento de minha mão direita. Encarei o chão que praticamente engolia minhas pernas, fazendo-me agradecer ao fato de que minhas botas fossem um pouco abaixo do joelho. Não gostaria daquela coisa tocando minha pele. Odiava frio, odiava neve, odiava este lugar. Há alguns anos eu até diria que ao menos o frio é bom para dormir, mas agora que quase sempre eu era assombrado por pesadelos, não me dava mais a tal luxo. Ao menos, não por muito tempo.
Desenterrei meu pé esquerdo de dentro da neve, puxando-o para fora e pisei novamente sobre a neve, cuidadosamente, não desejando enterrar-me na neve novamente. Vendo que não estava afundando, tirei o outro de dentro dela e consegui manter-me sobre a neve. O bom é que eu não era tão pesado quanto a maioria das pessoas pensavam que era, portanto não afundava tanto na neve. Ainda lembro-me muito bem de quando Denis perguntara se eu tinha 50 quilos há... Doze anos. Esqueci-me de dizer a ele depois de que ele errara por dez quilos.
Sim, eu provavelmente era subnutrido para alguém com um metro e oitenta e dois de altura, acredito eu.
Bati contra o gibão de couro de aërja que eu usava sobre minha camisa. Ao contrário de muitas coisas, eu mesmo que fizera aquilo, a muito custo para conseguir pegar aërja cujo couro eu usara. Imagine um imenso corpo pareça com o de um macaco, cuja pelagem espessa era tão perfeitamente branca que você não consiga vê-lo claramente, sendo ele do dobro de sua altura, mas seu rosto ligeiramente achatado lembrando o de algum felino, com nariz e cauda lembrando a de um rato, sendo a cauda com mais de dez metros. O couro negro escondido sob a pelagem sendo a coisa mais dura que você provavelmente irá encontrar um dia. Isso era um aërja, e foram horas até eu, Diego e Raquel conseguirmos pegarmos e darmos um jeito de matá-lo que eu até hoje não entendera.
Mas de certa forma valera a pena, já que a carne enterrada na neve durara mais de um mês – lembrando que somos onze pessoas morando juntas -, um gibão de couro, uma luva e uma manopla para mim, outro para Diego, vários cobertores de pele, uma espécie de corda com a cauda do bicho – que ainda não se deteriorara. – e os ossos formando ferramentas rústicas. Tudo era reutilizado.
Fora difícil fazer o gibão, que mais se parecia com um uma camisa sem mangas, e isso protegia toda a parte frontal de meu tronco, parando logo acima dos quadris e grande parte de minhas costas, tirando uma pequena abertura retangular na altura da base de minha coluna com duas tiras de couro formando algo como um cinto, ajustando-se com uma fivela para qualquer caso.
Passei ao lado da espada de um guerreiro, seu símbolo embaçado pelo gelo, e comecei a escalar a encosta de uma estreita montanha, na qual em seu topo plano só caberia no máximo duas pessoas. Não estava com vontade de treinar, embora que, se depois, por algum motivo, todos fossem treinar, eu não precisaria ir, já que o número de pessoas era ímpar. Subi cerca de dez metros rapidamente, olhando tudo de cima, sentando em sua borda, o vento vez ou outra açoitando meu rosto.
Estalei meus dedos e uma chama azul clara formou-se entre meu dedo indicador e o polegar, sentindo um leve repuxar em minha energia, como se eu estivesse ficando ligeiramente cansado. Girei minha mão, transferindo a chama para a palma de minha mão. O porquê de aquilo ocorrer, eu não sabia. Quando Alec e Nina controlavam seus respectivos elementos, eles usavam suas Auras, mas eu não usava nada como minha Aura. E aquilo fazia-me lembrar novamente da “coisa de fogo chamada Daichi”. Meu olho voltara ao normal, mas a lembrança da dor ainda se mantinha viva.
Brinquei com a fria chama azul, passando-a por entre meus dedos alternadamente como se fosse uma cobra precipitando por eles, até que comecei a sentir meus olhos pesados e minha cabeça doendo, fazendo com que a chama exaurisse de meus dedos. Minha cabeça começou a pender sobre meu pescoço, mas me forcei a me manter consciente. É, isso também passou a acontecer. Perda de energia.
Joguei minhas costas pra trás, chocando-as contra a pedra, com o leve incômodo da fivela em minhas costas, mas não me importei. Apenas continuei a fitar o céu cinzento e infinito acima de mim, minha mente começando a vagar, minhas pernas penduradas a dez metros de altura do chão. Olhei para minha mão direita, a mão onde eu usava a manopla, que em meu pulso eu usava o símbolo de Yudai enrolado ali. Era a única coisa que eu podia e me permitira a pegar.
Eu aprendera o que era estar realmente sozinho.
Fora eu que causara sua distração num momento crucial, fora por minha impulsividade que eu me lançara contra Adamantia daquele modo, e por minha culpa, ele não estava mais aqui.
Sabia que era tarde demais para continuar lamentando, mas não conseguia evitar. Talvez o vazio que me consumia por dentro não fosse por causa da meia alma que possuía, mas sim pela culpa. Eu sabia não poderia continuar assim. Mortos jamais voltavam a vida, nunca voltam e jamais voltarão. Esperava que onde estivesse, Yu não estivesse sofrendo do mesmo mal que eu sofria. Me perguntava se essa coisa de possuir apenas a metade de uma alma impedia alguém de descansar em paz. Mas na maioria das vezes, essa era uma das coisas que eu me impedia de pensar.
Fiquei me repreendendo durante um bom tempo, mas não conseguia lançar aqueles pensamentos de minha mente. Fechei os olhos. Era difícil, pois quem se fora foi justamente alguém com que eu passara praticamente toda minha vida junto, salvo os momentos das missões em que íamos separados. A culpa me assombrava mais do que tudo desde aquele dia, havia também essa dor que se esforçava ao extremo para lembrar-me em cada mísero milésimo de segundo que apenas estou nesse estado por minha culpa.
Meus dedos tamborilaram pela extensão da pedra, meu olhar vazio encarando o céu cinzento acima de mim sem realmente encará-lo, minha mente vagando em direção a coisas que nunca voltariam e que somente trariam a mim mais sofrimento. Não havia outra pessoa para por a culpa além de mim, este era o problema.
Não é exatamente assim...
Sentei tão abruptamente que quando percebi, estava já caindo. Antes que pudesse girar no ar para que pousasse de pé, meu corpo chocou-se contra a fria neve, caindo pesadamente sobre ela. Soltei um gemido abafado, mais pelo frio do que pela dor, me sentei, sentindo a neve grudada em meu rosto. Esfreguei-o, tirando aquele incômodo gelado dele, então a fitei, atônito.
Era oficial, eu estava louco. Eu jurava que havia acabado de escutar a voz de Yudai em minha mente, como em nossas “conversas mudas”. Como assim? Acho que ontem eu bati com a cabeça no chão com mais força do que imaginava, ou o oficial era realmente oficial.
Meu braço direito começou a latejar e olhei para o curativo que Raquel fizera. As ataduras estavam começando a se tornar vermelho sangue e úmidas, o sangue começando a escorrer por meu braço. Minha vontade era de usar minha Aura e curar aquele ferimento, mas não podia; se houvesse alguém por perto, nosso esconderijo iria por água abaixo. Mesmo que eu pudesse esconder minha Aura completamente, iriam senti-la.
Com um bufo, comecei a me levantar e rasguei as ataduras, vendo o sangue escorrendo abundantemente do ferimento de modo que eu se tornava ligeiramente confuso saber de onde ele vinha, apesar de eu saber a localização do ferimento.
Sentia minha pulsação ribombando em meus ouvidos, mais pelo susto do que pela dor. Vi o sangue gotejando lentamente contra a neve, mas não me importei. Eu poderia muito bem ganhar um choque térmico para que tivesse certeza de que não estava louco. Talvez eu devesse procurar Nina.
Tentei levantar aos tropeços, porém logo após desistindo, decidi ficar sentado sobre a neve mesmo, a algidez tomando-me abrasadoramente, as lágrimas teimosas querendo escapar por meus olhos de um modo que eu não desejava. Esfreguei meus olhos com as costas de minha mão esquerda, trincando os dentes, sequer me importando com o ardor causado pela fricção do couro contra meus olhos ardentes. Tinha certeza se o eu que existia até sete anos atrás me visse do modo que estou agora, com certeza não reconheceria a mim mesmo. Prendi a respiração, numa tentativa de as lágrimas ficarem presas em meus olhos, não escorrendo por meu rosto, tornando-se visíveis para qualquer um que me visse.
Eu já deveria estar tão desesperado pela culpa que minha mente deve ter achado divertido pregar uma peça em mim, somente para cutucar a ferida aberta e exposta, incurável. Porém, como minha mente era parte de mim, também era possível que eu houvesse adquirido tendências masoquistas. Somente algo assim para explicar o que eu escutara, apenas isso era possível. Esfreguei meu peito com força, subindo minha mão até a nuca, deixando um suspiro pesado escapar, ainda encarando a neve diante mim, manchada levemente com meu sangue e minhas roupas negras.
Uma mão repentinamente tocou em meu ombro e dei um salto, sendo pego de surpresa, o temor que minha mente poderia estar pregando uma peça em mim e criando uma ilusão diante meus olhos me alarmando, porém vi uma mão enluvada, portanto, com certeza não era uma ilusão. Olhei por cima do ombro e vi Anita atrás de mim, olhando-me com cautela.
- O que aconteceu?
- Eu só caí lá de cima. – respondi.
- Esse ferimento em seu braço não é algo que se faz em uma queda. – disse certeiramente.
- Não, eu salvei um grupo de caça ontem. – confessei em voz baixa. – Um dos três Despertados entrou em desespero e tentou me atacar, causando isso.
Ela suspirou reprovadoramente. Sim, o oposto de mim. Enquanto eu não me importava com absolutamente nada, ou ao menos conseguia, nem comigo mesmo, Anita se importava com todos.
Ela usava uma blusa de mangas comprida – como tudo, negra -, presa a sua cintura como uma espécie de espartilho de couro negro mantendo-a presa, usando por baixo calças e botas de couro, usando também luvas.
- Eu falei uma coisa com os outros, e eles foram de acordo. – começou, fitando o chão, usando um tom extremamente sério. – Quero saber, se assim como os outros, você está a favor.
- O quê?
- Estava pensando em voltarmos para o continente.
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