Medicina Arriscada

15 Hisana está viva


Hisana está viva

Após Renji sair, Byakuya ficou a olhar aquele pedaço de papel por longos minutos, imaginando se o que estaria fazendo era o certo ou não.

Havia sido traído pela mesma pessoa de diversas formas e o pior, era amá-la mesmo assim.

Já havia banhado antes de seu secretário e amigo ter vindo até sua casa, tudo o que faltava era coragem para ir até ela.

“Sim, estou fazendo o certo e preciso fazê-lo ainda hoje.” — Com este pensamento, Kuchiki ergueu seu corpo do sofá e caminhou até a porta, indo enfim de encontro de sua ex esposa.

Dirigir até o apartamento não havia sido difícil, mas sabia que não seria assim quando a visse. Sabia, pois ao sair do carro já sentia seu coração magoado ferir-se novamente. Quando se deu conta já estava dentro do elevador, indo até o andar que o porteiro havia lhe dito após um agrado generoso em sua carteira.

“Respire fundo. Não se esqueça de respirar.” – De frente à porta do apartamento, Byakuya tentava manter sua tão costumeira pose, sem qualquer sombra de sucesso.

“Você consegue. Você consegue. Você consegue.” – Continuava dizendo isso a si mesmo como um mantra, com o indicador na campainha a algum tempo, até que por descuido, ainda sem estar preparado para isso, acabou pressionando o botão, surpreendendo-se ao ouvir o som da campainha.

“... E agora? O que eu faço? O que eu digo?” – Antes de terminar seu monólogo mental, ouviu do lado de fora o riso de uma mulher seguido de uma exclamação:

— Já vaaaai!! Amor, a pizza chegou, sai logo do banho!

A porta se abriu e instantaneamente o sorriso da mulher se desfez, dando lugar ao pânico. O olhar do moreno se perdia nos assombrados olhos negros de Hisana, que emudecida, apenas viu o maior lhe dar as costas com o olhar entristecido e enuviado, indo embora sem nada dizer.

O coração não parecia bater no peito do moreno, que entrava no elevador novamente, derramando lágrimas que tentava conter ao revê-la após anos de luto. Seu olhar estava tão nublado por conta das lágrimas que sequer percebeu um homem alto de cabelos castanhos dentro do mesmo ambiente, escorando seu corpo contra a parede de metal gélida, com a mão na boca para que o silêncio fizesse parte de seu desabafo.

Que destino cruel, ela morava no ultimo andar. Apenas maior o tempo que passaria dentro daquelas quatro paredes, sem poder ir para a solidão de sua casa.

Dentro do elevador, um homem de olhos castanhos, desconfortável ao ver aquela situação, interrompeu a solidão criada pelo menor, lhe dizendo com cautela:

— Não sei o que houve, Byakuya, mas seja o que for... – O abraçou antes de terminar a frase, surpreendendo o Kuchiki pela atitude do outro e por não o ter percebido naquele ambiente tão pequeno. — ... Sou seu amigo, não se esqueça disso.

— Stark? – Para a surpresa do maior, ouviu a voz do Kuchiki sair fina, retribuindo o abraço com as mãos trêmulas. Aquela situação lhe lembrava de quando o mesmo perdera sua esposa. Havia ficado tão indefeso naquela época, que se surpreendera ao pensar em protege-lo. Devia estar mesmo muito sozinho, pra pensar naquilo, pois Byakuya não passava de um bom amigo e estava sofrendo, precisando dele.

— Calma, estou aqui, sempre estarei. – Dizia com a voz terna, lembrando-se de sua filha naquele momento, sentindo o olhar enuviar com as lembranças da menina. Sempre a consolava daquela mesma forma, afagando os cabelos. Aquilo apenas fez com que abraçasse mais forte o amigo, sentindo o próprio coração doer.

Chegaram ao térreo e abrira as portas metálicas, revelando o vazio afora. Byakuya não estava pronto para aquilo e Stark sabia disso. Movido por seu sentimentalismo costumeiro, apertou um botão e as portas se fecharam novamente, subindo um andar, novamente as portas se abriram e assim, o menor foi arrastado com calma para fora do elevador.

— O que pretende? – O dono do hospital indagava confuso, percebendo um braço envolvendo sua cintura para ser levado melhor pelo moreno de cabelos cacheados e em resposta, teve um pequeno sorriso amigável, seguido por uma mão com uma chave na palma, mostrando onde o levaria.

— Eu moro nesse edifício, ficará em meu apartamento até sentir-se melhor. – Dizia abrindo a porta do apartamento frente ao elevador.

Não tinha forças para reclamar, embora quisesse. Era de seu feitio recusar esse tipo de delicadeza vinda de qualquer pessoa, até mesmo de seus amigos.

— Entre e sinta-se a vontade. Sente no sofá, deite na cama, coma alguma coisa, é só pedir.

O contrário do que faria, acabou acatando a sugestão do outro, entrando e sentando no sofá, sem nada dizer.

— Chá, rum, água, suco de saquinho, vodka? Alguma coisa?

— Vodka com gelo, por favor.

— É... pensei que pediria isso mesmo. Em outra situação pediria chá, correto?

— Você é observador. – Dizia indiferente, encostando a cabeça no sofá e fechando os olhos. Precisava esquecer. Precisava parar de sentir, mas como? Sentia seu coração sendo triturado, moído, afogado no próprio sangue. – Deus, como dói.

Embora assistir seu amigo naquele estado lhe desse curiosidade, não sabia se devia perguntar algo a respeito, ainda mais ouvindo aquilo dele. Já com as bebidas em mãos, balançou o copo perto do menor, provocando um barulho fraco de gelo e líquido batendo contra o copo, fazendo com que o Kuchiki abrisse os olhos e pegasse a bebida das mãos do outro.

— Obrigado. – As lágrimas já paravam de rolar aos poucos, mas o vermelho dos olhos demoraria a desaparecer. Devia ter aceito a proposta de Renji de ir com ele. Ter vindo sozinho apenas o fez sentir-se mais fragilizado. Pensava enquanto bebia aos poucos o líquido.

— Quer falar a respeito? – Perguntava o maior, sentando-se ao lado do amigo, preocupado, o acompanhando na bebida. A resposta veio após um longo silêncio, para a surpresa de Stark, que havia perguntado por educação. Supunha que não receberia qualquer resposta do amigo.

— ...Hisana está viva.

— ...N-Não pode ser. – A expressão facial do maior, que era quase sempre a mesma, agora estava paralisada em assombro e surpresa, derramando nesse meio tempo parte do conteúdo alcoólico na própria roupa, tamanho o susto. Sabia que Byakuya falava sério e sabia que era verdade, pois senão ele jamais choraria tanto.

— Também pensei assim quando Renji me contou tê-la visto. Embora eu confie nele, precisei vir aqui para me fazer acreditar nisso.

— Aqui? Ela está morando aqui? – Assustou-se ainda mais, pondo o copo na mesinha de centro que ficava frente ao sofá.

— De acordo com Renji e o porteiro, apenas por um mês, mas agora que nos vimos não sei mais se ela ficará esse tempo mesmo. – Bebia novamente do líquido, sentindo a garganta esquentar por causa do álcool. – Não sei o que fazer.

— ... Sei que não é hora para falar disso, mas, oficialmente vocês não estão mais casados. Você a ama, quer ela de volta? É essa a questão que deveria pensar agora.

— ... Eu não sei. – Novamente as lágrimas escorriam pela face do homem alvo, que colocou a mão livre para cobrir o rosto. Queria se esconder naquele momento. Sentia a dor aumentar e as dúvidas, o medo cravar fundo em seu coração. – Ela tem outro homem agora.

Mais uma vez aquele sentimento. Precisava protege-lo. Ele era tão indefeso, tão só. Solitário como ele próprio, ou talvez mais. Pensando nisso, o abraçou novamente, tirando o copo quase vazio para por na mesinha de centro em seguida.

— Calma, vai dar tudo certo. Byakuya, todos sempre pensamos que ela não merecia você. Talvez por ela pensar o mesmo, talvez por pensar assim ela tenha fugido. Ela temia a responsabilidade de cuidar de um homem tão bom, tão belo e tão carinhoso como você, que depositava tanta confiança nela. Talvez ela estivesse com medo, Byakuya.

— Stark, você é um homem racional, não é de seu feitio dizer essas coisas fantasiosas.

De fato, Stark não acreditava que aquele tipo de mulher tivesse feito isso por aqueles motivos, mas queria de alguma forma acalmar aquele coração tão sofrido.

— Queria eu estar certo... Nunca quis tanto isso, meu amigo.

— Eu sei. – Dizia novamente com a voz enfraquecida, retribuindo enfim o abraço de Stark, chorando em seu ombro.

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Renji estava aflito em sua casa, pensando que deveria ter ido mesmo contra a vontade do moreno. Sabia que aquilo seria difícil de suportar e estando só, seria pior ainda.

— Eu não aguento mais isso! Vou pra lá agora mesmo. – E assim, Renji dirigiu sua moto até o local, perguntando ao porteiro sobre o moreno.

— Ele entrou, mas ainda não saiu. Deve ter ido à outro apartamento, porque a senhorita Hisana veio procura-lo agora pouco também.

— Hisana? Então ele falou mesmo com ela? Onde ela está? – Disse agarrando o funcionário pela roupa sem se dar conta de estar fazendo aquilo e muito menos de estar gritando.

— E-Eu não sei! Eu não sei de nada!

— Estou aqui, Abarai. – Disse a voz feminina atrás do ruivo, que imediatamente soltou o porteiro, virando-se para a morena.

— ... Maldita. — Vociferou o ruivo, a olhando com ódio. A baixinha, embora com medo daquele olhar, não titubeou em sua pose, cruzando os braços.

— Também quero saber onde ele está. Byakuya veio até meu apartamento e antes que pudesse falar qualquer coisa, ele foi embora. Corri até o outro elevador e logo cliquei no térreo, vindo direto pra cá. Não demorei muito pra chegar, mas ele... Jamais voltou e o elevador que ele pegou está vazio. Não sei em qual andar ele parou, mas já está lá faz uma hora.

As mãos do ruivo estavam fechadas em punho, tremendo para não partir pra cima da menor. Ela falava aquilo com tanta facilidade que lhe dava raiva. Ela deveria estar ao menos um pouco preocupada, mas ao invés disso estava bancando a garota cansada de esperar o cara no primeiro encontro.

— Impressionante como em todo esse tempo você continua a mesma, Hisana.

— Nem tanto. Adquiri umas linhas de expressão aqui e alí. – Disse com um sorriso debochado ao maior.

— ... Maldita. – Repetia o xingamento, dando as costas pra menina e pegando o celular do bolso, discou o número que conhecia de cabeça.

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Byakuya estava melhor e dormia na cama de casal de Stark enquanto que esse lavava os copos usados recentemente. Foi quando ouviu um toque de celular desconhecido ecoar pela casa e andando a passos largos, atendeu ao celular que estava na mesa de cabeceira.

— Alô.

— ... Hã? – Demorando pra assimilar aquela voz diferente do dono do celular, olhou pro display e conferiu ter ligado pra Kuchiki Byakuya, mas aquela voz era de... – Stark?

— Renji? – Respondeu o moreno tranquilamente, voltando pra cozinha.

— O que você está fazendo com o celular do... Pera... Ele ta no teu apartamento?

— Sim.

— Como ele está? Alias, deixa pra lá. Eu já tou indo aí.

— Não é necessário. Ele está dormindo. Quando ele acordar eu digo que você ligou.

— Como é que é? – Renji iria replicar, mas ao ouvir as palavras seguintes do moreno, resolveu se calar.

— Se você o ama como acho que ama, deixe-o descansar. Hoje foi um dia difícil pra ele.

— ... Ok. Depois eu ligo. Tchau.

— Tchau.

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— Stark? Ele mora aqui? Porteiro, diga onde é o apartamento desse Stark que eu vou pra lá agora mesmo. Ele não pode simplesmente sair dessa sem me dar explicação nenhuma.

— Quer dizer que você se finge de morta por anos, volta pra essa cidade do nada com o seu ex chefe e ele quem tem de te dar explicações? Quem você acha que é, Hisana?

— Porteiro, se você falar qual o andar ou o numero do apartamento de Stark pra essa mulher, eu lhe juro como perderá esse emprego ainda hoje! Stark é um advogado e eu mesmo o contratarei para lhe processar, entendeu?

— Calma, calma, eu não disse nada! – Respondeu aflito o senhor de idade, que se retirou para a guarita com medo de sobrar pra ele.

— Tsc você é impossível, Abarai.

— E você, uma vadia. Agora volte pra teu amante, ele deve estar esperando por seu corpo franzino para satisfazer as vontades dele.

— Grosso. – Respondeu num muxoxo, indo ao apartamento com raiva.

Ao ver a garota ir embora, Renji suspirou, pondo a mão nos cabelos, voltando também pra casa.

“Então ele não conseguiu nem falar. Eu devia mesmo ter ido com ele.”

Continua...

Notas finais
OMG Stark tem uma filha? q tenso -q Atualizada 30/07/13