Notas iniciais
Espero que gostem.

Algum dia algum autor falou que cada um de nós tem um milagre. Bem, milagres existem, eu sou um milagre, você é um milagre, todos no caralho duro do mundo são milagres. Mas ninguém te diz que você vai ter demônios. Esse alguém esqueceu de te contar que sua adolescência vai ser um grande saco de desespero, você vai ter uma mente completamente fodida e um coração completamente quebrado.

Você pode achar que eu sou um tanto quanto dramático, mas a vida é assim e não adianta dizer que não é. E eu não estou dizendo que a vida é como naqueles filmes que tem a garota feia que na verdade é linda então chega uma vaca de saia curta e salto alto (quem usa salto alto na porra de uma escola?), a vaca de saia curta faz várias maldades pra estranhona, que na verdade é uma atriz incrivelmente linda que provavelmente seria a vaca de salto alto, aí o fim do filme chega e elas se tornam BFF’s.

Pro caralho com essa de final feliz. Final feliz pra que? Eu não entendo porque todo mundo esbanja os sentimentos bons e escondem os sentimentos ruins. Se você se dá a liberdade de demonstrar a sua felicidade se dê a liberdade para demonstrar a sua tristeza.

Esse é um texto um tanto quando motivacional, principalmente para mim que sou todo fodido das ideias. Mas vamos fazer o que? Coisas da vida. Acontece. Relaxa.

A nossa história, ou melhor, a história que aconteceu antes de eu estar deitado na minha cama refletindo sobre como a minha vida é uma grande e mole bunda peluda, começou alguns meses atrás.

***

— Alec. – Minha mãe, Sandra, uma mulher com muita personalidade e pouco tamanho, gritou do andar de baixo. – Você vai se atrasar no seu primeiro dia de aula!

— Quem liga? – Perguntei descendo as escadas. – Existem outros alunos lá, por que eles iam prestar atenção justo em mim?

— Alec, sem drama, seu irmão está te esperando. – Ela falou me dando um beijo no rosto.

Minha mãe era basicamente um chihuahua. Ela tinha por volta de 1,57, sua pele era queimada de sol e o cabelo pintado de vermelho, seu sorriso era agradável e o seu senso de humor era ótimo. Se você está imaginando uma mulher adorável e doce, esqueça. A pequena Sandra não tinha medo de uma boa discussão, não sabia disfarçar o fato de não gostar de alguém e muito menos agradar todo mundo.

Querendo ou não eu acabei herdando um pouco dessa personalidade.

— Você se enrola muito sabia? – Peter, o meu detestável irmão dois anos mais velho estava no banco da frente do carro que ele havia ganho de aniversário. – Eu não quero chegar atrasado no primeiro dia de faculdade.

— Mano, olha lá no céu. – Falei apontando.

— O que?

— O Super Foda-se. – Sorri. – Então, o que você vai cursar mesmo? Engenharia da veadagem?

Peter ergueu a sobrancelha esquerda. Eu adorava quando ele fazia aquilo porque era como se nós fossemos gêmeos com algum tempo de diferença. Ambos tinham o mesmo cabelo cor de palha e olhos castanhos, mas meus olhos ironicamente pareciam ser dez vezes mais simpáticos e inocentes do que os dele. Tirando o fato de que ele tinha puxado o meu pai, então era alguns muitos centímetros maior do que eu.

— Posso ligar o rádio? – Perguntei impaciente.

— Você tomou os seus remédios?

— Não, eles me deixam lerdo.

Quando eu tinha uns oito anos fui diagnosticado com TDAH, então eu sempre estava pilhado e nunca prestava atenção em nada. Eu podia me distrair com qualquer coisa, inclusive os meus batimentos cardíacos.

— Tem uma cartela no porta-luvas. – Meu irmão estacionou o carro na frente da escola. – Tome os remédios e não foda tudo dessa vez.

— Eu sei o que eu faço. – Abri a porta. – Tchau.

— Se cuida.

Lógico que eu ia me cuidar, eu sempre me cuidava, eu só não me cuidava do jeito certo. Impressionantemente eu consegui ser expulso de quatro escolas nos quatro últimos anos. Eu sempre me esforçava bastante para que isso acontecesse, eu sempre detestava os professores, eu sempre detestava os alunos, na verdade eu sempre detestava tudo. Eu já odiava as coisas antes de virar moda.

— Você é Alec Shallow? – Uma mulher gorducha e baixa me perguntou.

— Sim. – Apertei a mão dela. – Quem seria você?

— Marta Morth, assistente do Sr. DiLorenzo...

Espera. Marta Morta? Alec segura o riso. Segura o riso. Finge que o riso é a mão de deus e segura nele, agarra com todas as forças. Ok, conseguiu segurar, agora foco.

Quando eu voltei para a minha realidade, Marta Morta me observava atenta.

— Perdão?

— Você podia me seguir? – Ela perguntou confusa.

— Antes eu tinha que falar com Timmy. – Fiz uma pausa. – Sr. DiLorezo.

Timothy DiLorenzo era só o melhor amigo dos meus pais. Se eu não fosse a cara do meu pai eu teria minhas dúvidas de que eu não saí das bolas dele. Timmy e meus pais eram muito amigos quando eu era menor, por algum motivo eles acabaram se separando com o passar dos anos. Um adultério? Talvez.

Marta Morta me guiou pelos corredores empesteado de alunos, a maioria andava em pequenos grupos e ria de maneira escandalosa. Eu mal esperava para conhecer o grupinho de pessoas que eu me encaixaria. Não, só não.

— O Senhor DiLorenzo está te esperando. – Marta me avisou assim que chegamos à diretoria.

— Ok.

Abri a porta e me deparei com o rosto que eu não via há muito tempo. Timmy tinha a pele escura e os cabelos cortados em estilo militar. Devia medir uns dois metros e ter mais músculos em um braço do que eu tinha no meu lindo corpinho inteiro.

— Volte e bata na porta. – Ele disse sem olhar para mim.

Revirei os olhos.

— Não revire os olhos, volte e bata na porta.

Revirei os olhos mais uma vez antes de sair de vez da sala. Fechei a porta e bati duas vezes antes de ouvir ele mandar eu entrar.

— Olá Timmy, quanto tempo, não é mesmo? – Forcei um sorriso.

— Para você é Senhor DiLorenzo. – Ele disse sério. – Sim, faz muito tempo. Alec, eu sei que você é um garoto difícil, seus pais me pediram ajuda e eu estou ajudando eles, eu duvido muito que com o seu histórico de faltas e ocorrências alguma outra escola te aceitasse tão rápido. De alguma maneira suas notas são excelentes, se elas continuarem assim tenho certeza de que você se formará com mérito na Demanch Academy.

— Ok. – Dei de ombros. – Agora eu tenho que ir para minha sala de aula.

— Alec? – Ele me chamou quando eu já estava saindo. – Falando como amigo da família, com quem você ficou depois da separação dos seus pais?

— Com a casa.

Saí da sala do diretor, acenei com a cabeça para Marta Morta e fui procurar a minha sala de aula. De todas as escolas que eu estudei nos últimos anos, a Demanch era de longe a mais organizada. Os números das salas eram baseados nos andares, depois corredores e por fim a posição das salas. A minha sala era 431, então eu teria que até o quarto andar. Sabe a vida? Não tá fácil.

Eu acabei me enrolando tanto para subir as escadas que quando eu cheguei na sala a professora já havia começado a dar aula. Bati na porta aberta duas vezes até ela se dar conta da minha ilustre presença.

— Você é o Alec?

— Isso mesmo.

— Sente-se ao lado do Ben. – Ela falou voltando para o lado.

— Eu acabei de chegar, não tem como eu saber quem é o Ben. – Falei baixinho.

— Eu sou o Ben. – Um garoto disse no fundo da sala.

Segui até a carteira que eu dividiria com Ben pelo resto do ano.

— Eu sou Benjamin Locley. – Ele apertou a minha mão.

— Alec Shallow.

Benjamin Locley com toda certeza era o amor da minha vida daquela segunda-feira. Ele tinha os cabelos loiros bem mais escuros que os meus, era um pouco mais alto e tinha a cara de indiferença mais sexy já vista pelos meus olhos. Ele usava uma bermuda surrada e a camisa branca do uniforme, mas mesmo assim elas ficavam parecendo as roupas mais lidas do universo.

Não ia ser nessa aula que eu ia prestar atenção. E provavelmente não prestaria atenção em nenhuma delas.