Acordei com o sol entrando pelo vão da janela. Já é de manhã? Não acredito que dormi tanto assim... Pensei, me surpreendendo também com a vista do quarto, até eu me lembrar onde estava e porquê. Nesse instante, me lembrei da mensagem que meu pai enviou no dia anterior. Será que ele me mandou uma resposta? Comecei a vasculhar o quarto em busca da minha bolsa e, por fim, a encontrei em cima da escrivaninha.

Então, peguei meu celular e desbloqueei a tela. Não havia nada. Nenhuma mensagem sequer. Talvez ele não tenha tido tempo de responder. Pensei, tentando me convencer. Caminhei até a janela e a abri, deixando a luz do sol entrar e preencher o quarto. Bem melhor assim. Depois, fui para o corredor, e comecei a reparar em tudo: as paredes de cor palha; o piso de porcelanato claro; os outros quartos, limpos e bem arrumados. De repente, Henri apareceu no alto da escada e, assim que me viu, disse:

— Ah. Você acordou. Bom dia.

Tentei responder, mas a voz não saiu. Droga. Sem voz ainda. Então, Henri perguntou surpreso:

— Você ainda está sem voz?

Fiz cara de infelicidade e concordei com a cabeça.

— Calma. Uma hora sua voz volta. Enquanto isso, que tal irmos tomar café da manhã? Aposto que está com fome.

Fiz que sim e comecei a acompanhá-lo escada abaixo. Então, ele me levou até a sala de jantar. Nela havia uma grande mesa de madeira escura, daquelas antigas, bem no centro, rodeada por seis cadeiras de encosto alto. E lá, já estavam sentados Alfred e Abigail, só nos esperando, com a mesa posta para cinco pessoas. Espera. Cinco pessoas? Mas, nós estamos em quatro. Nesse momento, surgiu um homem da cozinha, de estatura mediana, pele clara e cabelos pretos, carregando uma travessa de bolo. Então, ele se virou para mim, sorrindo atrás do bigode de cheff italiano, e me disse:

Buongiorno, signorina.

— Giovanni, não se esqueça que você não está na Itália. Então, não são todos que vão entender. – Abigail o lembrou.

— Ora, Abigail. Não seja estraga prazeres. Ou eu não farei o almoço especial que eu prometi. – Ele disse em resposta, fazendo cara de orgulho ferido.

— Está bem. Você venceu.

Então, o cozinheiro sorriu triunfante, colocando o bolo sobre a mesa e sentando-se. Em seguida, todos começaram a se servir de limonada e bolo. Inclusive eu. Tudo estava tão bom. Tive até que repetir. E quando o fiz, Giovanni sorriu satisfeito, como se pensasse: “Missão cumprida”. Enquanto isso, o restante conversou sobre o que fariam nas férias. Mas, não prestei muita atenção no que diziam. Estava mais preocupada com a falta de notícias do meu pai, depois daquela mensagem estranha.

Por fim, assim que todos terminaram, nós nos levantamos e fomos cada um para um canto. Exceto eu e Henri, pois ele me chamou para ver seu quarto. Então, logo que subi a escada e entrei, surpreendi-me com a organização. A cama ao fundo, no canto esquerdo, estava impecavelmente arrumada com lençóis azuis escuros. A escrivaninha com computador, ao lado esquerdo da porta também. Só o guarda roupa que não dava para ver porque estava fechado. Meu Deus. Ele existe? Nunca vi alguém tão organizado. De repente, Henri perguntou:

— O que foi? Você parece surpresa. Pensou que estaria bagunçado em algum lugar, não pensou?

Fiquei sem graça e fiz que sim. Então ele riu e disse:

— Tudo bem. Não precisa ficar assim. Ele realmente estava um pouco bagunçado, mas eu o organizei enquanto você dormia.

Fiz cara de surpresa, aliviada por ele não ter achado ruim eu ter pensado aquilo. Depois, voltei a olhar cada canto do quarto, reparando no mural de fotos, nas medalhas, entre outras coisas, até me deparar com uma flauta doce, de cor creme, em cima da escrivaninha. Então, eu a peguei e mostrei para ele, lançando-lhe um olhar questionador. Ele sorriu e anunciou:

— Eu toco. Quer ouvir?

Fiz que sim e estendi-lhe a flauta. Ele a pegou e começou a tocar Aquarela, de Toquinho. Henri me impressionou, tocando com perfeição cada nota, sem errar uma vez sequer. Era como se tocasse a música há mais de um ano. Quem diria. Por essa eu não esperava. Será que ele toca mais alguma coisa na flauta? Pensei, ansiosa para perguntar. De repente, Abigail apareceu na porta e nos interrompeu, dizendo:

— Com licença. Laura, achei que gostaria de tomar um banho, então eu preparei a banheira para você. – Ela anunciou, satisfeita ao ver minha cara de surpresa e alegria. – E não precisa agradecer.

— Vai lá. Depois eu toco mais, se você quiser. – Henri disse, ao se virar para mim.

Sorri e fiz que sim. Depois, segui Abigail pelo corredor, animada, até chegarmos ao banheiro da suíte. Então, ela só me mostrou onde estavam cada uma das coisas e voltou a descer. Fechei a porta e tirei as roupas, colocando-as num canto e entrei na banheira. A água estava morna e cheia de espuma. É tão bom... O efeito de relaxamento foi quase instantâneo. Se antes eu estava com o corpo meio dolorido, por causa da tensão, naquele momento estava relaxando. Cada músculo enrijecido estava amolecendo.

Queria ter uma dessa. Assim eu poderia tomar banho na banheira sempre. Recostei-me e desci até que a água ficasse em meu pescoço. Fechei os olhos e diminui o ritmo da respiração. Não sei por quanto tempo fiquei assim. Por isso, quando me senti completamente relaxada e revigorada, comecei a tomar banho num ritmo um pouco mais acelerado que o normal. Depois, quando terminei, espremi o cabelo e comecei a me secar com a toalha que estava separada, indo para o quarto.

Para minha surpresa, Abigail tinha até colocado minha bolsa lá, em cima da cama, como se soubesse que eu iria precisar. Sentei-me na cama e peguei a bolsa, fuçando no que tinha dentro, até que encontrei o que estava procurando: um sutiã e duas calcinhas limpas. Que bom que eu não fiz aquele “limpa” na bolsa. Pensei aliviada, vestindo as roupas intimas. Depois, continuei fuçando na bolsa, vendo se eu não encontrava alguma roupa. Nesse momento, Abigail bateu na porta e fez um vão.

— Com licença, Laura. – Ela disse, entrando assim que concordei. — Bom... Como você não tem nenhuma roupa além daquela, vou te emprestar algo de quando a mãe do Henri tinha a sua idade. – Ela começou a abrir o guarda roupa. — Vamos ver o que tem aqui. Alguma dessas roupas deve servir em você. E se der certo, fique à vontade para pegar qualquer roupa que quiser.

A quantidade de roupas impecavelmente conservadas e organizadas me deixou impressionada. Fora o bom gosto da mãe dele. Pelo menos, quando tinha a minha idade. Passados alguns minutos, notei que ela ainda não tinha encontrado o que procurava. Então, Abigail, lembrando-se de onde estava o que ela procurava, abriu outra das portas do guarda-roupa e tirou de lá um lindo vestido, cor de rosa, de meias mangas e que ia até o joelho. Então, ela olhou para mim e perguntou:

— O que acha deste aqui? Gostou?

Aquiesci com a cabeça e sorri. Era um dos vestidos mais bonitos que eu já vira. Simples e bonito. Do jeito que eu gosto. Pensei, pegando-o das mãos dela e colocando em frente ao corpo, para me olhar no espelho. Ela apenas sorriu e disse para eu experimentar. O que fiz na mesma hora. Não acredito. Serviu como uma luva. Como é possível? Surpreendi-me com o resultado. Abigail fez sinal para que eu desse uma voltinha, para ela ver melhor. Fiz o que ela pediu e recebi aplausos. Então, fiz uma reverência em agradecimento. De repente, Abigail disse:

— Sabe... Nossa família vive aqui há tanto tempo quanto você possa imaginar. A minha parte da família viveu no Brasil desde a época da colonização. Mas, a mudança para cá foi só durante o reinado de D. Pedro II. Já a parte da família do Alfred começou a morar aqui na época em que uma empresa inglesa, sob a supervisão de um engenheiro chamado Zózimo Barroso, começou a fazer obras para modernizar a navegação, a mando do Imperador D. Pedro II. E de todos nós, só o Giovanni é que quis se aventurar em outro país.

Não contive a cara de surpresa. Caramba. Não achei que vocês morassem aqui há tanto tempo. Nem que gostassem tanto assim daqui. Pensei, enquanto Abigail sorriu satisfeita. Parecia que o que ela queria mesmo era me impressionar. E o conseguiu com louvor. Depois, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela já pegou a toalha e a pendurou no banheiro, voltando rapidamente. Então, ela me olhou de cima a baixo uma última vez, como se visse algo que só ela enxergava. E, por fim, me disse:

— Vou lá na cozinha, falar com o Giovanni. Enquanto isso, pode ir lá. Eles já estão te esperando.

Fiz que sim com a cabeça. Então, assim que Abigail saiu do quarto, olhei-me uma última vez no espelho. Ajeitei o cabelo e as sobrancelhas e coloquei as sapatilhas. Pare com isso, Laura. Você está ótima. Disse a mim mesma, mentalmente, tentando me convencer. Então, sai do quarto e levei minha bolsa de volta para o quarto de hóspedes. Depois, comecei a descer. Parei no final da escada, sentindo um ligeiro frio na barriga. Mas, tentei ignorar. Vamos lá. Então, respirei profundamente e adentrei a sala de jantar. Assim que Henri me viu, ficou de queixo caído, mas disfarçou isso sorrindo e dizendo:

— Você está linda.

Sorri, embora estivesse sem jeito. Eu não estava acostumada com elogios. Me aproximei da mesa e puxei a cadeira para me sentar. Então, assim que Abigail e Giovanni se juntaram a nós, começamos a aproveitar o almoço delicioso: a casquinha de siri especial do cozinheiro da casa. Ele realmente tem o dom para cozinhar. Conclui enquanto saboreava a comida. Depois, quando todos terminaram, foi cada um para um canto. Então, eu me dei ao luxo de explorar a casa. De repente, escutei uma música tocando mais para a frente da casa, próximo da sala de estar. Resolvi segui-la, até que cheguei a uma porta quase fechada de tudo.

Quando a abri, fiquei encantada com o que vi. Era uma sala de música linda. O piso era de um porcelanato de cor creme. E as paredes eram de um branco perolado. Ao fundo, no canto direito, tinha um piano preto laqueado. E no lado oposto, uma cômoda de madeira escura, com fotos e um relógio em forma de um toca-discos antigo, em cima. Curiosa, me aproximei mais, sem saber para onde olhar. De repente, a música parou e recomeçou. Assim que olhei para o lado, percebi que foi Henri que apertou replay no rádio, ao lado do sofá. Por essa eu não esperava. Ele sorriu, enquanto vinha em minha direção. Um sorriso encantador e sugestivo. Então, ele me perguntou:

— Quer dançar?

Sorri e fiz que sim com a cabeça. Não consigo acreditar. Ele gosta de valsa. Quem diria. Então, ele colocou uma mão em minha cintura e segurou minha mão com a outra. Ao som dos acordes de Pour Elise, começamos a valsar. Embora o ritmo fosse acelerado não era tão difícil de acompanhar. Até Henri começar com os rodopios. O que dificultou as coisas. Mesmo que não muito. Giramos por toda a sala, como folhas voando ao vento. Ou pelo menos, era o que parecia para mim, já que Henri me subia e descia de tempos em tempos, em rotações perfeitas. Ele me fez sentir leve como nunca. E mais encantada a cada passo.

Por fim, a música terminou. E, junto com ela, paramos numa pose digna de dançarinos profissionais. Só quando voltamos ao normal é que notei que perdi o fôlego. Nossa. Nunca pensei que dançar com alguém pudesse me deixar assim. Então, Henri me olhou e riu, de repente, sem dizer nada. Seu sorriso era encantador e divertido. Por que ele está rindo? Qual é a graça? Eu me perguntei mentalmente, enquanto olhava para ele sem entender. Henri notou e se aquietou. E, ainda sorridente, disse:

— Ficou tonta?

Fiz que não com a cabeça e olhei-o indignada. Eu não estou tonta. Então, ele disse:

— Não parece.

Desviei o olhar e cruzei os braços. Henri se virou para onde eu estava olhando e disse:

— Ei. Não fica brava, não. Eu estou só brincando, sua chata. – Ele riu um pouco.

Chata? Eu? Agora você vai ver. Pensei, encarando-o com um olhar desafiador. Ele deu um passo para trás e disse:

— Não sei o que você está pensando, mas não faça.

Sorri maliciosamente e parti para cima dele, num ataque de cócegas. Quem é a chata agora? Tive vontade de dizer, enquanto ele ria alto e tentava se livrar de mim. Tentou até me fazer cócegas também. Mas eu não senti nada. Então, Henri disse contrariado:

— Assim não vale.

Sorri e fiz que sim, divertindo-me com a cara que ele fez. Então ele me provocou:

— Você é uma chata.

Fiz que não e voltei a olhá-lo. Ele me contradisse:

— É sim.

Cruzei os braços, embora não conseguisse parar de sorrir. Então, Henri disse:

— Mas também é uma ótima dançarina.

Movimentei a boca como se dissesse um obrigado. E ele respondeu:

— Eu é que agradeço. Você me ajudou muito a ensaiar.

Ensaiar? Ensaiar para quê? Curiosa, fiz um sinal de interrogação com as mãos. Entendendo o que eu quis dizer, Henri respondeu:

— É que uma amiga dos meus tios vai casar e ela queria que os convidados dançassem essa valsa. Diferente, não é?

Concordei com a cabeça.

— Então, você pode me ajudar mais um pouco a ensaiar? É só para garantir que eu não vou errar no dia.

Sorri e fiz que sim, deixando-o feliz e animado. Então, ele foi até o rádio e colocou a música de novo, além de programá-lo para repetir. E novamente ele me pegou pela mão e pela cintura e me conduziu por toda a sala. Com isso, comecei a perder a noção do tempo e também a conta de quantas vezes nós já tínhamos repetido cada passo. E eu não estava mais ficando tonta. Nenhum pouquinho sequer. Mas, ao contrário, estava com uma vontade crescente de dançar mais e mais.

Passado não sei quanto tempo depois, Abigail apareceu na porta, pegando-nos de surpresa, chamando para o lanche. Então, nós paramos e fomos lanchar. Mas, assim que terminamos, voltamos para a sala e repassamos passo por passo não sei quantas vezes mais. Tudo o que sabia era que eu nunca tinha dançado tanto na vida; que ele era um pé de valsa e tanto para quem disse não ter prática alguma; e que nós dançamos durante muito tempo, pois o céu já tinha escurecido.

E novamente, Abigail nos chamou para comermos todos juntos. E, assim como das outras vezes, a comida estava deliciosa e todos terminaram praticamente ao mesmo tempo. Por fim, todos disseram boa noite um ao outro e foram para seus quartos. Respondi a todos com acenos de mão e fui para o meu quarto também, fechando a porta. Então, vi uma camisola em cima da cama e a vesti. Ela deslizou suavemente pelo meu corpo, servindo perfeitamente. Que confortável. Caminhei até o espelho e me olhei. Nossa. Além de bonita, parece que foi feita sob medida para mim. De repente, escutei uns latidos vindo da janela. E depois, escutei Henri rir e dizer:

— Calma, Spike. Calma.

Então, me aproximei da janela. Ela era voltada para o quintal com jardim. Henri estava lá, brincando com seu cachorro. Era uma cena bonita de se ver. Pelo menos para mim. Me encantou o jeito como os dois interagiam. Spike mal parava quieto. Ele pulava em cima de Henri, abanando o rabo muito rápido e de língua de fora. Tanto fez, que ele perdeu o equilíbrio e caiu. Nesse momento é que Spike aprontou mesmo. Subiu nele e lambeu seu rosto sem parar.

Não aguentei e ri. Mas, minha risada foi muda. Então, quando Henri olhou para mim, eu nem soube como foi que ele descobriu onde eu estava. E para me deixar ainda mais sem saber o que fazer, veio aquele sorriso encantador e um aceno de mão. Sorri e acenei de volta, fechando a janela. Não acredito que ele me viu. Caminhei até a cama. Queria que isso não tivesse acontecido para eu continuar vendo-o brincar com o Spike. Mas, fazer o quê. Nem tudo é do jeito que queremos.

De repente, assim que me sentei, afundei no colchão, não conseguindo mais pensar em nada além do quanto ele era confortável. Meu Deus. Esse é o colchão mais macio do mundo. Até parece um daqueles colchões da NASA. Mas, isso não durou muito. Assim que olhei em direção a minha bolsa, pensei de novo na mensagem. E novamente peguei o celular de dentro dela e o olhei. Uma nova mensagem. Graças a Deus. Pensei, desbloqueando o celular e colocando-a para ouvir:

— Oi, filha. Estou bem. E espero que você também esteja. Não volte para casa ainda. Não é seguro. Não posso te dizer onde estou. E não me diga onde você está. Quanto menos soubermos um do outro melhor. É que... Não sei se você se lembra, mas quando você era pequena, eu trabalhava como policial. E eu acho que três dos bandidos que eu estava caçando naquela época, e não consegui prender, estão atrás de mim para se vingarem. Então, tome cuidado. Te amo.

Três bandidos? Será que são aquela maldita mulher e seus capangas, de novo? Que droga. Bom... Pelo menos meu pai está bem. É isso que importa. Pensei, deitando-me e colocando o celular no chão. Esparramei-me pela cama, girei de um lado, girei do outro. Até que finalmente senti o sono vir e me aninhei de vez, em meio aos lençóis, adormecendo em pouco tempo.

Novamente, acordei com o sol iluminando todo o quarto. Com uma claridade dessa, quem precisa de despertador? Pensei, espreguiçando-me e levantando-me. Olhei meu celular, só por garantia, mas não tinha nada lá. Então, lembrando-me do que Abigail disse no dia anterior, fui até o quarto que era da mãe de Henri e abri o armário, procurando um vestido. E eram tantas opções que fiquei indecisa. Mas, por fim, peguei um verde claro, de alças largas e que ia quase até o joelho. Depois, vesti-me e desci a escada. Henri e Alfred estavam vindo da sala de estar no mesmo instante e, assim que me viram, disseram juntos:

— Bom dia.

Tentei responder, mas não tive sucesso. Então, apenas acenei a mão em resposta.

— Que bom que já está pronta. Depois do café da manhã iremos a um lugar que você vai adorar. – Henri anunciou, surpreendendo-me.

Sorri e os acompanhei até a sala de jantar, para comermos. A ansiedade e a curiosidade já se apoderando de mim. Aonde será que ele vai me levar? Fiquei me perguntando enquanto comia. Depois, quando terminamos e ele finalmente decidiu que era hora de sair, eu o segui toda animada porta a fora. Mas, Henri me vendou e me girou, como se fôssemos brincar de cobra cega, desorientando-me e fazendo-me andar às cegas sob sua orientação. Para quê tudo isso? Fiquei me perguntando enquanto isso. E como se lesse minha mente, ele me disse:

— Só estou fazendo isso para ser surpresa. Senão, não tem graça.

Sorri e balancei a cabeça levemente para os lados, não acreditando no que estava acontecendo. Henri, você não existe. Pensei, segurando sua mão e acompanhando-o onde quer que me levasse. Na maior parte do caminho, ele pediu que eu tirasse os sapatos e me fez andar à beira do mar, com a água batendo em minha canela. Por mais estranho que fosse, eu estava adorando. Afinal, ninguém nunca tinha feito isso comigo. E aproveitei não só por isso, mas também por ser a oportunidade perfeita para andar de mãos dadas com ele. De repente, Henri me fez parar e perguntou:

— Você faz alguma ideia de onde estamos?

Neguei com a cabeça. A única coisa que sei é que passamos por umas três praias. Agora, quais foram eu não faço ideia. Pensei, enquanto ele soltava minha mão e dizia:

— Pode tirar a venda.

Assim que a tirei, surpreendi-me. Não acredito. Estamos no Farol das Conchas. Ou quase. Falta subir a enorme escadaria. Olhei para ele e sorri. Você escolheu bem o lugar para me levar. Mesmo que eu já tenha vindo aqui. E como se Henri lesse minha mente, ele disse:

— Eu sei que você já deve ter vindo aqui pelo menos uma vez. Mas, ainda assim, achei que fosse gostar. E também, porque aposto que você nunca entrou no Farol.

Então, eu o encarei, arqueando as sobrancelhas e cruzando os braços. Eu duvido que você consiga. Henri riu e disse:

— Você vai ver. Vou te surpreender.

Você já está me surpreendendo. Pensei, seguindo-o escada a cima, pelos intermináveis degraus de pedra, irregulares, que subiam o morro. E para mim, eles pareceram menores e mais fáceis de subir do que da vez que fui com meu pai. Eu nem me lembrava quantos anos eu tinha. Só sabia que batia em sua cintura e que me cansei logo. Então meu pai teve que me carregar por boa parte da subida. Meu pai. Como será que ele está? Será que ele ainda está bem? Ah, Laura. Vê se relaxa. Seu pai já foi até da polícia. Pensei, tentando me convencer. De repente, Henri me tirou de meus pensamentos:

— Falta muito...? – Ele perguntou, ofegante.

Virei-me de frente para ele e fiz que não. Depois apontei para ele e, em seguida para mim, fazendo cara de quem está morrendo.

— Claro que estou! São mais ou menos 150 degraus para subir! E eu falei de virmos aqui porque achei que não ia cansar tanto. – Ele espanou, sem saber se ria ou chorava diante do meu senso de humor fora de hora.

Sorri ainda mais, caçoando de seu desânimo e ele me lançou a melhor cara de dó que já vi. Ok. Com essa cara, não tem como não ficar com dó. Depois, fiz sinal para ele vir. Ele piorou a cara. Então, fiz sinal de quem está rezando, como quem diz “por favor, eu imploro”. Por fim, ele cedeu e continuou a subir a escada comigo. Viva. Consegui. Então, finalmente, chegamos. O Farol projetava-se alto e imponente diante de nós, a poucos passos de distância.

Mas, mesmo que eu já estivesse tomada pela ansiedade, eu o acompanhei pacientemente até a porta. Assim que a abrimos, demos de cara com a escada em caracol. Henri olhou para mim com desânimo de novo. Sorri e passei na frente dele, começando a subir os degraus. Relutante, ele me seguiu. Mas, tentou não fazer tanto corpo mole. Subimos devagar, embora eu tivesse vontade de ir rápido. Afinal, eu não queria deixá-lo para trás.

Passamos por algumas janelas até que, finalmente, chegamos ao topo: uma sala redonda, com paredes de vidro e uma enorme lanterna arredondada no centro. E a vista era de tirar o fôlego. Era possível ver toda a ilha e seus arredores. O verde das árvores se destacava em meio a imensidão de azul. E o horizonte não passava de uma linha dividindo o céu e o mar, na qual o sol começava a se por calmamente. Então, o céu passou a ganhar diferentes tons de amarelo e laranja. É tão lindo quanto imaginei. Pensei, diante desse espetáculo.

Mas, minutos depois, notei que tinha alguma coisa estranha. As árvores começaram a tombar para os lados. Está ventando lá fora? Eu me perguntei. De repente, como em resposta, a porta lá embaixo bateu com força, num grande baque que ecoou por todo o farol. Henri e eu nos olhamos e percebi que compartilhávamos o mesmo pensamento. Será que a porta lá de baixo emperrou com a batida? Então, descemos a escada apressados. Henri se adiantou e tentou abri-la sem sucesso. Então, ele se virou de novo para mim e disse desanimado:

— Parece que vamos ficar presos aqui por um tempo.

Fiz cara de tédio. Mesmo que eu não estivesse achando tão ruim assim.

— E pensar que eu te trouxe aqui para você se animar. Mas, no fim das contas, vou te matar de tédio...

Sorri e neguei com a cabeça. “Não consigo ficar entediada com você” eu diria, se já estivesse com minha voz de novo.

— Mesmo?

Sorri ainda mais e fiz que sim.

— Ufa. Então eu não sou um completo desastre com passeios, afinal. – Ele disse rindo.

Então, começamos a subir a escada novamente. Vê-lo feliz desse jeito foi inédito. Era a primeira vez que ele estava se soltando por completo, sem timidez. Quase parecia que tínhamos acabado de voltar a época de infância, quando nós só pensávamos em brincar por horas e horas, sem parar. Que saudade que eu tenho dessa época. Foi tão boa. Se bem que agora não está nada mal também. Pensei, enquanto o admirava do fim da escada.

E quando percebi que íamos cair no silêncio, comecei a gesticular, tentando fazer com que ele me contasse mais sobre o dia da tempestade. Primeiro, apontei para ele. Depois movimentei a boca como se dissesse “falar”. E terminei fazendo o sinal de depois ao contrário, girando as mãos. Enquanto isso, ele tentou confirmar se estava adivinhando certo:

— Você. No caso, eu. Falar. Antes? Acho que entendi. Você quer que eu fale de antes. Acertei?

Sorri e fiz que sim, agradecida por ele ter entendido a mímica.

— Mas, o que sobre antes? Ou melhor, antes quando? Antes de mudar para cá ou antes de você me salvar?

Fiz sinal de dois com os dedos e torci para que ele entendesse.

— Dois? Ah. A segunda opção. É isso?

Confirmei com a cabeça. Que bom que ele entendeu.

— Então, você quer saber como eu fui parar lá, no meio da tempestade? Eu também quero saber como VOCÊ foi parar lá.

Movimentei a boca como se dissesse “conto”; girei as mãos, fazendo o sinal de depois; e terminei apontando para minha garganta.

— Conto. Depois. Garganta. Hum.... Então você vai me contar depois que sua voz voltar?

Fiz que sim e esperei que ele concordasse.

— Ok. Pode ser. Mas, eu não vou esquecer, se é o que está pensando. – Ele terminou rindo.

Concordei, satisfeita.

— Bom... Era para ter sido um dia normal. Mas, acabou sendo o aniversário mais estranho de todos.

Fiz uma cara de desânimo, como quem diz “faço uma ideia”. Depois coloquei a mão no seu ombro, afagando-o, e movimentei os lábios como se dissesse “como foi? ”.

— Como foi? – Ele disse, tentando confirmar. — Ainda não consigo entender direito o que aconteceu. A gente tinha alugado um barco. E todo mundo estava vestido de pirata, corsário e afins. Não tinha como ser melhor. Até começar a tempestade. Se tivesse sido só a chuva.... Mas, começou a vir um monte de ondas para cima da gente. Uma pior que a outra. Algumas entraram no barco, derrubando todo mundo. O capitão perdeu o controle e o barco foi jogado contra um monte de rochas. E depois, bateu com toda força num rochedo. Eu fui praticamente arremessado para fora, junto com outras partes do barco. Me agarrei na primeira coisa que vi e tentei sair do meio das rochas. Depois disso, eu não me lembro de quase nada. Eu bati a cabeça. Só lembro de alguém me puxar para a praia e tentar me reanimar. Depois disso, eu acordei no hospital.

Balancei levemente a cabeça e o olhei como quem diz “ninguém merece”. Espera, ele lembra de quando eu tentei reanimá-lo. Então, ele lembra de... Meu Deus. Que vergonha. Pensei, lembrando-me da respiração boca-boca. De repente, ele voltou a falar, fazendo-me esquecer desse detalhe por um tempo:

— Sabe, ainda é difícil acreditar que você se arriscou daquele jeito para me salvar. Ainda mais com aquela tempestade.

Lancei-lhe um olhar questionador, incentivando-o a falar mais.

— Foi muita loucura. – Ele disse, agitando as mãos. – Fora que.... Você disse que demorou para me reconhecer.... Então, você estava se arriscando por um desconhecido?!

Confirmei e dei de ombros levemente. De um jeito ou de outro, eu não deixaria uma pessoa morrer daquele jeito quando eu podia ajudar. Mas estou feliz que tenha sido você.

— Não posso acreditar.... Você é mais corajosa do que pensei.

Sorri, meio envergonhada.

— E louca. – Ele completou, rindo.

Ri também. E novamente a risada saiu muda. O que me deixou chateada. Quando é que a minha voz vai voltar? Não aguento mais isso. Olhei pra baixo. Mas, Henri levantou meu queixo e disse:

— Ei. Não fica assim. Adoro quando você sorri.

Nesse momento, meu olhar encontrou o seu e o sustentou. Seus olhos pareciam me penetrar, como se eu fosse tão transparente quanto a água. Enrubesci, embora tentasse me conter. Então, ele sorriu. Não um sorriso qualquer. Mas, aquele sedutor que faz o coração de qualquer garota disparar. Passou a mão suavemente por meu rosto, tirando minha franja de cima do olho e ajeitando-a atrás da orelha. E depois descendo a mão até o meu pescoço, olhando bem nos meus olhos. Agora, já era tarde. Ou seria, se ele não tivesse visto, através do vidro, pessoas se aproximando. O que acabou com todo e qualquer clima que tivéssemos. Então ele me soltou e disse:

— É melhor nós sairmos logo daqui.

Eu mal concordei e ele já começou a descer a escadaria. Aff. Aquelas pessoas tinham mesmo que subir bem agora?! Pensei, desanimada, enquanto o seguia escada abaixo. Descemos toda a escadaria rapidamente e forçamos a porta. Ela abriu e nós saímos, fechando-a e fingindo que nada tinha acontecido. Então, resolvemos que era melhor voltar para a casa dele. E, durante todo esse tempo, um tenso e incessante silêncio pairou sobre nós. Ele não disse uma só palavra. Apenas me olhou vez ou outra. Como se tentasse tomar coragem para dizer alguma coisa, mas não conseguisse. E eu não pude fazer nada por ainda estar sem voz.

De repente, escutei passos não muito longe de nós. Olhei discretamente para trás e notei dois caras morenos, fortes e altos andando na mesma direção que nós, nos encarando disfarçadamente com olhar sério. Voltei a olhar para frente, tentando manter a calma. Será que estão nos seguindo? Espero que não. Mas, mesmo que eu não tivesse certeza, peguei na mão de Henri, chamando sua atenção e fiz sinal para ele olhar para trás. Ele olhou com cuidado e depois voltou a me olhar, e disse:

— Parece que eles estão nos seguindo. Mas, vamos continuar andando normalmente, só que um pouco mais rápido. Se continuarem atrás de nós, eu dou um jeito de despistá-los. Ok?

Fiz que sim e continuei andando. Mas, fiquei tensa. A ideia de estar sendo seguida me incomodava. E muito. Ainda mais porque não havia motivo nenhum para aqueles caras bombados estarem atrás de nós. E quanto mais eu pensava nisso, menos sentido fazia. Estava como nas cenas dos filmes, quando os mocinhos são perseguidos na cidade. A diferença é que estávamos numa ilha pacata e que era na vida real. E para piorar, não tinha ninguém por perto. Estava tudo quieto e deserto. Só a brisa marinha que produzia um farfalhar nas folhas.

Olhei para trás de novo e notei que eles também aceleraram um pouco o passo. Droga. Eles realmente estão nos seguindo. Apertei um pouco a mão de Henri e acelerei mais o passo. Atrás de nós, os grandalhões também aceleraram. Então, corremos compulsivamente, cortando caminho por entre as árvores, saindo da trilha. Droga, droga, droga. Por que com a gente? Pensei, começando a me desesperar com a situação. Cadê a polícia numa hora dessas? Estão ocupados demais fingindo que estão vigiando a Estação Ecológica?

Continuamos correndo em ziguezague, desviando de árvores e pedras, e olhando volta e meia para trás, vendo se aqueles caras ainda nos seguiam. E durante muito tempo, eles ficaram no nosso encalço, seguindo-nos com uma precisão impressionante. Era como se nos farejassem. Mas, na última vez que olhamos, eles tinham desaparecido. Será que despistamos aqueles caras? Ou eles desistiram? De qualquer forma, é melhor nós voltarmos logo. Pensei, olhando para Henri e fazendo sinal para irmos. Ele concordou e me acompanhou.

Seguimos mais um tempo em meio ao mato até chegarmos a Vila de Encantadas. De lá, fomos em disparada para casa de Henri, entrando logo e fechando a porta. Ufa. Enfim chegamos. Pensei, sentindo um enorme alívio de não precisar mais correr e me esconder. E, logo percebemos que todos estavam ocupados demais para sequer nos ouvir: Giovanni cozinhando, Abigail lavando louça e Alfred dando banho no Spike. Então, Henri me chamou para subir e ir até o quarto dele. Eu concordei e o segui.

E logo que entramos no quarto, comecei a reparar com mais atenção em cada detalhe, até parar e olhar o mural de fotos. Nele, vi várias fotos de Henri quando era pequeno. Fotos dele brincando na praia, empinando pipa, soprando as velas do bolo de aniversário, entre outras. Mas, dentre elas, uma me chamou mais a atenção. Nela, Henri devia ter uns oito anos, e estava abraçando uma moça loira de olhos azuis e pele clara, e um homem moreno de cabelos pretos. Curiosa, olhei pra Henri, fazendo sinal para ele se aproximar, e depois apontei para a foto. Então, ele se aproximou, olhou para a imagem e disse:

— Estes são os meus pais. Foi quando eu tinha oito anos e fomos a um restaurante em Pontal do Sul. – Ele confirmou minha suspeita, com uma voz de desânimo.

Logo que notei isso, coloquei uma mão em seu ombro e movimentei a boca como se dissesse “O que foi?”. Ele entendeu e respondeu:

— Nada. Não foi nada.

Lancei-lhe um olhar questionador e cruzei os braços, não acreditando nele. Então, Henri cedeu e disse:

— É que... Eu não queria que eles fossem tão distantes assim. Entende? Estão sempre viajando para tudo quanto é lugar e quase nunca vem me ver. Se é que lembram que eu estou aqui. É como se não fizessem questão de me ter por perto. – Ele parou, olhando para o lado, depois para mim de novo. – Desculpe. Eu não devia estar desabafando assim com você.

Amenizei minha expressão e balancei a cabeça levemente para os lados, como quem diz que não tem problema. Então, me deixei levar pelo momento e o abracei, surpreendendo-o. De início, ele ficou imóvel, mas, segundos depois, Henri me abraçou também, como se admitisse que precisava disso. Então, ele disse:

— Obrigado.

Ficamos mais um tempo abraçados, até que eu o soltei e voltei a olhá-lo. Ele me olhou também e, por fim, perguntou:

— Você é sempre assim com todo mundo?

Neguei com a cabeça e sorri. Só com quem eu gosto. Eu diria se estivesse com voz e com coragem. Mas, só movimentei a boca como se perguntasse por que.

— Por quê? – Ele confirmou. – Só por curiosidade.

Lancei-lhe um olhar questionador, incentivando-o a falar mais. Mas, ele apenas sorriu, enquanto me olhava. Distraidamente, ajeitou minha franja atrás da orelha, tão suavemente quanto antes, no farol. E, mesmo quando terminou, sua mão continuou ali, enquanto ele começava a aproximar seu rosto do meu. Fiquei com receio de fazê-lo perder a coragem e se afastar. Ou qualquer coisa do tipo. Mas, mesmo assim, comecei a aproximar meu rosto do dele também. Até que, de repente, escutamos Abigail gritar de maneira quase cantada, lá de baixo:

— O jantar está na mesa.

— É melhor nós irmos. Antes que ela venha atrás de nós. – Henri disse em seguida, se afastando e saindo do quarto.

Droga. Tinha que ser bem agora? Faltava tão pouco. Pensei, seguindo-o a contragosto. Então, lavamos as mãos e fomos jantar, junto com os outros. E como a comida estava boa. Giovanni realmente é um senhor cozinheiro. Pensei, admirada. E, ao contrário do que eu imaginava, o jantar foi mais silencioso que o almoço. Ninguém ficou falando e falando sem parar. Mesmo depois, todos só disseram boa noite um ao outro e foram deitar. E, quando eu estava indo para o quarto, Henri se aproximou de repente, me deu um beijo na bochecha e disse:

— Boa noite.

Depois, ele foi até o quarto dele, olhou para mim uma última vez e fechou a porta. Fiquei paralisada por alguns instantes, até a ficha cair. Eu não estava acreditando. Mesmo que tenha sido só um beijo na bochecha, fiquei feliz. Afinal, já era um começo. E eu mal podia esperar pela manhã seguinte. Será que amanhã vai rolar...? Espero que sim. Eu pensava, enquanto colocava a camisola e arrumava tudo para dormir. Até que, por fim, apaguei a luz e deitei. O dia de amanhã promete. Foi a última coisa que pensei antes de dormir.

Notas finais
Comente. Ficarei feliz em ler sua opinião. Beijos, Luna Ashfield.