Maré Imprevisível
6 Correntezas do tempo
Acordei meio zonza. O vento tinha aberto a janela e a luz do sol entrava com tudo. Parecia estar um pouco mais tarde do que de costume. Mas, não me dei ao trabalho de olhar no relógio. Estava animada demais para isso. As cenas da tarde anterior não saíam da minha cabeça. Nós quase nos beijamos ontem... Ele sente algo por mim. Tenho certeza. E cedo ou tarde ele vai dizer alguma coisa. Talvez ainda hoje!
De tão ansiosa, eu nem troquei de roupa. Só me olhei no espelho, para garantir que eu não estava tão mal assim e para ajeitar o cabelo. Pensei um pouco melhor e resolvi ir ao banheiro, escovar os dentes. Fiz tão rápido que nem soube se tinha sido bom o suficiente. Mas, não me importei. Passei rápido pelo corredor e desci a escada em disparada. Aposto que ele deve estar na sala de estar.
Mas, assim que cheguei à porta da sala, dei meia volta rapidamente, ficando contra a parede. Não é possível. Não pode ser possível. Em silêncio, espiei. Ele estava conversando com Alfred. Mas, isso seria completamente normal, se não tivesse uma garota agarrando tanto o braço dele, que chegava a amassar e comprimir a manga de sua camisa verde. Quem é ela?! E o que ela está fazendo aqui, agarrando ele assim?!
Ela devia ter a mesma idade que eu. Só que era um pouco mais alta. Sua pele era menos clara que a minha. Seu cabelo era castanho médio, longo e ondulado. Era tão magra quanto eu, embora tivesse seios maiores. O que ela deixava em evidência com um vestido curto azul marinho, de cintura justa e de alcinha. Eu não podia negar que ela era bonita. Mas, não suportei a ideia de ela ser tão próxima dele quanto parecia.
Não aguentei e subi a escada correndo. Não acredito. Tem que ter uma explicação para isso. Será uma irmã? Não. Ele é filho único. Uma prima? Não. Ele disse que não tinha primos. Uma amiga? Talvez. Mas o jeito que ela o estava agarrando... Pensei, transtornada com o que tinha visto. Quando cheguei no quarto, cogitei a possibilidade de me jogar em cima da cama e fingir que ainda não tinha acordado ou qualquer coisa do tipo.
A simples ideia de ter que falar com aquela garota estava me dando desânimo. Eu definitivamente não queria falar com ela. Mas, depois, quem se passaria por mal educada seria eu. Então, desisti da ideia de ficar no quarto e comecei a me arrumar para descer e tomar café da manhã. Me olhei no espelho por, pelo menos cinco minutos, analisando-me da cabeça aos pés. O que ela tem que eu não tenho? Comecei a me perguntar mentalmente, indignada. De repente, Abigail apareceu na porta e, ao me ver de pé, disse:
— Bom dia.
Fiz um oi para ela e forcei um meio sorriso, para ser simpática. Então, ela disse:
— Venha. Só falta você para tomar café da manhã.
Arqueei as sobrancelhas, demonstrando minha surpresa. Eu dormi tanto assim? Mas, ela pareceu não notar, virando-se de costas para mim e saindo do quarto. Eu a segui, não tendo outra alternativa. Nós descemos e fomos direto para a sala de jantar. E dessa vez, só havia um prato na mesa. Sentei-me com desânimo e comecei a beber o suco e comer o pedaço de bolo.
Mas, parecia que faltava alguma coisa. Algo que em todas as outras vezes os deixou especiais. Além da companhia de todo mundo, conversando animadamente. Parece que hoje não é o meu dia. Conclui, terminando e levando meu prato e meu copo até a pia da cozinha. Na volta, subi a escada e, a caminho do “meu quarto”, me deparei com Henri logo a minha frente, surpreso. Então ele disse:
— Achei que você ainda estava dormindo... Não me diga que já foi tomar café.
Fiz que sim, sem o menor ânimo. Então, Henri me olhou sem graça e disse:
— Desculpa. Era para eu ter ido lá, te fazer companhia.
Olhei-o como que diz “Sério? Eu duvido”. Você estava ocupado demais com aquela garota te agarrando. Pensei, com raiva. Em seguida, ele disse:
— Por favor, não fica assim.
Continuei encarando-o do mesmo jeito. Tem como não ficar?! Depois de todas as indiretas para cima de mim todos esses dias, você fica daquele jeito com outra menina?! Sério?! Pensei, esperando que ele talvez percebesse o que fez. Então, acabando com minha esperança, Henri disse:
— É que hoje é o dia do casamento. Vai ficar chato. E para piorar ainda teremos que acompanhar a Francine também.
Revirei os olhos descrente e sai andando. Desviei dele e fui para o quarto, fechando a porta atrás de mim. Que ótimo. Ele nem percebeu. Joguei-me sobre a cama e olhei para o teto. Não dá para acreditar. De repente, ouvi meu celular vibrar. Sentei-me e peguei-o do criado mudo, desbloqueando a tela e olhando a mensagem. Mas, era só a operadora me lembrando que meus créditos estavam acabando. Maravilha. Só não pergunto se dá para piorar porque é capaz de acontecer. De repente, Abigail bateu de leve na porta, fazendo um vão e dizendo:
— Com licença, Laura. Posso entrar?
Fiz que sim e ela entrou, fechando a porta atrás de si. Depois, ela continuou:
— Bom... Não sei se Henri te contou, mas eu liguei para a noiva, para perguntar se você poderia ir. Ela disse que tudo bem. Então, vou te ajudar a se arrumar. O que acha? Tem uns vestidos lindos de festa que você vai adorar. E talvez tenha algum sapato que te sirva. – Abigail anunciou, indo em direção ao armário para vasculhá-lo. – Ah. Vai ser às cinco horas da tarde. Não esqueça que nós temos que sair pelo menos meia hora antes.
Forcei um meio sorriso, tentando me mostrar agradecida. Mas, não consegui demonstrar nenhuma animação. Eu não estava com a mínima vontade de ir. Não depois de saber que a tal da Francine também iria. E que ela com certeza ficaria agarrando Henri tanto quanto estava na sala. Mas, Abigail parecia tão animada para me ajudar e para que eu fosse, que resolvi me esforçar. Não queria que ela ficasse chateada.
Então, experimentei todos os vestidos que ela quis. Todos curtos. Variando somente os decotes (U, V e tomara que caia), as cores, e se tinha alças ou mangas (curtas ou compridas). Experimentei alguns sapatos também. Ficamos praticamente duas horas só nisso. Até que finalmente um par de saltos baixos prateados me serviu e concordamos com um mesmo vestido: azul, de decote U e alças médias.
Por fim, quando terminamos, Abigail saiu do quarto, novamente fechando a porta. Fiquei lá mais um tempo, olhando o vestido e o sapato. Para que vou me arrumar assim? Eu nem quero ir nesse casamento... Pensei desanimada. Depois, olhei de novo para o celular. Peguei-o e mandei uma mensagem para o meu pai, perguntando como ele estava e quando poderíamos voltar para casa. Mesmo que eu tivesse quase certeza de que ele não responderia tão cedo.
Por fim, fiquei escutando música até que Alfred bateu na porta para me chamar para o almoço. Então, eu o segui até a sala de jantar, sentando-me do lado oposto ao que Henri estava. Ele me olhou confuso, como se não entendesse o porquê de eu estar agindo daquele jeito. Mas, nem dei atenção. Só almocei logo, coloquei o prato e o copo na pia, e voltei a subir, olhando-o apenas uma vez, chateada. Por fim, voltei para o quarto e fiquei ouvindo música.
Não soube ao certo quanto tempo fiquei deitada na cama. Mas, quando percebi que só faltavam duas horas para o casamento, fui tomar banho e me arrumar. Demorei 20 minutos no banho, tentando relaxar e me preparar para aguentar aquela patricinha. Depois, sequei o cabelo com o secador e coloquei o vestido e os sapatos. Olhei-me no espelho enquanto penteava o cabelo e buscava algum ânimo para ficar tão produzida quanto o evento pedia.
Resolvi deixar o cabelo solto, mas passar um pouco de maquiagem. No caso, passar blush de leve e uma sombra e um batom bem claros. Ajeitei as sobrancelhas e a franja. Dei uma volta. Parece que estou pronta. Respirei fundo e saí do quarto, procurando Abigail. Encontrei-a no quarto dela e de Alfred. Ambos estavam se arrumando. Ela estava com o cabelo preso num coque, com um bonito enfeite, e usava um vestido médio vinho, com decote V e meias mangas. Já ele, usava um elegante traje a rigor, com uma gravata vinho e o cabelo penteado para trás com gel. Assim como Giovanni, com a diferença de que seu cabelo formava um topete lateral e sua gravata era vermelha. Logo que me viram, disseram:
— Você ficou linda. – Abigail disse.
— Realmente. Está muito bonita. – Alfred concordou.
— Sabia que era esse o vestido ideal. – Ela disse, orgulhando-se de seu bom gosto.
De repente, Henri apareceu na porta do quarto, dizendo que estava pronto. Tentei me conter e não ficar olhando para ele. Mas, não consegui. Henri estava muito bonito. Um pouco mais do que de costume. Vestia calça e sapatos sociais. O cabelo estava arrepiado para cima com gel. E usava uma camisa azul que combinava perfeitamente com seus olhos e com meu vestido. Quando ele me viu, ficou quieto de repente, como se estivesse surpreso. Olhou-me de cima a baixo como quem admira uma daquelas estátuas gregas, dizendo:
— Nossa... Como você está bonita...
— Obrigada. – Disse, tão distraída com ele que nem me dei conta.
— Olha só! Sua voz voltou! – Henri comemorou, sorrindo para mim.
— Teremos que comemorar ainda mais. – Alfred comentou.
— Teremos mesmo. – Abigail concordou.
— Nossa. Olha a hora. Acho melhor sairmos logo ou vamos nos atrasar. – Alfred disse, olhando seu relógio de pulso.
Então, saímos logo e começamos a caminhar. Só que fomos por um caminho diferente, pois para minha infelicidade, ainda tínhamos que buscar a Francine. Quando chegamos à casa dela, ela já estava a nossa espera. O rosto estava cheio de maquiagem. Os cabelos castanhos desciam em cachos modelados perfeitos sobre os ombros, adornados apenas por uma tiara de brilhantes que combinava perfeitamente com seus saltos altos. E o vestido perolado curto, com um exagerado decote V, estava mais justo do que deveria.
Ela cumprimentou todo mundo sorrindo e falando com aquela voz de entojada. Até que notou minha presença. Francine me analisou de cima a baixo com desprezo disfarçado. Nesse momento, percebi que a inimizade era recíproca. Principalmente quando ela colou em Henri, fazendo aquela jogada de cabelo acompanhada da cara de “Eu sou superior”. Meu Deus. Dê-me paciência para suportá-la. Porque se der forças, vou matá-la. Pedi mentalmente, enquanto tentava conter o impulso de voar em seu pescoço naquele momento.
E esse clima se seguiu por todo o resto do caminho e até da cerimônia. Por causa dela nos sentamos na seguinte ordem: ela, Henri, eu, Abigail, Alfred e Giovanni. Isso porque Henri insistiu que me queria do lado dele. Porque se dependesse dela, eu estaria, no mínimo, ao lado de Giovanni. E Francine ainda fez questão de ficar agarrada a Henri o tempo todo, deixando-me morta de ciúmes. De modo que mal prestei atenção no quão bonita estava aquela noiva loira e esbelta, andando ansiosamente até o elegante marido, moreno, magro e alto. Ou mesmo na troca de votos e alianças... Enfim, eu mal prestei atenção em nada.
Mesmo quando fomos para a festa, eu não consegui tirar o foco deles. As fotos dos noivos eram exibidas no telão, acompanhadas por uma bonita música de fundo. Mas, eu as ignorava. Querendo ou não, meus olhos se voltavam para os dois. E Francine não o largava por nada, agindo como se fosse namorada dele. E Henri não a detinha, apesar de parecer enfezado com ela. Tudo o que ele fazia era respirar fundo, vez ou outra, como que tentando se acalmar. Se ele não a quer por perto, porque não faz com que ela se afaste? Questionei mentalmente. Até que, de repente, Francine disse que precisava ir ao banheiro e que voltava logo. Então, assim que ela saiu, Henri se aproximou de mim e puxou assunto:
— Gostando da festa?
— Mais ou menos.
— Eu também.
— Não parece...
— Sério. Se eu pudesse, eu faria a Francine ficar longe.
— E porque você não pode?
— Porque fiquei com pena dela e, infelizmente, prometi que eu iria acompanhá-la na festa, já que ela e o namorado terminaram há pouquíssimo tempo.
— Hum... – É tudo o que consegui dizer, desejando não continuar com aquele assunto.
— O que foi?
— Nada. Só vou pegar algo para beber. – Disse, começando a ir na direção da mesa de comidas.
— Ok.
Então, peguei um copo descartável e me servi com um pouco de guaraná, bebendo tudo e jogando-o no lixo ao lado. De repente, quando estava voltando para falar com Henri, vi que Francine tinha voltado e estava colocando as mãos nos ombros dele e se aproximando abusadamente. Eu sabia onde isso ia dar. Mas, eu não queria ver. Me virei e sai andando, enquanto tentava desviar das pessoas. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. E tudo o que aconteceu até agora? Não foi nada? Pensei, já frustrada e com raiva. Não achei que ele era esse tipo de garoto... Então, percebi que tinha alguém me seguindo. Quando me virei, vi Henri a poucos passos de mim, pedindo:
— Laura, espera. Por favor.
— Por que eu deveria?
— Porque não é o que está pensando.
— Como não? Ela estava agarrada em você e....
— Me deixa explicar.
Não respondi. Ou eu diria algo de que me arrependeria. Então, Henri começou a explicar:
— A Francine estava tentando de tudo para que eu a acompanhasse nesse casamento. Só para não ficar sozinha enquanto todas as outras garotas estavam acompanhadas de seus namorados. E faz pouco tempo que o namorado largou dela. Então, eu concordei em acompanhá-la. – Seu olhar era o mais sincero possível. – Só depois que eu percebi que a verdadeira intenção dela era deixá-lo com ciúmes. E era só para isso que ela estava me usando. Só para fazer cena para ele.
Não respondi. Eu é que fiquei com ciúmes. Pensei, aquiescendo com a cabeça e continuando a olhá-lo. Ele suavizou um pouco mais o semblante e disse:
— Acredite. Eu não gosto nada dela. Eu gosto e muito de você. – Ele admitiu, corando um pouquinho.
Aquelas palavras foram como música para meus ouvidos. Sou correspondida! A alegria me preencheu em segundos e transformou-se num sorriso. Eu fiquei sem saber o que dizer. Não esperava por uma confissão dessas. Fiquei até sem saber para onde olhar. Por mais que eu quisesse que ele falasse exatamente isso, eu não soube como reagir. Por sorte, ele quebrou o gelo, dizendo:
— Desculpa se pareceu outra coisa. Eu não queria que...
— Tudo bem. – Eu o interrompi.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Posso tentar te compensar, dançado com você?
— Vai precisar fazer mais do que isso. – Provoquei.
— Eu sei. Mas, já é um começo.
— Realmente.
Eu mal tive tempo para me posicionar. Henri pegou minha mão e me girou, puxando-me para junto dele e colocando a outra mão firmemente em minha cintura. Então, o mestre de cerimônias anunciou que era hora da valsa e começou a tocar Pour Elise. A música nos embalou e conduziu, deixando-nos em perfeita harmonia com ela. Num ritmo não tão rápido, nós rodopiávamos pela pista de dança, deslizando suave e intensamente. Nossos movimentos eram perfeitamente sincronizados, como se tivéssemos ensaiado cada passo durante meses, em vez de um dia.
Em meio aos rodopios, ele me ergueu pela cintura, me girou, e me desceu suavemente, como se eu fosse leve feito pluma. Depois, Henri voltou a colocar a mão em minha cintura, deixando-me o mais perto possível, e voltou a me conduzir pelo salão. E mais rodopios se seguiram: para longe e para perto; em torno de mim mesma; do chão para o ar, e para o chão de novo. Estava maravilhoso. Mas, faltava pouco para que eu ficasse tonta e perdesse o fôlego. Por sorte, a música já estava no fim.
Então, nos acordes finais, Henri me girou, me inclinou, e me girou novamente, deixando-me o mais perto que podia. E de repente, me beijou, envolvendo-me ainda mais em seus braços. Foi tão súbito e inesperado. Mas, ao mesmo tempo, tão suave e intenso. Retribui o beijo, deixando-me levar pelo momento, que por mais longo que tenha parecido, durou pouco. Aos poucos, ele parou, soltando-me e distanciando levemente seu rosto, para me olhar bem nos olhos.
Retribui seu olhar, notando o quanto Henri estava surpreso. Eu também estava tão surpresa quanto ele. Primeiro pela confissão e depois pelo beijo. Parece que essa é a noite das surpresas. Pensei, sorrindo para ele enquanto entrelaçava nossas mãos. Ele sorriu de volta, num misto de alívio e alegria. Acho que nem ele imaginava que teria coragem para fazer tudo isso. Constatei, vendo-o me encarar sem palavras, tão bobo quanto eu. Será que tem como ficar melhor? Eu já me perguntava.
Mas, mudei de ideia logo depois, vendo Francine marchar de nariz empinado em nossa direção, como se estivesse desfilando. Mesmo estando longe, ela nos fuzilava com gosto. Metidinha nojenta. Pensei, sentindo vontade colocá-la no lugar dela. Mas, continuei parada, percebendo que não valeria a pena. Olhei para Henri e vi que ele a encarava como quem diz “Você vai continuar insistindo mesmo?”. Então, ele soltou minhas mãos e colocou o braço sobre meus ombros, deixando-me colada nele. Francine se aproximou decidida e ameaçou:
— Você vai ver, Henri. Isso não vai ficar assim.
— Não vai mesmo. Porque, ou você para de dar chilique por eu não ter servido de estepe, do jeito que você estava forçando, ou eu te humilho na frente de todas essas pessoas. Você que escolhe, Francine.
— Você não teria coragem.
— Você sabe, tão bem quanto eu, que sim. Então, fica na sua e me esquece. Ok?
Francine fez cara de descrente e depois de raiva, revirando os olhos e saindo em seguida, ainda desfilando de nariz em pé. E, por mais que eu não fosse vingativa, senti um sorriso se formar em meu rosto, enquanto eu a via sair derrotada. Afinal, ela teve o que merecia. Além do mais, eu ainda tinha muito que aproveitar. O que fiz o máximo que pude, dançando com Henri. Tanto que foi uma pena termos saído antes da festa acabar. Mas, tínhamos que ter um pouco de consideração com Abigail, Alfred e Giovanni. Pois eles já estavam muito cansados.
Mas, quando chegamos em casa, eu e Henri não fomos dormir. Enquanto todos se recolhiam para suas camas, nós ficamos no quarto dele, conversando. Falamos da festa, do quanto a Francine foi um incômodo, de quanto eu me senti boba por achar que ele estava a fim dela, entre outras coisas. E rimos baixinho de tudo o que aconteceu no dia. Por fim, depois de termos ficado quase duas horas conversando, decidimos que já era hora de dormir. Ou melhor, passado da hora. Mas, antes que eu fosse para o “meu quarto”, Henri me pegou pelo pulso e me puxou levemente, me beijando antes de eu sair.
Enquanto ia para o quarto, me trocar, senti como se fosse transbordar de alegria. Mas, isso passou de repente, assim que vi meu celular. Peguei o aparelho, sem saber o que me esperava. Mas, quando desbloqueei a tela, não havia nada. Nenhuma mensagem sequer. Parte de mim, queria desesperadamente acreditar que meu pai estava tão bem quanto eu. Mas, a outra parte de mim, ficava pensando em mil e uma coisas ruins que podiam estar acontecendo a ele. E, para completar, a lembrança do dia em que minha mãe morreu voltou com tudo, deixando-me ainda pior. Então, tentei ignorá-la, enquanto apagava a luz e deitava, conseguindo dormir mais tarde do que eu queria.
Diferente dos outros dias, acordei com Henri me dando um beijo na bochecha e dizendo bom dia, baixinho, perto do meu ouvido. Respondi no mesmo tom, não contendo o sorriso. Depois, eu o vi sair do quarto sorrindo, dizendo que me esperaria lá embaixo. Então, eu levantei e fechei a porta, indo direto para o armário. Peguei um vestido azul, curto e justo, de meias mangas, com decote em U. E como todos os outros, ele serviu como uma luva, deixando em evidência meu busto e minha fina cintura. Coloquei minhas sapatilhas brancas e penteei o cabelo. Por fim, abri a porta e sai do quarto, descendo as escadas e indo de encontro a Henri.
Ele estava me esperando na sala de jantar, junto com todo mundo. Assim que me aproximei da mesa, ele puxou a cadeira para mim, tentando me agradar como um daqueles mocinhos de filme antigo. Não segurei uma leve risada, achando aquilo fofo. Depois, todos começaram a comer e a conversar animadamente. E, dessa vez, o café da manhã era torta de limão e limonada. Tem que ser o Giovanni. Pensei, deliciando-me com a comida. Por fim, quando todos acabaram e colocaram seus pratos e copos na pia, eu e Henri fomos para a sala de música.
Lá, ele abriu uma das portas da cômoda, pegou uma partitura, e fechou-a, Depois, se sentou em frente ao piano, abrindo sua tampa e colocando a partitura no lugar. Então, ele começou a tocar: Greensleeves, Theme of Tears, River Flows in You, Back to Life, entre outras. Todas em versão simplificada de notas. Mas que, ainda assim, eram de impressionar. Fiquei de queixo caído diante do talento que ele demonstrava. Por fim, tomada de surpresa, exclamei:
— Uau! Como você toca bem!
— Obrigado.
— Como e onde foi que você aprendeu a tocar assim?
— Bom... Quando eu era mais novo, meus pais queriam que eu fosse uma criança culta, daquelas de elite que tem que ser boa em tudo, sabe? Então, eles me colocaram para estudar em escolas fortes e em escolas de música.
— Nossa. Eles são tão exigentes assim?
— Não. Eles ERAM exigentes assim. Mas, como não conseguiram o resultado desejado, desistiram.
— Hum... – Foi tudo o que consegui responder, não sabendo como mudar de assunto.
— Fazer o quê. Pelo menos, eu tenho sorte de ter a Abigail, o Alfred e o Giovanni.
— Realmente.
— E agora, também tenho você.
— Own, seu fofo. – Digo, abraçando-o por trás, mas soltando-o logo depois.
— E o seu pai? Conseguiu falar com ele?
— A última notícia que tive dele foi de antes de ontem. E ele ainda está com problemas. Parece que são as mesmas pessoas de um antigo caso dele, que não foram pegas.
— Antigo caso dele?
— É. Ele era policial...
— Espero que ele esteja bem.
— Também espero...
Então, Henri se virou de frente para mim, levantando, e me abraçou. Depois, ele me olhou e sorriu. Nesse momento, Abigail apareceu na porta, pedindo licença e perguntando se nós não poderíamos ir buscar os resultados dos exames. Sem ter muita alternativa, concordamos. Então, fomos com tranquilidade, até o hospital, pelos trechos de praia, segurando os sapatos e caminhando descalços sobre a orla do mar. Por fim, colocamos os sapatos e entramos. Fomos direto para o balcão, na direção da moça asiática daquele dia. Então, Henri tomou a dianteira, entregando os documentos e dizendo:
— Boa tarde. Viemos buscar os resultados dos exames.
— Ah, sim. É Henri, não é?
— Sim.
— Ok, Henri. É só aguardar um instante.
— Obrigado.
Então, a secretária girou a cadeira de frente para o armário, ficando de costas para nós, e começou a abrir uma por uma das gavetas abarrotadas de pastas, com folhas e mais folhas. Parece que isso vai demorar. Pensei, virando-me para Henri. Ele me olhou também e sorriu, começando a aproximar seu rosto do meu. Mas, quando nós estávamos prestes a aproveitar o momento, a Dra. Ágata apareceu, nos interrompendo. Aff. Ela não podia ter esperado um pouco? Então, a contragosto, sorrimos e a cumprimentamos:
— Oi, Dra. Ágata.
— Olá, queridos. Vieram buscar os resultados dos exames, não é?
— Sim. Mas, a secretária já vai...
— Podem deixar que eu mesma pego para vocês. – Ela me interrompeu. – Até ela descobrir onde eles realmente estão e pegá-los vai demorar muito.
— Ok.
— Venham. Eu os pego rapidinho.
— Está bem.
De repente, o celular de Henri tocou. Ele o tirou de dentro do bolso da calça e olhou o número. Em seguida, se voltou para mim e disse:
— É o Alfred. Tenho que atender. Se importa de...
— Não. Tudo bem. Eu pego para você.
— Obrigado.
Então, ele se virou e atendeu o celular. Mas, como o falatório dos médicos estava atrapalhando, ele começou a se distanciar, procurando um lugar mais silencioso. Então, virei-me para Ágata e comecei a segui-la. O corredor onde estávamos era deserto, ao contrário dos outros. Não havia ninguém além de nós. O que eu estranhei muito. Mas, tentei ignorar o fato. Eu devo estar ficando neurótica.
Em poucos instantes, chegamos a sala dela. Então, assim que entrei, escutei a porta se fechando atrás de mim, e Ágata deu uma risada de vilã. Senti um calafrio percorrer todo meu corpo. Havia algo errado. E essa certeza parecia tão sólida quanto as paredes daquela sala. De repente, ela me agarrou por trás, imobilizando meus braços, e começou a me levar para perto de um armário. Debati-me, tentando me libertar e gritei a plenos pulmões:
— Henri! Socorro...!
A bruxa tapou minha boca, tentando me impedir. Debati-me ainda mais e mordi sua mão. Assim que ela a tirou, gritei novamente:
— Henri!
Então, dessa vez, ela cobriu minha boca e meu nariz com um pano. Esse cheiro.... Essa não! Não! Isso não! Esperneei com todas as forças, mas ela não me soltava. E eu não conseguia tirar o pano do meu nariz. Mas, eu consegui ouvir Henri correndo em nossa direção e gritando meu nome. Ele me ouviu. Que bom. Porém, minha vista começou a escurecer e meu corpo a pesar. Não tive como fazer mais nada. A última coisa que vi foi um dos capangas dela segurar minhas pernas e o outro vir logo atrás. Depois disso, tudo escureceu e eu caí na inconsciência.
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