Maré Imprevisível
2 Mudanças de Maré
Meu nome é Laura. Nasci sob o signo de Peixes, no dia 22 de fevereiro. Segundo o que me contaram, era um dia quente, com uma chuva fraca e um mar tranquilo na Ilha do Mel. E minha mãe escolheu fazer o parto em casa, confortavelmente deitada na banheira. Foi por esses e outros motivos que meus pais, Tiago e Lorena, me apelidaram de sereiazinha. Não sei se foi ou não por causa disso, mas desde sempre amo nadar. Mas, principalmente, mergulhar.
Ainda consigo me lembrar como foi quando comecei a frequentar uma escola de natação. Ou de quando ganhei minha primeira medalha numa disputa nas raias de uma piscina. E de muitos outros momentos maravilhosos que passei com minha família. E também com amigos. Posso não ter tido muitos, mas esses poucos valiam por mil. E eu os conhecia de maneiras diversas. Desde esperando a minha vez numa fila, até numa excursão conjunta de escolas.
Uma dessa maneiras, foi fazendo um castelo de areia na minha praia favorita. Eu tinha cinco anos. Era um daqueles dias um pouco nublado e quente. E que quando se tem uma pele clara como a minha, a mãe dá um banho de protetor solar, dizendo que mesmo que ela adore suas sardinhas, ela não quer que elas aumentem. E assim que ela deixa, você sai correndo em disparada para brincar.
Foi a vez que a nossa barraca ficou mais perto do mar. Eu tinha acabado de voltar com o baldinho cheio d’água, para fazer meu castelo. Escolhi um lugar e sentei. Despejei a água do baldinho na areia e comecei a moldar a base do castelo. De repente, percebi que um menino, quase da mesma idade que eu, se aproximou de mim, mas não disse nada. Então, eu olhei para ele e disse:
— Oi.
— Oi. O que você está fazendo?
— Um castelo. Quer fazer comigo?
— Quero.
— Qual é o seu nome?
— Henri. E o seu?
— É Laura.
— Prazer.
— Você também tem um baldinho?
— Tenho. Vou lá pegar.
— Está bem.
Então, tão de repente quanto foi, ele voltou. Em uma das mãos trazia o baldinho cheio d’água. E na outra, as pazinhas e forminhas. Ele sentou do meu lado e despejou a água do baldinho na areia. Depois, assim como eu, começou a pegar a areia molhada, colocar a nossa frente, e moldar muros, torres e o que mais desejássemos. Foi isso que fez minha mãe resolver que precisava de uma foto do momento, o que ela fez uma hora depois. De tempos em tempos, nós fomos encher de novo os baldinhos ou buscar coisas para enfeitar o castelo, de gravetos a conchinhas. Até que, na última vez que voltamos para a perto do castelo, Henri disse:
— Olha o que eu achei! – Ele mostrou, animado, uma pulseira prateada com uma estrelinha. – Pega. É para você.
— Que linda! Obrigada. – Eu disse, pegando a pulseira e colocando. — Eu também achei uma coisa. Olha só.
— Uau! Um colar com dente de tubarão de verdade!
— Quer para você? – Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Sim! Claro que sim!
— Então, fica de presente. – Eu disse, entregando-lhe o colar.
— Obrigado. – Ele disse, colocando-o no pescoço.
Ficamos mais um tempo admirando nossos presentes. Podiam não passar de objetos antigos e sem valor, perdidos na praia. Mas, para mim, eram como partes de um tesouro pirata, que estava só esperando por nós. Exatamente como nas histórias que minha mãe me contava. Mas, antes que eu pudesse perguntar a Henri se ele também pensava assim, sua mãe gritou:
— Henri, vamos!
— Está bem! Já vou! – Ele disse, virando-se para mim, com desânimo, em seguida. – Tenho que ir.
— Ah.... Você não pode ficar mais um pouco? – Perguntei, não querendo que ele fosse embora.
— Não. Meus pais não deixam. – Ele lamentou.
— Ok.... Mas, você volta para me ver?
— Sim.
— Eba!
— Até mais, Laura.
— Até mais, Henri.
E ele realmente voltou mais algumas vezes. E brincou só comigo em todas elas. Fizemos castelos, pegamos conchinhas, brincamos de bola... Aproveitamos como ninguém. E nos tornamos amigos. Mesmo que nenhum tenha ido na casa do outro. E que, depois de ele ir embora da Ilha do Mel de vez, eu só tenha ficado com muitas boas lembranças, uma foto que minha mãe pediu para uma moça tirar de nós fazendo um castelo de areia com meus pais atrás, e aquela pulseira de estrela, que eu não tirava mais do pulso, mesmo sendo larga.
Enfim... Minha infância foi marcada por tantos momentos de alegria quanto as ondas que vem e vão ao redor de nossa ilha. Todo dia era uma nova aventura, como nas histórias de minha mãe. Era só deixar a imaginação comandar. Então, quando pequena, eu fui uma princesa de um reino distante; uma pirata destemida, que não temia nem a gruta mais escura se estava atrás de um tesouro; uma sereia que adorava nadar com seus amigos golfinhos; entre outros. Eu podia ser quem eu quisesse a hora que quisesse. Bastava imaginar e mergulhar de cabeça.
Mas, tudo terminou naquela noite: um mês depois de Henri ir embora. Mesmo que eu fosse muito pequena na época, me lembro de tudo como se fosse ontem. Não consigo esquecer. Por mais que eu tente... O dia tinha sido normal. Tudo estava como costumava ser: meu pai tinha voltado um pouco tarde, minha mãe tinha tocado piano para mim e para o meu pai, e tinha contado uma história para eu dormir. Mas, pela primeira vez, no meio da noite, escuto: CRASH!
Acordei com o barulho de algo caindo no chão. Eu não sabia o que era. Mas, aquilo tinha sido o suficiente para que eu não quisesse mais ficar sozinha no meu quarto. Então, eu peguei minha boneca sereia e a foto que ficavam no criado mudo, ao lado da cama, e fui para o quarto dos meus pais no mais completo silêncio. E, logo que entrei, escutei minha mãe dizendo:
— Querido, você...
— Sim. Eu também ouvi isso. – Meu pai disse, ficando sério. – Ligue para o Marcos. Diga a ele para vir aqui agora.
Minha mãe só fez que sim com a cabeça e começou a digitar no celular. Depois, enquanto esperava que ele atendesse, ela fez sinal para que eu fosse para perto dela. O que fiz no mesmo instante. Então, ela abaixou e, com a mão livre, me ajudou a subir no colo dela. Em seguida, tio Marcos atendeu o telefone:
— Alô. – Ele disse, bocejando de sono.
— Marcos, é a Lorena. Vem logo para cá. Entrou alguém aqui. – Minha mãe disse, sussurrando.
— Meu Deus do céu. Já estou a caminho. – Ele respondeu, já em alerta.
— Por favor, depressa.
Então, ela desligou o celular, me ajeitou em seu colo, e espiou pelo vão da porta. Nesse momento, começamos a escutar sons de tiros. Me agarrei ainda mais em minha mãe, sentindo tanto medo quanto já tinha sentido. Ela também me abraçou apertado e respirou fundo, tentando ficar calma. O que está acontecendo? E onde o papai foi? Eu me perguntava, mas sem dizer nada para minha mãe. Estava com tanto medo que temia que se eu dissesse qualquer coisa, alguém malvado viria pegar a gente. De repente, meu pai entrou de uma vez, dizendo:
— Vamos. Aqui não é seguro.
Então, minha mãe começou a andar atrás dele. Ambos olhando de um lado para o outro. Ouvimos passos apressados, não muito longe de onde estávamos. Meu pai apontou a arma e atirou com rapidez, apressando minha mãe. Ela acelerou o passo o máximo que pôde e passou a ir na frente do meu pai, até chegar na porta de entrada, que estava destrancada. Nesse meio tempo, chegou tio Marcos, em sua bicicleta vermelha, a toda velocidade. Ele desceu todo apressado e perguntou de longe:
— Vocês estão bem?
— Estamos. – Minha mãe respondeu, descendo-me de seu colo e, em seguida, falando comigo. – Querida, vai lá e fique com o tio Marcos. A mamãe vai ajudar o papai. Me promete que vai ser uma menina corajosa?
— Prometo.
— Te amo, filha. – Ela disse me abraçando.
Depois, assim que me soltou, ela saiu correndo para dentro de casa de novo. Enquanto isso, fiquei parada por alguns segundos, vendo-a entrar. Depois, fui até tio Marcos, como ela pediu. Ele me pegou pela mão e me levou até a bicicleta. Então, com a mão livre, ajeitou a cadeirinha. Depois, me ajudou a sentar. Assim que me sentei, coloquei a boneca e a foto numa bolsinha, ao meu lado, e voltei a olhar para a casa. De repente, meu pai saiu pela porta e veio apressado até nós. Então, eu me apoiei em tio Marcos para descer e fui de encontro a ele, dizendo:
— Papai, eu prometi para a mamãe que seria corajosa, mas estou com medo.
— Não precisa ter medo, minha querida. Cadê a mamãe?
— Lá dentro. – Eu disse, apontando para a casa.
— O papai volta logo. – Ele disse apavorado, virando-se depois para Marcos. – Cuide dela.
Marcos apenas aquiesceu e viu Tiago sair correndo, com a arma prateada em punho. Eu olhava para papai e para ele, mas não entendia o que estava acontecendo. Só sentia medo. Muito medo. E queria ficar com a mamãe e com o papai. Mas, continuei perto do tio Marcos, como minha mãe pediu. Então, só observei meu pai. A poucos passos da casa, ele gritou, desesperado:
— Lorena!
Então, o lugar foi abaixo numa enorme explosão. Tão forte que meu pai caiu para trás. As chamas surgiram rápidas, destruindo tudo em seu caminho. Pedaços da construção foram violentamente arremessados em todas as direções. Tio Marcos se colocou a minha frente, servindo de escudo para me proteger. Meu coração bateu mais forte e desenfreado e eu praticamente congelei de tanto medo. Então, durante esse tempo, o local foi consumido e reduzido a cinzas, destroços e fumaça.
Nisso, tio Marcos se levantou e olhou na direção de meu pai, assim como eu. Ele estava ajoelhado diante do que sobrou de nossa casa. De repente, ele gritou “não” e esmurrou o chão, e depois ficou de cabeça baixa. Era a primeira vez que o via assim. Mas, não fiquei assustada. E sim, resolvi ir até ele, me colocando a sua frente. Ele levantou a cabeça para me olhar.
Mas seu olhar pareceu distante enquanto ele passou a mão suavemente por meu cabelo. Foi como se acariciasse as ruivas madeixas de minha mãe, em vez das minhas. E como se olhasse os olhos verde esmeralda dela, e não os meus. Mas, isso não durou muito. Logo ele pareceu voltar a si. Então, seu olhar ficou ainda mais triste e cabisbaixo. Só que nada disso eu percebi com clareza. Para minha percepção de criança, na época, ele simplesmente não estava bem. E eu inocentemente perguntei:
— Papai, cadê a mamãe?
— Ela virou um anjo e foi para o céu.
— Por quê? Eu queria ela aqui com a gente.
— Eu também queria...
Então, meu pai me abraçou e começou a fungar. Depois, senti algumas gotas molharem minhas costas. Ele está chorando... Finalmente entendi. Abracei ele mais apertado. E, quando notei, também estava chorando. Porque finalmente percebi que eu não ia mais ver minha mãe, que ela não ia voltar. Não importava o que eu fizesse ou o quanto eu quisesse. E isso fez meu coração doer. E muito. Como se alguém o estivesse apertando com força. Mas a dor não era de tristeza, e sim, de saudade.
Nessa época, eu não entendia direito. Mas, aquele foi o último dia em que vi minha mãe olhar docemente para mim e para o papai. De vê-la se sentar em frente ao piano e tocar uma de suas músicas favoritas. De me colocar em seu colo e contar uma história. E, principalmente, de dizer o quanto ela nos amava e de como ela era capaz de tudo por nós.
Depois da morte dela, ele se tornou um homem irreconhecível. Era como se toda a sua personalidade tivesse sido reescrita. Ele deixou de ouvir música. Deixou de dançar. Deixou de admirar o pôr do sol no mar. Deixou de ver a beleza da natureza. Deixou de sorrir por qualquer coisa. Deixou de fazer tudo o que fazia com minha mãe... Sem ela, ele se fechou dentro de si mesmo. Como se nada mais valesse a pena.
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