Maré Imprevisível
3 10 anos Depois...
Depois disso, nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Meu pai pediu demissão de seu emprego anterior. E com a ajuda de amigos e colegas de trabalho, ele conseguiu comprar um chalé para nós. Ficava mais afastado da praia do que nossa casa anterior, mas o lugar era tão bom quanto: Vila do Farol. Conseguiu também móveis, roupas e outros pertences. O chalé era bem menor que nossa casa anterior, mas não deixava de ser bom.
Ele era todo de madeira escura, do piso ao teto. E tinha dois andares. No de baixo ficava a sala de estar e a sala de jantar, sem nenhuma separação, e a cozinha, separada só por uma bancada. Já no andar de cima, ficavam dois quartos, com camas de solteiro, e um banheiro. E do lado de fora, na parte de trás dele, ficava a área de serviço. Era simples, mas era do jeito que precisávamos.
Fiquei com o quarto que tinha a janela virada para a entrada do chalé. Afinal, mesmo que os dois quartos tivessem o mesmo tamanho, eu tinha gostado mais desse. Nele, todos os móveis eram de madeira escura. Mas era um tom mais clara que a madeira do chalé. Havia um armário com quatro portas; uma cama com lençóis azuis; e uma escrivaninha.
Em cima da escrivaninha, eu coloquei minha boneca sereia e a foto. Essa foi a minha decoração por um bom tempo. Mas, conforme eu fui crescendo, mais coisas passaram a decorá-lo: um mural de fotos sobre a cabeceira da cama, no qual a primeira foto foi aquela de quando eu era pequena; cortinas azuis na janela; uma pequena prateleira com as conchas que eu comecei a colecionar; entre outras.
E, já que eu tive que enfrentar toda essa mudança na minha vida, meu pai resolveu que me manteria na mesma escola, a Escola Rural Municipal Nova Brasília, pelo menos até o sexto ano. Porque a partir do sétimo ano, tive que estudar fora da Ilha, numa escola em Pontal do Sul. Afinal, as escolas aqui na ilha só vão até o quarto ano, que é o caso da Escola Rural Municipal Teodoro Valentim, em Encantadas; e até o sexto ano, que é o caso da minha escola.
Então, eu e meu pai passamos a ir para lá de manhãzinha. Nesse tempo, enquanto eu ficava na escola, ele fazia compras, tanto de comida quanto de novos materiais de natação ou surf. E, trabalhava de salva vidas. Depois, à tarde, ele trabalhava como professor de natação, dando aula para mim e para outras crianças. Isso aconteceu até o nono ano. Desde então, eu passei a voltar sozinha para a Ilha, de barco, depois do almoço.
Só nas férias é que eu ficava praticamente o tempo todo na Ilha do Mel. Então, eu aproveitava para valer. Afinal, morar num paraíso de tranquilidade e beleza natural como esse e não aproveitar seria quase um sinônimo de sacrilégio. Mas, de todas as férias que eu passei aqui na ilha, a mais imprevisível e marcante foi aos meus dezesseis anos. Mesmo que ela tenha começado como todas as outras: eu levantando tarde (por causa da farra do último dia de aula), comendo alguma coisa, passando protetor solar e correndo para a praia, para realizar o meu ritual tranquilizante: mergulhar.
Respirei fundo, enchendo os pulmões, e prendi a respiração. Dei impulso com os pés e me lancei na água. Em segundos fui envolvida por aquela imensidão de azul. Meu corpo flutuava leve, como se eu e a água fossemos uma coisa só. Meu cabelo ondulou em todas as direções, seguindo o fluxo, e ficando mais avermelhado. Comecei a nadar ainda mais para o fundo. Eu não escutava nada, a não ser pelos sons que as ondas produziam.
Porém, como de sereia eu só tinha o apelido, de tempos em tempos eu tinha que voltar a superfície para respirar. Infelizmente. Mas, isso nunca teve importância... Sempre achei incrível mergulhar. A sensação mágica de tranquilidade que me invade e preenche, a cada vez, é incrível. É um momento em que eu posso esvaziar minha mente e me esquecer do resto do mundo por alguns instantes. O único momento em que fico completamente em paz.
E para minha surpresa, vi golfinhos começando a se aproximar, dando saltos acrobáticos incríveis, como se estivessem se apresentando. Fiquei parada, só observando. Eles se aproximaram mais e começaram a fazer gracinha, como se fossem crianças disputando atenção. De repente, um deles chegou bem perto de mim e me deixou passar a mão. Depois, ele foi embora, junto com os outros. E eu voltei a mergulhar.
Passado um bom tempo, decidi que era hora de voltar, pois o sol estava quase se pondo. Sai da água e espremi meu cabelo, coloquei meus chinelos e minha saída de praia, e comecei a caminhar em direção a minha casa. Caminhei tentando não sujar tanto os pés de areia, para não aumentar o incômodo que eu estava sentindo não só neles, mas por todo o corpo. Tomara que eu não tenha me queimado. Pensei, olhando meus ombros e braços com receio. Por sorte, não havia nada. Ufa. Deve ser só areia.
E assim que entrei no chalé, eu só dei um beijo na bochecha do meu pai, enquanto passei ventando pela sala, e corri para o banheiro. Tirei as roupas molhadas e as joguei no cesto. Em seguida, entrei no box e liguei o chuveiro. Conforme a água descia por meu corpo, parecia que a minha agitação diminuía, calma e gradativamente. Era isso que faltava: um banho relaxante. Constatei, terminando meu banho de dez minutos. Depois, me enrolei na toalha e fui para o meu quarto. Então, comecei a separar a roupa que eu usaria depois. Peguei minhas roupas íntimas, uma blusa branca e uma bermudinha jeans azul. Me sequei e me troquei, saindo animada do quarto, indo em direção a cozinha.
De repente, quando eu estava passando pelo quarto do meu pai, notei que tinha alguma coisa estranha. Dei dois passos para trás e empurrei a porta entreaberta de leve, olhando com mais atenção. Em cima da cama, havia uma maleta preta bem velha e desgastada aberta, de onde saiam um monte de folhas digitadas e fotos estranhas, como se fossem aqueles arquivos de investigador das séries policiais. E, perto delas, estava a arma prateada do meu pai. Me aproximei da cama, ajoelhando-me, e peguei a arma nas mãos enquanto olhava para tudo e me perguntava:
— O que é tudo isso?
— Essa arma que você está segurando é uma HK P11. – Disse Marcos, surgindo do nada. — Pode parecer uma arma qualquer, mas ela atira até embaixo da água. Já esse arquivo, são provas de que uma criminosa não morreu, apenas forjou a própria morte e ainda está por aí.
— E o que isso tudo está fazendo aqui, no meio das coisas do meu pai?
— Sente-se. Eu vou lhe contar uma história.
— Mas, Marcos...
— Sente-se.
— Ok.
— Foram meses difíceis. Muito difíceis. Seu pai era um investigador da polícia na época. Mas o caso que foi parar nas mãos dele... Não era como qualquer outro. Era um esquema de tráfico muito grande, embora passasse quase despercebido.
— Espera. Meu pai, policial? E um esquema desses acontecendo sem a polícia perceber?
— Sim. Praticamente.
— E quem é que estava por trás disso? – Perguntei, tentando disfarçar o choque inicial.
— A responsável era uma mulher terrível. Não me lembro do nome dela. Mas me lembro daqueles olhos azuis acinzentados penetrantes. Dá arrepios só de lembrar. O pior é que ela parecia inofensiva, com exceção disso.
— Como ela era?
— Era uma mulher muito magra, loira e alta. Até parecia uma modelo. Usava sempre roupas de cor escura. Além de estar sempre de batom e unhas vermelho escarlate.
— É difícil acreditar. Uma mulher assim conseguiria vários tipos de emprego com facilidade. Então, por que se meter com as drogas?
— Eu não faço ideia. Tudo o que sei é que, assim que ela foi descoberta e seu nome começou a aparecer nos jornais, ela desapareceu. E, dias depois, eles encontraram coisas dela num local onde ela, supostamente, teria morrido.
— Como assim? Supostamente?
— Seu pai, ao contrário dos outros, continuou investigando sobre ela. Ele não acreditava que aquela mulher estivesse morta. E Tiago estava certo. Tempos depois, ele conseguiu reunir uma porção de evidências de que ela ainda estava viva. – Marcos fez uma pausa, olhando-me com grande tristeza. – O pior é que esse ganho para a polícia foi a ruína desta família.
— Marcos... O que você...?
— Se não fosse por isso, sua mãe ainda estaria viva. – Ele me interrompeu, deixando-me em choque. – Talvez você não se lembre, mas... Quando você tinha cinco anos, teve um incêndio na casa que vocês moravam.
— Eu me lembro, sim. – Eu o interrompi.
— Então... Esse incêndio foi causado por uma bomba, acionada por bandidos contratados por aquela mulher. Ela os pagou para destruir as provas, que seu pai tinha, de que ela ainda estava viva. E também, para matá-lo. Assim, ela não seria pega. Mas, eles foram descuidados e acordaram seu pai. Então, Tiago fez de tudo para que eles não se aproximassem de você e sua mãe. Tanto, que eles fugiram correndo.
Marcos parou. Ele olhou para o nada, como se em sua cabeça cada uma daquelas cenas estivesse sendo revivida. Seus olhos ficaram cheios d’água. Pensei que ele iria chorar. Mas, Marcos se deteve, respirando fundo e continuando:
— Eu morava perto e, assim que sua mãe ligou, corri para ajudar. Quando eu cheguei, sua mãe tinha acabado de sair com você de lá. Depois ela te deixou comigo e voltou para dentro para pegar algo muito importante. Tempos depois, seu pai saiu e pediu para eu cuidar de você enquanto ele ia atrás da sua mãe. Mas...
Ele parou, novamente. Passou a mão pela testa, como se estivesse enxugando o suor. Respirou fundo de novo, tentando não chorar. Eu já estava prestes a dizer a ele que ele não precisava continuar. Mas, de repente, ele tornou a falar:
— Nesse meio tempo, a bomba explodiu e a casa inteira desabou. A sua mãe acabou presa e soterrada debaixo dos escombros. – Ele me lançou um olhar ainda mais triste. – Quando o resgate chegou, já era tarde demais. Foi somente horas depois que eles a encontraram, debaixo de tudo aquilo. Mal dava para reconhecê-la, de tão carbonizado que estava o corpo.
— Meu Deus...
— Mas, ela conseguiu salvar o que voltou para pegar. Lorena estava abraçando a maleta de seu pai. E era nela que estavam as provas. Essas que estão na sua frente agora.
Eu não sabia o que dizer. Estava completamente chocada. Então.... Foi isso que aconteceu aquela noite...?! Eu não conseguia acreditar. Tudo porque meu pai sempre foi um homem dedicado não só a família, mas também ao trabalho. Por que ele tinha que ter escolhido um emprego tão perigoso desses? Por quê? Não. A culpa não foi dele ou do emprego. Foi daquela maldita mulher. Se ao menos ela recebesse o que merece... De repente, Marcos interrompeu meus pensamentos dizendo:
— Mas, infelizmente, não podemos mudar o passado. Fazer o quê. Bom... Eu já vou indo.
— Já? Ok. Eu te acompanho até a porta. – Eu disse.
E foi o que fiz. Depois, sentindo o estômago reclamar, abri a geladeira em busca de comida. E qual não foi a minha surpresa ao encontrar espetinhos de camarão, irresistivelmente expostos num prato. Peguei-os na mesma hora e coloquei para esquentar no micro-ondas. E logo que ficou pronto, eu os devorei com gosto. Hum... Isso é muito bom. Depois, fui até a pia e lavei o prato, deixando-o no escorredor, e subi. Fui ao banheiro, para escovar os dentes, e depois fui para o quarto. Olhei para o relógio na escrivaninha: oito horas em ponto. Se eu quiser levantar bem cedo amanhã, é melhor eu ir dormir logo.
Então, eu fechei a porta e me troquei, colocando minha camisola favorita. Dobrei as roupas que eu estava usando e as coloquei em cima da cadeira, para usar na manhã seguinte. Depois, puxei o lençol para baixo e fui até a porta, apagar a luz. Mas, eu ainda não estava com sono. Assim não dá. Olhei para a janela. O jeito é esperar. Pensei, saindo por ela e me sentando no telhado para olhar as estrelas. E como elas estavam bonitas. Parece que estão até mais brilhantes. Ou será só impressão minha? Me perguntei mentalmente.
De repente, me lembrei de quando eu perguntei de novo ao meu pai, onde estava minha mãe. Ele tinha me colocado em seu colo e dito: “A mamãe agora é um anjo. E os anjos tem corações tão bons, que eles brilham como estrelas, se misturando com elas no céu. E, está vendo aquela mais brilhante, logo ali? Aquela é sua mãe.” Ele tinha apontado para uma estrela e olhado para mim, com aqueles olhos azuis como o céu. Foi uma das coisas mais bonitas que ele já me disse. Pensei, ainda admirando as estrelas. Depois, entrei e fui para a cama, sentindo que o sono já estava chegando. Então, em pouco tempo, adormeci.
Acordei por volta das oito da manhã. O sol já banhava meu quarto com sua luz. Espreguicei-me preguiçosamente na cama. Mas, logo comecei a me animar. Vamos lá. Afinal, é o segundo dia de férias. Pensei, me levantando e indo até meu armário, para pegar um biquíni. Peguei o roxo e comecei a me trocar. Depois, saí do quarto e fui para o banheiro, passar protetor. E, por fim, enquanto esperava ele secar, fui tomar um caprichado café da manhã: leite, pão e frutas. Terminei razoavelmente rápido e fui escovar os dentes. De repente, quando estava voltando para a sala, escutei alguém bater na porta e me chamar:
— Laura! Laura! – Gritou Leonardo, do lado de fora.
— Oi, Leonardo. – Disse, abrindo a porta.
— Oi. Quer ir na praia comigo?
— Claro! Vamos. – Eu me virei para onde meu pai está. – Pai, vou à praia.
— Ok. Tchau.
— Tchau.
Então, eu fechei a porta e sai. Ele não tinha como aparecer em hora melhor. Pensei, admirando a paisagem enquanto caminhamos. Quase não havia nuvens no céu. E a brisa marinha estava muito agradável. Que maravilha! O tempo está perfeito para passar o dia todo na praia. De repente, Leonardo me parou e apontou para algo mais a frente, no chão. Olhei para onde ele estava apontando e vi um lagarto verde, do tamanho de um gato. Então eu disse:
— Nossa. Queria estar com uma máquina fotográfica agora.
— Também queria. – Leonardo concordou.
Mas, mesmo que eu tivesse uma agora, acho que não daria tempo de fotografá-lo. Pensei, vendo-o se assustar conosco e ir embora. Então, continuamos a caminhar, chegando na praia pouco tempo depois. Ela estava com poucas pessoas. A maioria surfistas. Fora eles, uns poucos eram famílias aqui da ilha. Ótimo. Assim dá para aproveitar mais. Pensei animada. Então, eu olhei para Leonardo e, mesmo sem dizer nada, ele me entendeu e começou a correr para a água. Fiz o mesmo, só que mais rápido que ele. E não parei até passar a quebra das ondas. Depois eu olhei para trás e o vi parado, um pouco mais longe. Então eu o chamei:
— Venha, Leonardo. Não seja medroso.
— Eu não sou medroso.
— É sim.
— Não sou. Só não quero topar com nenhum tubarão.
— Calma. Não vai acontecer nada.
— Ok.... Se você está dizendo...
Então, continuamos a nadar, embora ele estivesse quase em pânico. Eu, ao contrário, não estava exatamente com medo. Por mais que eu soubesse das habilidades dos tubarões e do quão forte e terrível era a retaliação causada por seus dentes. Será que tem alguma coisa errada comigo? Não é possível. Mas, deixei de pensar nisso e voltei a nadar. Afinal, eu estava na praia para me divertir e relaxar. Nada além disso. Então, tudo que fosse contrário a isso, eu evitaria. Mas, no minuto seguinte:
— Laura!
Olhei de relance para trás. Essa não! Pensei, no mesmo instante em que vi a barbatana dorsal de um tubarão, vindo em nossa direção. Comecei a nadar em disparada no mesmo instante, junto com Leonardo. Droga. Como é que eu faço agora?! Pensa, Laura. Pensa. Antes que vocês virem isca de tubarão! Mas, por mais que eu me esforçasse, não estava conseguindo pensar em nada. Só conseguia nadar feito uma louca desenfreada, mantendo Leonardo a minha frente. E para piorar, a praia ainda estava longe. Não muito. Mas, o suficiente para me fazer entrar em pânico.
O tubarão estava cada vez mais perto, preparando-se para me abocanhar. Mas, por muito pouco, conseguimos escapar dele, chegando a parte de quebra de ondas, onde ele não vinha. Graças a Deus. Mesmo assim, continuamos a nadar até chegar na praia. Foi a primeira vez que eu senti o maior alívio do mundo por estar em terra firme. Mas, evitei demonstrar isso. Ao contrário de Leonardo, que estava quase beijando a areia. O que me deixou com vergonha. Então, eu cutuquei o braço dele e o apressei para irmos embora.
Leonardo não gostou da ideia de ir e me olhou de cara fechada. Mas, me obedeceu assim mesmo. Afinal, eu sou quatro anos mais velha. Caminhamos um pouco rápido, de início. Mas, desaceleramos depois. Não havia porque correr. Ainda assim, chegamos em pouco tempo. E logo que abrimos a porta, pegamos meu pai na cozinha, fazendo o almoço. Pelo cheiro, deve estar delicioso. Pensei, respirando profundamente. Depois, quando ele nos notou, dissemos:
— Oi.
— Oi. E aí? O que fizeram hoje?
— Ah... Nós caminhamos na beira do mar e pulamos algumas ondas. Nada de mais... – Eu disse, fingindo que não tinha acontecido nada.
— Daí a gente foi mais para o fundo e deu de cara com um tubarão, que começou a vir atrás da gente... – disse Leonardo, dando com a língua nos dentes e se encolhendo, por causa da minha fuzilada.
— Como é?! Você foi nadar em alto mar de novo, Laura?!
— Eu...
— Quantas vezes eu vou ter que repetir?! Não é para passar a quebra das ondas!
— Mas, eu já tenho 16 anos! Não sou mais criança!
— Enquanto viver na minha casa, você obedecerá às minhas ordens! Fui bem claro?!
— Mas...
— Fui bem claro?!
— Sim, pai.
Então, Leonardo abriu a porta e foi embora. E eu me virei e saí. Aff. Daqui a pouco só vai faltar eu dizer “Sim, majestade”. Por que ele tem que gostar tanto de dar ordens?! Ele não podia simplesmente conversar, em vez de sair gritando?! Que droga! Pensei irritada, enquanto subia as escadas. Quando é que ele vai parar com isso? Quando? Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Depois, me joguei em cima da cama. Ok. O que eu faço agora? Desenho? Não. Uso o computador? Não. Tiro um cochilo? Perfeito. Então, eu me aninhei ainda mais em cima da colcha e, passados poucos minutos, dormi.
Mas, foi só por uma hora. Depois eu acordei e não consegui dormir mais. Afinal, ainda estava no início da tarde, não passando das duas horas, então não dava para dormir mesmo. Levantei, coloquei os chinelos, abri a porta e saí. Eu estava começando a ficar com fome. Então, desci as escadas e fui direto para cozinha. Abri a geladeira e olhei tudo o que tinha lá. E não demorei a encontrar algo que me deixasse com água na boca: uma casquinha de siri bem caprichada. Peguei-a e coloquei para esquentar no micro-ondas. E, assim que terminou, eu o devorei até não sobrar nada.
Então, comecei a pensar no que fazer, aproveitando que meu pai não estava mais em casa. Mas, nada do que eu pensei parecia bom o bastante para que eu gastasse o resto da tarde. Quer saber? Vou para a praia, que eu ganho mais. Ficar aqui não vai adiantar nada. Pensei, levantando e indo até o banheiro para repassar o protetor solar e esperar uns trinta minutos. Até que, por fim, segui para fora do chalé, tranquei a porta, prendi as chaves no short jeans e comecei a caminhar em direção a minha praia favorita.
Cheguei em pouco tempo. A praia estava deserta por causa das nuvens de chuva. É. Parece que vai chover mesmo. Mas antes, acho que dá tempo de aproveitar um pouco. Então, fui até a rocha mais alta, próxima do morro. Subi com um pouco de dificuldade e me sentei. O vento estava muito forte e o sol estava escondido atrás das densas nuvens de chuva, fazendo com que parecesse fim de tarde, em vez de três horas. Mas, o vento começou a ficar cada vez mais forte, e as ondas cada vez mais agitadas. Isso sim vai ser uma tempestade daquelas. Hum... Acho que é hora de ir.
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